A Primavera dos Lobos
3 O Fogo e o Gelo.
Notas iniciais

“Como se luta contra alguém em quem não se pode bater?”
Daenerys voltava para a Pedra do Dragão após massacrar o exército Lannister nas terras Tyrrels. Sua maior preocupação no momento era a ferida causada a Drogon e ao fato de ter Jaime Lannister como seu prisioneiro de guerra. Ela não tinha pretensão alguma de fazer tal afronta a Cersei, mas não podia deixar barato o fato da mesma desafiar sua capacidade de conseguir o que queria.
Não seria hipócrita em dizer que não sofreu perdas, mas nada se compara as cinzas deixadas para trás de seus inimigos. Um sorriso satisfatório brinca em seus lábios ao se remeter a essas lembranças e logo a garota esqueceu seus temores.
—Sabe que está comprando uma briga feia com os Lannisters me fazendo de refém, certo, Rainha? – Jaime ironizou a última palavra.
Daenerys virou-se para o prisioneiro e lhe lançou um olhar triunfante.
—No seu lugar, eu pensaria duas vezes antes de pensar em ameaçar a Rainha, principalmente nas condições em que está. – A Targaryen sibilou.
—Você pode não ter morrido em minhas mãos, mas, sua hora vai chegar, e quando acontecer vou estar lá, observando seu corpo se decompor vagarosamente. – O Lannister sorriu cínico.
Daenerys parou e chegou perto de seu prisioneiro. Seu olhar era duro mas ardia como o fogo de um dragão, como a chama de sua família.
—Você é pretensioso, não tem medo do que suas palavras podem causar e isso me intriga. – Suspirou. – Não acredito que sua irmã realmente pensou que poderia me derrotar.
—De certa forma ela derrotou, seu dragão está ferido, estou certo? – Indagou.
—Drogon está bem, melhor do que você eu diria. – Deu de ombros. – Sei que muitos de vocês contaram com a ideia de que eu era previsível como meu pai, mas para a infelicidade de vocês, eu não sou e acho que agora você sabe disso.
—E acho que você também sabe que Westeros nunca será sua. – Sibilou. – Você pode ter ganhado batalhas, mas a guerra minha cara, essa você não terá o gostinho nem de ver.
—Você viu o que eu fiz com seus homens hoje, não subestime seu inimigo, Jaime Lannister. – Daenerys disse calmamente no ouvido do homem.
Jaime não disse mais nada. Calou-se com a verdade imposta em sua cara e retraiu-se em defesa. Suas mãos estavam atadas, as roupas, agora menos encharcadas, grudavam em sua pele e o sal proveniente da água queimava suas feridas. De fato confrontar Daenerys não era a coisa mais inteligente a se fazer no momento, viu o bastante para saber que a Rainha Targaryen poderia queimá-lo vivo a qualquer minuto sem pensar duas vezes.
A jovem retomou o passo a frente de seus homens e ordenou que a vigilância sob seu “convidado” fosse redobrada. Quando tudo estava em ordem retomaram a caminhada.
(...)
Arya Stark finalmente estava em solo nortenho, a neve caia de forma lenta e o frio prometia ser cortante, principalmente com a chegada do inverno. Aproximou-se da entrada principal de acesso a sua casa e foi barrada por dois guardas.
—Para onde vai? – O mais alto e robusto questionou.
—Pra lá, eu moro aqui. – A garota respondeu.
—Ah, com certeza. – O outro rebateu com desdém.
—Sou Arya Stark e essa é a minha casa. – Disse convicta.
Os guardas se entreolharam e explodiram em uma gargalhada.
—Arya Stark está morta. – O grandalhão insistiu.
—Perguntem ao meu irmão, o Rei do Norte. – A garota não arredou o pé.
—Escuta só, garotinha. – Ironizou. – Estamos muito ocupados agora, então acho melhor você ir embora.
—Onde está a Lady de Winterfell? – Questionou.
—Lady Stark? Você está querendo se passar pela irmã dela?! – O guarda perguntou incrédulo.
—Apenas diga a Sansa que a irmã dela voltou. – Arya disse simplesmente.
—Lady Sansa está muito ocupada para perder tempo com você. – O outro guarda fez uma careta. – Então pela última vez, vá embora!
Arya não moveu um milímetro sequer de onde estava o que acabou despertando o descontentamento do guarda maior. O mesmo avançou sobre a garota que desviou com graça de seu toque rude.
—Eu vou entrar neste castelo de um jeito ou de outro, e quando eu fizer tal coisa, falarei com meus irmãos e direi que vocês me expulsaram. – Ameaçou.
Os guardas paralisaram e pensaram nas palavras ditas pela menina. Se ela estivesse mesmo falando a verdade, estariam totalmente em apuros e com a cabeça a prêmio. Sem hesitar, os dois guiaram a Stark para dentro do castelo e a mandaram ficar quieta enquanto discutiam entre si a possibilidade de contar a Lady sobre a suposta irmã perdida, contudo, quando os mesmos se viraram para se certificarem que a menina ainda estava ali, notaram que ela havia sumido.
(...)
—Milady, temos certeza que ordenamos que ela ficasse quieta enquanto conversávamos a sós. – O maior se defendeu.
Sansa os olhou com cara de poucos amigos, não era a primeira vez que aqueles guardas deixavam intrusos entrarem no castelo e já estava farta desses pequenos incidentes.
—Ela estava procurando pela Milady, dizia ser Arya Stark, mas parecia mais com uma camponesa. – Continuou.
Ao ouvir o nome da irmã, Sansa esboçou um sorriso no rosto e teve a certeza de que não se tratava de uma impostora e sim de uma das poucas partes de sua família que sobrevivera os últimos tempos.
—Não se incomodem, eu sei onde ela está. – A ruiva se levantou e saiu do campo de visão dos homens.
(...)
Arya não queria ficar sentada em um saco de farinha o resto da tarde, sabia perfeitamente que os dois paspalhos não iriam ajudá-la e com certeza estariam em um bordel se divertindo com algumas mulheres.
Seguiu o caminho trilhado pela floresta e chegou até o represeiro onde pôde identificar um rapaz de cabelos escuros e lisos escorado na árvore maior. A garota não tinha dúvidas de quem seria e logo pôde ouvir sua própria voz.
—Bran?
O menino virou lentamente a cabeça para o lado da morena e naquele instante ela viu o vazio nos seus olhos, era como se ele não fosse mais o garotinho sonhador que ela implicava quando eram mais novos.
—Arya? – Questionou depois de longos minutos se encarando.
—Sim, sou eu. – Sorriu fracamente e sentou-se em sua frente.
—Sempre soube que voltaria... – Disse vagamente.
—Tentei encontrar Sansa, mas os guardas não acreditaram que eu era Arya Stark. – Bufou cruzando os braços.
—E então veio até aqui para fazer suas preces aos deuses?! – Palpitou.
—Confesso que não esperava encontrar você aqui, mas fico feliz em estar em casa. – Deu de ombros.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo antes de Bran sacar de suas costas um objeto coberto por um pano de veludo
—Quero que fique com isso. – Estendeu o artefato.
A garota virou-se para o irmão e ergueu uma sobrancelha ao notar o presente sórdido que o mesmo lhe dava.
—Mas isso é aço variliano. – Argumentou.
—E o que vale uma adaga como essa na mão de um aleijado? – Retrucou.
A garota ainda um pouco surpresa, aceitou de bom grado, a adaga era realmente uma raridade e a guardaria da mesma forma que fez com sua primeira espada dada por Jon Snow antes de ir para a Muralha.
—Quando os soldados me alertaram eu não acreditei que era um invasor no castelo. – A voz de Sansa ecoou nos ouvidos de Arya e Bran.
—Devo te chamar de Milady agora? – A voz áspera de Arya rasgou os ouvidos de Sansa.
—Eu senti sua falta. – A ruiva devolveu.
Arya abaixou os olhos e deixou que seus ombros relaxassem por alguns minutos, por mais que as diferenças entre as duas fossem gritantes, o amor entre as irmãs Starks sempre falava mais alto, e aquilo foi o suficiente para que a garota de cabelos negros devolvesse o carinho a pouco recebido.
—Também senti a sua...na verdade, senti falta de todos vocês. – Voltou a olhar para Bran e Sansa.
—Porque não vem comigo? Há tanta coisa que queria te mostrar...- Sansa estendeu a mão na direção da irmã.
Arya virou-se para Bran que lhe dirigiu um olhar encorajador. A garota fechou os olhos, tombou a cabeça para o lado e depois assentiu sem aceitar a mão da ruiva que soltou um suspiro frustrado.
As duas se puseram a rumar de volta para o castelo e Bran recostou-se novamente no tronco da árvore. Seus olhos se fecharam e sua respiração diminuiu, a sensação era idêntica a sentida quando se está quase dormindo, e foi naquele momento que tudo aconteceu.
O lugar estava inicialmente escuro, as paredes de pedra e o som de gotículas de água denunciavam que aquilo era uma caverna no Tridente. A medida que se aproximava, uma pequena fresta de luz podia ser notada ao longe ficando cada vez maior. Com uma certa dificuldade, e algumas pequenas armadilhas, enfim havia chegado a beira de um precipício.
A julgar pelo verde e a presença de algumas plantas na beira da montanha, pôde notar que aquele lugar era uma das habitações dos Filhos da Floresta. Contudo, o que lhe chamou a atenção foi uma camada espessa platinada impecavelmente esticada sob o verde dando um contraste perfeito.
Ajoelhou-se perto daquilo e arriscou tomar o mesmo em suas mãos. Sentiu algo se mexer e notou que aquela coisa era cabelo, cabelo humano. Em um ímpeto de surpresa, viu-se levantando-se rapidamente prendendo a respiração ao perceber de quem se tratava, e depois disso não viu mais nada...
Bran abriu os olhos e arregalou os mesmos, precisava mandar um corvo para Jon e lhe alertar sobre o que havia visto e aquilo tinha que ser naquele momento.
(...)
Jon Snow fitava o mar calmo abaixo da Pedra do Dragão. Seus pensamentos alternavam em noticias do Norte e em Daenerys. Sabia perfeitamente que o maior incentivo a guerra veio dele, e agora, sem ter notícias sobre a moça, o rapaz tentava pensar positivamente desejando que ela voltasse com a vitória nas mãos.
—Ela está bem. – Missandei, um dos braços direitos de Daenerys, tocou gentilmente os ombros do Snow.
—Como? – Ele arqueou a sobrancelha.
—Não precisa ser nenhuma advinha para saber que você está preocupado com ela e no que o combate resultou. – Sorriu gentil. – Isso é normal, e não tem que se preocupar, ela sabe o que está fazendo.
Jon olhou de forma cautelosa para a morena em sua frente e soltou um suspiro. Voltou seu olhar para o céu e pôde perceber ao longe uma figura grandiosa se aproximando do local onde eles estavam.
A medida que iam se aproximando, conseguiu identificar Daenerys em cima de Drogon juntamente com alguns soldados, fato um tanto quanto estranho. Observou o dragão plainar perto da praia e logo em seguida subir até o gramado do castelo aterrissando em sequência.
A Targaryen caminhou triunfante até Missandei e Jon, trazendo em seu encalço Jaime Lannister.
—Fico feliz em saber que conseguiu êxito em seus propósitos. – Snow assentiu um pouco mais aliviado.
—Sim, também estou feliz, principalmente depois que consegui tirar esse homem da água. – Apontou para o irmão de Cersei.
—Jaime Lannister. – Jon trincou os dentes.
—Ora, ora, se não é o Rei do Norte. – Jaime era um poço de cinismo. – Sabe, as vezes eu fico pensando em como Ned Stark foi idiota em pensar que poderia enfrentar Cersei ameaçando contar a verdade a Robert sobre os filhos, não é a toa que a cabeça dele rolou (literalmente) em King's Landing. Queria ter visto aquela cena...ah como eu queria.
—Seu desgraçado! – Jon avançou sobre Jaime e lhe desferiu um soco na face.
O Lannister, como estava amarrado, não revidou, apenas sorriu revelando os dentes perfeitamente brancos, sua cabeleira loira descia até seus olhos e lhe dificultava a visão, mas aquilo não impedia o mesmo de alfinetar ao máximo o bastardo de Winterfell.
—Snow, eu ordeno que pare! – Daenerys fechou os olhos com firmeza. – Ele é meu prisioneiro e você é um convidado, exijo que tenha respeito.
—Você não entende, não é mesmo? – Jon virou-se para a platinada com angústia. – Meu pai morreu nas mãos da irmã desse desgraçado e você me pede respeito por ele?
A Targaryen suspirou pesadamente e com um aceno de mãos ordenou que todos se retirassem, inclusive Jaime.
—Acredite Jon Snow, eu sei perfeitamente como é sentir a dor da perda e como a sede de vingança pode tomar conta de nós, mas Jaime Lannister é meu prisioneiro, eu sou a Rainha desse lugar e somente eu tenho o direito de castigá-lo por qualquer coisa que seja, fui clara? – Ergueu uma sobrancelha.
Jon riu sem humor e abaixou a cabeça mordendo o lábio inferior.
—Achei que estivéssemos tendo algum avanço. – Voltou olhar para a moça.
—Digo o mesmo. – Prendeu a respiração.
Jon armou-se novamente para devolver o olhar duro que lhe era dirigido, porém, quando menos esperou, notou os três dragões de Daenerys rodeá-los de um jeito protetor. A mãe dos dragões observou seus filhos e um sorriso carinhoso brincou em seus lábios. Desde o momento em que soube que jamais poderia ser mãe novamente, a garota estreitou laços fortíssimos com seus três dragões, sendo Drogon o mais ligado a ela.
Contudo, superando a expectativa de ambos, o dragão que pousou ao lado de Dany não foi Drogon, e sim Rhaegal. O mesmo olhava fixamente para Jon que arfou perante a proximidade do dragão. Sabia perfeitamente que tanto Rhaegal quando Viserion eram um pouco rebeldes e portanto um pouco instáveis.
Rhaegal aproximou-se um pouco mais e inclinou o pescoço ficando a milímetros de distância de Snow. Daenerys observava tudo com tensão, os deuses sabem como ela demorou para conseguir tal proximidade com seus outros dois filhos e agora ela via um deles tão destemido a frente de um desconhecido.
Jon, um pouco trêmulo, arriscou erguer a mão esquerda e incliná-la de forma vagarosa na direção do dragão. Rhaegal continuava intacto, seus olhos grandes focalizavam apenas o bastardo e de alguma forma aquilo parecia significar alguma coisa.
E foi naquele momento que o mundo parecia ter congelado, os dedos gélidos de Snow tocaram a pele escamosa e quente de Rheagal e o mesmo não se afastou. Fogo e gelo totalmente interligados através de uma conexão totalmente desconhecida por todos. Daenerys prendeu a respiração totalmente intrigada com aquilo, nenhum outro ser humano além dos Targaryen havia conseguido aproximar-se daquele jeito de um dragão e aquilo preocupou a platinada.
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