A Primeira vez
8 Na Cama onde te escolho
Notas iniciais
A suíte onde foram deixados após a festa era acolhedora e completamente distante do sítio onde os convidados continuavam a aproveitar o restante da madrugada, ele queriam descansar um pouco antes da viagem e, agora respiravam tranquilos observando a suíte ampla, mas não luxuosa demais — exatamente como gostavam. A luz quente das luminárias amareladas dava um tom dourado à pele de ambos, e uma chuva suave começava a cair lá fora, tornando o momento ainda mais íntimo, mais... só deles.
Genya tirou o paletó devagar, os dedos deslizando pelos botões da camisa branca. O cabelo preso já estava bagunçado, os olhos violetas brilhavam, vítreos de emoção.
Muichiro estava descalço, de pé em frente à janela, apenas com a camisa do terno e a calça, as mangas dobradas, o colarinho aberto. A brisa da noite soprava levemente as cortinas e seus cabelos, que agora eram mais longos, macios.
— Tá chovendo... — ele murmurou, sem tirar os olhos do vidro.
Genya se aproximou por trás, envolvendo-o pela cintura com os braços, apreciando o clima primaveril.
— Então vamos dormir com o som da chuva.
Muichiro inclinou a cabeça contra o peito dele, os olhos se fechando por um instante.
— Eu não tô cansado ainda.
— Eu também não.
Eles ficaram ali, abraçados por longos minutos, respirando o mesmo ar. O tempo não importava. Dez anos juntos, e ainda assim... havia algo mágico naquela noite e, em todos os momentos que ficavam a sós.
Muichiro virou-se devagar, erguendo as mãos para tocar o rosto de Genya. Seus dedos passaram pelos traços fortes do marido — sim, marido — com delicadeza, como se estivesse conhecendo-o pela primeira vez.
— Você ainda me olha como se eu fosse o único. — ele disse, baixinho.
Genya sorriu, o olhar estava levemente úmido.
— Porque você é.
Muichiro o puxou para um beijo lento, muito diferente de todos os outros beijos. Não havia pressa, nem a típica sensação de luxúria urgente. Era como se eles quisessem prolongar aquele toque para sempre. A boca dele era quente, macia, e Genya deslizou os dedos pela cintura de Muichiro, puxando-o com firmeza.
— Me deixa cuidar de você hoje. — O maior sussurrou, encostando a testa na dele. — Me deixa te amar devagar.
Muichiro assentiu. Cheio de confiança.
Eles foram se despindo aos poucos, um tirando a roupa do outro com a calma de quem se conhecia a primeira vez, mesmo estando a tantos anos juntos. Cada peça que caía aumentava a expectativa. Quando ficaram nus, deitados entre lençóis claros, os corpos se encaixaram com naturalidade, mãos desbravando cada pedaço, sanando os primeiros passos, aumentando o desejo sexual e os arfares ecoando pelo quarto.
Genya cobriu o corpo de Muichiro com o seu, apoiando o peso com os antebraços para não pressioná-lo demais. Os olhos se mantiveram presos um no outro, mesmo quando os toques ficaram mais íntimos.
Muichiro acariciava os ombros largos de Genya, sentindo cada músculo, cada traço que já conhecia de cor. E mesmo assim, se arrepiava como se fosse a primeira vez.
— Dez anos... e ainda sinto isso só de olhar pra você. — sussurrou Muichiro.
— Eu também. — respondeu Genya, beijando sua clavícula, sua pele, cada parte que reconhecia como lar.
Os movimentos foram suaves. Genya guiou o corpo de Muichiro com carinho, como quem dança uma valsa sob a chuva. O quarto ficou preenchido apenas pelos sussurros, suspiros e o som abafado da chuva lá fora.
Muichiro arqueava-se para ele com confiança, envolvia os quadris de Genya com as pernas, puxava-o mais fundo com os dedos cravados em suas costas, olhos semiabertos, úmidos, boca entreaberta.
— Genya...
— Tô aqui. — ele sussurrava a cada investida, beijando-lhe a testa, as têmporas, a boca. — Estou com você. Sempre.
Era mais do que físico. Dez anos juntos e ainda pareciam dois garotos apaixonados. Mas agora... com toda a intimidade que só o tempo constrói. Com todo o amor que resistiu aos dias ruins, à dúvida, à vida.
Quando chegaram ao clímax, foram juntos. De mãos dadas. De olhos fechados. Os corpos tremiam, mas os corações estavam em paz.
Após o ápice, Genya deitou de lado, abraçando Muichiro pelas costas, como fazia há anos, escondendo o rosto no pescoço dele.
Muichiro puxou a mão do marido para seus lábios e a beijou, apesar do ato. Não era um costume e deixou o Shinazugawa intrigado e envergonhado.
— O que foi isso?
— Meu amor por você — respondeu Genya. — Puro. Simples. Só nosso.
Silêncio.
A chuva continuava lá fora. Dentro do quarto, só o som das respirações lentas.
Muichiro virou-se de frente, os olhos já quase fechados de sono.
— Te amo desde sempre. E pra sempre.
Genya sorriu, beijando-lhe a testa.
— E eu, a você.
Entre os lençóis bagunçados, os dois adormeceram. Casados. Inteiros. Em paz.
[...]
A primavera no Japão tinha um cheiro diferente naquela região montanhosa. A brisa era leve, carregada de flores de cerejeira, e o sol tocava as folhas verdes com delicadeza. Estavam hospedados em uma ryokan tradicional, com vista direta para as águas termais nas encostas de Hakone.
Era um dos lugares que Muichiro sonhava conhecer desde novo — mais pela arquitetura ancestral e pelas paisagens imersas em névoa do que pelo turismo. Genya, claro, lembrou disso ao planejar a lua de mel.
— Você ainda lembra que mencionei Hakone há uns oito anos? — Muichiro perguntou enquanto dobrava a toalha na cintura, recém-saído do banho quente.
Genya o olhou por cima da xícara de chá que segurava, sentando-se no tatame do quarto. O cabelo dele estava preso com uma fita para não atrapalhar no banho, e o corpo ainda fumegava do calor da água.
— Eu lembro de tudo que você diz quando tá olhando pro céu.
Muichiro sorriu de canto, quase sem jeito. Caminhou descalço até o marido e sentou-se ao lado, apoiando a cabeça em seu ombro.
— Nós merecemos esse silêncio, né?
— A gente construiu ele. — Genya respondeu, tocando o queixo dele com carinho.
Depois de algumas horas nas termas, com massagens tradicionais e refeições preparadas por um chef local — todas vegetarianas, como Muichiro preferia —, seguiram para o passeio do dia seguinte: "visitar o antigo Templo Toshogu em Nikko."
Muichiro queria ver os detalhes dos entalhes, a arte das cores que sobreviveram ao tempo, e a arquitetura dos telhados dourados. O lugar era conhecido por suas gravuras dos "Três Macacos Sábios" — "não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal".
— Nunca imaginei que isso fosse tão bonito ao vivo... — ele murmurou, tocando os corrimões antigos com reverência.
Genya mantinha uma distância respeitosa, observando o marido com o olhar mais terno do mundo. Fotografava pouco; preferia guardar a memória nele mesmo.
— Lembra quando você disse que tudo que é bonito dura pouco? — Genya perguntou, parando diante de um portão imenso esculpido com leões e flor de lótus.
Muichiro assentiu.
— Eu menti. — Genya continuou. — Você ainda tá aqui, depois de dez anos. E agora é meu marido.
Muichiro riu com a cabeça baixa, cobrindo os lábios com a manga leve do quimono.
— Você sempre diz essas coisas quando estou distraído...
— Porque quando você olha pro mundo como olha agora... é quando eu mais me apaixono de novo.
Mais tarde, de volta à pousada, enquanto o céu escurecia atrás do monte Fuji ao longe, os dois se sentaram lado a lado na varanda de madeira. Muichiro descansava a cabeça no colo de Genya, olhando o céu pintar-se de azul profundo.
— Sabe o que eu pensei hoje? — perguntou.
— Hm?
— Que se a gente tiver filhos... mesmo que adotados... eu quero trazê-los aqui um dia. Mostrar esse templo, as termas, contar como viemos antes deles.
Genya sorriu, acariciando os cabelos lisos e negros do marido.
— E eu vou dizer que foi aqui que eu me apaixonei por você de novo. Que mesmo depois de dez anos, ainda me senti novo do seu lado.
Muichiro fechou os olhos.
— Me promete que vamos voltar?
— Prometo.
Silêncio foi intercedido pelo sorriso e seguido por mais um beijo.
A noite, fizeram amor mais uma vez. Sem urgência, sem cerimônias. Apenas com as janelas abertas, a lua cheia entrando suave, e a certeza de que o mundo lá fora assim como os problemas e as contas podiam esperar. Porque naquele futon, na penumbra quente da primavera, o tempo era só deles.

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