A Pessoa Errada é a Certa
1 Capítulo Único
O ser humano nasceu para se ferrar, só pode!
Não falo isso por maldade, certamente, mas é que... caramba, é muito frustrante o simples ato de existir em alguns dias.
— Burro, burro, burro! Você é burro, Jungkook! — É o que esbravejo comigo mesmo, vendo meu semblante terrível na frente do espelho.
Eu cometi um grande erro noite passada.
Eu tinha um plano que tinha tudo para dar certo, tudo mesmo, exceto um ponto nele: eu.
Eu sou todo bobinho por um garoto da faculdade, que é popular inclusive, e noite passada eu vi uma foto nas suas redes sociais onde ele estava com o braço ao redor da cintura de Park Jimin – um homem lindo, inclusive, devo admitir. E aí o que houve? Eu fiquei morrendo de ciúmes daquela foto, e decidi que precisava me declarar antes que acabasse ficando para trás de vez.
Para criar coragem, eu peguei algumas garrafas de cerveja, pensando que o álcool certamente me ajudaria. Tudo para dar... errado.
Porque sim, me deu coragem de ligar, e eu me declarei bonito, até chorei.
"Eu sei que você talvez não sinta o mesmo, e está tudo bem, mas eu precisava dizer que eu sou muito afim de você tem um bom tempo e eu gostaria de uma chance, se também quiser..."
Burro, burro, burro.
Porque eu me declarei para quem?
É, para Park Jimin. E eu só percebi quando ele me respondeu, porque vi que a voz era diferente.
"Poxa, Jungkookie, eu espero para ouvir isso há tanto tempo... se você realmente sente isso por mim, você tem todas as chances que quiser, bebê."
E sabe o que é o pior? É que eu nunca vi Jimin desse jeito. Eu o acho lindo? Acho. Eu o acho um amor e adoro conversar os mais diversos assuntos com ele? Acho. Só que... eu não queria me declarar para ele. Eu queria me declarar para Jung Minwoo!
— Eu não acredito que eu fiz isso. — Resmungo de novo comigo mesmo.
Sério, é inexplicável dizer o que estou sentindo diante tamanha vergonha. Como eu vou olhar para o Jimin agora? E o pior: como eu vou desmentir essa história? Como eu vou dizer para ele que fiz besteira e na verdade queria me declarar para outra pessoa?
Quando Yoongi, meu melhor amigo, chega em minha casa e eu o conto o que fiz, ele passa ao menos vinte minutos rindo de mim como se eu fosse um verdadeiro palhaço. E eu sinto tanta raiva, que tenho vontade de chorar de ódio por passar por uma situação como essa.
Seria cômico se não fosse trágico, poxa.
— É sério, hyung, o que eu faço agora? — Murmuro, cansado do som da sua risada já.
Mentira, eu amo ouvi-lo rir, mas... cacete!
— Você tem duas opções: a primeira é contar a ele a verdade, a segunda é aproveitar a oportunidade. Você sabe que Minwoo não está interessado em você, então por que não tentar com alguém que o quer? — Yoongi diz, e até que soa inteligente. — Jimin é uma pessoa incrível, ele faz você rir com facilidade mesmo quando vocês conversam aleatoriedades bobas de dia a dia. Eu tenho certeza de que não é difícil se apaixonar por ele.
Min Yoongi é um romântico incurável. E eu adoro ver seu jeito para falar sobre o amor, porque é muito bonito e faz parecer que todo mundo será capaz de viver um romance de livro, sabe? Eu não acredito tanto assim, mas adoro ver o seu entusiasmo. Yoongi se casou com vinte e um anos, oito anos atrás, e segue firme e forte com Kim Taehyung – que se casou aos dezoito anos e faz faculdade comigo.
— Talvez isso não seja uma má ideia. — Escolho dizer a ele. — Espero que esteja certo Yoonnie.
— Eu quase sempre estou. — Ele ri. — Agora, vou fazer um chá para ajudar nessa sua ressaca, ok? Depois o Tae vem e traz o almoço para nós dois.
— Já disse que vocês são os melhores?
— Já, mas pode dizer de novo. — Ele sorri para mim.
Nossa, como eu amo Min Yoongi.
○ ○ ○ ○ ○ ○
Na segunda-feira seguinte, ao chegar na faculdade, eu queria sumir do planeta. Pensava que todos que estavam me olhando, é porque sabiam o erro que eu tinha cometido e estavam silenciosamente me julgando pelo meu feito ridículo. Mas tinha um olhar específico do qual eu queria fugir e o armário dele, infelizmente, é ao lado do meu.
Eu sei que conversei sobre isso com Yoongi, sobre dar uma chance a um amor que pode ser incrível e memorável, mas é muito difícil me desprender de uma paixão boba que mantive comigo por tantos meses. Minwoo não sente nada por mim e nunca vai sentir, isso é fato, mas eu alimentei esperanças por bastante tempo e não consigo simplesmente virar essa chave sem mais nem menos. É difícil.
— Bom dia, Jungkookie. — Ouço a voz doce de Jimin ao meu lado e sei que ele está tímido mesmo sem eu o encarar. — Dormiu bem?
Ao ouvi-lo, percebo o quão bem essa simples pergunta faz ao meu peito. Dá um calorzinho gostoso. Porque não é de hoje, Jimin sempre se preocupou em me perguntar como está meu dia, se eu tomei café da manhã, se as aulas estão boas e tranquilas, se eu dormi direitinho. Ele sempre se mostra atento.
Eu sinto minhas bochechas queimarem, mas engulo o nervosismo – ou ao menos parte dele – e me viro na sua direção. Ele tem uma coloração avermelhada no rosto que o deixa particularmente adorável.
— Bom dia, Minnie. — Tomo a atitude de usar um apelido, vendo-o ainda mais vermelhinho. — Eu dormi bem, sim, e você?
— S-sim... — Ele se mostra todo tímido. — Eu só... desculpa, eu estou um pouco nervoso.
Mas algo dentro de mim dói quando Minwoo chega e agarra a sua cintura. Considerando que paixões não se desfazem do dia para a noite, mesmo quando nosso psicológico passa por uma desilusão e quer nos afirmar que sim, o que eu sinto não é ciúme e nem inveja, mas sim um incômodo impertinente que se alastra por todo o meu corpo e se aloja no meu peito em uma dor nada satisfatória.
Porque Park Jimin se mostra completamente desconfortável com o toque.
E mesmo com os sentimentos que guardei por Minwoo por tanto tempo, eu só o enxergo com desgosto quando ele força um beijo na bochecha do Park e este faz uma careta enquanto tenta se desvencilhar. É por isso que faço algo: eu os separo, sendo bruto com Minwoo e o mais delicado com Jimin ao colocá-lo para trás de mim.
— O que pensa que está fazendo, Jeon? — Ele me indaga. — Sei que você é caidinho por mim, mas caso não tenha visto eu já sou comprometido.
— Comprometido com uma coisa inventada na sua cabeça, Jimin não é um objeto para você tocar nele como e onde quer. E eu não vou permitir que faça qualquer coisa sem o consentimento dele.
Minwoo ri debochado, mas levanta as mãos em rendição e se afasta, com o mesmo sorriso cínico e terrível na boca. Até semana passada, eu diria elogios e me rasgaria por ele, mas essa atitude foi o suficiente para quebrar toda a imagem que eu tinha e que agora vejo que provavelmente projetei na minha mente apaixonada. A paixão pode ser a maior inimiga do ser humano.
Quando olho para trás, vejo que Jimin não está mais presente. E não me importo com o primeiro sinal que indica o início das aulas, eu busco por Taehyung e me informo de onde Jimin pode estar. Eles são amigos, e o Kim me explica que não sabe se é um bom momento e que está junto ao Park.
Como não quero deixá-lo pior, opto por concordar e apenas peço ao meu amigo que me avise caso eu tenha algo a fazer.
No horário do intervalo, é o próprio Jimin quem me envia uma mensagem e pergunta se podemos conversar. O nosso ponto de encontro acaba por ser os bastidores do auditório da faculdade, e eu vejo seu estado amuado quando paro em sua frente.
— Eu sinto muito pelo que houve, Minnie. — Digo a ele. — Ele é um babaca.
— Eu sempre soube disso, e o pior é que todos pensam que eu tenho algo com ele após aquela foto. — Jimin sussurra. — Mas o que eu precisava resolver com ele meu irmão já resolveu. E meu irmão é da polícia, então você já deve saber que Minwoo nunca foi flor que se cheire e hoje ele apenas recebeu o que foi merecido.
— Se quiser desabafar sobre isso, estou aqui.
— Sendo sincero, só quero esquecer sobre ele. Taehyung esteve comigo mais cedo, eu coloquei para fora e agora quero virar essa página. — Ele me diz, e eu concordo. — Mas queria agradecer o seu apoio.
Fico ligeiramente tímido com seu agradecimento e me sento com ele quando ele convida para um pequeno sofá no ambiente. E é pensando que ele foi machucado por um babaca e não querendo parecer um, que eu decido ser honesto sobre o telefonema. Jimin gosta de mim, mais do que eu jamais imaginaria, e eu não quero machucá-lo.
— Minnie, eu preciso te contar uma coisa. — O digo. — Sobre a ligação que eu fiz naquela noite... quando eu me declarei.
Respiro fundo, encontrando apoio na mão pequena, macia e quentinha de Jimin. Seus dedos parecem se entrelaçar perfeitamente nos meus, e assim me dou conta de que talvez eu tenha me declarado para a pessoa certa, mesmo sem saber. Mas decido, ainda assim, que vou contar a verdade.
— Eu... hm... é vergonhoso dizer isso, mas você merece saber a verdade e merece ouvir as palavras de mim e não qualquer outra pessoa. — Continuo. — Desde que eu entrei para a faculdade, e que nós começamos a conversar e eu vi Minwoo, eu me encantei por ele e alimentei na minha cabeça uma imagem que hoje desconstruí completamente.
— Isso não me surpreende, ele é um ótimo ator. — Jimin murmura. — Eu entendi errado, pelo visto...
— Espera, Minnie, me deixa explicar. — Peço, mesmo que ele não tenha dado nenhum indício de que se afastaria de mim. — Naquela noite, quando eu vi a foto, eu decidi que precisava me declarar ou perderia a chance, eu fiquei com ciúme de ver vocês dois. E eu bebi um pouco para tomar coragem, mas... eu acabei ligando para você e só percebi quando ouvi a sua voz.
Jimin não me responde, mas eu ouço seu suspiro e não gosto nada de como se parece. Por isso, eu delicadamente seguro seu queixo e assim peço silenciosamente que ele me olhe, o que ele logo faz.
— Eu fiquei morrendo de vergonha e me xingando muito por ter feito isso, especialmente porque não esperava que você gostasse de mim desse jeito. Quando contei ao meu melhor amigo, ele riu muito, mas depois me disse que podia ser uma coisa boa. E ele me disse algo que faz muito sentido e que eu não tinha percebido até então: você e eu temos gostos parecidos, você sempre me faz rir com facilidade, eu me sinto muito bem com você. — O confesso. — E eu iria apenas deixar levar, porque eu sei que ser recíproco a você não é nada difícil, mas eu não quero começar com você desse jeito. Eu não gosto de mentiras, Minnie, mas tem algo que eu gosto muito que é o jeito que me sinto com você. Por isso, mais cedo quando eu o defendi, eu apenas ignorei tudo que já nutri por ele e foquei em quem realmente se importava comigo e importava para mim. Você.
— Jungkookie... — Ele está com os olhinhos cheios de lágrimas. — Eu agradeço sua honestidade, mas você não precisa ficar comigo por pena ou porque sabe sobre como eu me sinto.
Eu respiro fundo, pegando sua outra mão para também a segurar e entrelaçar os nossos dedos.
— Se você não quiser, eu vou entender, Minnie... mas eu quero. Eu quero uma chance. Porque eu acho que o destino só encontrou um meio de me mostrar o óbvio, e que eu me declarei para a pessoa certa sem nem imaginar. — Eu o afirmo. — Eu quero uma chance com você, eu quero ficar com você. E agora, olhando para você, eu tenho total certeza disso.
Quando Jimin fica em silêncio, me encarando com seus lindos olhinhos ainda repletos de lágrimas, eu me aproximo devagar e deixo um selar de extrema sutileza no mesmo lugar em sua bochecha, onde ele foi beijado com força e com péssimas intenções mais cedo. Eu cubro uma atitude dolorosa, com todo amor e carinho que sou capaz de carregar.
Eu não sinto agora o mesmo que ele, mas eu sei que eu posso sentir ainda mais. Jimin me faz bem, Jimin me faz feliz facilmente. Ele gosta do meu jeito espontâneo, do meu jeito meio atrapalhado, ele se apaixonou por quem eu sou e me quer desse mesmo jeitinho. Logo, isso é o suficiente para saber que ele é mais do que o certo para mim.
Porque eu também gosto dele, eu só me prendi muito a nossa amizade e não vi como isso podia ser ainda maior e mais intenso.
— Eu também quero, Jungkookie.
Quando ele me diz essas palavras e se inclina um pouquinho, eu acabo deixando um selar próximo da sua boca, e Jimin é ousado o suficiente para me dar um selinho e se esconder de vergonha logo depois, escorando o rosto entre meu pescoço e a clavícula.
— Você aceita sair comigo, Minnie? Vamos começar do jeito certo a nossa história.
Ele me dá um largo sorriso e eu trato de secar a lágrima inconveniente que acaba escorrendo por sua bochecha. Eu nunca tinha reparado o quão lindo e sincero é o sorriso de Jimin, também nunca tinha sentido tamanha euforia no meu peito apenas de olhar no rosto de alguém.
— É claro que eu quero, vamos escrever a nossa história, Jungkookie!
E é com mais um sorriso seu, que eu tenho ainda mais certeza de que a pessoa errada para quem eu me declarei, é a certa para carregar parte do meu coração.
Fale com o autor