A Primeira vez

5 Onde o silêncio é tudo o que preciso


O quarto estava quieto. A única luz vinha da janela, onde a lua cheia espalhava seu brilho prateado sobre os lençóis e as peles nuas, como um segredo sussurrado entre estrelas.

Muichiro estava deitado de lado, a cabeça apoiada no travesseiro, observando Genya em silêncio. O peito do namorado subia e descia com uma tranquilidade que ele demorou a conquistar. Cada cicatriz no corpo de Genya — física e invisível — parecia agora ter um novo significado. Era como se, naquela noite, elas tivessem se transformado em mapas que o guiavam até ali: para aquele toque, aquele olhar, aquele sentimento tão...puro.

— Tá me encarando faz tempo. — Genya murmurou, com um sorriso pequeno nos lábios, os olhos ainda fechados.

— Gosto de ver você assim. Em paz. Sem tentar esconder nada.

— Com você... não dá pra esconder nada mesmo. — abriu os olhos, virando-se de frente. — E acho que nunca quis.

Muichiro se aproximou, deitando a testa contra a dele.

— Então não esconde. Me deixa ver tudo. Me deixa te amar inteiro.

Genya fechou os olhos por um segundo, como se aquelas palavras tivessem atravessado até o fundo da alma. Depois, segurou o rosto de Muichiro com as duas mãos e o puxou devagar para um beijo.

E aquele beijo...

Foi diferente de todos os outros.

Os lábios de Genya tocaram os de Muichiro como se o mundo tivesse desacelerado. Suaves no início, tatuando o contorno de uma boca na outra. Depois, mais firmes, mais intensos, como se ele quisesse gravar o gosto dele na memória. As mãos de Muichiro deslizaram para a nuca de Genya, os dedos se entrelaçando nos fios curtos de cabelo enquanto seus corpos se encaixavam com uma naturalidade absurda.

Muichiro suspirou contra os lábios de Genya quando sentiu a língua dele invadir sua boca com delicadeza, explorando cada curva, cada canto. Genya segurava firme sua cintura, como se tivesse medo de que ele evaporasse se soltasse por um segundo. E Muichiro, em resposta, o puxava mais para perto.

O beijo os moldava, os completava.

Muichiro mordiscou de leve o lábio inferior de Genya antes de afastar um pouco o rosto, com os olhos brilhando.

— Foi o beijo mais gostoso da minha vida.

— Foi o único beijo da minha vida que realmente... me fez sentir inteiro. — Genya sussurrou. — É tão estranho... Nunca pensei que alguém pudesse me fazer sentir algo desse nível. E mesmo assim, aqui está você.

— Te amando desde o primeiro dia que você me olhou como se eu fosse uma incógnita. Mal sabia que o caos era você tentando esconder o coração enorme que tem.

— Fica comigo?

— Já tô. E não pretendo sair.

Eles se acomodaram nos lençóis, colados um ao outro, pernas entrelaçadas e dedos dados. O silêncio era gostoso, quente, como um cobertor invisível que os envolvia.

— Muichiro...

— Hm?

— Se eu pudesse voltar no tempo... acho que teria ido atrás de você sem medo, não esperado por uma festa para tomar coragem.

Tokito sorriu, as lembranças da festa passando por sua mente.

— Creio que tudo aconteceu como deveria ser... E foi perfeito.

Genya encostou o rosto no pescoço de Muichiro, sentindo o cheiro doce e limpo da pele dele.

— Boa noite, meu amor.

— Boa noite, Genya.

Tudo o que precisavam existia ali — naquele espaço entre lençóis desfeitos e respirações sincronizadas. Uma paz tão densa que nem a euforia previsível de familiares e amigos conseguiria perturbá-la.

Aquele quarto servia de refúgio e, no refúgio daquela cama, o tempo desacelerava até quase parar:

Dois corações batendo em contraponto perfeito, corpos entrelaçados e o silêncio que falava mais alto que qualquer palavra.

E, no momento, era tudo o que precisavam.