Notas iniciais
Favor interpretar os trechos em itálico como memórias, uma vez que são postos no mesmo tempo em que Bree se lembra de casa.

Ethon passou uma eternidade arrastando a jovem Bree pelas garras por todo o céu. A dupla sobrevoou o restante do oceano Atlântico onde o navio das Amazonas havia sido afundado e onde Bree tinha encontrado sua ruína. Chegando à baía de Nova York e cruzando o estreito da de New York Beach, os mortais começaram a estranhar a aproximação de um pássaro tão grande vindo do Atlântico, mesmo que tivessem consciência do sobrenaturalismo dos últimos anos, ainda sim era algo raro de se ver. Ethon cortou toda a Madison Avenue e a Fifth Avenue até entrar nas limitações do Upper East Side, onde avançou pelo Central Park até pousar no topo de um dos apartamentos do bairro nobre do condado de Manhattan.

Bree começou a acordar quando estava finalmente pousando em uma das coberturas abandonas do bairro, ela sabia que dentre todos os prédios do UES, alguns tinham as coberturas como relicários ou até mesmo centros abandonados, e eram eles pertencentes à antigas famílias tais como: Villary, Van Der Woodsen, Waldorf e é claro, Versense. Seus olhos seguiram para baixo onde enquadrou em seu campo de visão altamente apurado um prédio particularmente memorioso.

O abutre mantinha a jovem presa pelas garras envoltas de suas costelas e seu corpo tombado na vertical diretamente para baixo, e ela sabia onde ele estava finalmente pousando.

Aquele prédio tinha outra cara alguns anos atrás, quando Bree estreava seus dezesseis anos. O Upper East Side sempre foi o maior sonho de uma garota que crescia aos arredores das grandes avenidas Madison e Fifth. Aquele grande apartamento entre o Rio East pertencia á família de Bree e ao seu legado interminável como poderosa adolescente elitista do Upper East Side. A construção era uma das maiores e mais bem renomadas de Nova York com sua estrutura polida e muito bem desenhada. Decorada pelo próprio pai de Bree, o apartamento contava com uma coleção de luxo e de estilo de vida extremamente alto na ditadura da moda e da beleza do Central Park.

Bree desceu as escadas do segundo andar até a sala de recepção onde suas fieis escudeiras esperavam a aprovação da sua líder para com seu vestuário de hoje. Estavam todas vestidas de azul turquesa e contavam cada uma com um salto dourado Louboutin e um par de abotoaduras de ouro em seu peito. Todas, exceto a jovem Raina.

— Raina que tipo de abotoaduras são essas? – Bree se aproximou da jovem garota com seus olhos azuis e extremamente críticos para apenas dezesseis anos.

— Me desculpe, Bree... – Raina estava apavorada. – meus pais não deixaram usar as abotoaduras da minha avó.

— E por qual motivo, no mundo, você usaria as abotoaduras da sua avó?

— Ahn... é porque eu só tenho as dela. – Raina atreveu o sorriso, como se a resposta fosse mais do que óbvia, porém as demais seguidoras de Bree se limitaram a rir exceto pela própria líder que nem ao menos balançou a cabeça em desaprovação.

— Isso só pode ser um pesadelo. Você vem até minha casa e nem tem como se vestir corretamente? – Bree estava visivelmente irritada, seus cabelos loiros como fios de ouro pareciam se ondular em um choque infinito de fúria e magia.

— M-Mas são só as abotoaduras! Olhe, eu vim até com os...

— Basta! Não quero ouvir palavras de alguém que vê somente abotoaduras.

Uma lágrima ligeira escorreu nos olhos de Bree quando voltou a ver a sala de sua antiga casa pelo teto desmoronado. Ela havia cometido grandes e terríveis coisas ali, com pessoas que nem ao menos deveriam sofrer pela sua ira e fúria. Enquanto se deleitava em pensamentos, a jovem sentiu que Ethon estava abaixando o voo até que começou a pousar no salão. A amazona respirou fundou e engoliu suas magoas do passado, preparada para o que estava por vir.

Ethon jogou Bree no chão de mármore rachado e sujo e pousou alguns metros ao seu lado com o bico escurecido e retorcido em uma espécie de sorriso maligno.

— Eu sei bem o que isso significa para você, Princesa Amazona... – a voz de escarnio e ódio do abutre era semelhante a uma centena de agulhas sendo raspadas sobre uma placa de metal. – Você devia se sentir com sorte pois poucas pessoas têm lembranças de sua antiga vida antes da morte. – então riu, uma risada hedionda e perversa enquanto aproximava-se da jovem. Suas garras criando um atrito insuportável no chão; seu hálito quente começava a ser sentido por Bree durante seu avanço, enquanto a menina ainda se matinha largada no chão, encolhida em seu próprio corpo. O cheiro que partia do bico do abutre era repugnante: um odor pungente de morte e dor, o cheiro de sangue e de carne podre tão fortes que o pouco de mato crescido no local começava a morrer.

— Você não tem nada para dizer antes da morte, princesa?

Bree ergueu o rosto na medida que escondeu as mãos dentro de sua armadura, pegando secretamente o cabo de sua espada:

— Você acha mesmo que eu irei morrer aqui? – a voz da filha de Vênus era como uma manhã de primavera que trás o frio e a dor do inverno.

—Que eu saiba, diferente de Prometeu, você não pode regenerar seu corpo quando eu o devorar... – sem mais delongas, o abutre avançou contra Bree.

Seu grande corpo se enroscou em alguns cipós que caiam dos jardins superiores e nos pilares que restavam ali, retendo seu movimento em alguns passos. A Amazona tomou a frente dos ataques, estufando o peito e lançando o corpo na direção de Ethon. Suas mãos estavam armadas com a longa espada Lectus, presente do exército das Amazonas. Com a lâmina dourada ela atravessou o bico nojento do abutre. A criatura deu um urro de dor que chamou a atenção de todo o Upper East Side e de todos os mortais que ainda residiam nos prédios ao lado. Sem poupar seus esforços, o monstro arrebentou os pilares laterais e avançou novamente contra Bree. A filha de Vênus foi tomada por uma luz rosa tão poderosa que o odor provocado pelo hálito de Ethon começou a se desfazer, a vida e o poder foi novamente revivida pela grama do local abandonado que agora também recebia uma massiva onda de flores. A luz ofuscou os olhos negros e cruéis do abutre, que recuou alguns longos passos. A Amazona seguiu seu caminho, saltando sobre os destroços e emparelhando a espada no peito do animal que mais uma vez rugiu de dor, desta vez revidando e marcando o peito da jovem com as garras, que, não fosse seu peitoral da armadura, seria dilacerado.

Andar pela sala, mesmo que fosse para matar um abutre gigantesco por sua própria vida era nostálgico para Bree, pois naquela mesma sala ela tinha uma longa história. Estava sentada agora em seu trono particular. Suas escudeiras estavam ao seu lado aos montes, servindo-lhe algumas taças de frutas e calçando seus pés com alguns saltos.

— Não. – era sua resposta para a grande maioria dos sapatos, uma adolescente exigente. – Este é horrível, parece algo que você usaria, Alice. – a garota Alice que estava confinada a calçar os pés de sua líder ficou corada, repudiando-se por dentro.

De um súbito salto, ela se ergueu e não se importou em pisar em alguns dedos. Ela se virou para o grupo de amigas com um sorriso no escanteio dos lábios. – Devemos nos arrumar logo. A festa debutante de Vance está para começar, e não podemos nos atrasar.

— Mas... Vance te odeia Bree. – Marina acariciava os dedos recém pisados pela líder quando havia se levantando. Tentava entender os planos da rainha.

— Ah, e quem disse que eu me importo? Não mesmo. Iremos de qualquer jeito e ele saberá o quanto vai sofrer quando me vir linda em um vestido Prada, deslumbrante, e saber que me perdeu para sempre.

— Mas foi você quem terminou com ele.

— Calada! Eu não me importo com a sequência e a ordem dos fatos. Quero apenas minha glória... andem! Por que ainda estão aqui?! Rápido! – Bree bateu os saltos no chão inúmeras vezes. Ela não sabia na época, mas o que fazia a todos a temerem era a potência magica em sua voz, e não seus saltos ruidosos.

Agora novamente à frente de Ethon ela voltou a atacar, cortando seu peito em um golpe na diagonal. Se o abutre não tivesse tanta flexibilidade no local apertado ele perderia muito mais do que só algumas penas. Tentando fugir da jovem, ele abriu as asas, esquecendo-se do espaço limitado em que se encontravam e tentou ganhar altitude num voo falho. Seu corpo se enroscou nos emaranhados de fios e de escombros, e suas costas foram postas contra uma enorme quantidade de vigas amostra sobre o concreto. Os olhos azuis de Bree estavam em uma cor rosa medonha, e com um salto de extrema habilidade, ela bateu com as botas pesadas no peito do abutre e afundou seu corpo contra as vigas. O ferro perfurou as costas de Ethon até atravessar seu peito e mesmo sendo filha de Vênus, ela não perdoaria o inferno que ele provocara em seu navio e em suas irmãs. A espada lhe desceu outra vez num golpe poderoso, agora afundando seu gume contra a garganta do abutre.

O sangue escuro e mal cheiroso de Ethon empesteou suas penas e o salão da casa de Bree. Ela voltou a pousar no chão enquanto contemplava o pássaro morto e preso nas vigas de metal.

De repente seus olhos tomaram luz novamente. Um grito pavoroso saiu da garganta do animal e ele se soltou das vigas, voando de forma desigual pelo salão. Bree correu na direção oposta, atraindo seu perseguidor por todo o apartamento, até o vitral enorme de sua casa. Quando finalmente estava lá ela jogou o corpo para o lado e deixou que o abutre se colidisse com o vidro, suas mãos foram rápidas e a espada desceu num corte potente ao pescoço do monstro finalmente derrotado. Seu corpo pesado arrebentou o vidro e caiu do prédio, descendo os vários andares do Upper East Side, até pousar o corpo na Madison Avenue e assustar alguns mortais por seu aparecimento repentino. Ethon esbarrou em alguns carros e inflamou as próprias asas. Desesperado, entrou no meio dos bosques próximos à rua e desapareceu. Bree limpou Lectus em uma das cortinas velhas e guardou a lâmina na bainha.

A jovem continuou andando pelo apartamento abandonado. Ela podia ouvir algumas risadas e alguns murmúrios sensuais enquanto passava, muitas vezes sendo dela mesma a voz. Ela finalmente parou em frente de seu amado espelho que ficava logo na entrada de seu quarto e ali ela contemplou a visão de uma Bree do passado: era uma jovem um pouco mais baixa, com cabelos dourados perfeitamente penteados e alinhados em uma ondulação magnifica. Trajava uma camiseta de botões douradas brancas sem manga e uma saia preta, colada em suas coxas que lhe caia até os joelhos. Calçava um par de saltos igualmente pretos, com alguns detalhes em dourados, bem como as correntes que lhe serviam de cinto para a saia. Era um look ousando e glamoroso para uma jovem de dezesseis anos. A imagem no espelho oscilou e deu a visão de sua Bree atual. Era mais alta e robusta, o corpo era desenhado em curvas esculturais, tão perfeitas que o sentido do corpo parecia ter sido feito somente para ela. Medidas no ponto exato, nem magra demais e nem gorda demais, sua pele clara como uma pérola roseada estava marcada com longos cortes vermelhos e manchas roxas, e mesmo assim o ar de sensualidade e glamour não lhe abandonava. Seus cabelos feitos fios de ouro estavam trançados em uma única trança que lhe caia sobre os ombros, rebeldes e modernos ao mesmo tempo. Alguns fios caiam sobre seus olhos tão azuis quanto uma safira, cílios longos e lábios avermelhados mesmo sem nenhuma maquiagem. Suas roupas estavam um pouco questionáveis: usava uma camisa de malha cor-de-rosa com mangas longas, estas rasgadas e com fios expostos; seu peitoral era guardado com uma armadura de prata reluzente vinda do arsenal das Amazonas. Ornamentada como se uma dezena de penas de cisne fosse transformada em prata e colocada cuidadosamente em seu dorso, e mesmo riscado por lâminas de batalhas antigas ainda sim era uma peça incrível. Seus ombros protegidos por peças igualmente belas, assim como os cotovelos. Sua saia era de couro escuro e recoberta por retalhos de prata iguais da armadura superior, mesmo que menos detalhados. Os pés protegidos por botas do mesmo material subiam até seus joelhos, os quais eram protegidos por joelheiras prateadas. Na cintura havia um cinto também em couro com uma fivela de ouro representada por um par de louros cruzados e um grande V no centro. Lá estava presa sua bainha com o longo cabo de sua espada e ao lado o longo chicote trançado, presente da própria Hipólita.

Ela ficou se contemplando por um tempo, até que sua visão foi atraída para uma pequena linha de fumaça enevoada cor-de-rosa que subiu, refletida no espelho bem atrás de seu corpo. Bree seguiu até a fumaça e cada vez que se aproximava ela sentia um cheiro familiar e distante, assim como ouvia vozes e músicas igualmente memoráveis.

Atravessou cômodo por cômodo, sendo apresentada a diferentes partes de seu passado conturbado.