A Polísfetrin & O Sequestro da Chave
5 Capítulo 4
Nicollie
12 horas antes …
Aos 9 anos íamos diariamente à lanchonete Miles, no lado da minha escola. Nessa idade eu era extremamente comunicativa, puxava assunto com qualquer um que sentasse do meu lado, ou me desse um bom dia. E assim conheci meu amigo Will, dono da lanchonete, ele tinha dado o nome do único filho à sua lanchonete, mas eu não conseguia entender, então acha engraçado que o filho dele fosse o nome de uma lanchonete e então iniciou-se nossa amizade. Will era um senhor de idade e muito brincalhão, ficávamos jogando palavras-cruzadas enquanto eu tomava meu leite e comia o Especial da Nic, um sanduíche que ele fez especialmente para mim.
No dia que a chacina ocorreu o colégio foi evacuado pelos fundos, porém todo o quarteirão estava rodeado de policiais, eu sabia que tinha acontecido algo ruim. Já próximo ao nosso carro ouvi um policial dizer que o dono do Miles havia sido morto ao tentar escapar, soltei a mão da minha mãe e sai correndo em direção ao Miles, gritando por Will e me esquivando dos policiais que tentavam me segurar, antes de chegar perto fui puxada por um deles mas não antes de conseguir ver parte das janelas de vidros tingidas de sangue.
Meses, após meses se passaram e isso ainda me assombrava, além da nossa mudança repentina que também não me ajudou, por algum motivo fiquei menos extrovertida e a adaptação foi bem mais difícil do que costumava ser. E então mais mortes nos noticiários. Fomos engolidos por dias em hotéis e novas cidades, até pararmos em Jequié uma cidade pequena da Bahia e 9 meses após a Sra. Beth, que sempre me dava balas quando a encontrávamos no elevador, morreu. Tiros, poças de sangue. Viajem, cidade nova, pessoas novas. Ausência do tio Állex.
Eu era só uma criança, aquilo destruiu meu emocional. Contudo, dias após nós nos estalarmos tio Állex voltou, e com Sophia no colo. Ter os dois conosco, me fez bem. Me fez voltar a ser quem eu era novamente, e apesar dos “apesares” nossa vida ficou bem mais estável.
Agora cá estou, descobrindo que essa estabilidade só existiu para mim.
Enquanto minha mãe e meu tio eram atingidos por estilhaços da explosão – causada pela minha existência – eu ia a escola.
—Vamos com calma. Ok? – mamãe pede – Sente-se ai.
Eu me sento aonde estava anteriormente, e ela faz o mesmo.
— Nós fazemos parte de uma seleta parte da população que compõe alguns grupos com… – seguiu-se uma longa pausa, e então continua: – Certos poderes, digamos.
Eu não esperava isso.
— Somos divididos por clãs, divisão que se dá quando você passa pela Alteração. – ela me encara talvez esperando algum comentário, mas me mantive calada – Alteração é um processo intenso que te força a florescer seus poderes e define qual é seu clã. Isso ocorre aos 18 anos quando suas Energias começarem a surgir.
Aquilo estava ficando bem interessante.
— E onde acontece esse tal processo? – perguntei curiosa.
— Nós só saberemos quando chegar o dia. A primeira etapa de todo esse processo só condiz ao governo sabe-lo, já a segunda etapa é exposta aos clãs e é quando se descobre a qual você pertencerá.
— Preciso ter medo dessa Alteração?
Minha mãe ia responder, mas tio Állex a interrompeu rapidamente.
— Não. – disse. – Não é preciso.
Sim, era preciso.
— E sobre Charlie, o que necessário saber?
Depois de longas expirações e respirações, ela responde:
— Minha mãe conheceu Charlie em um restaurante, ela era uma garçonete e ele apenas um cliente que comprava dezenas de cafés para continuar observando-a trabalhar, e não demorou muito para que ela se apaixonasse pelo cara dos cafés. Meses depois, ela descobriu que estava grávida de Jack e eles foram morar juntos, e então veio o Állex, depois eu. Mas a muito tempo Charlie estava estranho, simplesmente sumia e voltava após dias como se nada tivesse acontecido. Tornou-se agressivo, e pouco a pouco foi deixando se ser o pai que conhecíamos. – ela fez uma pausa, como se aquela lembrança estivesse mais viva do que gostaria e então prosseguiu: – Um amigo do papai faleceu em um ataque que a Rainha Marie ordenou contra a vila próxima à que morávamos, achava-se que eles faziam parte de uma rede terrorista e mataram todos, e Charlie conseguiu salvar apenas a Anny, e a levou para morar conosco.
Um tio chamado Jack.
Tia Anny na verdade não é minha tia.
A maldição de sangue, mortes e destruição já é de família.
A necessidade que sentia de saber minha verdadeira história era instigante, eu queria ouvir mais. Contudo, não sendo hipócrita, aquilo estava mexendo com meu psicológico, o desejo e situações de revolta prefiguram-se como relâmpago em minha mente vez ou outra.
Me centrei na voz da minha mãe que continuava a contar, e repeti a mim mesma que ninguém era culpado até que eu soubesse a história toda, sendo assim não havia motivos para inquietação. Isso talvez servisse como autoajuda por um tempo.
— E então veio o estopim de todo seu furor. O segundo ataque, porém, dessa vez ocorreu na nossa aldeia, em poucos minutos toda aldeia estava pegando fogo, e vários homens do exército degolavam de crianças a velhos. Charlie salvou minha mãe e Anny tirando-as da aldeia a tempo, Állex e eu ficamos escondidos, porém Jack não conseguiu se salvar, eles o mataram. – a dor de relembrar tudo era visível em seu rosto, eu queria dizer para ela parar, nitidamente não fazia bem para ela, mas antes que eu pudesse falar algo, ela continuou: – Jack e Anny eram os xodós de Charlie, então quando conseguiu voltar para nos buscar e o viu no chão degolado, ele desmoronou. Állex e eu continuamos escondidos por um tempo, vendo-o por uma fresta chorar abraçado ao corpo sem vida e quando enfim tudo acabou, saímos. Ao nos ver sua tristeza em questão de segundos tornou-se em ódio, jogava-nos contra a parede e nos culpando, chegou até a dizer que nós que deveríamos ter morrido ao invés de Jack.
Lágrimas antes reprimidas agora desciam discretamente por seu rosto, tudo isso com certeza foi um trauma para os dois. Eu não precisava de mais para saber que esse cara definitivamente era um monstro.
Mamãe continua:
— Após isso ele aliou-se à uma rede extremista de seu clã e anos depois chegou...
— Helicópteros! – tio Állex praticamente gritou. – Levantem-se, precisamos sair daqui. Agora!
Não havia sons de helicópteros se aproximando, então continuei sentada sem entender nada.
Mas poucos segundos depois ouço longe o som avassalador de hélices rugindo sobre a mata. Um desespero enorme tomou conta de mim, não consegui reagir. Continuei sentada até ser puxada pelo braço por alguém.
Mais uma vez precisávamos fugir.
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