A Primavera dos Lobos
17 A noiva do fogo - Parte II
Notas iniciais

Parte II
Rhaegar encontrou a esposa a sua espera no saguão de entrada de Harrenhal, havia algumas dúzias de guardas, Lorde Whent estava postado de joelhos a frente de seu pai, e o príncipe entendeu no mesmo instante que o Mestre dos sussurros, já havia trazido a informação ao rei.
— O que está acontecendo?
— Retire sua espada Rhaegar — ordenou o rei — Lorde Whent, disse que pretende roubar o trono de seu pai, isto é verdade?
— Ele disse? Ouviu isso da boca dele? — falou o príncipe mirando Varys enquanto retirava o cinto e lançava -o junto de sua espada ao chão.
— Eu não disse nada, não sei do que está falando, meu rei. Tudo que fiz foi promover esse torneio em honra do nome de minha filha.
— Cale a boca seu bastardo imundo!— Bradou o rei intempestivo, caminhando em direção ao filho — Como pode? Trair seu próprio pai? O seu sangue?
— Eu não o traí, sim eu ajudei Lorde Whent com os recursos para promover este belo torneio e sim eu queria reunir os Lordes para falar sobre a maneira que tem levado seu reinado, as dívidas da coroa com o banco de ferro e com as próprias casas de Westeros. Devemos dinheiro aos Lannisters, aos Tyrrell, aos Martel, e cobramos impostos absurdos das outras casas para continuar pagando os juros do banco de ferro. Os lordes estão ouriçados, quanto tempo acha que vai sustentar a situação sem uma revolta? Estou tentando manter este reino unido.
—Ninguém vai se revoltar e se assim o fizerem eu queimarei cada um deles.
— E será um rei de um monte de cinzas? Tudo que eu queria era acalmá-los, dar-lhes esperança. Não precisa deixar o trono essa nunca foi minha intenção, nomeie-me como príncipe regente e cuidarei de tudo, o ajudarei a reinar e juntos, poderemos trazer a glória a Westeros novamente.
— Já chega! Cale a boca seu insolente! Eu sou o rei eu vou reinar até o último dia de minha vida, entendeu? Você vai pegar sua esposa dornesa e voltar a Pedra do Dragão e de lá não sairá até que eu decida o que fazer com você. Está me escutando?
— Sabem quem são os famosos passarinhos de seu mestre dos sussurros? — falou o príncipe e Aerys arqueou a sobrancelha curioso —Crianças. Meninos que ele paga com sacos de doces. Eu não irei embora, e se matar o anfitrião do maior torneio do s sete reinos por conta da palavra de um bastardo faminto, terá de me matar também. Pois serei eu a convocar um levante — Insiste Rhaegar e Elia toma um semblante desesperado.
Aerys mirou o filho de cima a baixo, Rhaegar lembrava ele mesmo na juventude, forte, belo, cheio de ideias para o futuro, planos para Westeros, mas as visões o destruíram pouco a pouco, assim como destruiriam seu rebento. O rei mirou Varys que caminhou arrastando suas chinelas até ele, cochicharam algo entre eles e o velho rei voltou a atenção ao filho outra vez.
—Desta vez creio que não devemos manchar este torneio com sangue por conta de boatos. Desde que se ajoelhe e jure lealdade a seu rei. És meu filho, mas esteja ciente Rhaegar que qualquer resquício de conspiração, vinda de onde vier, será suprimida com a morte. Este reinado não tolera traidores.
— Faça o que ele pede Rhaegar, por favor, ele é seu pai, nosso rei e nossos filhos não merecem crescer sem um, por favor — Implora Elia.
Rhaegar encarou Aerys mais uma vez e dobrou os joelhos diante dele. O rei passou lentamente a mão áspera na lateral do rosto de seu primogênito e ali a pousou.
— És meu filho, eu te amo. Não há nada que não faria por você. Mas também sou seu rei, não ouse me desafiar novamente.— falou riscando uma de suas longas unhas no rosto pálido do príncipe deixando um vergão e algumas gotículas de sangue. Provou o resquício do líquido vermelho na sua unha e ordenou que todos fossem embora.
Elia correu até o marido e o enredou temerosa. Não era de hoje que as atitudes do rei lhe causavam calafrios, e o interesse de Rhaegar em defender o reino e seus habitantes das insanidades de seu pai era um jogo perigoso. O príncipe confortou a esposa e beijou seus cabelos, deixaram o grande salão na companhia de lorde Whent que tremia apavorado.
— Pelos deuses, achei que este seria meu último dia sobre a terra. — exclamou Whent aliviado.
— Por sorte o rei estava consciente hoje, mas isso poderia ter acabado num banho de sangue. Aerys é o rei, e sei que o que fazem é por amor a este reino, mas Rhaegar… lorde Whent, parem de arriscar-se ou acabarão mortos, é isso que querem?— Questionou Elia aflita.
— Se os desmandos de meu pai acabar numa revolta, este reino vai ruir, a dinastia de nossa família vai ruir, Elia. Eu vi isso.
— Você não sabe o que viu — Retrucou a esposa e Lorde Whent os mirou intrigado.
— Está dispensado lorde, termine o torneio de forma gloriosa. Dê todas as honras ao rei e logo ele esquecerá deste impasse.
— Se assim desejar meu príncipe.— fala se afastando.
O casal retornou aos seus aposentos, onde Rhaegar deixou Elia depois de uma breve discussão sobre o futuro de sua família. O príncipe chegou atrasado ao desafio daquele dia e por pouco seu oponente não foi considerado vencedor sem nem ao menos lutar. Quando foi anunciado pela terceira vez, surgiu do seu lado da arena empunhando um escudo com o dragão vermelho de três cabeças e Lyanna suspirou aliviada do meio da platéia popular. Acompanhado do irmão vestidos como andarilhos e rostos sujos estavam imperceptíveis ao resto de sua família postada no camarote designado aos Starks. Os irmãos abriram espaço entre a multidão e chegaram até a grade, onde podiam vislumbrar a disputa lado a lado com os combatentes.
Na primeira passagem Rhaegar quase foi derrubado pelo oponente que esfacelou a ponta da lança de torneio em seu ombro esquerdo. Porém depois de alguns minutos de concentração, na segunda passagem foi a vez do príncipe fazer o oponente balançar sobre seu cavalo. Mais uma vez os cavaleiros se recompuseram ao lado de seus escudeiros, desta vez os olhos do príncipe encontraram e reconheceram a jovem Stark entre os torcedores fervorosos. E ela percebeu mesmo por baixo do elmo que ele a encarava com um sorriso. Lyanna ruborizou e sentiu o estômago ruflar, não era certo sentir-se daquela forma, mas era algo que ela não conseguia controlar.
O príncipe levantou a lança de ponta redonda para o alto e provocou o oponente fazendo o cavalo levantar as patas ao ar e a multidão aplaudir e gritar seu nome. Aerys do alto, rangiu os dentes sentindo o peito disparar num misto de raiva e medo. Rhaegar, era amado pelo seu povo como ele nunca conseguiu ser, assim que o príncipe decidisse tomar-lhe a coroa teria o total apoio da população. Bufou enraivecido e desejou que o filho caísse do cavalo, que se ferisse e morresse. Assim não teria o sangue dele em suas mãos. No entanto, quando os dois competidores se encontram no meio da arena, a ponta da lança do príncipe chocou-se com tanta força ao do cavalheiro, que este tombou e foi arrastado pelo próprio cavalo por alguns instantes. Rhaegar, não levantou o braço mostrando que era o campeão da rodada, até ir até o oponente e certificar-se de seu estado, o que encantou ainda mais o povo que passou a gritar em coro desejos de vida longa ao príncipe de Pedra do Dragão.
Lyanna deixou a arena com um sorriso nos lábios, os dois irmãos voltaram a tenda e foram surpreendidos por Ned, que depois de mirar ambos com uma cara de desgosto, mandou que se lavassem e se trocassem, antes que o pai retornasse.
Mais tarde saíram todos para o jantar dançante no salão das lareiras de Harrenhal, exceto Lyanna que permaneceu de castigo em sua tenda junto a ama. Antes de se dirigir ao castelo, Eddard foi até a tenda dos Baratheon e a julgar que Robert vinha escapulindo dele o dia inteiro, o Stark já tinha a certeza de que o amigo havia realmente faltado em sua honra de cavalheiro e sua promessa de manter-se leal a sua irmã. Encontrou o amigo bebendo vinho e rindo com seu escudeiro.
— Ela estava tentando. Porque tinha de estragar tudo?— Indagou Eddard ao adentrar a tenda.
— Ah meu amigo, eu amo a sua irmã, mas o vinho mexe com minha cabeça e as ancas de Lyra também. E estou verdadeiramente envergonhado por isso — falou curvando-se ao amigo com o caneco em mãos.
— Se a amasse, não teria feito o que fez.Liberte-a do compromisso, vá até meu pai e diga a verdade, que com isso não se sente honrado o suficiente para desposá-la.
—Lyanna pediu para vir até aqui?
— Não.
— Então não quer mais que sejamos uma família só, meu amigo, meu irmão? Ned, eu cometi um erro, mas não voltará a acontecer eu prometo. O que mais desejo na vida é desposar sua irmã e fazê-la feliz.
— Como? Tentando violar as amigas dela?
— Que exagero, Lyra me provocou eu sou homem horas! Não resisti, e depois ela começou a gritar feito louca e o príncipe chegou e entendeu tudo errado. Você me conhece mais do que qualquer pessoa no mundo, eu posso não ser nenhum perfeito cavalheiro, posso ter um apreço demasiado pelo vinho, mas nunca duvide da minha amizade por você ou do amor que sinto por sua irmã. Pois são as únicas coisas que eu realmente tenho nesse mundo — falou com os olhos marejados — Me ajude Ned, me ajude a ser o que Lyanna quer que eu seja.
— Talvez Lyanna esteja certa, talvez o amor não possa mudar a natureza de um homem — fala se dirigindo a saída.
— Ele a quer. — falou chamando a atençao de Eddard.
— O que?
— Rhaegar, ele a quer. Eu vi isso nos olhos dele e sei que também viu.
— Está louco.
— Ele estava me seguindo. E a procurou para contar sobre o que nem Lyra queria que fosse falado. Ele a quer e ele a terá, de uma forma ou de outra porque é isso que os Targaryens fazem, eles tomam para si tudo que desejam. Ele vai a colocar em desgraça.
—Lyanna pode ser bela e aparentemente frágil, mas ela não é, tão pouco é o tipo de menina que se deixar iludir com promessas de um homem casado. E é melhor parar com o vinho, já está vendo coisas que não existem — falou Ned ao se retirar.
Aerys preferiu não comparecer no jantar daquela noite, estava tomado por raiva e ciúme da popularidade alcançada pelo filho. Ele andava de um lado pro outro inquieto. Não conseguia entender como Tywin e agora Rhaegar, conseguiam tanto amor e devoção de seu povo, ele era o rei, era a ele que todos deveriam amar e respeitar.
— Ele deve morrer — falou ao eunuco postado ao seu lado — Ele vai me matar e se ele não fizer, farão para que ele se torne rei. Rhaegar deve morrer. Meu filho… meu menininho… — sussurrou caindo em lágrimas.
— Se ele morrer agora, todos ficaram revoltados vossa graça, se tornará um mártir e Dorne que nunca se curvou, terá um príncipe para coroar. As casas se unirão aos Martel pela causa do pequeno Aegon e nada vai conseguir pará-los. Não precisa matá-lo para que seu povo deixe de amá-lo, apenas mostre ao seu povo que Rhaegar é um homem como qualquer outro.
— E como farei isso, se Rhaegar se torna o melhor em tudo que faz?
— Mas ele ainda é só um homem, um homem obcecado por profecias, não é? A fé dos sete odeia esse tipo de coisa e meus passarinhos me contaram sobre uma moça que já foi vista alguma vezes na companhia do príncipe.
— Rhaegar tem uma amante?— perguntou curioso — E mesmo que seja, no grande lixo que é Porto Real o fato dele não jogar uma puta na sua cama daria mais motivo para falatório.
— Não se trata de uma “puta” , meu senhor. Ela se chama Lyanna, filha do lorde Rickard Stark, e está prometida a Robert Baratheon.
— Sei, acho que a vi no banquete de abertura. Vejam só o leal e honrado Rhaegar de casinho com uma donzela. Fique de olho neles, descubra o que está acontecendo.
No suntuoso salão que ostentava dezenas de lareiras, mais um magnífico jantar era servido. Rhaegar quase que instintivamente voltou a atenção a mesa dos nortenhos, mas desta vez, Lyanna não fazia parte dela. Soltou um suspiro decepcionado e Elia o encarou com certo desânimo, o príncipe tomou a mão da esposa e lhe deu um sorriso terno.
— Ela é corajosa — falou Elia esforçando-se para permanecer firme.
— O que?
— Lyanna, ela é corajosa e astuta, quando eu morrer, ela será uma boa rainha — falou e Rhaegar a encarou assustado.
— Não me olhe assim, não vou me matar não se preocupe. Mas sou uma mulher doente, não posso te dar mais filhos, agora estou bem, mas sei que não viverei para ver meus filhos crescerem. Quero que seja feliz.
— Elia, nunca mais repita isso certo? Você será minha rainha, estará ao meu lado quando me sentar no trono de ferro. Vai ver nossos filhos e netos crescerem — falou, pousando a mão sobre a dela — Eu vou esquecê-la, eu prometo.
— Vai tentar, conseguir é bem diferente. Depois de meus filhos, você é o que mais amo, não viveria sabendo que lhe fiz perder o seu grande amor por conta de um capricho.
— Nosso casamento não é um capricho Elia, e eu amo você, sou feliz no nosso casamento.
—Eu sei que só foi até Dorne porque minha mãe despeitada pela recusa de Tywin de entregar Cersei e jaime aos Martel o convenceu que não haveria noiva melhor do que a única princesa disponível em Westeros. E achou que isso agradaria seu pai, afinal, seria auspicioso ao reino manter os dorneses como aliados.
— Nos casamos por questões políticas, mas aprendemos a nos amar, não?
— Sim nós aprendemos e somos felizes, mas você nunca havia amado outra como ama aquela garota e amor é a bebida mais viciante que se pode provar. Prefiro ter parte de você pelo tempo que os deuses me permitirem, do que te ter por inteiro, mas com os pensamentos no amor que perdeu. Vá atrás dela, abra seu coração e ofereça o que pode oferecer agora, se ela aceitar será bem recebida em Pedra do Dragão — falou a mulher desenredando os dedos dos dele e voltando a atenção para os casais que bailavam alegres em meio ao salão.
Rhaegar soltou um suspiro e recostou-se a cadeira, refletir sobre as palavras da esposa e depois sobre o que Connington lhe disse, mas o que fez se levantar foi o punho cerrado de robert armado contra o rosto de Lyra que esperneava ao chão. Seu coração doía a cada batida só de pensar em Lyanna na mesma situação.
Beijou a testa de Elia,ela assentiu com a cabeça e observou de olhos marejados o marido deixar o salão. Oberyn tomou o lugar do cunhado e colocou os pés sobre a mesa, ato que foi reprimido pela irmã com rispidez.
—Comporte-se como o principe que é — falou irritada.
— Protocolos… E meu cunhado, onde foi?
—Atrás da Stark e eu espero que esteja certo e que esse encanto dele, não passe de tédio, que será curado com algumas noites de prazer, porque do contrário. Acabei de perder meu marido para sempre.
Rhaegar deixou o castelo de Harrenhal e desceu de seu alazão a alguns metros da tenta dos Stark. Chamou um menino que ali passava e entregou-lhe um bilhete e uma moeda de bronze, subiu novamente no cavalo negro e deixou o acampamento.
Lyana permanecia entediada no interior da tenda, a ama lhe obrigou a iniciar os bordados para seu enxoval e enquanto bordava flores amarelas, sentia o estômago revirar-se e uma ânsia subir por sua garganta. Jamais usaria aqueles lençóis, pelo menos não para dividi- lo com Robert. Assim que retomassem o caminho para Winterfell encontraria uma forma de fugir, inicialmente para ilha dos ursos e de lá quem sabe? Seria realmente livre, e por mais difícil que fosse, deixar o norte, sua família, morreria aos poucos se aceitasse o que sua queriam lhe impor.
— Senhora Lyanna — gritou uma voz infantil do lado de fora da tenda. A moça se levantou e viu a ama já cochilar na cadeira, largou o bordado,tomou o lampião em mãos e foi para fora. O menino franzino lhe entregou o bilhete e saiu correndo a garota olhou para os lados desconfiada e abriu o r,ecado.
“Desde que a conheci, quando não a vejo, me sinto tão vazio quando aquela árvore onde uma corajosa garota escondia sua armadura. Se assim também se sente encontre-me lá, se não for, saberei respeitar tua vontade.” Rhaegar Targaryen
A stark sentiu o peito disparar e sua cabeça ser invadida por um turbilhão de pensamentos.
— Não, Lyanna não seja tola, volte para tenda e termine seu bordado. Afinal,vai precisar de lençóis de rosas quando estiver fugindo para ilha dos ursos — falou a si mesma. se pôs a caminhar de volta a tenda, parou ao ouvir o relincho de Rosa.
— Você vai até lá e vai dizer que ele está louco, que ele é casado e que Elia parece uma boa mulher. Isso! — falou sentindo seu estomago outrora pesado, flutuar em alegria.
Subiu no lombo de Rosa sem celas e esporeou com o calcanhar das botas a égua que disparou para fora do acampamento.
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