A Primeira vez

4 Apresentações (não tão) formais - Parte II


CAP.ESPECIAL II

Apresentações que são tão assustadoras que fazem suar

Era sábado à tarde quando Muichiro parou de frente ao espelho, ajeitou a gola da blusa, e olhou por cima do ombro.

— Pronto?

Genya, de braços cruzados no canto do quarto, estava nervoso como se fosse fazer prova de matemática com o diretor olhando.

— Eu tô indo conhecer seu irmão. O gêmeo carrancudo. Ninguém nunca está pronto pra isso!

— Exagerado. — Muichiro virou de frente, rindo de leve. — Ele é só... fechado. E um pouquinho direto demais.

— Tipo o Sanemi, só que sem a parte carinhosa escondida no fundo?

Muichiro soltou uma risada baixa e se aproximou. Passou os dedos pela gola da jaqueta de Genya, ajeitando com cuidado, antes de o puxar para um selinho demorado.

— Você vai sobreviver. E mesmo que ele torça o nariz, isso não muda nada pra mim, Genya.

— Eu sei... mas quero que ele goste de mim.

— Ele não vai te amar de primeira. Mas... vai respeitar o que eu sinto. E isso basta. Agora vamos, antes que ele pense que eu desisti.


[...]

Era uma casa silenciosa. Sofisticada, organizada e limpa demais, como se cada móvel estivesse milimetricamente no lugar. Yuichiro estava sentado no sofá, pernas cruzadas, lendo. Quando a porta se abriu, ele levantou os olhos e franziu as sobrancelhas.

— Trouxe alguém.

Muichiro tirou os sapatos, natural.

— Esse é o Genya. Meu... namorado.

Genya engoliu em seco. "Caramba Mui precisava ser tão direto? Nem oficializamos isso direito... só ficamos sei láduas vezes?!" Pensou um pouco aturdido.

— É um prazer te conhecer. — disse, estendendo a mão.

Yuichiro o olhou como se estivesse tentando adivinhar o peso da alma dele. Depois de uma longa pausa, apertou a mão de volta — firme, mas respeitoso.

— Genya, certo. O irmão do Shinazugawa.

— É...

— Vocês dois têm jeito de pitbulls enjaulados. Faz sentido. — largou, direto.

Genya ia responder, mas Muichiro foi mais rápido.

— Ele é mais doce do que parece. Eu gosto disso nele.

Yuichiro olhou o irmão por longos segundos, Mui sempre era meloso demais na concepção dele.

— Você gosta mesmo?

— Muito. — Muichiro respondeu sem hesitar.

Silêncio.

Yuichiro suspirou, largando o livro na mesa de centro.

— Então tá. Não tenho que gostar de você, Genya. Mas se você quebrar o coração dele, eu quebro alguma parte sua que não cicatriza fácil. Só para você saber.

Genya respirou fundo. E, com um olhar firme, respondeu:

— Não pretendo fazer isso nunca. Eu tô aqui pra cuidar dele. E... me cuidar com ele também.

Yuichiro o encarou por mais alguns segundos. E depois, como se aceitasse que aquilo era inevitável, deu de ombros.

— Tá bom. Vai querer chá?

Genya piscou, surpreso. Acabou, foi assim tão... fácil? Então porque parecia que um caminhão de suor passou por trás das suas orelhas?! Ele respirou aliviado.

— Ahn... sim?

Yuichiro sumiu na cozinha. Muichiro se aproximou de Genya e segurou sua mão discretamente.

— Ele aceitou.

— Aquilo foi aceitação?

— Para o Yuichiro, isso é praticamente um abraço.

Genya riu, baixinho. Um riso leve, nervoso, aliviado.

— Meu Deus... eu estou oficialmente na fase em que sou o "namorado apresentado à família".

— E passou no teste.

— Mal acredito nisso.

— Acredita sim. — Muichiro se aproximou e sussurrou no ouvido dele: — Porque isso aqui, entre nós, é sério. Desde o começo.

Meia hora depois...

Os três estavam na sala. Yuichiro tomando chá, Genya sentado na beirada do sofá, e Muichiro com os pés no colo do namorado.

— Então... — Yuichiro quebrou o silêncio. — Quando foi que isso começou?

— Hmm... depende. — Muichiro respondeu. — O Genya já me olhava de um jeito meio idiota desde as aulas do semestre passado.

— Tsc. — Genya desviou os olhos, corado. — Você que ficava puxando assunto no elevador.

— Eu só perguntava que andar você ia.

— TODO DIA?

— É um hábito educado!

Yuichiro assistia à troca de provocações como quem assiste a um episódio de comédia romântica sem querer admitir que está gostando.

— Vocês são ridículos. — concluiu.

Muichiro sorriu, orgulhoso. Para ele, na verdade, ambos estavam apaixonados.


[...]


A noite tinha caído, e os dois caminhavam abraçados pela rua, Mui resolveu voltar para a casa de Genya, afinal o Shinazugawa mais velho avisou que só estaria em casa pela madrugada.

— Obrigado por ter vindo. — Muichiro murmurou, com a cabeça apoiada no ombro de Genya.

— Obrigado você por não desistir de mim, mesmo quando eu era um idiota que não conseguia nem dizer que gostava de você em voz alta, mesmo estando nessa provocação há anos.

— Você não era um idiota. Só estava com medo.

— E você?

— Eu só queria você. Mesmo com medo, mesmo calado, mesmo bravo. E agora eu tenho. — Deu de ombros.

Genya parou, no meio da calçada. Puxou Muichiro com cuidado pela cintura, segurando seu rosto com as duas mãos.

— Eu te amo.

Muichiro piscou, e seus olhos brilharam, como se de repente, todas as ideias que ele tinha na mente para fazer Genya se perder nele de vez tivessem evaporado.

— De novo.

— Eu. Te. Amo. Pronto. Agora pode zombar de mim pelo resto da vida.

Muichiro mordeu o lábio inferior, sem conseguir esconder o sorriso.

— Tá bom. Mas só amanhã. Porque agora... — ele se aproximou, colando os lábios nos de Genya com carinho — ...eu também te amo.