A Peregrina
26 O Céu Beijando O Mar
Notas iniciais
*Narrativa em Terceira Pessoa*
Peregrina virou para o lado e tentou dormir mais, acabou por abraçar algo macio e quentinho. Era tão aconchegante!
_Bleumer?
A Anja apenas resmungou em resposta ao chamado e tentou dormir mais, até que percebeu que algo estava estranho... Ela abriu um dos olhos e viu Legolas bem ao seu lado. Ao olhar melhor notou que na verdade estava dormindo abraçada ao braço do elfo e que os dois estavam muito perto um do outro. Como assim?!
Bleumer despertou totalmente e soltou um gritinho ao perceber a situação. Seu rosto já estava totalmente rubro.
_Calma, eu só... — Legolas tentou explicar algo, qualquer coisa, mas não deu tempo.
Peregrina em meio segundo já tinha chamado o Ar e lançado o elfo para longe de si. Isso já parecia ser um hábito para ela. Um hábito que não alegrava muito Legolas.
O elfo foi lançado para trás. Então somente nessa hora que Peregrina notou que tinha jogado Legolas para longe literalmente e novamente.
O resto da sociedade não se surpreendeu e nem se preocupou com a integridade física do companheiro. Afinal já tinha virado um costume ver Legolas sendo lançado pelos ares.
_Legolas! Desculpe! Foi automático! — A Anja levantou e correu para junto do elfo, querendo se certificar que ele estava bem.
_Tudo bem, eu já quase me acostumei com seu jeito peculiar de acordar. — Legolas limpava a poeira da roupa ao se levantar. Sua voz não estava particularmente irritada com o ocorrido. O que ele poderia fazer se aquela era a mania de Bleumer?
_Vocês dois! Se já acabaram com a brincadeira venham comer! — Gimli gritou enquanto sacudia uma colher acima da cabeça.
Os dois foram para perto da Sociedade e desfrutaram de um bom café da manhã. Todos tinham uma conversa agradável, menos Boromir que estava afastado dos demais... E por vezes lançava olhares na direção de Frodo ou Peregrina.
Erick, já totalmente recuperado, depositou seu prato de comida perto de Sam e virou-se para Peregrina.
_Bleumer, vamos caminhar um pouco. Quero falar com você. — E ao final da frase o Anjo piscou o olho para a garota.
_Claro. — Para Peregrina não tinha nada de estranho naquilo, ela e Erick sempre conversaram muito. Então ela levantou e foi seguindo o Anjo pelo labirinto de corredores que compunha aquele reino.
Legolas nada pode fazer. O elfo sabia que não tinha o direito de mandar em Peregrina. Não podia prendê-la ao seu lado. Então ele apenas olhou com preocupação os dois Anjos se afastando até sumirem de vista...
_O que queria falar, Erick? — A voz de Peregrina soou amigável enquanto ela andava lado a lado com seu companheiro de armas.
_Você é cruel, Bleumer... — Erick parou de caminhar, os dois já estavam longe da Sociedade. A voz do Anjo parecia um pouco magoada, mas com Erick nunca se podia ter certeza de nada.
_O que quer dizer?
Erick de súbito segurou Peregrina pela cintura, a colocou contra a parede e colou seus corpos. A garota se assustou um pouco com a aproximação, mas ela sabia que Erick nunca lhe faria mal.
_Como você acha que eu me sinto? Eu não posso deitar ao seu lado, mas a fadinha pode... Isso é cruel. — A voz de Erick era tão profunda e charmosa, ele sussurrou as palavras no ouvido de Bleumer para depois suavemente roçava a ponta do nariz pelo pescoço desnudo da Anja. Com isso arrancando arrepios dela.
_E-erick! O que você esta fazendo... ?! — Mesmo tentando controlar, o corpo de Peregrina a traia e ela podia sentir cada toque do Anjo e reagia a eles. Seu rosto já estava corado e seu coração disparado.
_Estou a tocando. Se não quiser, basta me afastar, sabe que não vou insistir. Passei cem anos longe de você e estou com muitas saudades... — Erick, que continuava usando aquele tom de voz tão envolvente, agora olhava diretamente nos olhos de Peregrina enquanto suas mãos deslizavam delicadamente pelos ombros e colo da garota.
Já a Anja sabia que devia empurrar o outro Anjo, aquilo seria o certo... Não seria? Não parecia fazer muito sentido agora... Embora Erick por várias vezes já tivesse lhe dito algumas palavras que pudessem ser interpretadas de outra forma, ela sabia que era tudo brincadeira. Erick nunca falava sério, mas ele também nunca a tinha tocado assim...
_Também senti saudades de você, como poderia não sentir falta do meu melhor amigo? — Bleumer falou baixo, de forma contida, mas ao olhar nos olhos cinzentos de Erick ela viu como eles brilhavam... Brilhavam por ela. Havia tanta luz dentro da tempestade que era os olhos cinzentos do Anjo que mais pareciam relâmpagos incessantes. E um por instante Bleumer perdeu o fôlego, jamais vira esse olhar em Erick. Ela estava completamente fascinada por aqueles olhos tão familiares e ao mesmo tempo tão novos.
_Amigo, não é? Sabe, eu sou um completo covarde, mesmo agora não consigo. — Erick parecia falar para si mesmo e Peregrina o fitou confusa. Do que raios aquele Anjo imbecil falava?
_Não entendo o que diz, Erick.
_Esqueça isso por hora. — Dito isso ele se afastou do corpo de Bleumer. Agora seus olhos tinham a mesma aparência de sempre, frios, irônicos e um pouco desinteressados. Como o próprio Erick era na maior parte do tempo. — Fiquei sabendo que hoje acontecerá um baile... Isso me lembrou algo. Eu tenho uma promessa a cumprir. Naquela última noite no palácio de Kandrakar eu prometi que a levaria ao baile. Bom, parece que o destino me sorriu e eu poderei cumprir isso. Então me permita acompanha-la ao baile e me conceda a primeira dança. Ah, só para ficar claro, se você recusar eu vou cair em desgraça, meu orgulho irá se desfazer e eu chorarei como uma criança pelo resto da noite. Então, o que me diz, irá comigo?
_Oh, ninguém quer ver o grande Erick chorando igual a uma criança! Acho que não tenho escolha, senão aceitar. — Bleumer riu. Erick não tinha jeito mesmo, sempre estava fazendo uma brincadeira ou dizendo algo para diverti-la.
_A encontramos! — De repente, virando a esquina, aparecem Amillë e Miriel. E ambas sorriem ao ver Peregrina. — Íamos até a senhora! Precisamos arruma-la para o baile! Venha conosco! — E como duas forças da natureza, as elfas seguraram a Anja pelos braços e começaram a reboca-la para longe. Mal dando tempo de Peregrina processar tudo que estava acontecendo.
_Cuidem bem dela! Em minha opinião, Bleumer ficaria linda em um vestido transparente! Isso foi apenas uma dica! — Erick gritou enquanto via Peregrina ser arrastada para longe. Ele não pode evitar fazer uma brincadeira. E ao ouvir aquilo Bleumer olhou para trás e lançou um olhar fulminante para o Anjo.
Claro que Erick riu. Era sempre bom provocar sua Bleumer.
As duas elfas a levaram para o quarto que por hora pertencia a Anja. Em cima da cama havia um vestido. Bleumer paralisou ao ver aquela roupa... Era tão deslumbrante!
_A senhora gostou? Se não for do seu agrado, podemos providenciar outro. — Amillë falou enquanto pegava e erguia o vestido dando a oportunidade de Bleumer ter uma visão geral dele.
_Como posso não gostar?! É tão lindo... Nunca usei nada assim... — Embora nunca fosse admitir, Peregrina estava emocionada com aquele gesto. Ela nunca tivera um vestido parecido com aquele.
O vestido era de um tom profundo de vermelho, longo e sem mangas. Seu corpete era em formato de coração, com isso dando ao decote do vestido um ar mais delicado e valorizando o busto farto de Peregrina. Ele era bem justo na cintura, mas quando chegava à altura do quadril se abria e fluía suavemente como uma onda, havia um tecido bem fino e delicado, sua cor era escura e ele recaia por cima da saia do vestido. Tudo isso dava um efeito de como se a própria noite repousasse sobre o vermelho carmim do vestido.
Peregrina passou as pontas dos dedos pelo tecido, de modo hesitante, como se temesse rasgar a roupa com o mais leve toque e sorriu abertamente com a intricada beleza daquele vestido. Por fim, levantou o olhar para as elfas.
_Err... Nesses bailes... As pessoas, quero dizer, os elfos... Costumam dançar muito? — Bleumer estava com vergonha do que dizia e ficaria com mais vergonha ainda quando tocasse no assunto que a preocupava.
_Oh, sim! Nós dançamos por toda a noite! — Miriel respondeu de uma forma alegre enquanto rodopiava pelo quarto, como se já estivesse dançando.
_Vejo que Peregrina está apreensiva com algo... — Amillë falou olhando diretamente para a Anja, que só pode desviar o olhar.
_É porque... Bem, eu não tenho essa habilidade especial que é dançar... — Bleumer confidenciou em um fio de voz. Ela estava tão constrangida! Tinha acabado de admitir algo tão vergonhoso para duas criaturas totalmente lindas e elegantes... Tão diferente da própria Peregrina.
_Bom, acho que não tem jeito... — Amillë disse enquanto se postava na frente da garota. A elfa colocou a mão rodeando a cintura fina da Anja, com isso a puxando de encontro a si. — Terei que lhe ensinar como dançar apropriadamente. – A elfa falou isso enquanto com a mão livre segurava a própria mão de Bleumer.
_Q-que?– Peregrina gaguejou, já constrangida com a aproximação da outra mulher. Nunca imaginou que Amillë pudesse ser tão gentil em ensina-la a dançar.
_Vamos! Miriel pegue a flauta de dentro do baú e toque para nós! — Depois da ordem de Amillë a outra elfa foi rapidamente até o baú. Em pouco tempo uma melodia doce e contínua preenchia o quarto. — Preste atenção e imite meus movimentos.
Peregrina usou toda sua concentração e determinação de guerreira para vencer aquele desafio. Sim, desafio. E pelas próximas horas Bleumer bailou pelo quarto sendo guiada por Amillë enquanto Miriel tocava a flauta.
_Acho que você já sabe o suficiente. Foi rápida para aprender! Mas mesmo assim estamos com pouco tempo para arruma-la para o baile! – A elfa disse quando finalmente parou a dança. Os pés de Bleumer já estavam doendo, mas ela não ousou reclamar nenhuma vez.
_Venha, senhora! Vou preparar seu banho. — Miriel saiu saltitando pelo quarto até o banheiro, onde logo tratou de preparar um banho.
Em poucos minutos Peregrina já estava imersa na água perfumada e quente do banho. Claro, estava constrangida por ficar nua de novo na frente das elfas, mas não tinha jeito. Elas não iriam embora por nada.
O banho durou poucos minutos, já que ambas as elfas ajudavam Bleumer a se lavar. Por fim, entregaram uma fina toalha para a Anja se secar e memórias invadiram a mente de Bleumer... Há poucos dias ela estava naquele mesmo banheiro e Legolas também estava lá... E ele a tocou... Não. Chega. Peregrina balançou a cabeça para se livrar daqueles pensamentos.
Todo o processo ocorreu de modo tranquilo, afinal Bleumer sentia-se mais confiante agora por saber o básico de uma dança.
Miriel a ajudou a colocar o vestido e depois Amillë arrumou seu cabelo. A elfa o escovou e deixou solto na parte de trás, mas pegou duas longas mechas da frente e trançou cada uma, depois as uniu atrás e deixou que caíssem livres pelas costas da Anja. Peregrina considerou uma honra ter seu cabelo trançado de modo tão delicado por uma elfa. Miriel usou cosméticos élficos para finalizar a produção de Bleumer.
_Minha senhora, olhe no espelho. Veja como você está bela! –Miriel pediu.
Peregrina, mesmo incerta, virou-se e olhou para o espelho de corpo todo que existia no quarto e se viu pela primeira vez...
A garota no espelho parecia uma princesa. Ela era muito branca, pálida, mas de alguma forma sua pele estava iluminada agora, dando uma cor incrível a ela. Seus olhos brilhavam e pareciam maiores. Os lábios da garota agora estavam vermelhos e tão tentadores que deveria ser considerado um pecado. O vestido tinha caído perfeitamente nela... O vestido carmim dava um ar elegante e sensual à garota, mas ele era tão delicado e de um tecido tão suave que ao mesmo tempo também dava um ar de inocência. Era uma combinação perfeita. A garota estava inocentemente tentadora.
A garota do espelho era Bleumer.
E ela quase não acreditou no que via. Ela estava tão... Linda.
_Obrigada pelo que fizeram... — A voz de Peregrina falhou nas últimas palavras. Não existiam palavras suficientes para expressar sua gratidão.
Ao longe, trompetes tocaram para anunciar o início do baile.
_Não é hora para ficar toda emocionada! Não fizemos nada demais! Agora o toque final... — Amillë caminhou até a penteadeira e tirou algo de uma gaveta, ao voltar depositou um lindo colar no pescoço de Bleumer. Antes que a Anja pudesse argumentar, a elfa já tinha fechado o feixe. — Agora você está pronta.
Peregrina olhou para o colar e arregalou os olhos. Ele era a joia mais linda que já tinha visto. Era delicado e seus pingentes de diamante caiam em forma de cascata. Pareciam dezenas de pequenas gotas de água caindo pelo seu colo.
_Vamos! Todos da Sociedade já devem estar esperando a senhora no baile!
Miriel puxou a garota pela mão e a foi conduzindo pelos corredores até a entrada do salão onde aconteceria o baile. De longe Bleumer pode ver que Aragorn, Gimli, Sam, Frodo, Merry e Pippin a esperavam. E em um canto estava Erick e no canto oposto estava Legolas. Todos estavam muito bem vestidos e elegantes em seus trajes de festa.
Quando Bleumer se fez presente todos olharam para ela e perderam a fala. Aragorn, mesmo amando Arwen com todo seu coração, tinha que admitir que Bleumer era uma das criaturas mais belas que já tinha visto. Gimli não conseguia parar de encarar a guerreira, em sua opinião apenas Lady Galadriel era mais bela que Peregrina. Os Hobbits estavam igualmente boquiabertos com a aparição da Anja.
Mas nada disso importava muito para ela, Bleumer só tinha olhos para Legolas e Erick. Legolas parecia paralisado, nem parecia respirar. Erick de algum modo se encontrava na mesma situação do elfo.

Ninguém sabia o que falar. Todo aquele silêncio já estava ficando desconfortável para Peregrina.
_Sério, só vão ficar me encarando como se um chifre tivesse crescido na minha testa? Sou eu! Ainda sou eu, Peregrina! — Como sempre Bleumer não era muito delicada e sua fala pareceu despertar todos. Realmente aquela era a Peregrina e todos riram com sua fala.
Erick deu um passo à frente, ao mesmo tempo que Legolas. Os dois queriam entrar no baile com a garota, eles se encararam por um momento até Erick dizer.
_Foi mal, fadinha, mas eu tenho uma promessa a cumprir com Bleumer. Eu que vou leva-la. — Dito isso Erick caminhou até a garota e fez uma reverência a ela. Depois ofereceu sua mão e para sua alegria Bleumer aceitou. Os dois anjos caminharam para o baile de braços dados.
Cumprindo uma promessa há tempo muito feita.
Legolas desviou o olhar quando Peregrina passou por ele. Não queria ver a mulher que amava entrando no baile de braços dados com outro. Seu peito queimou de ciúmes.
Já para Bleumer, quando o elfo não quis olha-la, foi como um tapa. Mesmo ela achando que estava bonita, Legolas recusou olhar para sua forma deformada... ?
Ao adentrarem no salão os dois Anjos ficaram admirados com a riqueza de detalhes do ambiente. Em Pandora, jamais eles tinham visto tanta delicadeza no mesmo lugar.
Trombetas anunciaram a entrada da Sociedade.
Uma música suave e alegre tomava conta do salão, mesas com comidas de aparência deliciosas estavam dispostas por todo o lugar. Mesas e cadeiras estavam à disposição de todos. Elfos e elfas dançavam com graciosidade pelo salão ou conversavam em pequenos grupos. A alegria rodopiava junto com todos pelo lugar.
Erick com pompa, e com a autoconfiança que só ele parecia ter, caminhou até uma das mesas e puxou uma cadeira para Bleumer.
_Quando uma música mais lenta começar, nós dançaremos. — O Anjo deu seu costumeiro sorriso torto para Peregrina, que apenas assentiu de volta.
Todos da Sociedade seguiram o exemplo de Erick e também se sentaram a mesa. Logo Merry e Pippin estavam se fartando com a comida e Gimli não ficava atrás, mesmo reclamando vez ou outra. Era incrível o apetite deles. Uma conversa agradável tomou o lugar, na qual Legolas fez questão de não participar. O elfo apenas lançava olhares furiosos para o Anjo, que o ignorava. Um tempo depois uma música mais lenta começou. Erick levantou e ofereceu a mão a Peregrina.
_Me daria à honra, minha senhora? — O Anjo falava de modo galante, fazendo graça, como era seu costume.
_Mas é claro, meu senhor. — Peregrina respondeu no mesmo tom, entrando na brincadeira. A garota exibia um lindo sorriso. Ela estava mais do que feliz por poder desfrutar de um momento assim.
Junto os dois foram até o meio do salão. Peregrina não se sentia nervosa. Ora, aquele era Erick! Seu grande amigo! Como poderia ter vergonha dele?
O Anjo a tomou nos braços e iniciou um uma dança lenta.
_Finalmente nossa promessa está sendo cumprida. — Erick sorriu mais ao aproximar os corpos dos dois.
_Você lembra do que me disse naquela noite? — Peregrina repousou a cabeça no ombro de Erick enquanto era embalada pela música e pelos braços familiares do seu amigo.
_De cada palavra. Eu disse "Amanhã no baile eu a levarei para dançar tendo as estrelas como plateia. Tu serás a Luz mais bela da noite e eu serei o mais feliz ao contempla-la. Essa é minha promessa sagrada a você."– Erick sussurrou cada palavra no ouvido de Bleumer, reafirmando sua promessa. A Anja por outro lado estava tão feliz que poderia transbordar em sorrisos e amor.
Peregrina apertou com mais força a mão de Erick. Ele a girou e a trouxe de volta para junto do seu corpo. Ele dançava com maestria, como se fosse treinado a vida inteira para isso. Tudo era tão perfeito. Depois de alguns minutos de dança, Bleumer disse.
_Onde você arrumou essa roupa?
_Ah, isso? Algumas elfas me deram. Elas disseram que todos deviam estar bem vestidos hoje. — E de fato Erick estava bem vestido. Usava uma calça de um tecido nobre e na cor verde claro, por cima uma espécie de sobretudo preto e com desenhos intricados nas mangas. Estava muito elegante e Peregrina notou isso. Erick estava ainda mais lindo. Na verdade, desde que ele reapareceu algo parecia ter mudado nele... Algo que o tornava mais belo.
_Você está muito bonito, Erick. – Peregrina soltou as palavras antes mesmo de pensar sobre elas.
_Se continuar me olhando assim vou achar que você quer um beijo, Bleumer. — Erick piscou para a garota, brincalhão. Mas por dentro era esse seu desejo...
_Q-que?! Não seja imbecil! — Na mesma hora o rosto de Bleumer ficou corado. Só aquele idiota para dizer algo assim! Ela virou o rosto evitando olha-lo nos olhos.
_Você é incrivelmente charmosa. É quase um crime você ser assim. — A voz de Erick soou mais rouca, mais sensual e o Anjo inclinou o rosto para baixo. Antes que Bleumer fizesse algo, ele deu um carinhoso beijo em sua bochecha. Com isso fazendo a Anja ficar ainda mais corada.
Até que o som de um pigarro pode ser ouvido atrás de Erick.
Quando Bleumer olhou era Haldir.
_Posso pegar a dama emprestada por uma dança? — O elfo perguntou.
_Não. — Erick foi certeiro em sua resposta. Nem se deu o trabalho de olhar uma segunda vez para o elfo.
_Erick! Não seja grosso! Eu tenho uma divida com Haldir. Ele me ajudou quando eu estava perdida e agora devo compensa-lo. — Peregrina reclamou com Erick e o soltou. Foi de encontro a Haldir.
_Que seja. — O Anjo deu as costas e saiu dali para logo depois sumir das visitas de todos. Erick estava furioso com a interrupção! Será que sempre um elfo iria atrapalha-lo com sua Bleumer?!
_Não queria causar um desentendimento entre vocês. — Haldir disse enquanto tomava Peregrina nos braços para a próxima música.
_Não se preocupe. Erick é meio temperamental, mas está tudo bem. — Bleumer tentou responder da forma mais polida que podia. Afinal estava na frente de Haldir. Toda a tranquilidade que sentia ao dançar com Erick desapareceu. Agora ela estava nervosa ao ter que dançar com uma criatura tão elegante quanto o elfo.
Já o elfo nada disse, apenas dançava com ela. Girando-a com suavidade e conduzindo toda a dança. Em meio a um giro Bleumer pode notar que Legolas não estava mais na mesa da Sociedade. Ela correu os olhos pelo salão, mas não o encontrou.
_Procura algo? — Haldir notando a busca nada discreta da garota, resolveu perguntar.
_Não consigo achar aquele idiota...
_Idiota?
_Quero dizer, Legolas. Não o vejo. — Peregrina rapidamente consertou seu erro.
_Poucas pessoas chamariam um príncipe elfo de idiota de modo tão despreocupado com você fez agora. — O elfo disse enquanto um leve sorriso estava em seu rosto. Aquela garota ficava mais interessante a cada momento!
_Ah! Eu o achei! Vou soca-lo por me deixar preocupada! — Bleumer murmurava, como se estivesse falando sozinha. Hábito que Haldir já tinha notado que ela possuía. Mas o que talvez tenha chocado o elfo foi que Peregrina não lhe deu atenção nenhuma, mal tinha ouvido o que ele disse.
Quando a música acabou, a garota virou seus intensos olhos verdes para o elfo.
_Acho que isso paga minha divida. Estamos quites agora, Haldir! — Sem esperar uma resposta Bleumer andou até onde Legolas estava, ou melhor, marchou. Com isso deixando um Haldir completamente atônito com seu jeito imprevisível de ser.
À medida que se aproximava, Bleumer sentia mais raiva com a visão que tinha. Legolas estava em um canto do salão conversando com... Uma elfa! Uma elfa linda! O que aquilo significava?!
_Alguém pode me contar o que está acontecendo aqui? — De súbito Peregrina chegou perto dos dois elfos. A Anja colocou ambas as mãos na cintura enquanto olhava de Legolas para aquela... Aquela... Elfa maldita!
_Bleumer! O que quer dizer? — Legolas estava mais do que confuso. Porque Bleumer parecia tão furiosa? Um verdadeiro maremoto parceria dançar nos olhos verdes da Anja.
_Porque você está aqui conversando com ela?! — A voz de Peregrina soou irritada. E ela batia o pé no chão de modo ritmado, mas a cada batida uma leve vibração podia ser sentida. Como se inconscientemente a Anja estivesse invocando um terremoto com o elemento Terra. Aquilo não passou despercebido por Legolas, se Peregrina ficasse mais irritada poderia derrubar todo o salão.
_Calma, primeiro fique calma e não chame a Terra para cá. Rëesa apenas me perguntou como era o Reino da Floresta das Trevas. — Legolas tentou usar uma voz tranquila, ele queria aplacar a fúria de Bleumer antes que ela destruísse algo.
Ao ouvir aquilo Peregrina percebeu que de fato estava quase invocando um terremoto tamanha sua raiva e parou com aquilo. Mas virou-se para a elfa loira que olhava tudo de forma assustada e disse.
_Se você quer saber sobre a Floresta das Trevas vá procurar informações em um livro ou viaje até o lugar! Mas se você não desaparecer da minha frente agora pode ter certeza que você não terá a chance de fazer nenhuma dessas duas coisas. — Bleumer soou tão perigosa quanto era de verdade. Sua voz estava carregada de uma ameaça mal velada. Se dependesse dela, arrancaria a linda cabeça daquela elfa agora mesmo e fatiaria seu corpo perfeito até ele ficar menos... Perfeito.
Rëesa ficou pálida e arregalou os olhos. Ainda mais assustada. E provando que era inteligente em instantes tinha corrido para longe de Bleumer.
_O que foi isso? Porque você foi tão cruel com aquela elfa? — Agora além de confuso Legolas estava um pouco irritado. Aquilo não era a forma de tratar ninguém. O que deu em Peregrina?
_Eu apenas não gostei de ver você olhando e conversando tão feliz com aquela mulher enquanto nem olhou na minha cara a noite toda! — Peregrina desabafou tudo de uma vez. Nem ela própria entendia aquilo.
E naquele instante toda a irritação de Legolas se dissipou. E uma certeza tomou conta dele.
_Venha comigo. — O elfo segurou a mão de Bleumer e a arrastou para longe do salão. Longe de ouvidos e olhares curiosos. Peregrina não reclamou, se Legolas queria dar uma bronca nela por ter sido tão estúpida com alguém da raça dele, tudo bem, ela sabia que merecia.
O elfo a levou até um terraço que tinha o céu estrelado como teto. E parou na frente da Anja. Sua expressão era séria.
_Bleumer, existe algo que eu quero dizer a muito tempo, mas não encontrava formas de fazê-lo.
Ao ouvir aquilo Peregrina sentiu um pânico crescer dentro dela. O que poderia ser? Legolas iria dizer que não gostava da presença dela? Que ela era desagradável?
_Desde que a vi pela primeira vez no Conselho de Elrond em Valfenda, um sentimento começou a crescer no meu coração. E ele foi crescendo dia após dia. Primeiro começou com uma palavra não dita, depois uma palavra sussurrada até evoluir para um grito eterno. Um grito que eu não posso calar mais. — Legolas tomou o rosto da garota em suas mãos. Seus olhos azuis brilharam tanto quanto o mais lindo céu. Sua voz estava tão decida e firme, não havia uma nota de incerteza.
_O que você está falando, Legolas... ? — Peregrina perguntou. Toda aquela situação estava confusa. A própria Bleumer sentia medo das próximas palavras do elfo.
_Eu estou apaixonado por você, Bleumer. Irrevogavelmente apaixonando por você. Meu coração grita por você. Cada estrela do céu acima de nós sabe do meu amor por você. Cada grão de areia sabe que eu a amo. O próprio Infinito sabe que ele não é o suficiente para caber meu amor. — Legolas trazia o rosto de Bleumer mais para perto. Seu maior desejo era que ela retribuísse seu amor.
_Não! Você só pode estar brincando! É impossível você gostar de mim! — Bleumer se livrou das mãos do elfo e deu um passo para trás. Ela estava totalmente desnorteada. Como aquilo era possível?
_Não é impossível! Eu a amo com todo o meu ser e além! — Legolas estava nervoso. Como Bleumer não podia acreditar nele? Será que ele não fora claro o suficiente?
_Olhe para você! Você é um príncipe! E eu sou uma ferramenta usada em batalhas! Uma Anja do Destino! Nem somos do mesmo planeta! — Peregrina falava sem parar enquanto andava de um lado para o outro. Ela estava igualmente nervosa. — Você não entende?! É como se você fosse um chocolate e eu uma batata! Todo mundo gosta de chocolate! Um chocolate é algo lindo! Mas ninguém gosta de uma batata! Uma batata é feia! Entende a diferença? — Bleumer pensou que aquela era a melhor analogia que podia fazer. Com certeza Legolas entenderia o porquê dele não poder ama-la.
_O que? Está dizendo que eu sou um chocolate e você uma batata? E que eu não posso gostar de batatas? Isso não tem sentido! — Certo, o elfo estava mais do que confuso. Que história era aquele de batatas? Peregrina sempre seria tão louca e complicada assim? Bom, ele estava disposto a provar o quanto estava certo do seu sentimento.
_Sim! Não... Quer dizer, não! Eu não quis dizer que sou uma batata de verdade... É só que... Err! Estou confusa! — Peregrina gaguejou no final da sua frase. Suas mãos tremiam de leve.
_Eu gosto de batatas. Eu gosto dessa batata aqui. — Legolas por fim decidiu usar as palavras de Peregrina para fazê-la entender. Dito isso ele a puxou pela cintura e colocou contra a mureta da varanda, depois pressionou os dois corpos. — Deixe-me acabar com sua confusão... Deixe-me mostrar meu amor da única forma que tenho... — Legolas abaixou sua cabeça até estar na altura da Anja.
O coração de Peregrina estava disparado, parecia que queria saltar para fora do seu corpo. Suas pernas estavam bambas e seu rosto vermelho. Ela sabia que Legolas iria beija-la e também sabia que podia empurrar o elfo, ele não resistiria.
Mas... Mas... Ela queria beija-lo. Queria tanto! Todo seu corpo parecia implorar por isso.
Ambos puderam sentir a respiração do outro de encontro ao seu rosto. Bleumer olhou dentro dos olhos azuis de Legolas e só viu certeza. Naquele firmamento infinito que eram seus olhos, só havia uma profunda adoração por Bleumer. Mais do que isso, havia amor e respeito. E no fundo daquele azul havia uma promessa silenciosa.
Uma promessa de amor que duraria a eternidade.
Ao olhar nos olhos de Bleumer, Legolas viu o mar imprevisível que ela era. O que ele encontraria ao mergulhar naquelas águas? Ele não sabia, apenas sabia que não era possível fugir daqueles intensos olhos verdes.
Os olhos de Peregrina arrastaram Legolas sem piedade.
Os lábios dos dois primeiro roçaram um no outro e, naquele instante que antecede o beijo, naquele milissegundo em que os olhos se fecham e as bocas se consomem, todo o mundo pareceu sumir e então os lábios se tocaram. Primeiro de forma hesitante, aos poucos ganhando confiança. Legolas capturou os lábios da garota com suavidade, apenas um selinho, mas ao sentir a textura macia dos lábios dela, não conseguiu conter-se mais. Colocou uma mão na nunca de Bleumer e aprofundou o beijo.
O elfo pediu passagem com a língua e na mesma hora Peregrina cedeu, ela própria agora agarrava os longos cabelos loiros de Legolas e o puxava para mais perto de si. Queria senti-lo. Sentir que aquilo era real. O beijo que tinha começado calmo agora era lascivo. Intenso. Faminto. Em uma paixão desenfreada que queimava os corpos dos dois, beijar parecia à única forma de viver.
Um precisava beijar o outro acima de tudo.
Legolas apertou mais a cintura de Bleumer e ela ofegou em resposta. O elfo tentava dominar o beijo, mas Peregrina não deixava. Ela o beijava com a mesma intensidade. Aquela era a guerreira que Legolas amava. Nem diante de um beijo aceitaria ser submissa. E aquela luta entre as duas bocas era deliciosa e excitante. Bleumer puxava com mais forças os cabelos de Legolas, tornando o beijo mais violento como a própria Anja era. E Legolas a apertava mais, mostrando que podia ser igualmente dominador. Ambos os corações estavam disparados. E as faces coradas. Aquele era o primeiro beijo dos dois.
Enquanto se beijavam, o mundo parecia ter perdido o volume. Tudo estava mudo. Na verdade, não existia mundo ou tempo. Era como se eles tivessem sido enviados para um mundo dentro do mundo. Um tempo sem tempo. Um lugar só dos dois. Onde a paixão era a rainha e o amor era o rei desse mundo dentro do mundo. Se Legolas era o céu azul em um dia ensolarado, Bleumer era um brilhante mar verde revolto. Aquele tão esperado beijo era como se duas forças da natureza se encontrassem e se saudassem.
Era o céu beijando o mar.
E quando o fim então chegou, os dois jovens se separam ofegantes e radiantes.
_Eu a amo. É a sua vida que eu quero bordar na minha, como se eu fosse pano e você fosse à linha. O destino é a agulha da fantasia nas mãos do real. Deixe isso ser real, Bleumer. — A voz de Legolas soou tão apaixonada que só um surdo não ouviria o amor por trás de suas palavras. Se dependesse do elfo, ele ficaria de joelhos agora e pediria a mão de Bleumer.
Peregrina ainda se recuperava do beijo. Nunca tinha sido beijada. As sensações eram todas novas. Seu corpo ainda parecia flutuar pelo azul dos olhos de Legolas, mas então seu olhar subiu para a delicada coroa que enfeitava a cabeça do elfo, o mostrando como o príncipe que ele era e a realidade a trouxe de volta, apertou e calou seu coração que antes pulava de alegria.
_Nunca ninguém me disse tais palavras. Até esse dia achei que ninguém poderia gostar de verdade de mim. Mas eu não sou uma princesa. Eu não sou da realeza como você, Legolas. Eu não sou como as outras mulheres, não me porto como uma dama. — À medida que falava, Bleumer sentia o peso de cada palavra. Nunca a diferença entre os dois foi tão grande. — Eu venho de Pandora. Nunca poderei me envolver com nenhuma criatura que seja de outro mundo e logo terei que aceitar as responsabilidades de ser uma mulher adulta. Tudo isso é impossível. Não passou de um sonho, Legolas...
_Não! Eu não me importo com nada disso! Se esse é um problema, então abro mão de ser um príncipe. Abro mão do meu reino. Vou para onde você for! Não diga que foi um sonho! Aquele beijo foi real! — Legolas estava perto do desespero. Ele seria capaz de qualquer coisa por Bleumer. Seu coração doía a cada batida, como se a certeza da rejeição de Peregrina sempre estivesse ali.
_Escute o que você fala! Eu nunca me perdoaria se você abrisse mão de algo por minha causa! Você tem suas responsabilidades como príncipe e eu tenho as minhas como Anja. Nossos caminhos não se cruzam. Esqueça tudo isso e eu farei o mesmo, Legolas. — Bleumer virou de costas para o elfo. Ela não queria que ele visse as lagrimas que corriam por sua face. Ama-lo em segredo já era doloroso, mas saber que Legolas sentia o mesmo e que nada podia ser feito para os dois ficaram juntos era incrivelmente pior. Aquela dor cortava o espírito de Bleumer.
_Eu não vou desistir se você. De nós. Nunca. — Os olhos de Legolas estavam rasos de lágrimas não derramadas. Mas ele estava firme. Lutaria até a morte por Bleumer e além disso. Sua própria existência lutaria por esse amor.
_Amar é destruir, e ser amado é ser destruído. Eu não quero lhe destruir, então desista disso. — Peregrina sussurrou ainda de costas, não confiava na sua voz falha. Então rapidamente saiu da varanda e agradeceu ao Viajante por Legolas não ir atrás dela. Mesmo cega pelas lágrimas e pela dor do seu coração, Bleumer conseguiu fugir do salão, com a festa ainda na metade, e achar o seu quarto. E naquela última noite no reino de Lady Galadriel a garota dormiu longe da Sociedade. Não suportaria olhar para o elfo hoje.
Legolas, por outro lado, ainda estava na varanda. Imóvel. Apenas sua mente trabalhava, ele tentava achar uma solução para aquilo. Como as coisas tinham ficado tão complicadas? E porque a história de Bleumer virar uma mulher adulta sempre o incomodava quando ele ouvia isso? Legolas não tinha respostas. Mas continuaria indo em frente, pois esse era seu único caminho.
Antes de voltar para o baile, o elfo passou os dedos sobre os próprios lábios... O gosto de Peregrina ainda estava ali. Tão doce. Tão viciante.
Eu não sabia, mas Erick tinha visto tudo. Ele estava em uma sacada ao longe, um pouco acima de nós. E graças a sua visão e audição de Anjo, pode ver o beijo, a declaração e a minha rejeição. Erick viu tudo e isso influenciou suas ações futuras. Fui pega de surpresa. Todos foram.
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