A Primavera dos Lobos
19 O Dedilhar da canção - Parte I
Notas iniciais

Estavam Daenerys, Jon Snow, Varys e Tyrion ainda com o sangue do irmão no rosto e nas mãos na sala da grande mesa. Um silêncio fantasmagórico reinou entre eles durante alguns instantes, a rainha fora informada dos últimos acontecimentos e embora tentasse não transparecer, em seu interior sentia-se encurralada e amedrontada como nas vezes que Viserys proferia o seu “acordar do dragão”.
— Ele é um perigo, minha rainha — falou Tyrion com os olhos marejados.
— Tyrion tem razão, eu conheci Rhaegar Targaryen e aquele homem não é ele, não é o seu irmão — completou Varys — Rhaegar jamais sentiria prazer em matar.
— Sei que ele é seu irmão, mas ele já se mostrou incontrolável e cruel, se o povo souber de outro Targaryen assim, jamais a apoiaram, minha rainha. Disse que queria quebrar a roda, não fará isso com ele ao seu lado — completou Tyrion.
— O que acha, Jon Snow? — questionou ao bastardo recostado ao marco da porta pensativo, enquanto passava o dedo pela ponta do lobo esculpido no cabo de sua espada.
— Acho que ele é perigoso e não conheci seu irmão antes disso, mas nunca gostei dele pelas coisas que disseram que ele fez. Mas para ser sincero, faria o mesmo se estivesse no lugar dele, mal pude me controlar pelo que os Lannisters fizeram a meu pai. Jaime, matou vosso pai, o rei e pai dele, permitiu que os filhos dele, seus sobrinhos... fossem assassinados brutalmente como presente da casa Lannister ao novo rei. O que faria com aquele que tirou tudo que amava? — Questionou Jon e Daenerys voltou-se pensativa a janela.
— Ele é um dragão, tem sangue e fogo correndo nas veias, tens razão Jon Snow eu também faria e já fiz o mesmo — falou lembrando-se da bruxa a qual queimou viva depois de tê-la enganado, levando sua criança e seu Khal.
— Meu irmão era muito jovem e fez o que fez para proteger as pessoas de Aerys, se não fosse ele seria outro a matá-lo. E você Jon, Aerys matou o seu avô e seu tio.
— E seu pai matou o meu. Armaram contra ele em Porto Real, traidores arrancaram a sua cabeça o acusando de traição que ele nunca cometeu. Não somos culpados pelos crimes de nossos pais, mas Jaime, tinha sua própria carga. E não falo apenas do que aconteceu há mais de vinte anos e sim, de agora, ele invadiu jardim de cima, derrotou os aliados de Daenerys para enfraquecê-la, teria a matado se tivesse chance, isso já era mais que o suficiente para que fosse sentenciado a morte.
— Por Daenerys, e não por Rhaegar. Se se mostrar fraca diante dele, tomará seu lugar, se proclamará herdeiro legítimo do trono e a roda que continuará girando, minha rainha.
— Saiam — ordenou a todos voltando-se a janela — Você não, Jon Snow — falou ao bastardo quando este se pôs a caminho da porta.
Jon esperou ficarem a sós e caminhou até ela, junto a janela e a vou soltar um suspiro cansado.
— Não terei outro Viserys em meu caminho — baixou o olhar — Sempre imaginei Rhaegar, me contaram o quanto era valente, gentil e piedoso, agora ele ressurge dos mortos e quase arranca a cabeça de um homem com um golpe de espada.
— Ele precisaria de uma espada mais pesada — falou e Daenerys voltou um olhar confuso — Para arrancar a cabeça. Vi meu pai fazer isso uma porção de vezes, na última, foi a de homem da patrulha da noite, que desertou apavorado depois de ver os outros. Não é algo bonito de se ver, mas as vezes é o que tem de fazer. Preciso voltar ao norte, precisam de mim na muralha, partiremos ao amanhecer, levarei Rhaegar comigo, se permitir.
— Preciso refletir sobre isso.
— A guerra no norte é mais importante do que qualquer outra coisa, se não vencermos lá, o trono de ferro não passara de um entulho de aço.
— Já me disseste isto, Snow. Inúmeras vezes — protestou irritada.
— Mas ainda reluta em crer, mesmo voando em um dragão, mesmo seu irmão morto tendo retornado a vida, ainda acha que sou um louco falando sandices — falou ao se aproximar dela tanto que podia sentir seu hálito quente contrastar com o ar gélido da noite.— Venha para o norte, traga seus dragões e soldados, eu sei que é pedir muito e pouco tenho a oferecer. Lute pelo seu povo, pelo que realmente importa, isso te fará a melhor governante que Westeros já teve ou terá. Todos os reis lutaram por poder, lute pelo o povo pelos vivos — falou tomando suas mãos e ajoelhando-se em seguida. Daenerys colocou a mão sobre seu ombro e deslizou seus dedos finos até o queixo do bastardo, onde acarinhou a sua barba e o fez se levantar. O negro acinzentado dos olhos dele fixaram-se no púrpura dos seus, sentiu um leve arrepiar percorrer lhe o corpo e a respiração tornou-se mais pesada.
— Eu creio no que disse. Mas mesmo que tudo seja verdade, ainda não é a única guerra a ser vencida, no momento que ir com meus soldados para o norte, a Lannister avançará pelo território, acabaremos encurralados entre seus mortos e o exército de… — Jon calou seus lábios com um beijo afoito e deslizou suas mãos pelas costas do vestido de veludo azul cinzento, ela por sua vez enredou seus braços na curva do pescoço dele o trazendo para mais perto. Era o primeiro beijo que partilhavam, mas era como se seus lábios se conhecessem desde sempre. Daenerys parou por instantes e afastou com delicadeza o rosto de Jon.
— Eu preciso pensar — falou com a voz entrecortada. Respirou fundo e afastou-se dos braços dele. Nada daquilo fazia parte de seus planos quando deixou Essos, seus conselheiros relutavam a acreditar no que o nortenho dizia, havia perdido aliados, Cersei ganhava mais terreno e investidores como o banco de ferro e a companhia dourada. Tinha muito no que pensar e como se tudo já não fosse pesado demais, ainda havia Rhaegar renascido dos mortos e por fim Jon, sua guerra e os sentimentos inexplicáveis que ele despertava dentro dela. — Saia, por favor.
—Não há tempo para pensar. — Insiste Jon.
— Não diga a sua rainha o que fazer — falou imperativa.
—Amanhã regressaremos ao norte, com sua ajuda ou não — falou ao se afastar.
Desceu até seus aposentos, Davos o aguardava com um olhar preocupado. Jon lhe explicou que retornariam ao norte pela manhã e que ainda não sabia de decisão de Daenerys sobre Rhaegar, mas que o levariam com eles, mesmo sem a permissão dela. Na companhia de Davos caminhou até o quarto de Rhaegar que agora era guardado por quatro dothrakis, que não lhe deram permissão para entrar. Davos no entanto com sua diplomacia e conhecimento usou das palavras para lembrar aos homens o quão poderoso era o irmão daquela que matou todos os khal das planícies vermelhas e estes se entreolharam por instantes e permitiram a passagem de Jon. O bastardo, encontrou o príncipe próximo a janela, ele parecia brincar com os flocos de neve que caiam em seus dedos.
— Lyanna adoraria ter visto isto — falou sem mover-se — Quando ela esteve em pedra do dragão, fazia um calor dos infernos. Ela dizia que um Stark precisava do frio.
— E você a levou para Dorne?— falou Jon arqueando a sobrancelhha.
— Irônico não é? Que o único lugar que podia de dar um pouco de proteção a alguém com gelo nas veias, fosse a escaldante Dorne.— falou voltando o olhar para Jon — O Lannister já convenceu minha irmã a arrancar minha cabeça ou ela vai preferir queimar-me vivo ao estilo Targaryen? Creio que não sou imune ao fogo como ela.
— O prisioneiro era dela, você a desrespeitou quando agiu por suas costas. Isso pode ser considerado um ato de traição.
— Ele precisava morrer. E o homem que brada a sentença, deve brandir a espada. — falou e Jon congelou por instantes, ouviu por diversas vezes o pai Ned, dizer aquilo com as mesmas palavras.
—Preciso de você no norte, está acontecendo algo na muralha, temo que os outros tenham encontrado uma maneira de passar por ela. A patrulha da noite está reduzida a pouco mais de duas dúzias de patrulheiros e algumas centenas de selvagens.
— A muralha tem uma magia muito antiga e poderosa, precisam de algo tão magnífico o quanto, por enquanto o norte está seguro. — falou andando até a mesinha e servindo-se de um cálice de vinho — O que Ned Lhe contou sobre ela?
— Lyanna?— questionou e o platinado assentiu com a cabeça enquanto levava o vinho aos lábios — Estamos em meio uma guerra e sua irmã que por sinal tem exércitos e tres dragoes te vê como uma ameaça e quer beber vinho e jogar conversa fora?
— Exatamente— falou sentando-se a cadeira e indicando a outra para Jon fazer o mesmo, porém o bastardo continuou em pé com cara de pouco gosto — É você é um nortenho da cabeça aos pés— riu — Sorte a sua não?
— Só quero saber se vai conosco ao norte ou não, apenas isso. Partiremos amanhã cedo.
— Ned era mais educado que isso, jamais daria as costas a um amigo que lhe propôs uma boa conversa. Já Lyanna, ela adorava fazer isso. Bater portas era um de seus exercícios favoritos.
— Lyanna, Ned Stark, estão mortos e assim estaremos se continuarmos de braços cruzados enquanto a longa noite está prestes a acontecer. Vai conosco ou não?
— Não perderia a chance de v er rosas azuis de novo — respondeu com um sorriso.
— Com sua licença príncipe Rhaegar. — respondeu o nortenho. Ned costumava dizer que a vingança não aplacava o tormento de um homem, mas Rhaegar parecia mais leve e poderia arriscar pensar que até feliz depois de fazer jorrar o sangue do Lannister. Ele queria poder dizer que Rhaegar não era mais um homem, mas tal alívio ele mesmo sentiu ao ver o rosto de Ramsay sangrar em suas mãos e talvez a própria Sansa também tenha sentido ao terminar o que ele começou.
O nortenho deixou os aposentos de Rhaegar, vestiu seu manto negro com pelo de urso e desceu até a praia. A neve caía lentamente,ja não se podia mais ver areia ou pedras, o mar negro como a noite fazia ondas ritmadas cujo o som trazia uma paz que a muito não sentia. Viu ao longe a embarcação que ele trouxe do norte, cujo os homens ainda trabalham para que tudo estivesse pronto para a partida no dia seguinte. Algo lhe chamou a atenção nos céus e em segundos viu um dos dragões de Daenerys pousando na praia com a carcaça queimada de um servo na mão. Riu da ironia, e continuou a observar o animal de longe enquanto alimentava-se. Por mais que não os achasse belos tal com Daenerys, não podia discordar do quão magníficos e hipnotizantes eles eram. Andou alguns passos a frente tão instintivamente que mal se reconheceu, se não era inteligente se aproximar de um lobo durante sua refeição quanto mais seria de um dragão, mesmo assim era como que seu corpo não respondesse aos seus pensamentos e continuou a andar curioso até a fera.
O dragão virou a cabeça em sua direção e ele percebeu pelas cores verde- alaranjadas tratar-se de Rhaegal Sentiu uma onda de calor chocar-se com seu corpo, quando a respiração quente do dragão escapou pelas narinas enormes. Ousou tocá-las novamente e o animal baixou ainda mais a cabeça.
— Você é o mais simpático de seus irmãos — e provavelmente que sua mãe também — brincou o nortenho e o animal virou-se bruscamente , tomando a carcaça com as patas e voltando a alçar vôo.
Jon Connington andou de um lado para o outro ansioso, tomou um gole de uma bebida forte na esperança dela elucidar tudo que acontecia. Rhaegar estava vivo, mas não lembrava o mesmo príncipe justo e gentil. De certa forma, desde aquele maldito torneio, ele nunca fora o mesmo e agora se recusava até em acreditar que Aegon ainda vivia. Nem mesmo a morte tirou a loucura que a Stark trouxe para vida dele.
Andou pelas escadarias e de longe avistou o Snow, no instante que o viu percebeu os olhos de Lyanna naquele bastardo e Rhaegar acreditava que era muito mais do que uma semelhança física que eles partilhavam. Tudo que soube de Lyanna, foi que estava morta quando foi encontrada, na época imaginou ser obra do próprio Ned, quando soube que ela fugiu, que ela amava Rhaegar e que por ele e por aquilo que ele acreditava estava disposta a entregar a própria vida.
Mas na verdade, se cumpriu o que o fantasma de alto coração disse ao seu príncipe. Lyanna traria a esperança ao mundo, entre rosas e sangue. As rosas do amor que floresceu mesmo antes deles saberem que estavam destinados um ao outro e o sangue de todos aqueles que pagariam com suas vidas, incluindo a dela própria pela oportunidade que os antigos deuses traziam a humanidade. O destino, sempre cobrava seu preço.
Andou na direção de Jon que já retornava ao castelo e este lhe cumprimentou com um aceno de cabeça.
— Ela era corajosa — falou fazendo o nortenho parar e voltar a atenção a ele.— a senhora sua mãe, era corajosa.
— Sabe quem ela era?— Questionou intrigado.
— Sei— disse dando um gole na bebida.
— Meu pai nunca me disse o nome dela, ele ia me contar quando nos víssemos de novo. Como sabe quem ela é? Diga-me o nome dela. É a Dayne não é? Ouvi histórias sobre ela, diziam que meu pai gostava dela e que ela se matou no mesmo ano que nasci. Era ela?
— Ashara carregou um bastardo Stark, mas não era você, era de Brandon. Até onde sei o menino nasceu morto, seu pai matou o irmão dela e foi por isso que ela se jogou daquela torre. Arthur era tudo que restava aquela pobre coitada, depois que Elia e suas crianças foram entregues a Robert. Ned Stark participou de tudo aquilo,toda aquela matança. Aquelas crianças…
— Meu pai só queria trazer Lyanna de volta para casa, fez o que qualquer irmão faria. De nada ele teve a ver com o que aconteceu com os Targaryen.
— Sim, agora eu sei que não. Afinal ele salvou um dos filhos de Rhaegar não é mesmo?
— Está bêbado— ralhou Jon tomando novamente seu caminho
— Lyanna, o nome da sua mãe era Lyanna Stark — Disse e o nortemho voltou a parar.
— Está bêbado e louco— falou com certa fúria.
— O lobo quieto, assim chamavam Ned Stark, antes de eu ser expulso de Westeros. Devo dizer que realmente ele fez jus ao apelido. Todos os anos te ouvindo perguntar por sua mãe, e eu sei como crianças são insistentes, não resisti muito tempo a Aegon, mas ele tinha um bom motivo para manter a boca fechada, afinal, você estaria sangrando aos pés de Robert assim que ele soubesse a verdade. Imagina se o rei Robert iria permitir que uma cria Targaryen sobrevivesse, ainda mais um nascido do ventre de Lyanna Stark.
Jon sentiu o peito e a garganta apertar ao mesmo tempo, o peito acelerou assim como o subir e descer de seu peito sob o gibão negro onde um brasão Stark. se estampava no peito.
— O que está dizendo é uma insanidade, sou filho bastardo de Ned Stark— respondeu com rispidez.
— E quantos bastardos seu pai teve? De longe dá para ver que foi bem criado, aposto que recebeu a mesma educação de seus irmãos Starks, não é? Quantos bastardos tem isso? Lyanna estava grávida a última vez que a vi. Esperava um filho de Rhaegar Targaryen, o príncipe que foi prometido. Eu achava que aqueles dois insanos arranjando uma desculpa profética pro amor que sentiam, sabe para aliviar o fardo de toda a dor que causaram.
—Cale a boca — protestou Jon — sentindo os olhos arderem e o peito acelerar num misto de raiva e dor. Não queria crer, não fazia sentido algum, mas ao mesmo tempo explicava muito. A promessa de Ned no leito de morte, sua recusa em dizer o nome de sua mãe, o fato de nenhum dos homens que lutaram ao lado dele durante a guerra do usurpador ter a mínima idéia de quem era a mãe do bastardo que ele trouxe consigo, junto com o corpo da jovem irmã de volta a Winterfell.
—Acho que precisa de um tempo sozinho — falou Connington com a voz arrastada, voltando a caminhar.
O Snow sentiu a neve tocar-lhe o rosto como um suave beijo gelado e as lágrimas quentes escorrerem pela face. Caiu de joelhos tentando entender, tentando processar cada palavra de Connington as repetindo em sua mente.
“Lyanna, o nome da sua mãe era, Lyanna Stark”
“Imagina se o rei Robert iria permitir que uma cria Targaryen sobrevivesse…”
“Ned era mais educado que isso, jamais daria as costas a um amigo que lhe propôs uma boa conversa. Já Lyanna, ela adorava fazer isso. Bater portas era um de seus exercícios favoritos.”— Desta vez a voz de Rhaegar ressoou em sua mente.
“ — Você é um Stark, pode não ter o meu nome, mas tem o meu sangue — Disse o Lorde ao se despedir dele.
— E minha mãe ela está viva? Ela sabe mim, onde eu estou? Para onde estou indo? Ela se importa?
— Da próxima vez que nos virmos, falaremos da sua mãe, eu prometo.” — relembrou a última vez que esteve com Ned.
E por fim se viu com poucos anos de idade, andando atrás do pai enquanto trocava cutucões com o irmão Robb. O viu apresentar o mais novo membro da família e o chamar de Brandon aos seus vassalos e depois em frente a lareira na sala íntima da família, brincar com os pequenos dedos do recém nascido.
“— O chamou de Brandon por conta de Brandon o construtor ou por causa de meu tio Brandon?— Questionou Robb com um sorriso ao irmãozinho.
— Não conheci Brandon o construtor. Ele se chama Brandon, pelo irmão que perdi e você Robb pelo mesmo motivo.
— O rei Robert ainda vive meu pai.
— Mas ele agora é um rei, não mais o meu irmão de batalha.
— Está sendo injusto, até onde me lembro Robert queria você ao lado dele em Porto Real, todos queriam na realidade — Disse Catelyn tomando o recém nascido nos braços.
— E quem cuidaria de Winterfell? Além do mais Starks devem ficar no norte, coisas ruins acontecem quando deixamos nossa terra— falou voltando um olhar pesaroso sobre o menino no fundo da sala.
— E Jon? Porque o chamou assim? — Perguntou Robb ao notar o irmão.
— Jon Arryn me criou como um filho — falou o lorde olhando pro garoto que observava a família de certa distância, nunca se aproximava demais quando Catelyn estava por perto — Venha Jon, venha se aquecer perto da lareira — Falou Ned recebendo o olhar de desaprovação de Lady Catelyn.
— Não estou com frio, meu pai. — Disse temendo a Tully.
— Minha mãe costumava dizer que Lyanna tinha mais gelo que deveria nas veias, ela também nunca se aproximava demais da lareira. Nunca reclamava de frio. Mas venha ver seu irmão, ele finalmente abriu os olhos.”
Naquela noite Jon ouviu o nome de Ashara Dayne pela primeira vez durante uma discussão de Catelyn e seu pai, mas ele pareceu tão furioso em repreender a esposa por dizer tal nome, que o menino jamais tocou no assunto com ele. Por anos acreditou que ela era sua mãe, mas nunca teve certeza e quando ficou mais velho tentou conformar-se que nunca saberia de fato quem era ela.
Agora ele tinha um nome Lyanna Stark, um nome tão conhecido e distante ao mesmo tempo, mas pela primeira vez não era a mãe que lhe trazia incertezas e dor. Se Connington dizia a verdade, Rhaegar Targaryen, era seu pai.
Levantou os joelhos do chão e limpou o rosto com a manga da blusa. Se pôs a subir as escadarias em direção ao castelo e caminhou apressado e solitário por entre os salões de pedra. Nos corredores, sentiu um frio gélido percorrer-lhe a espinha e voltou o olhar pelo corredor vazio. A mão se pôs no mesmo instante ao cabo da espada e ouviu ao longe o uivar do lobo que há dias permanência na embarcação como se pressentisse que aquele não era lugar para um nortenho.
Voltou a andar e novamente o uivar do lobo o fez parar, tomou sua espada em punho e encarou a negritude do corredor. Percebeu um leve tremular entre as sombras e delas uma fumaça densa e negra fluir em sua direção. Franziu o cenho e preparou-se para brandir a espada.
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