A Porta dos Tempos
9 Elric
As luzes de LED das lanternas fizeram a escuridão que permanecia no interior do tempietto se refugiaram nos cantos, entre os pilares que sustentavam o teto nos cantos do local. Em suma, todo o interior parecia bem cuidado, o piso de mármore escuro ainda resguardava o brilho da última limpeza, deixando registrado aos invasores que, ainda havia pessoas que perambulavam por ali. As janelas, assim como do lado exterior, estavam seladas por trancas e cadeados, impedindo que a luz do dia penetrasse o local pelas frestas minimamente fechadas. As paredes todas brancas com pilastras e detalhes azuis transmitia uma tranquilidade ao local, pelo menos era assim que Zolf enxergava as coisas ali. A claraboia no teto estava tampada por lonas escuras, as com uma olhada mais cuidadosa, podia se perceber os entalhes dourados que serviam como vigas entre as partes de vidro do teto.
Enquanto Hysteria se afastava pelos cantos, instalando luminárias de LED nos cantos, Elric inspecionava o sepulcro, passando as mãos enluvadas pela escultura de uma mulher deitada. Zolf se aproximou, agora com as luzes já postas e acesas, ele conseguiu discernir a face entalhada na escultura o semblante tranquilo da mulher.
— Droga! Quando forem fazer esculturas minhas em homenagem a minha morte, trate de não entalharem uma cara de lesado igual à dela. – Dando dois tapas no ombro do amigo, Zolf mantinha o sorriso torto no rosto, mesmo com Elric encarando a face da mulher com tanta seriedade.
— Se concentre nisso aqui, Zolf. – Elric rebateu, encarando o filho de Mercúrio enquanto se afastava.
— Esse é o sepulcro, — Hysteria se aproximava dos dois, como seus habituais movimentos soturnos. – Eles fazem sempre uma escultura da pessoa que enterraram e colocam na tampa do caixão. Zolf consegue abrir sem causar danos à estrutura? – Indagou.
Ele se aproximou mais da grande caixa de mármore e gesso, alisando com a ponta dos dedos o pequeno espaço entre a tampa e o sepulcro em si. Para ele, o sepulcro era algo maior, e estava além daquele espaço redondo e bonito. Aquilo ali era só um caixão chique. – Hm, não vai dar. Provavelmente quando formos puxar a tampa ela vai quebrar em algumas partes, por causa do atrito do gesso... Mas desde quando você se preocupa com a integridade das coisas? – Ponderou o jovem, sorrindo com os olhos os lábios para a garota.
— Chega de brincadeira, Zolf. – Interrompendo mais uma vez, Elric passou pelos dois enquanto se posicionava para empurrar a tampa do sepulcro. – E me ajude com isso aqui.
Zolf se posicionou com as mãos sobre a superfície fria de gesso e quando Elric deu o sinal, flexionou um dos joelhos enquanto o outro se esticou ao máximo para trás, era mais pesado do que parecia. Zolf nunca apostou na força, até porque nunca teve muita. Mas sua agilidade sempre compensou essa modalidade, era mais rápido e flexível que a maioria dos inimigos que já enfrentou. Era dois palmos mais alto que Elric, e mais magro também, graças aos treinamentos diários. Ele podia bem ser um atleta olímpico, ao invés de um mercenário Casanova. O esforço dos dois juntos não deu em nada, a tampa mal se moveu centímetros para trás. Elric se afastou já irritado. Ele odiava desperdiçar tempo. Ele desembainhou seu gládio, Fúria, o filho de Belona lançou a lâmina para o alto que ao seu comando, se transformou em um martelo de guerra, com a cabeça em forma de um dragão oriental.
— Sai. – Ele disse, quando apanhou a arma no ar e a ergueu para atrás da cabeça. Zolf obedeceu ao comando se afastando ao mesmo tempo em que o aço do martelo atingia a escultura de mármore a dividindo no meio e vário fragmento.
— Me ajude a limpar isso aqui. – Zolf retirava os escombros jogando os para trás do ombro.
— Zolf se você me acertar, eu vou aí, e quebro a sua cara! – Hysteria ameaçava-o com sua foice já em mãos, afastando os pedaços de gessos com a lâmina.
— Se você ajudasse aqui, Hyst, não teria esse perigo.
— Estou cuidando da retaguarda, caso aconteça algo, filho de Mercúrio. – Ela sorriu.
Finalizando a limpeza, Zolf encontrou um velho lençol branco onde, provavelmente estava o cadáver da tal “Heroína dos dois mundos”. Estavam perto de achar.
— Zolf, espere! – Elric gritou, arrancando o lençol branco do caixão, se afastando. Zolf fez o mesmo. – Heróis romanos não são enterrados. – Ele olhou para Hysteria, como se estivesse procurando a resposta nela.
Zolf também a encarava, ninguém entendia mais de morte e suas bizarrices que Hysteria Hawkeye.
— Eles são cremados em piras. O sepulcro deveria estar vazio, ou só com as anotações de Daedalos. Cuidado agora.
Elric se aproximou novamente, agora, Fúria já tinha retornado a ser um gládio novamente. Zolf deixou as mãos livres próximas ao seu cinto de lâminas, se aproximando com a cabeça formigando de ansiedade.
O que se levantou não era nada parecido com um cadáver.
Era algo muito rápido para ser registrado até pelos olhos de Zolf. Sua mão agarrou Elric pelo pescoço o jogando no outra parede, fazendo seu corpo colidir com um quadro de Garibaldi. O adversário se levantou, revelando seu corpo todo vestido de aço laminado. O autômano não possuía feições na cabeça, seu corpo era de um aço liso, diferente de tudo que Zolf já tinha visto. Estava mais para um androide, talvez seja assim que os novos autômanos devam ser chamados. Quando ele saiu do sepulcro, destruiu metade do caixão de mármore, e se colocou sobre os escombros, enquanto parecia estudar Hysteria e Zolf.
Então ele avançou.
Seu primeiro alvo era Zolf. Ele avançou com as mãos abertas, como para que se fosse agarrar algo. Zolf, ágil como sempre, ele se abaixou, fazendo o autômano agarrar o ar. Mas ele também era desenvolto, e quando percebeu a esquiva do adversário, ergueu o joelho para mais um golpe. Zolf defendeu, colocando os braços cruzados a frente para impedir o golpe. Mais outra joelhada. A força das pernas do autômano fez o filho de Mercúrio cair no chão para trás. O Androide se levantou unindo os dois punhos no alto para mais um ataque. Mas antes que ele pudesse fazer algo, Hysteria o fez recuar, quando girou a lâmina curva de sua foice de forma ameaçadora. Elric já havia retornado ao combate, e quando Zolf deu por si, ele estava o ajudando a se levantar.
— O que isso tá fazendo aqui? Será que Daedalos deixou aqui para proteger os manuscritos? – Hysteria perguntou, recuando para o lado de Elric.
— Está muito tecnológico para ser algo de Daedalos. E outra, não estou vendo manuscritos nenhum, vocês estão? – Ponderou Elric.
— Não. – responderam em uníssono.
— Pois é. Garrie nos deve umas respostas e um extra.
O vidro da claraboia se partiu como uma chuva de pequenos cristais, que reluziam quando capturavam as luzes de LED que permaneciam nos cantos do local. De lá, mais três autômanos saíram, aterrissando no chão, ao lado de seu já conhecido amigo. A porta de entrada que estava atrás dos três semideuses, se partiu com um único golpe, dando passagem para mais um autômano, esse desejava uma atenção redobrada.
Eles se viraram para encarar a ameaça que os cercavam agora.
— Ótimo, olha só o tamanho disso aí! – Zolf reclamou, puxando seu chicote do cinto.
O autômano possuía no mínimo uns dois metros de altura, seu corpo era largo como o peitoral de um gorila. Seus braços eram mais longos que o necessário assim como seu ombro, o que fazia os ombros da criatura serem curvados para baixo.
Ele partiu para cima dos três, assim como o resto dos outros autômanos, fazendo eles se separarem. Enquanto Elric e Hysteria lutavam com um par de androides, cada um, Zolf se esquivava dos golpes lentos, porém fatais do super-autômano.
O espaço dentro do tempietto era pequeno e recluso demais para o que a batalha exigia. Logo a batalha se estendeu para o lado externo, quando Hysteria foi arremessada para o jardim pelos dois androides que enfrentava. Elric permanecia em uma luta quase que equilibrada, Fúria agora eram duas lâminas que impediam os golpes dos androides em movimentos sucessivos.
Zolf arremessava suas lâminas com perícia, mas elas faziam menos que arranhões no grande autômano. Quando ele ergueu o braço para mais um ataque fulminante, Zolf avançou ágil a procura de uma brecha ou uma falha na armadura, mas não encontrou nada, quando o golpe veio, ele recuou novamente, curvando as costas para trás em um salto, pousando com as palmas estendias no chão e os pés para o alto. Outro soco. Zolf se movia com a maior agilidade que podia, era quase como uma dança, onde se ele fosse acertado, as chances de se levantar eram quase nulas. Quando o grande corpanzil do adversário avançou mais uma vez, o filho de Mercúrio curvou o corpo para o lado, indo para trás da criatura. Com seu chicote em mãos, ele arremessou, fazendo a ponta da arma de couro trançado se enrolar no pescoço. O autômano se virou puxando com apenas um braço o chicote para si, trazendo consigo Zolf que perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Com uma força sobre-humana, o autômano desceu o pé sobre o braço de Zolf, para que ele soltasse o chicote. Em resposta, ele gritou de dor, sentindo o braço formigar com peso do aço sobre si.
— Zolf! – Elric correu na direção em sua direção, trazendo em seu encalço um dos autômanos, já que o outro permanecia no chão inerte, com seu tronco partido em dois.
— Ele é meu! – Zolf gritou em protesto. Não queria ser salvo. Ele poderia muito bem acabar com aquele monte de lata.
Em resposta Elric agarrou o chicote com a mão direita, enquanto com a esquerda segurava Fúria que agora se apresentava como um machado de dois gumes. O filho de Belona enterrou o machado no peito do autômano, fazendo-o recurar um passo com a força de seu golpe. Agora com as mãos livres, ele o chicote com ambas, puxando-o para si e curvando o corpo, para fazer os dois autômanos se chocarem. O menor com quem ele lutava antes foi arrebatado com a força do impacto sendo jogado para cima de onde uma vez esteve o sepulcro.
Zolf agora livre rolou para o canto do tempietto, examinando a região onde o androide pisou, percebendo a contusão que ganhava um aspecto arroxeado. Está quebrado, concluiu. Enquanto Elric resgatava Fúria do peito de aço do adversário e se esquivava dos golpes mortais do mesmo, Zolf caminhou até onde jazia o primeiro autômano destruído pelo filho de Belona, pegou uma das partes do material que pertencia à perna do androide e usou como tala para o braço, firmando-o com tiras do pano de sua camiseta. Suas habilidades consistiam em uma rápida regeneração, ainda mais em campo de batalha. Logo seu braço estaria melhor, não curado, mas pelo menos iria se livrar daquela dor nauseante.
Ele circulou as paredes, passando pela porta, pode ver Hysteria finalizando o último autômano, com um o auxilio de sua foice e um esqueleto que vestia a armadura das antigas legiões romanas. Mas o androide se esquivou, empurrando Hysteria para trás, ele saltou um dos bancos de concreto do jardim e fugiu, fazendo a curva da capela e desparecendo entre a construção.
— Ele está com os manuscritos! – Hysteria gritou lá de fora, com o peito arfante. – Está dentro dele!
— Zolf, você é o mais rápido. Vai atrás dele! – Elric comandou, enquanto desmembrava um dos braços do autômano com o machado na mão direita.
Zolf assentiu, iniciando uma corrida para fora do tempietto, com poucos passos já estava fora do jardim e desenhava a esquina da capela, indo em direção a fonte em frente a igreja. Seu braço ainda doía, mas permanecia imobilizado pelas partes de ferro que furtou do autômano derrotado. Ele subiu a mureta da fonte, dando um salto com o impulso da altura, pequenas asas se materializaram nos calcanhares de sua bota, fazendo-o planar no alto enquanto seguia de lá, o possível trajeto que o autômano fez em sua fuga. Só havia duas saídas da colina, e Zolf podia apostar sua parte do trabalho que o fugitivo escolheu aquele. Era o mais provável para um ladrão.
E de ladinos, ele entendia.
Passou grande parte de sua infância e juventude vivendo de furtos e roubos em lojas. Em poucos anos de idade, já tinha sido preso, mesmo vivendo em um orfanato. Quando foi levado para o internato, para futuros jovens da infantaria armada italiana, Zolf fugiu de lá, preferindo a liberdade da rua a a vida de um homem fardado. Quando conheceu os trabalhos mercenários e sua verdadeira história, decidiu dar um novo rumo para sua vida, viajando de Florença para Roma, onde encontrou Elric e descobriu mais de si mesmo, e podendo dar para si todo o luxo que nunca teve na vida.
— Zolf, consegue me ouvir?— Já tinha se esquecido do headset preso em sua orelha direita, quando Elric o chamou.
— Estou procurando ele por cima, mas o desgraçado desapareceu— respondeu Zolf.
— Droga! Você está voando?!— Hysteria o repreendeu, com um risinho no final. — Vai chamar muita atenção, idiota.
— Não teria como eu procurar ele pelo chão, além do mais, estou seguindo rumo ao norte da colina. Algo me diz que ele está por aqui.
— Estamos indo para aí.— Elric replicou, finalizando a comunicação.
Zolf continuava sua patrulha pelos arredores da cidade, a fadiga da luta e o uso de seus poderes exigiam seu preço agora, fazendo o filho de Mercúrio continuar sua busca pelo chão. Quando desceu o lado oposto da entrada da cidade, se deu ao encontro de um morro além da encosta da colina, que se erguia com campos verdes e uma vegetação rica mesmo para o interior de Roma.
Aos passos que subia até o cume do morre, Zolf se entregou ao cansaço, caindo de joelho na grama para recuperar o fôlego e as energias. Suas orelhas formigavam ao som de passos na grama, fazendo toda a vegetação em sua volta se mexer. Quando se levantou mais uma vez, estava cercado por não menos que meia-dúzia de autômanos, liderados por aquele que, segundo Hysteria, possuía os manuscritos de Daedalos. Zolf cerrou os punhos, pressentindo o combate que iria se seguir.
Quando os autômanos ergueram suas próprias armas, o headset na orelha do semideus ganhou vida com a voz de Hysteria:
— Zolf, o encontrou?
— Na verdade – comentou, erguendo as mãos em rendição. – Eles que me encontraram.
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