Era primavera.

O ar estava morno, o céu limpo e azul, e o jardim escolhido para a cerimônia fazia parte de um sítio ao qual tinham alugado, assim todos poderiam ficar confortáveis e se aproveitar não só a cerimônia como a paz do lugar, que agora estava repleto de glicínias, cerejeiras e pequenas luzes flutuantes encantadas — cortesia de Ayla, a cunhada, instrutora e agora madrinha de casamento, que não medira esforços para transformar o lugar num sonho.

Genya ajeitava a gravata diante do espelho, nervoso, as mãos trêmulas.

Sanemi, com o cabelo levemente mais curto e a expressão severa de sempre, entrou no camarim com uma caixa nas mãos.

— Tá pronto?

— Não sei. — Genya respondeu, com um sorriso ansioso. — Tô me sentindo meio... idiota.

— Idiota você sempre foi. Mas hoje tá bonitinho.

Sanemi jogou a caixa em cima da mesa. Dentro, um broche prateado em forma de lírio, com as iniciais G&M gravadas.

— Achei que combinava com seu terninho de noiva. — Provocou com sarcasmo, mas os olhos... os olhos estavam marejados.

— ...Brigado, nii-san.

Sanemi deu um tapa leve na nuca dele.

— Só tenta não desmaiar no altar. Ou eu vou rir.

Na sala ao lado, Muichiro estava sentado em silêncio, olhando o reflexo no espelho. Usava um terno de alfaiataria impecável, com detalhes sutis em azul-acinzentado, e os cabelos presos num meio-coque elegante.

Yuichiro entrou com Ayla ao lado, ambos sorrindo.

— Você tá lindo. — Ayla falou, ajeitando a flor na lapela. — O Genya vai chorar.

— Ele que não chore muito. Senão eu choro também.

Yuichiro bufou, mas disfarçou um sorriso.

— Nunca achei que você ia ser o primeiro a casar.

— Nem eu. — Muichiro respondeu, os olhos brilhando. — Mas, se é com o Genya... então é o único com quem eu quero.

Ayla segurou a emoção, os olhos úmidos. Ela sabia que todos estavam sentindo, uma mistura de emoções, como saudade, ansiedade, carinho.

Assim como Sanemi e Genya, Yuichiro e Tokito haviam perdido os pais muito cedo em circunstâncias um pouco diferentes, mas a dor era a mesma, ainda assim aprenderam a conviver com as boas memórias e agora levavam no coração as boas memórias adquiridas.

— Você vai entrar com a gente. Não tá sozinho. — Ela sorriu, o combinado foi feito com Sanemi, já que ambos praticamente brigaram para ver quem conduziria o Shinazugawa mais novo até o altar.

Muichiro assentiu, e os três se dirigiram à porta do jardim.

Os convidados estavam todos reunidos: Mitsuri sorria com lágrimas escorrendo. Obanai, mesmo tentando esconder, parecia emocionado, pois se lembrou de seu casamento com a Kanroji. Tengen apareceu com uma capa espalhafatosa, seguido por Kyojuro, que dizia alto: "HOJE É UM DIA DE AMOR ARDENTE!" Sendo seguido por Inosuke que embalou e entoou as mesmas palavras.

O restante dos convidados estavam mais comportados.

A música começou.

Sanemi conduziu Genya até o altar, e por um segundo, seus olhos se encontraram. O irmão mais velho estava sério... mas havia ali um orgulho que gritava ao quatro ventos, mesmo que ele estivesse em silêncio.

— Seja feliz irmãozinho. — Sanemi sussurrou e Genya teve de respirar fundo para não chorar, aquele sentimento de acolhimento e pertencimento entre os seus era demais, para alguém que pensava, que nunca poderia ser reconhecido e, quando viu Muichiro surgir ao longe, seu coração quase saiu pela boca e sem perceber prendeu a respiração.

Muichiro caminhava entre flores, os olhos fixos nele, serenos, confiantes... apaixonados.

Quando se encontraram no altar, não houve necessidade de muitas palavras.

— Oi. — Muichiro sussurrou.

— Oi. — Genya respondeu, sorrindo, a voz falha.

O oficiante começou, mas os dois mal ouviam. Só os olhos falavam.

— Muichiro Tokito... você aceita Genya Shinazugawa como seu esposo, para amá-lo, protegê-lo e dividir os desafios e os dias comuns, até o fim da vida?

— Eu aceito. E escolheria ele todos os dias.

— Genya Shinazugawa... você aceita Muichiro Tokito como seu esposo, para andar ao lado dele mesmo quando os caminhos forem difíceis?

— Com todo meu coração. Sempre aceitarei.

Trocaram as alianças.

— Pode beijar seu marido.

O beijo foi delicado, depois mais firme. E quando se separaram, a reação foi unânime:

Aplausos, gritos, flores voando no ar.

Sanemi bateu palmas com uma expressão mal-humorada, mas com um sorriso inevitável nos lábios. Ayla chorava abraçada a Yuichiro, enquanto Mitsuri soluçava no ombro de Obanai.

Até Tengen se emocionou. E negou com veemência, já Tanjiro tinha aquele brilho no olhar de orgulho dos amigos.

[...]


Na recepção após o casamento onde aconteceria o jantar e a festa, Sanemi fez um discurso breve:

— Eu sempre soube que meu irmão era cabeça-dura. Mas ele achou alguém mais teimoso ainda. Então acho que deu certo. — ele riu, levantando a taça. — Que sejam felizes. E que vocês continuem sendo essa mistura caótica de força, carinho e cabeçadas no coração um do outro.

Muichiro riu, agarrado ao braço de Genya.

Ayla abraçou os dois:

— Vocês fizeram até o Sanemi se emocionar. Isso merece um prêmio.

— Ele vai negar pra sempre. — respondeu Muichiro.

Na pista de dança, os dois dançaram juntos ao som de uma música suave, os rostos colados, os corpos em sincronia.

Genya beijou a têmpora de Muichiro.

— A gente conseguiu, né?

— Nós dois sempre conseguiremos. — O olhar era fugaz e praticamente gritava, "se não for por você. Eu faço por nós. Então relaxa, que de qualquer jeito dará certo."

O pensamento era implícito, mas arrancou uma risadinha solene e de canto de boca do Shinazugawa, que, fez com quê Muichiro arqueasse uma das sobrancelhas com um toque de malícia, era muita tentação para um momento só.

Genya entendeu perfeitamente o olhar, mas não revidou. A conversa muda entre eles encontraria seu destino depois e ali, no meio da festa, entre os entes queridos e os votos trocados, estavam dois homens que um dia tiveram medo de ser quem eram. Que um dia sofreram calados. Mas que hoje estavam dançando em paz, com seus corações batendo em liberdade.

Casados.

Unidos.

E absolutamente certos de que não precisavam mais de nada.

Eles já eram um só.