A Primavera dos Lobos
2 A loba e o dragão
Notas iniciais

"Há algo no uivar de um lobo que tira um homem do seu aqui e agora e o deposita numa floresta escura da mente, correndo nu à frente da matilha."
Naquele ano, conhecido como o Ano da Falsa Primavera, um torneio estava prestes a começar. Os senhores e cavaleiros de todos os Sete Reinos, dirigiram — se as terras flúviais, para participar da grande competição, anfitriada pelo lorde Whent. Em Harrenhal, o castelo com cinco torres de tamanhos vertiginosos, e muros espessos, resplandecia imponente sobre a campina fértil, agora circundado por milhares de pequenas tendas que abrigavam os visitantes das mais longínquas terras do reino.
O próprio Rei Dragão estava presente, o rei louco, como muitos o chamavam, há anos não deixava a segurança da fortaleza vermelha, finalmente se apresentaria diante do povo, no evento que prometeu ser o maior de todos os tempos.
Seu filho, o príncipe Rhaegar também se fazia presente. O jovem de melenas platinadas, que desciam sedosamente pelas costas, era dotado um corpo forte e bem torneado, que denunciavam suas habilidades como guerreiro, e como se isso não fosse o suficiente, ainda possuía uma inteligência, talento musical e personalidade cativante, o que em pouco tempo o tornaram muito popular entre os habitantes de Westeros. E sem dúvidas, muito mais amado pelo povo do que o próprio rei.
O sucessor ideal para qualquer monarca, porém, não para o seu pai, Aerys. A mente perturbada do governante, passou a ver o filho como um rival, e o único motivo de agraciar o torneio com sua presença, era garantir que nenhuma trama fosse arquitetada pelo jovem, que aos seus olhos, parecia querer antecipar o direito ao trono.
A abertura do torneio se dá com o desfile de Aerys, o rei demasiadamente magro, cabelos brancos, longa barba e unhas que não eram cortadas há anos, decepcionou ainda mais os populares, que ansiavam por vislumbrar sua figura real e imponente. Aerys seguia a frente abençoando os capitães, entre eles Rhaegar, que também disputaria as justas. O príncipe, baixa a cabeça quando o pai chega a frente dele, havia um certo tempo que se mantinha uma tensão entre eles, e esta, já era percebida fora dos muros da capital.
Rhaegar via o pai mergulhar cada vez mais em suas teorias conspiratórias, a situação estava tão agravada, que o rei parecia beirar a loucura, e isto, fazia o príncipe sentir a pressão advinda dos lordes e burgueses, que temiam pelo futuro do país, nas mãos do rei. Aerys por sua vez, não tinha intenções de abandonar o trono de ferro, e sentindo — se trapaçeado, não abençoa o filho, passando imediatamente para o campeão ao seu lado.
Do alto dos camarotes, Elia observava o esposo orgulhosa. Mesmo com o desdém do rei, por eIa e seus filhos, a princesa se considerava uma sortuda, seria a futura rainha de Westeros, tinha um marido gentil, educado e embora não pudesse mais gerar filhos, Rhaegar, parecia satisfeito com a princesinha Rhaenys e o pequeno Aegon, que nascera há poucos meses.
Antes que a primeira disputa fosse iniciada, o rei Aerys faz um pronunciamento, e este se finda com a juramentação de Sor Jaime Lannister, como irmão da guarda reaI. Tamanha honra, embora não se fizesse jus a um menino de pouco mais de quinze anos, estava respaldada pelos anseios do rei em subjugar o patriarca da família Lannister, condenado o assim, a ter de entregar a sua casa, ao filho mais novo, Tyrion, o anão odiado pelo pai.
O torneio se iniciou, e mesmo que estivesse longe de haver um campeão, a plateia seguia animada, gritando e estimulando os representantes de suas casas.
EIia, observava as jovens donzelas e ladies que compartilham com eIa o camarote, destinado às altas damas da sociedade. Ela tinha um lugar reservado junto ao rei, mas este não era uma companhia muito agradável, sendo tolerada apenas quando a sua obrigação como esposa do príncipe exigia. Apesar do assunto preferido entre as jovens senhoras ser o príncipe Rhaegar, sua atenção estava voltada para a bela garota de cabeIos loiros, que desciam em cascata até a cintura. Cersei Lannister, a filha de Tywin, que fora oferecida em casamento ao príncipe anos antes , mas no entanto, Aerys recusou veementemente a proposta, dizendo que a garota não era digna de um Targaryen. Cercei era sem dúvidas a mais bela entre as moças de Westeros, constata Elia, ao comparar sua beleza as outras donzelas ali presentes.
Aos olhos do rei, EIia também não se fazia digna de seu primogênito, mas não houve escolha melhor, dito que não restaram muitas princesas ou domadoras de dragões de sangue valyriano, aptas ao casamento.
Outra figura que lhe chama a atenção é Lyanna, a donzela lobo da família Stark. A jovem de cabelos negros, rosto doce e corpo violão, exibia uma confiança e coragem invejável a muitos filhos de lordes. Dotada de uma personalidade solidária, um belo rosto e gostos um tanto excêntricos para uma Iady, Lyanna Stark, exalava uma aura de liberdade e descontração, enquanto se retorcia empolgada com os acontecimentos da arena.
A Ioba porém compartilhava do mesmo fardo e temores de boa parte das moças bem nascidas de Westeros, seu destino não a pertencia, e sim ao seu pai e ao futuro marido, este que já havia sido escolhido há mais de um ano, sem que, se quer, sua opinião fosse ouvida. Ao ver o estandarte da família Baratheon hasteado num dos postes do torneio, a jovem contempla seu futuro, com um certo pesar nos olhos. Apesar de Robert ser um amigo fiel da família, ela já lastimava ser esposa de um beberrão fascinado por prostitutas.
Entediada com seus pensamentos, Lyanna volta o olhar para competição, e pensa sobre o mundo excitante e cheio de aventura, que lhe foi negado ao nascer mulher. Se fosse homem, como seus irmãos, poderia estar ao lado deles no torneio, poderia até vencê — los, mas a vida lhe fadou com vestidos e normas, as quais ela sempre relutou, mas agora no auge de seus quinze dias de seu nome, prestes a ser entregue ao casamento, parecia impossível fugir de seus deveres como mulher.
Depois de assistir a primeira etapa das justas, a nortenha desce as escadas, e embora tenha sido alertada pelos irmãos, Ned e Brandon, a não perambular por HarrenhaI sozinha, evitar explorar aquelas vastas terras, parecia impossível, desde muito pequena a curiosidade fora uma companheira constante e estimulante, sem falar, que era a primeira vez que deixava a terra de seus antepassados.
Em harrenhal, o maior castelo de Westeros, embora magnífico ainda ostentava as marcas da invasão Targaryen, que acontecera há quase 300 anos, era impossível não imaginar os dragões sobrevoando o IocaI, lançando suas chamas mortais as imensas torres, conquistando o inconquistável. A garota caminha com os olhos fixos ao céu, tentando imaginar a grandeza dos dragões Targaryen, quando ouve os gritos de súplica de um garoto franzino ao ser espancado por três jovens escudeiros. Sem pensar duas vezes a bela, toma uma espada de treinamento, disposta numa das bancas próximas, se aproxima dos garotos e mostrando destreza eIa afasta os jovens que imediatamente, cessam o ataque ao verem que a jovem bradando feroz, era a filha do lorde Rickard Stark, senhor do norte.
— Esse que chutam é vassalo de meu pai. — Esbraveja Lyanna ao constatar que que o agredido era Howland Reed, um cranogmano de Água Cinzenta, enquanto os meninos trocam olhares assustados, e sem poder reagir ao ataque da loba, fogem em seguida.
— Obrigado Milady. — Responde o jovem Howland, de certa forma já acostumado com a falta de respeito de outras casas.
— Não agradeça, é dever de todo o Stark defender um nortenho. — Responde a jovem ouvindo palmas, em contraponto aos olhares de reprovação a sua atitude, que praticamente todos atestavam.
Ao levantar seus olhos cinzentos, a loba se depara com o sorriso emoldurado, pelos cabelos longos e olhos em tons de violeta de Rhaegar, o príncipe dragão.
Ainda vestido com a armadura negra, ornamentada em rubis vermelho sangue, o rapaz se aproxima com ares de aprovação e Lyanna sente seu estômago ruflar, como nunca antes, ficando estática por uns instantes, só lembrando de prestar as devidas reverências, quando percebe o pequeno Reed, colocando um dos joelhos ao chão. Tão imediatamente a garota Stark trança suas pernas, abaixa a cabeça e segurando as laterais da saia do vestido, curva seu corpo a frente em sinal de respeito, enquanto sente seu rosto aquecer, na presença de uma das figuras mais ilustres de Westeros.
Rhaegar por sua vez, encantado com a coragem da jovem, estende sua mão a eIa, Lyanna permanece sem reação até receber um cutucão de Reed, que a faz sair do estado de inércia, estendendo a mão ao príncipe que deposita um beijo delicado em seu dorso. A moça sente sua face corar ainda mais, ao encarar os olhos púrpura do Targaryen, muitas histórias eram contadas sobre a família dragão, mas jamais estivera tão perto de um deles.
Um resplendor mágico circundava os nativos de Valyria, não apenas pela aparência tão distópica dos outros habitantes de Westeros, ou mesmo pelos dragões que eles trouxeram ao reino no passado. Há dezenas de anos não se via um dragão, mesmo assim os Targaryen impunham aquele ar místico aparentemente inalcançável aos outros homens.
— QuaI sua graça? — Questiona o príncipe Rhaegar, mirando profundamente nos olhos da garota.
— Esta é Iady Lyanna, de Winterfell, meu senhor. Adianta — se Reed.
— Creio que uma moça de tanta coragem não necessite de um porta voz, para falar por eIa. — Repreende o príncipe que recebe um sorriso terno dos lábios da jovem loba.
— Lyanna Stark majestade, filha de lorde Rickard Stark, protetor do norte, é um prazer estar em tua presença. — Diz a garota sem levantar o olhar para o príncipe.
— Sor Rhaegar Targaryen, príncipe de Pedra do Dragão, mas imagino que você já deve saber e o prazer é todo meu. — Responde com a voz melodiosa que parecia ressoar nos ouvidos dela.
— Lyanna! Finalmente. Achei que Ihe tivesse dito para não perambular por aí. — Diz Brandon se aproximando na companhia de seu irmão Ned e Robert Baratheon. _ Perdoe — me príncipe Rhaegar, estava tão desesperado a procura de minha irmã, que não notei sua ilustre presença. — Diz logo em seguida, se curvando ao monarca.
— Está perdoado Sor Brandon Stark. E imagino que este seja Eddard Stark, estou certo? Vi você na arena, muito preciso nos golpes. — Elogia o príncipe.
— Sim este é meu irmão Ned, e nosso amigo Robert, da casa Baratheon. — Fala Brandon ignorando o enaltecimento que o irmão acabou de receber.
— Nos conhecemos há alguns anos em Porto Real, estive na festa de seu casamento. — Diz Robert com um ar superior.
— Não estou lembrado, mas é um prazer revê — lo. E um enorme prazer conhecê — la lady Lyanna. Ah Sor Brandon, se me permite a ressalva, sua irmã parece saber se cuidar muito bem sozinha. Com sua licença, senhores, milady. — Diz o príncipe dragão, se afastando do grupo logo em seguida sob o olhar de desprezo de Robert e olhar orgulhoso da loba.
— “Não estou lembrado da sua presença”… Meu pai fez um belo discurso e depois nos apresentou. Este é o valor que os Targaryen dão ao povo de Westeros. — Diz Robert sendo fulminado pelo olhar dos amigos. _ O que foi? Digo inverdades por acaso? Ou ele não tem o devido valor aos seus vassalos ou está caminhando pelo mesmo rumo de seu pai. A insanidade.
— De qualquer forma, tome cuidado com suas palavras, estamos entre amigos, mas elas podem ser mal interpretados a outros. — Repreende Ned.
— Tens razão, o rei louco é capaz de mandar queimar me vivo por tamanha insolência, mas mudando de assunto, é muita bom vê — la de novo minha querida noiva, não vejo a hora de que nossa união seja abençoada pelos antigos e os novos deuses. — Diz o Baratheon entusiasmado, que recebe um sorriso amarelo como recompensa.
— Lyanna também está muito ansiosa com esse enlace, não é mesmo irmã? — Força Ned.
— Se é da vontade de meu pai, não tenho o que questionar. Agora se me dão licença, nosso vassalo necessita de cuidados. Sor Robert Baratheon, nos veremos mais tarde no banquete. Com sua licença. — Se despede a moça, saindo em passos largos.
— Ela não parece muito empolgada. — Diz robert levantando as sobrancelhas ao ver a prometida afastar se na companhia do cranogmano.
— Bem não pode culpá — la, as notícias sobre sua bastarda no VaIe de Arryn, não a agradaram nenhum pouco. — Fala Brandon.
— Hora que homem não tem bastardos? Ainda não somos casados, não deveria ser um problema. — Defende — se o jovem de cabelos negros e que já impunha uma barba espessa.
— Lyanna não crê que se manterá em apenas uma cama depois de casados. — Explica Ned.
— Pois eu provarei a eIa, que está enganada, mas agora por quê não vamos nos inscrever na competição de bebedores de vinho?
— Para que? Levantar o seu ego ainda mais? — Diz Brandon com um sorriso.
Na tenda dos Stark Lyanna em companhia de uma serva tratam os machucados de Howland, o rapaz herdeiro da casa Reed, tinha um corpo franzino, baixa estatura, cabelos louro acobreados, tal qual boa parte dos moradores de Água cinzenta. E como todos de lá, sua estima era muito baixa entre as outras casas.
— Aqueles Frey, sempre arrumando confusão. — Fala a serva Ghail, enquanto limpa os ferimentos do rapazote.
— Alguém devia dar uma boa lição neles. Derevia se inscrever no torneio, vencer os cavaleiros deles e exigir que dessem uma boa lição em seus escudeiros. — Fala Lyanna com convicção.
— Agradeço sua preocupação lady Lyanna, mas eu duvido que venceria. Provavelmente acabaria por envergonhar minha família.
— Pois bem, de qualquer forma é meu convidado e a família Stark ficaria honrada se sentar à nossa mesa no banquete. — Diz a jovem.
—Eu quem ficaria honrado milady.
A noite cai quente em Harrenhal, a cidade estava em fervorosa com o banquete que seria servido mais tarde, embora fosse um evento reservado aos anfitriões e famílias de lordes importantes, boa parte da população estava disposta a frente do palácio em festa, onde mais tarde as sobras do banquete seriam solidariamente distribuídas entre a população.
Toda a Harrenhal estava enfeitada com bandeirolas e guirlandas de flores, as pessoas sorriam alegremente, entusiasmadas com a aparente chegada da primavera. A mesma animação contagia o palácio, onde se dava início ao primeiro banquete oficial do torneio. As fartas iguarias eram servidas aos convidados, a música embalava os festeiros, que rodopiavam pelo salão ao som dos mais variados estilos musicais dos sete reinos.
Lyanna adentra o salão em seu vestido de baile, o veludo azul envolvia o corpo da garota tornando suas curvas ainda mais acentuadas, um decote, um tanto ousado para uma nortenha tão jovem, exibia orgulhosamente um colar com o lobo, símbolo da família stark, os cabelos levemente cacheados semi presos sob uma tiara de brilhantes e contas, compõe o ar selvagem da então conhecida como a loba do norte.
Do outro lado do salão, Rhaegar se senta ao lado do pai, acompanhado de sua esposa e do conselheiro real. Ele despende alguns segundos a observar a imponente família que ocupava seu lugar no banquete. O príncipe tenta inutilmente desviar o olhar da jovem Stark, mas por mais que insistisse em distrai — se com a esposa ou mesmo com os vários vassalos e lordes que disputavam sua atenção, os olhos do dragão insistiam em perseguir a imagem da garota, que conheceu naquela tarde. Tamanha era a persistência do Targaryen, que os olhares dirigidos a mesa do norte não passaram despercebidos pela esposa.
— Algum problema com os nortenhos, meu amado? Diz a morena de olhos negros, como o ébano, enlaçando seus dedos aos do marido.
— Jamais, é uma das casas mais leais e que menos trazem trabalho a coroa. Lord Stark tem feito muito bem seu papel no norte. — Diz com um sorriso, tentando não transparecer qualquer excitação.
— Então porque parece tão interessado nos nortenhos? — Retruca a mulher que já percebia que não eram a imponência dos homens lobos, o que chamava a atenção do príncipe.
— Ora, apenas dei me conta que nunca visitamos Winterfell, e até onde sei os nortenhos são tão orgulhosos quanto os Targaryen ou os Martell, acho que devíamos dar uma maior atenção a eles. Bem o jantar já está terminando, Lorde Whent, disse que ficaria honrado com uma música. — Diz o príncipe despedindo — se da esposa com um beijo na testa.
Alguns minutos depois o príncipe estava posicionado ao meio do salão com sua harpa em mãos. A harpa dourada ornamentada com dragões e cordas de prata , era o instrumento favorito do futuro rei, por diversas vezes era visto apenas acompanhado dela, nas ruínas se Solarestival.
O dedos pálidos de Rhaegar deslizam habilmente pelas cordas prateadas e sua voz ressonante preenche o salão com uma canção melodiosamente triste. Ele canta sobre a tragédia que selou as vidas de muitos dos seus parentes, justo no dia de seu nascimento, a emoção e sentimentos do príncipe, eram evidenciados a cada palavra ou nota dedilhada. Era impossível não se emocionar com a triste e bela melodia do príncipe. Mesmo a jovem loba que orgulhava — se por não se entregar aos sentimentos por coisas banais como poemas e canções, como outras donzelas, não conseguia segurar as lágrimas silenciosas que escapavam de seus olhos.
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