A Primeira vez
3 Apresentações (não tão) formais - Parte I
CAP.ESPECIAL
Apresentações que não são tão apresentações assim
Era uma tarde calma de quinta-feira, o sol tingindo o céu com tons quentes. Genya tinha passado o dia inteiro suando frio, ensaiando na frente do espelho, quase ensandecido entre as opções:
"Sanemi, esse aqui é o Muichiro... meu... namorado?"
"Sanemi, esse é o garoto que me faz querer ser menos idiota."
"Sanemi, esse é o Tokito Muichiro, ele é calmo, bonito, cheiroso e — MEU DEUS EU SOU UM PALHAÇO!"
— Tá tudo bem aí dentro? — perguntou Muichiro do lado de fora do banheiro, onde Genya estava trancado há quase dez minutos.
— Tô. Tô indo.
Ele lavou o rosto pela terceira vez, xingou a si mesmo pela quarta e saiu do banheiro como um condenado caminhando em direção ao próprio julgamento.
No sofá da sala da casa de Sanemi e Genya, Muichiro estava sentado todo bonitinho, de pernas cruzadas, tomando chá — servido por Ayla, que tinha a maior cara de quem sabia mais do que devia, assim como o próprio Tokito.
Genya olhou para os dois e engoliu em seco.
— Ahn... Sanemi... esse aqui é o Muichiro. Meu...
— Namorado. — completou Sanemi, do nada, como se falasse sobre o tempo. Depois mordeu uma torrada. — Já sei.
Genya congelou.
— ...Você já sabe? — Ele estava tão preocupado que nem se ligou que concordou de primeira.
— Oi, Sanemi. Bom te ver de novo. — As palavras de Tokito fizeram o namorado estranhar, como assim eles já se conheciam?! Ele sabia que já se conheciam de vista, mas com essa proximidade?! Como assim?
— E aí, Tokito. Como vai o pestinha do Yuichiro?
— Continuando insuportável, mas menos agora que a Ayla vive no pé dele.
— ESPERA. COMO ASSIM VOCÊS TODOS SE CONHECEM?! — O Shinazugawa mais novo tiltou, para ele, seu irmão só conhecia o Tokito de longe, nunca imaginou que já haviam conversado
— Uhum. — Sanemi fez que sim com a cabeça, mastigando como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Já te vi saindo do apê dele semana passada, com aquela sua cara de quem dormiu bem pra caramba. E antes disso, a Ayla me mostrou uma foto dele com o irmão, fora que o próprio mandou um bolinho de feijão aqui apara casa com a frase: "Com os cumprimentos do seu cunhado", discreto pra caralho por sinal.
Muichiro sorriu gentilmente, levantando a mão num aceno contido, mal sabia Genya que o moreno já havia pensado em tudo, muito antes de terem algo concreto.
Ayla riu no fundo, tomando seu chá com elegância. Genya, por outro lado, parecia prestes a explodir.
— Genya... — Ayla disse, divertida. — Eu sou instrutora do Yuichiro há pouco mais de um ano. O Muichiro já foi me buscar várias vezes na estação. Ele inclusive me deu uma caixa de mochi como agradecimento e, depois me levou para almoçar com a família dele, dizendo que todos precisavam conhecer a futura cunhada dele.
— Ele é educado. — completou Sanemi. — Diferente de você. — Provocou recebendo um olhar de reprovação da namorada.
— ...Eu... mas... o quê...?!
Genya parecia um bug ambulante. A boca abria e fechava. O rosto mais vermelho do que pimentão, entendendo que Tokito tinha armado mais da metade dessa situação, pelo menos referente ao namoro e, em nome de Buda, ele tinha gostado! Muichiro tentou conter a risadinha, mas falhou lindamente. Encostou na lateral do ombro de Genya e sussurrou:
— Relaxa. Você tá indo bem. Só parece um pouco... fofo demais.
— C-cala a boca. — Genya sussurrou de volta, ainda em pânico.
Sanemi apoiou os cotovelos nos joelhos e encarou o irmão com um meio sorriso:
— Agora que você já passou pela vergonha máxima, posso dizer?
— O quê?
— Eu gosto dele.
Muichiro piscou, surpreso. Genya também.
— Você... gosta?
— Gosto. — Sanemi deu de ombros. — Ele é calmo. Tem cara de quem equilibra tua cabeça quente. E parece cuidar de você. Isso é o suficiente pra mim. Só tenho uma regra.
— Qual?
Sanemi olhou no fundo dos olhos de Muichiro, como se tentasse rasgar a alma do mais novo com agressividade.
— Se você quebrar o coração do meu irmão, eu vou te caçar. E ninguém vai te encontrar, entendeu, docinho?
Muichiro respondeu com um sorriso travesso, completamente tranquilo.
— Se um dia eu fizer isso... prometo que eu mesmo me caço. — Então olhou nos fundo dos olhos de Sanemi com a mesma intensidade do platinado. — Mas isso não vai acontecer.
Ayla quase suspirou em voz alta com a resposta.
Genya, por sua vez, simplesmente afundou o rosto nas mãos, rindo, envergonhado e feliz.
Sanemi se levantou, passou por ele e bagunçou os cabelos do irmão mais novo.
— Você ainda é um idiota... mas é o meu idiota. Tô feliz por você.
[...]
Mais tarde, Muichiro e Genya caminhavam de mãos dadas pela rua, em silêncio, depois de saírem da casa. O pôr do sol tingia os prédios com laranja dourado, e o vento frio da tarde batia de leve.
— Você sabia o tempo todo? — Genya perguntou, finalmente.
— Sabia. Desde o primeiro beijo. — Muichiro deu de ombros. — Só estava esperando você se sentir pronto.
— E você ficou quieto esse tempo todo?!
— Porque era importante pra você. E quando se tem sentimentos por alguém, deixa o tempo dele acontecer no tempo certo.
Genya apertou a mão de Muichiro com mais força. O coração ainda batia acelerado, mas agora... de alívio. E definitivamente estava se apaixonando pelo menor.
— Obrigado.
— Pela apresentação?
— Não. Por ser quem é. Por gostar de mim como eu sou.
Muichiro parou. Puxou Genya pela camisa e colou a testa na dele.
— E por que eu gostaria de você de outro jeito, idiota? Nós funcionamos muito bem assim.
Genya sentiu que não precisava mais esconder nada. Nem de si mesmo. Nem do mundo.
Porque finalmente, tudo estava no lugar certo e não havia pressão para agir de outra forma.
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