Nicollie

Desespero.

Meu corpo treme, meus músculos rejeitam qualquer comando delegado pelo cérebro. O espaço-tempo de alguma forma está confuso, as vozes distantes, os sentidos perdidos, navegando sem conexão pelo meu psicológico. Em qualquer refúgio mental meu verdadeiro eu estava consciente, extraviado de emoções.

— Nic! Nic! Nic! – minha mãe grita puxando-me pelo braço, mas tudo está desorientado. Meu cérebro demora a interpretar toda a situação e mesmo assim não faz sentido. É como ver um filme com a legenda dessincronizada.

A sala daquela casa toda empoeirada estava ficando para trás, os móveis de traços rústicos saíam do meu campo de visão. Era bem aconchegante para uma casa abandonada.

— Nic! – é a voz da minha mãe, eu conheço. – Nicolie!

Quadros nas paredes. Lareira. Vasos. Muitos vasos de vidro colorido. Tem um azul, gosto de azul. Porta-retratos. Onde estão as fotos?

— Filha, por favor, eu te imploro. – Mãe. – Nicolie!

Uma ardência excruciante na maça do meu rosto me traz à tona novamente em modo instintivo. Meus braços socam desesperadamente a direção da onde veio o tapa, sem sucesso.

— Desculpa, desculpa filha. – minha mãe diz ainda desviando das minhas investidas. – Eu precisei. – ela diz e em um movimento rápido prende minhas mãos ao meu próprio corpo me obrigando a se acalmar.

Minha consciência está no lugar, eu consigo sentir e entender tudo que vejo.

A legenda está sincronizada.

— Se concentre no som da minha voz, Nicolie! – diz apressada.

— Eu estou bem mãe. Eu estou bem. Desculpe eu não sei o que aconteceu. – respondi atordoada ainda. Minha bochecha ardia.

— A senha! A senha Alice! Precisa de senha. – tio Alex grita de outro cômodo.

Corremos em direção a voz. Tio Alex empurra freneticamente a porta sua frente, frustrado. Sophia está visivelmente amedrontada agarrada às pernas do pai. A cena corta meu coração, era tudo por minha causa, toda essa situação que minha família está, o problema sou eu. Quis do fundo meu ser encontrar uma forma de ajudá-los, mas eu não sabia como. Aliás, quem era, de verdade, Nicolie? Como poderia eu ajuda-los sem ao menos saber minha história, minha realidade?!

O ruído exterior a casa é ensurdecedor. Helicópteros aos montes parecem estar a poucos metros distância do telhado da casa, gritos aparentemente de ordem eram desferidos a cada golpe que a porta da frente recebia. O som de metal contra metal causa um desconforto horrível nos ouvidos.

Sophia agora chora, tio Alex está apavorado, não sabe se a acalma ou continua a chutar a porta. Minha mãe pressiona as teclas em painel ao lado da porta, enquanto repete para si mesma:

— 05... C....R87T.... Q. – O bip soa, errado mais uma vez. – Não está dando certo!

— Qual é o código da central de Nova York? – meu tio pergunta. – Se não me engano é um código padrão.

— Isso! Se minhas digitais não tiverem sido tiradas do sistema posso abrir com o código padrão. – ela tenta, o bip soa, um click metálico soa baixo e a porta se abre. – Conseguimos! – mamãe vibra, e sorri por alguns segundos. É bom ver.

Um estrondo rompe o ar, a porta da frente foi aberta. Um alarme junta-se à sinfonia apavorante de todo cenário.

— Pega! – mamãe joga uma arma para tio Alex, saca duas da cintura antes cobertas pelo suéter.

— Onde conseguiu isso? – tio Alex pergunta, tão perplexo quanto eu. Mas aparentemente ele falava do modelo da arma pois mostra em seguida uma que já está em sua cintura.

— Para de perguntar e me segue! – mamãe espera que todos passem e então fecha a porta atrás de si. – Isso vai atrasa-los por um tempo, desça as escadas! – o local era bem escuro, conseguíamos enxergar a silhuetas das coisas por um facho de luz que saia de algum lugar acima de nós. Descemos alguns lances de escadas que certamente dariam para um porão.

— Alice aonde fica a entrada para os atalhos? – tio Alex grita.

A porta acima de nós é chutada incessantemente.

— Um barril. Procure um barril. – minha mãe está ao pé da escada ainda com a arma em punho, olhando fixamente para a porta pela qual entramos.

— Alice! Achei. – tio Alex grita, e arrasta algo mais à frente.

Assim que o barril é arrastado para o lado, uma luz azulada surge no chão. Tio Alex instantemente abraça-se a Sophia e pula, desaparecendo chão abaixo. Minha mãe, agora já atrás de mim, faz sinal com a mão para que eu repita o ato, e sem pensar o faço. A queda dura cerca de 5 segundos, o suficiente para eu perceber que não parecia literalmente uma queda. Eu estava flutuando! De alguma forma, totalmente estranha e desconhecida por mim, eu estava flutuando rumo ao chão, eu sentia a gravidade suavemente puxando me ao chão.

— E qual túnel que leva para mais longe daqui? – ouço tio perguntar, me viro procurando, mas outra voz que o responde:

— Állex precisamos seguir o plano que combinamos com Anny. Iremos para Salvador. – a voz quase fantasmagórica da minha mãe ecoa atrás de mim. Mas não consigo vê-la. Sequer tinha sentido ou visto sua chegada. Os sentidos ali ficavam meio alheios.

— Ah, claro! Porque agora a gente confia nel...

— Sem conversa Állex, iremos para o local combinado. E por favor pare com essas suposições sem fundamentos. – ela diz rígida. Poucas vezes havia escutado aquele tom de voz. – Terceiro túnel a esquerda irá nos direcionar para o nordeste, mas ainda precisamos de nossas Energias.

— Minhas Energias estão poucas Alice, não sei se é suficiente. – tio Alex expressa em sua voz um medo quase imperceptível.

Mamãe ignora o que é dito por ele e continua nos conduzindo para o tal túnel que magicamente irá nos levar direto para Salvador.

A nevoa azulada continua por todo percurso, é necessário esforço para conseguir visualizar o caminho a frente. Todo aquele ambiente, trazia à tona um ar de suspense e medo, eu quase conseguir me sentir em um filme de terror.

Esse pensamento instantaneamente faz com que meus músculos se movimentem para ficar na defensiva. Isso é ilariamente ridículo!

— É aqui! – ela diz, e em seguida pega Sophia do colo do tio Állex e me entrega. – Állex concentre-se. Empenhe-se ao máximo, por favor. Precisamos de você.

Como uma criança assustada ele assente com a cabeça e segura nas mãos dela.

— Entrem aqui no meio. – ela diz um pouco atemorizada. – Eles estão perto, posso senti. – mamãe sussurra, quase que para ela mesma, alto o suficiente para que à sua frente eu escute. – Agora!

— Não consigo Alice.

— Agora Állex!

Um tiro estrondoso ecoa pelos túneis. Um grito grave tange logo após sermos envolvidos pelo frio gélido do enigmático teletransportador.

Tio Állex foi atingido.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.