Alice

1 dia antes …

Observei por um instante a entrada.

Uma pequena brecha de aço no encosto de uma montanha, dona de quase todas lembranças boas que eu possuía da melhor época da minha vida. O local que eu sempre procurava refúgio nos braços de quem era minha proteção. Por ironia do destino talvez, mais uma vez eu estava aqui buscando pelo mesmo de antes, salvação. Dessa vez, do meu próprio salvador.

Afastei os galhos de uma árvore que estavam próximo reconhecedor facial e ao escutar o bipe do aparelho indicando que o aceso havia sido permitido, apontei para que Àllex entrasse primeiro enquanto eu fazia a cobertura. Ele assentiu e entrou segurando Sophia pela mão, e foi seguido posteriormente por Nicollie.

Desde que saímos, Nic não havia falado nada. E, apesar de ter sentido medo emanando do seu corpo por um tempo durante a viagem, sabia que naquele momento ela estava apenas confusa. Isso sinceramente me preocupava, por que não queria despejar toda verdade em cima dela, mas não podia simplesmente contar meias-verdades. Não parecia – não era – certo.

Todos estavam sentados no chão olhando para o nada, calados. Sophia estava com os olhos fechados agarrada à Àllex e de longe podia sentir seu medo, infelizmente ela havia caído no meio disso tudo sem que pedisse, e a culpa era minha por ter envolvido meu irmão em algo que era especialmente meu dever, sugando toda oportunidade que ele já teve de lutar por sua família, um por seu lar e por sua felicidade. Mesmo isso tudo seria pouco diante de tudo que ele merecia – me condenava por isso.

Agachei-me perto de Sophia.

— Ei – a chamei.

Ela relutou um pouco antes abrir os olhos para me olhar.

— Não precisa ficar com medo – ela abaixou os olhos, continuei – A tia não vai deixar nada acontecer com você. Nem seu pai.

Ela assentiu.

Sabia que minhas palavras não seriam suficiente, nem o abraço apertado do pai. O medo persistia.

Apesar de querer muito, não poderia transmutar seus sentimentos. Àllex estava fraco, eu sabia, e sozinha teria de usar muito da minha energia para reativar o túnel. Só havia uma saída.

Coloquei minhas mãos sobre os braços pequenos da minha sobrinha e com um pouco de dificuldade – por falta de prática, talvez – comecei sugar o medo contido em sua alma naquele momento. Fiz isso poucas vezes, e… AH! Como doía!

A dor demorava por alguns segundos, contudo, mais pareciam uma eternidade. Depois que a dor passava o aperto no coração era um sinal de que o sentimento estava em mim. Soltei o braço dela, e pude sentir o medo que outrora estava a perturbando circulando por meu corpo, misturando-se ao meu. Comparado ao que já senti antes, era pouco. Conseguiria me controlar.

Sophia me olhava sem entender o que havia acabado de acontecer, mas a expressão de Àllex era de gratidão e aquilo seria suficiente para mim.

Me sentei no chão, respirando fundo enquanto passava os olhos sob o cômodo. Uma fina camada de poeira cobria toda a mobília – um sofá, três quadros espalhados pelas paredes, e um rack pequeno. Carlos devia ter passado ali desde a última vez que estivemos lá, isso explicaria a ausência dos outros moveis. Continuei observando os estilhaços de vidro que restavam pelo chão, até sentir que era observada.

— Por favor, preciso de uma explicação – ela disse em um tom de suplica, o que cortou meu coração.

— Sinceramente, não sei por onde começar – confessei.

— Mãe, tudo tem um início. – disse calmamente. – Pode começar por lá.

Suspirei frustrada.

Eu estava com medo, e aquilo era tão raro para mim que me deixava desorientada.

Olhei para Àllex em busca de ajuda, mas seu olhar era um explícito: “você explica”.

— Primeiro… – disse, analisando bem por onde deveria começar. — Você deve saber que escondemos tudo de você para deixar que vivesse uma vida tranquila enquanto crescia. Nunca pensamos que você saberia a verdade dessa forma, apesar de não termos planejado esse momento. Por receio, talvez. – admiti. – Segundo… – empaquei de novo.

Não sabia – ou não queria continuar. Ela já tinha ligado os pontos, suspeitava da verdade. Contudo, ouvir que o próprio pai a queria morta em voz alta era doloroso. Eu sabia, por experiência própria, a dor era dilacerante.

— Ele é meu pai, não é? – perguntou, me olhando fixamente.

— Sim…

Seu olhar pendeu ao chão, por alguns instantes. E então, continuou:

— O que o motiva a me querer… — ela parou, provavelmente pensando se queria prosseguir com a frase, e então emendou – Você sabe… morta.— finalizou, mostrando desdém ao pronunciar esta última palavra.

— Não sei – pensei alto.

E era verdade, não sabia como aquilo chegou a ser o que era no momento. Queria poder ter conversado com ele antes, fazê-lo me explicar o porquê. Mas no final, acabei acatando a explicação da Rainha Marie para proteger minha filha dele.

— Poder. – o som grave da voz de Àllex ecoou pela primeira vez.

— Carlos acreditava que nosso povo não o queria no trono. Com seu nascimento você entraria na linhagem de sucessão ao trono, isso de alguma forma afetou seu ego e o cegou. Ele começou a cogitar uma aliança com Charles Winter, nosso pai.

— Charles Winter, o terrorista? – ela me encarou boquiaberta – Meu Deus, isso fica cada vez mais louco!

Anos atrás após Charles descobrir nossa localização, ele enviou um de seus subservientes a uma lanchonete próxima à escola de Nicollie e como um explícito recado de que estava nos observando, ordenou uma chacina no local, 17 mortos. Assim como nas outras duas cidades que passamos: Posto de gasolina próximo ao trabalho de Állex, 5 mortos e 1 sobrevivente com 35% do corpo com queimaduras de 2º grau; O casal de idosos, Sr. Daniel e Sra. Beth, vizinhos ao nosso apartamento mortos com tiros à queima-roupa a menos de 4 metros da nossa casa. Charles assumiu todos em um vídeo que rodou por vários canais televisivos na época, mas nunca foi encontrado.

O objetivo era fazer-nos se sentir culpados pela morte de todos aqueles inocentes e entregarmos Nicollie, e conseguiu me fazer cogitar diversos planos para parar com as mortes. Contudo, sendo uma decisão egoísta ou não, jamais entregaria minha filha para o que quer que fosse o plano deles, então nos escondemos mais uma vez dessa vez com ajuda da Rainha Marie que nos manteve sob sua proteção desde então.

Nicollie apesar de nova, entendia as coisas com muita facilidade e ficou abismada e traumatizada por meses com toda situação e todas as mortes – que estavam em todos os jornais locais – nos circundando.

E como se estivesse lendo minha mente, ela pergunta:

— As mortes na lanchonete… Lembro dele nos noticiários! Por quê? – ela pergunta perplexa ao se levantar. – Oh! Ele as matou por minha causa?

— Não foi sua culpa, filha. – disse ao levantar, caminhando até ela. – Ei, olhe pra mim – levantei seu queixo para que seus olhos encarasse – Ninguém, além de Charles, é culpado pela morte de todas aquelas pessoas. Entendeu?

— Isso funcionou para você se sentir menos culpada? – ela perguntou, o tom da sua voz foi tão ácido que uma facada doeria menos do que ouvir aquilo vindo dela. – Olha, não estou os culpando por isso. Faria o mesmo por qualquer um de vocês. Mas não pretendo deixar isso acontecer novamente, então quero que fique claro – ela me encarou, depois olhou para trás de mim, para se certificar de que Állex também estava a ouvindo – Se for necessário eu me entregar para que ninguém inocente sofra por minha causa, seja vocês ou um desconhecido na rua, irei me entregar.

Discutir uma possível mudança de opinião com ela geraria mais complicações, então simplesmente assenti com a cabeça. Depois de ser tão privada das minhas vontades por tantas pessoas que me consideravam incapaz de tomar o controle da situação acabei por prometer a mim mesma que jamais ousaria fazer interferência em decisões tomadas por mentes sãs. Não que isso seria fácil, Nic é a única coisa que eu tenho de mais precioso, realmente não sei como viveria se ela me fosse arrancada.

— Mãe, o que mais preciso saber sobre ele, ou sei lá… nossa família em geral?

— Acredito que depois de toda essa situação, que não seria necessária se estivéssemos cercados por sinceridade, seria bom ela saber de tudo, Alice. – ele disse. – Desde o inicio.