A Primavera dos Lobos
20 O Dedilhar da canção - Parte II
Notas iniciais

O dedilhar da Canção — Parte II
"A matilha sobrevive"
Sansa respirou profundamente o ar gélido de Winterfell e mandou chamar o conselho. Hora mais tarde estava reunida junto a seu irmão Bran, os conselheiros e lordes de casas vassalas aos Starks no salão do castelo. Viu Arya aproximar-se pelo corredor formado por cavaleiros do vale e voltou o olhar para lorde Baelish no canto esquerdo com um sorriso triunfante nos lábios.
— Tem certeza que que farzer usso? — Ressoou a voz de Arya pelo salão.
— Não se trata do que eu quero e sim o que a honra exige. — Disse a ruiva.
— Então faça — disse a irmã em tom de desafio.
— Está aqui por acusações de assassinato, está aqui por acusações de traição. Como se declara, lorde Baelish — proferiu a lady em tom altivo causando espanto no lorde.
— Minha irmã lhe fez uma pergunta — disse Arya curvando-se na direção dele.
— Lady Sansa, eu não entendo.
— O senhor matou a nossa tia Lysa Arryn, o senhor a empurrou pela porta da lua e a viu cair, o senhor nega? Antes o senhor conspirou para matar Jon Arryn, dando a ela lágrimas de lis para envenená-lo. O senhor nega?
— Lysa era uma mulher instável, qualquer coisa que tenha dito…
— O senhor a fez escrever uma carta culpando os Lannisters pela morte de Jon Arryn causando a desavença entre Lannisters e Starks, o senhor nega? O senhor conspirou com cersei Lannister e Robert Baratheon para conspirar contra nosso pai Ned Stark, causando a sua morte, o senhor nega?
— Eu nego sim, nenhum de vocês estava lá, ninguém sabe o que aconteceu — defendeu-se o lorde em tom de desespero.
— Pois uma faca no pescoço dele — Falou Bran chamando a sua atenção —Você disse, eu avisei para não confiar em mim. Você causou a morte de mais nortenhos do que posso contar, há mais tempo do que as pessoas aqui podem imaginar — concluiu Bran.
— Disse que essa adaga pertencia a Tyrion Lannister, mas na verdade pertence a você — completou Arya.
O lorde sentiu o peito palpitar e a respiração se tornar descompassada, andou até a mesa e de joelhos suplicando misericórdia a ruiva que mirou a irmã e assentiu com a cabeça. Quase no mesmo instante Arya brandiu a adaga cortando a garganta do lorde que demorou alguns segundos para tombar ao chão onde deu os últimos suspiros.
Arya sorriu ao ver a vida de lorde Baelish se extirpar aos seus pés, limpou a adaga e entregou-a a Sansa que findou o julgamento dispensando todos.
A ruiva voltou a seu quarto, antes ocupado por sua mãe Catelyn, era o lugar mais quente do castelo, mesmo assim estava gelado aquela noite. Colocou mais um pedaço de lenha na lareira e sentou-se diante ao fogo, até que Arya adentrou a porta em passos leves. quase imperceptíveis.
— Fez o certo, ele traiu nossa família —disse a caçula sentando-se ao lado da irmã.
— Não era em Lorde Baelish que estava pensado.
— E em quem era?— perguntou arqueando a sobrancelha.
— Jon. Ele era o mais parecido com nosso pai.
—E não é mais?
— Eu não sei, ele ainda é o nosso irmão, mas está diferente. O Jon que deixou winterfell jamais quebraria um juramento.
— Os outros lordes estão falando que ele é um desertor da muralha e devia morrer por isso?
— Por enquanto não, ele uniu o norte novamente. Mas não é a opinião dos lordes que me importa, é o que deve acontecido para o Jon, faltar com sua honra. Isso não te preocupa?
— Nosso pai colocava a honra acima de tudo e muitos outros bons homens que conhecemos também, mas eles estão mortos. A honra não é a melhor conselheira, quando se está lidando com inimigos que a desenham, Sansa — disse a jovem colocando a mão sobre a da irmã — A última vez que vi Jon, ele me deu a agulha, em alguns momentos ela foi tudo que me restou, tudo que eu tinha para não esquecer quem eu era. Ela me trouxe pra casa, seja lá qual foi o motivo do Jon voltar para Winterfell, foi o que ele devia fazer.— disse e Sansa sorriu em resposta.— Estamos juntos de novo e a matilha sobrevive.
Bran fechou os olhos e sentiu o vento gelado e os flocos de neve tocarem seu rosto enquanto o meistre empurrava sua cadeira até o bosque sagrado.
— Aqui está bom, meu lorde?
— Sim, obrigado meistre — falou e o velho continuou a encará-lo — Pode ir agora.
— Está frio aqui, meu senhor.
— Eu ficarei bem.
— É um caminho perigoso, este que está por seguir jovem Bran — falou o meistre e o rapaz voltou a atenção a ele — Os antigos deuses, eles eram forças incontroláveis e inconstantes por conta de sua magia. Quanto menos lembrados eles forem, menos poder eles terão sobre o mundo. A fé e a magia são como a madeira que alimenta uma fogueira. Se esquecer de colocar ela se apaga, mas se colocar mais lenha do que deve ela incendiará tudo a sua volta. Tenha cuidado — o mestre se afastou.
***
Rhaegar sentiu o gosto do vinho preencher a boca, tinha esquecido de como era deliciosa aquela sensação de quase embriaguês. A última vez que s tivera estava na torre da alegria, ao lado de Lyanna. Foram meses gloriosos que viveram, uma felicidade tão plena que nem mesmo o calor escaldante de Dorne conseguia tirar o sorriso do rosto dos apaixonados. Levantou a taça na altura dos olhos e brindou a Lyanna, a curta e magnífica existência da loba do norte. Quase que instantaneamente ouviu o uivar do lobo e no momento achou ser resultado de sua embriaguês, afinal não haviam lobos em Pedra do dragão. Caminhou até a janela e ouviu novamente ressoar entre as pedras e neve e encaminhou-se a porta onde foi barrado pelos Dothrakis que faziam a guarda.
— Deixem-me passar — falou em tom de ordem porém os homens trançaram as lanças a sua frente
— Eu disse, deixem-me passar — Insistiu com os olhos vermelhos e os guardas recuaram ao ver seus olhos tomarem um vermelho vivo. O Targaryen continuou seu caminho pelos corredores de Pedra do Dragão, quando ouviu o som de passos descompassados, apressou-se na direção do corredor e lá avistou Jon, forçou o olhar e viu também um vulto negro o qual o nortenho parecia travar uma batalha perdida, já que sua espada de aço valiriano parecia não surtir qualquer efeito naquela escuridão em forma humana.
Jon bradou a espada da direita para a esquerda e depois refez o caminho contrário com a lâmina brilhante. Em ambos os golpes a coisa em sua frente , nem sequer sentiu o fio da espada e continuou andando com a única coisa que parecia ser feita de algo maciço, um punhal negro de cabo brilhante. O bastardo recuou um passo e assim que a criatura armou um golpe segurou a lâmina do punhal com a mão. Sentiu sua carne ser cortada e o calor do próprio sangue enquanto permanecia a segurar a lâmina que forçava-se contra seu rosto. Ousou usar um chute na ânsia de afastar o fantasma negro, mas seu pé se perdeu na escuridão e ele perdeu o equilíbrio caindo para trás. Rolou no chão desviando no próximo golpe mas antes que pudesse levantar a criatura se desfez como uma fumaça e reapareceu sobre ele, levantando o punhal e o enterrando em sua direção sem que pudesse ter qualquer reação. Fechou os olhos esperando a punhalada porém nada aconteceu, os abriu novamente e viu a criatura contorcer-se a sua frente enquanto pequenos raios se formavam no interior da escuridão. Escorregou para trás afastando-se e viu o punho fechado de Rhaegar atravessar o peito do homem feito de fumaça negra e este começou a desfazer-se aos poucos com um urro de dor que parecia ser compartilhado pelo platinado que parecia sugar a fumaça negra para dentro de si através das mãos.
Seus olhos eram vermelhos como as chamas de um dragão e suas veias eram tomadas pelo negrume da criatura quanto mais ela se desfazia em sua frente. Quando ela se dissipou por completo, o príncipe caiu de joelhos exausto, seu peito subia e descia descompassado até que tombou a frente de Jon.
— Rhaegar — falou se voltando ao príncipe apoiando sua cabeça.
— Eu...— Sussurou com a voz enfraquecida.
— Não, não diga nada. Guarde suas forças— interrompeu Jon — Guardas! Socorro! — gritou ao nortenho.
Mais tarde encontrava-se na companhia de Davos em frente a porta do quarto do príncipe. Assim que contou ao seu conselheiro sobre o acontecido ele teve certeza ser obra de Melisandre , pois o mesmo ela fez para livrar Stannis de seu irmão mais novo Renly, durante a guerra dos cinco reis.
—E porque ela faria isso depois de ter me trazido de volta à vida? — Jon questionou em tom baixo.
— Ainda não tenho certeza se foi realmente ela quem o trouxe, me pareceu que não havia dado certo e ela ficou tão surpresa quanto qualquer um, quando despertou. Não se lembra de nada, mesmo?
— Não, foi como se fechasse os olhos e os abrisse de novo, apenas isso — falou — Não havia paraíso, deuses ou luz no fim do túnel, não existia nada. Acha que ele vai se recuperar?
— Se ele fosse um homem comum,diria que está a beira da morte, mas ele não é, então não há como saber. Espero que não morra, se ele pode fazer o que fez com aquela sombra, o que poderá contra aqueles mortos? Certamente será de grande ajuda — Davos concluiu e viu uma incógnita no rosto do nortenho — Algum problema Jon?
— Nada comparável a todos que já temos — falou e Varys abriu a porta chamando-os para dentro.
O moreno viu Daenerys acariciar docemente o rosto do irmão, colocando uma mecha de suas melenas prateadas atrás da orelha do homem que ainda tinha um tom negro sobressaindo em suas veias sob a pele pálida.
— Podem nos deixar a sós? — a rainha encarou Varys e Davos que afastaram-se em seguida.
— Ele salvou minha vida — Jon disse se aproximando do leito.
— Varys acredita que aquela coisa o envenenou, ele não acha que vai sobreviver — platinada disse voltando a encarar o irmão adormecido.
— Ele não é um homem comum, acho que só precisa descansar.
— Vai retornar ao norte?— ela questionou se levantando.
— Assim que ele despertar — disse o nortenho.
— Achei que tinha urgência em retornar a muralha.
— E tenho, mas ele disse que a muralha estava segura, pelo menos por enquanto e pode parecer loucura, mas mesmo não gostando dele eu confio nele.— Disse e a rainha sorriu aproximando-se e acariciando a lateral do rosto dele que desviou de seu toque. — Preciso dar novas ordens aos homens — afastou-se.
— E Davos não pode fazer isso? — Daenerys arqueou a sobrancelha com estranheza.
— Minha rainha — Tyrion adentrou o quarto com aflição na voz e parou ao ver o clima pesado da cena a sua frente.
— Diga Tyrion — a rainha falou voltando-se a ele — recebemos dois corvos, um é de Porto Real. Como imaginei, cersei exige que liberte nosso irmão Jaime Lannister.
— Pois devolva o corpo dele, para que ela possa sepultá-lo — falou a platimada.
— Acho que ela imagina recebê-lo vivo — o anão baixou o olhar ainda pesaroso pela morte do irmão.
— É tudo que podemos oferecer a ela.
— Ela vai retaliar com todas as forças, mas no momento Cersei não é nossa única preocupação — o anão sibilou sobre o olhar atento do casal — Ponta tempestade foi tomada, e Aegon Targaryen se proclamou herdeiro legítimo do trono de ferro. Tem o apoio da Companhia dourada e de diversos magistres estrangeiros.
— Aquele rapaz das cidades livres, de uma companhia de teatro quer se tornar rei? — debochou Daenerys.
— Ao que parece sim, Jon Cunnington estava com ele quando o conheci nas cidades livres e agora é seu hóspede, imagino que ele deve ter a muito a nos dizer — o Lannister instruiu.
— E o que ele faz aqui? —a rainha questionou.
— Ele veio a procura de Varys, o encontrei quando chegou — o nortenho intrometeu-se.
— Preciso resolver estas questões — disse olhando mais uma vez para o irmão.
— Eu ficarei com ele — Jon falou e ela assentiu com a cabeça.
A poucas horas em Pedra do Dragão o peito de Lyra pareceu ser arrancado de dentro de seu corpo, tamanha a sua dor. Precisou descansar para recobrar as forças e trancou-se em um dos aposentos do castelo. Aegon observava o pátio de uma das janelas do castelo, a neve voltou a cair naquela manhã, ainda mais espessa que na noite anterior. Era belo, mas gelado demais para que pudesse apreciar.
— Aegon, o corvo que enviou a Targaryen ja deve estar em suas mãos.
— Como acha que ela irá reagir?
— Não sei, quando conheci Daenerys ela era uma menina que tremia de medo toda vez que aquela lagartixa que era Viserys falava mais alto com ela. Com certeza não era a mesma mulher que vive hoje, a mãe dos dragões e quebradora de correntes, mas ao mesmo tempo que creio que não se renderá facilmente, penso que ficara feliz em saber que não é a uktima de sua kinhagem.
— Ela desprezou-me da outra vez que a procurei.
— Foi há tempo, como ela podera crer num rapaz maltrapilho decuna compahia teatral? Agora és um guerreiro, um conquistador assim como Aegon I. Tu conquistaste Ponta tempestade e em breve Porto Real também sentirá a fúria do dragão e a rainha Cersei e todos o proclamaram rei dos sete reinos e Daenerys não terá escolha senão aceitá-lo como marido. Unir-se a você ou ser destruída pela sua força.
— Não esqueça que ela tem exércitos e dragões. Porque deu a ela aqueles ovos? Porque não os deu a mim?
— Acha que teria dado a ela se imaginasse que poderiam ser chocados? Sabe quantas pessoas morreram tentando chocar ovos de dragão?
— Ela deve ser muito especial — disse o rapaz— prepare as tropas, amanhã partimos para porto real. Entregarei a cabeça de Cersei e sua coroa em uma bandeja a minha futura rainha.
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