A Primeira vez

9 Tio Genya, Papai Genya


A casa estava silenciosa naquela tarde preguiçosa de domingo. Genya estava deitado no sofá com os pés sobre o colo de Muichiro, assistindo a um dorama que nenhum dos dois estava realmente acompanhando. A rotina era calma, tranquila, gostosa — e, por mais estranho que parecesse, ele gostava disso.

Mas o celular tocou. E era ela.

— Ayla? — ele atendeu, rindo. — O que foi agora, o Sanemi te deixou trancada do lado de fora de novo?

— Genya... — a voz do outro lado tremia de emoção — eu estou grávida.

Houve um silêncio.

Longo.

Depois, uma explosão.

— VOCÊ TÁ O QUÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ?!?!?!

Muichiro pulou no sofá, assustado. — Genya!?

— ELA TÁ GRÁVIDA, MUI! — ele gritava, levantando com o celular ainda no ouvido e andando em círculos pela sala. — A AYLA. TÁ. GRÁVIDA.

Muichiro piscou devagar. Depois sorriu — suave, calmo, como sempre.

— Então vamos ser tios?

— EU VOU SER TIO!! — Genya berrava, agora de joelhos no tapete, as mãos na cabeça. — MEU DEUS, MUI, EU VOU ESTRAGAR ESSA CRIANÇA, EU VOU DAR DOCES ANTES DO ALMOÇO, EU VOU ENSINAR PALAVRÃO, EU VOU...

— Calma, Genya. — Ayla ria do outro lado. — Tem tempo pra isso. Só queríamos contar primeiro para vocês. Vocês são os primeiros a saber, inclusive.

Genya esfregou o rosto com as duas mãos, completamente eufórico. Quando desligou, jogou o celular no sofá e correu até Muichiro, levantando o marido no ar como se fosse uma pena.

— VAMOS SER TIOS!!!

— Você já gritou isso umas sete vezes. — Muichiro riu, beijando a bochecha dele.

— Mas não entra na cabeça! É um bebê! Um mini-Sanemi ou mini-Ayla! Eu vou ensinar ele ou ela a andar de skate. A fazer panqueca! A colar figurinha no armário! A...

— ...a ser teimoso e barulhento como você? — Muichiro provocou, com um sorriso torto.

Genya gargalhou. Mas logo a empolgação virou algo mais calmo. Mais silencioso.

Ele olhou para o marido por alguns segundos. Observou o rosto sereno, os cabelos longos presos num coque torto, a expressão doce que só Muichiro sabia ter.

— Amor...

— Hm?

— Você... já pensou em... tipo... a gente...

— Adotar?

Genya congelou.

— Você leu minha mente?

— Não. — Muichiro sorriu. — Mas acho que ambos estávamos esperando a hora certa. E ela chegou, né?

Genya sentou-se de volta no sofá, o coração batendo tão rápido quanto quando ouviu da gravidez.

— Cê tem certeza? Porque, Mui... criar uma criança... é muito. E eu não sou o cara mais... paciente do mundo. Eu sou estabanado, esqueço das coisas, me atrapalho todo.

Muichiro se ajoelhou na frente dele, segurando suas mãos.

— Genya, você tem amor de sobra. É isso que uma criança precisa. Todo o resto... a gente aprende junto. Como sempre fez.

O silêncio caiu de novo, mas dessa vez era cheio de significado.

— Quero uma menininha. — Genya disse, baixinho. — Que nem a Ayla. Cabeluda e com gênio forte.

— Eu só quero que ela tenha o seu sorriso. O sorriso de uma pessoa que é feliz. — Muichiro murmurou, e o beijou devagar.

Ficaram assim, abraçados no sofá, planejando um futuro que já estava em construção. Um quarto com adesivos nas paredes. Uma bicicleta pequena no jardim. Dois pratos de mingau ao invés de um, já que Muichiro não gostava muito de mingau.

Genya encostou a cabeça no peito de Muichiro e sorriu com os olhos fechados.

— Eu achava que minha vida já estava completa... mas parece que sempre tem mais espaço quando o amor cresce, né?

Muichiro o abraçou mais forte, como quem segura o mundo inteiro nos braços. E de certa forma, Genya era o mundo dele.

— E vai continuar crescendo, Gen. Dia após dia.