A Peregrina

27 Alerta Vermelho


Notas iniciais
Olá, amigo leitor, venha, sente e deixe-me contar uma história...

*Narrativa em Primeira Pessoa*

Acordei quando Amillë veio me chamar no meu quarto. Senti uma ponta de saudade ao pensar que aquela era provavelmente a última vez que eu a veria... Já que os elfos estavam indo embora da Terra-média, informação essa que Miriel tinha me confidenciando ontem quando voltei do baile, depois de horas de conversa com as duas, e um choro constrangedor da minha parte. Ambas ficaram ao meu lado até eu cair no sono.

Ah, o baile... Algo que havia começado tão bem, eu estava tão feliz de conseguir dançar e me divertir um pouco, mas que logo se transformou em um desastre para mim. As palavras de Legolas ainda ecoavam pela minha cabeça... E meu coração continuava pesado.

_Minha senhora, a Sociedade já está se aprontando para partir. — Miriel me apressou mais uma vez. Fazer o que? Mesmo não querendo olhar na cara de Legolas, eu tinha uma missão a cumprir.

Murmurei algo como resposta e fui tomar um banho, sabe se lá quando eu poderia tomar outro banho. Dessa vez nem me importei de ficar nua na frente das elfas, elas já tinham visto tudo mesmo. Então entrei na água morna e afundei todo meu corpo, chamei um elemento e criei uma bolha de Ar envolta da minha cabeça, assim eu não precisaria voltar à superfície por um tempinho. Agradeci ao Viajante por fazer Amillë e Miriel se calarem e me deixaram em paz com meus pensamentos.

Certo, vamos lá. Preciso pensar em uma forma de solucionar esse problema no qual eu me meti por ser tão idiota! O que vou fazer com Legolas agora? Como vou agir com ele? A declaração do elfo me pegou de surpresa! Nunca imaginei que ele poderia me amar... Mas e agora? Eu sou proibida de partilhar esse amor com ele. Tenho minhas responsabilidades em Pandora. Preciso seguir a lei.

Eu estava sentindo tanta aflição dentro de mim que isso estava nublando meus pensamentos. Imediatamente pedi que a Água me acalmasse. Deixei que a flexibilidade da água entrasse na minha alma e me tornasse mais maleável para buscar uma solução. Que a temperatura da água aquecesse meu coração frio de medo. E por último que a pureza da água limpasse meu corpo e espírito de qualquer sentimento negativo.

Quando emergi de novo... Eu já era outra Anja. A Água tinha limpado meus pensamentos e agradeci com todo meu coração por isso. Agora eu estava calma. Já sabia o que fazer.

Eu iria agir de forma natural com Legolas, independente do que ele tenha dito, eu não me declarei para ele, eu não disse com todas as palavras que o amava. Portanto, talvez ele não perceba os meus sentimentos, assim eu posso escondê-los dentro de mim. Esse amor não poderia durar quando só um dos lados demostra isso. Tenho a esperança de que Legolas irá esquecer esse amor em breve se eu também não alimentar esse sentimento. E sobre o beijo... Bom, tecnicamente não quebrei nenhuma regra de Pandora... Meu mundo proíbe a união com criaturas que não são de lá. Não me uni ao elfo. Foi apenas um beijo... Sim, foi apenas isso. Enquanto eu tentava me convencer, lembranças da noite passada insistiam em invadir minha mente... As sensações que senti ao ser tocada por aquele elfo idiota... Como ele conseguia ser tão gentil e rude ao mesmo tempo em um único beijo... Como eu gostei desse seu lado... Como meu corpo parecia queimar... Já ouvi algumas Anjas mais velhas dizendo que nunca se esqueceram do primeiro beijo e isso era verdade. Jamais esquecerei. Eu gostaria de pegar esse beijo e tranca-lo em um baú, onde eu sempre poderia abri-lo e relembrar todas as sensações boas que senti. Esse seria meu tesouro. Mas isso é impossível, então é melhor apenas guardar isso como um simples selar de lábios.

_... Per... Peregrina. Peregrina! — Amillë me chamava enquanto acenava com a mão na frete do meu rosto. Despertei de súbito dos meus devaneios e percebi que ela já devia estar me chamando ha tempos.

_Desculpa. Estava distraída. — Respondi meio sem jeito enquanto levantava da banheira e me secava.

_Peregrina parecia meditar profundamente! Mas agora você precisa correr! A Sociedade já esta lá fora, na floresta com Lady Galadriel! — Miriel me disse.

_Pelo amor do Viajante! Fiquei pensando naquele idiota e vou chegar atrasada! — Falei alto sem pensar enquanto corria pelo quarto pegando minhas roupas. As elfas não me fizeram perguntas apenas tentaram me ajudar o mais rápido possível. Porque minha roupa tinha que ser tão complicada de vestir?! Porcaria!

Depois de alguns minutos, Miriel colocou meu manto branco sobre meus ombros e eu estava pronta para partir. Então virei para as duas elfas que me olharam e senti meu coração apertar novamente de saudades.

_Vou sentir falta de vocês duas, mesmo sendo pouco tempo, eu realmente gostei de ter a companhia de vocês... Obrigada por tudo, meninas. — Sorri ao dizer aquilo e puxei Amillë para um abraço, sem saber se ela gostaria daquilo. Mas para meu alívio ela me abraçou de volta e sorriu tanto que achei que seu rosto iria rasgar.

_Nunca vou esquecer a senhora e seu jeito... Exótico! Ou suas vestes estranhas! Contarei suas historias para meus futuros filhos e eles também a conhecerão. — Amillë falava tudo com lágrimas nos olhos e uma voz tão doce que era impossível não gostar dela. Já Miriel apenas sorria de canto ao ver aquela cena, ela não fez qualquer movimento para perto de mim, mas eu sabia que aquele era seu jeito mais reservado do ser... E também sabia que ela estava igualmente feliz.

_Adeus, meninas! — Gritei por cima do ombro enquanto corria pelo corredor até o lado de fora, onde a Sociedade me esperava.

_Boa sorte com o idiota, como você o chama, espero que vocês consigam se entender em todos os sentidos! – Miriel gritou por último e depois nunca mais vi nenhuma das duas.

Andei, andei e andei pelos corredores, o problema foi que me perdi. De novo. Aquilo estava virando um hábito irritante. Corri de um lado para o outro tentando achar a saída. Claro, eu podia pedir por informações, mas meu orgulho impedia isso. Até que por fim cheguei do lado de fora, mas estava ainda mais atrasada. Quando avistei a Sociedade quase todos estavam em fila e Lady Galadriel parecia dar presentes para eles. Opa! Eu cheguei na hora de ganhar presentes? Será que tinha um para mim?

Minha visão periférica notou que Boromir estava afastado de todos, perto dos barcos. Me senti mal por ele ter sido excluído do que quer que tenha acontecido ali.

Me aproximei devagar e fui para o último lugar da fila ao lado de Aragorn. Agi como se eu sempre estivesse ali, talvez ninguém notasse que eu tinha chegado atrasada... Talvez. Mas o guardião levantou uma sobrancelha para mim, como se questionasse minha demora. Apenas o ignorei.

Galadriel se aproximou de Erick, que era o antepenúltimo da fila e lhe disse com uma voz tão suave que foi impossível o Anjo não sorrir.

_Para Erarich Von Tesartir, eu lhe dou um conselho, não carregue todo o peso da sua missão nos seus ombros. Pois nem o mais forte guerreiro pode carregar um fardo tão grande como esse sozinho. — Galadriel disse e depois tocou suavemente a face de Erick.

Então ela virou-se para Aragorn e falou algo em élfico para ele, algo que eu não entendi, mas pelo brilho nos olhos do homem o assunto só podia ser sobre Arwen. Por fim a elfa parou na minha frente.

_Minha pequena Luz... Eu poderia te dar o manto e símbolo do meu povo, mas vejo que o manto do seu mundo já protege seu corpo e alma. Eu poderia oferecer alguns presentes, mas nenhum chegaria perto das dádivas que você já tem. O que eu poderia lhe dar então, minha Luz? — A voz de Galadriel tinha tanto carinho e amor que eu senti um aperto no meu coração. Se eu tivesse uma mãe de fato, gostaria que ela fosse como a mulher na minha frente. Então lembrei que a elfa podia ler meus pensamentos e na mesma hora corei. O que ela ia pensar de mim?! Que sou uma criança que quer um abraço de mãe?! Que infantil da minha parte.

Com toda a delicadeza que só a Senhora da Luz podia ter, ela estendeu os braços na minha direção e logo depois me envolveu com seu corpo em um abraço. Eu senti tanta paz e amor me invadindo que quase chorei. Uma mãe devia ser assim. Uma mãe não devia entregar seu filho aos cuidados de outras pessoas.

Pela primeira vez na vida eu questionei algumas das regras de Pandora...

Não sou sua mãe biológica, mas se em mim você encontra um amor de mãe, que assim seja, minha filha, minha Luz.

A voz de Galadriel soou dentro da minha cabeça e eu retribuí o abraço dela. Sentindo o peso das palavras que a mulher tinha me dito.

Obrigada, minha senhora... Eu lhe respondi mentalmente. Aquela era uma conversa que eu não queria que mais ninguém ouvisse.

Lembre-se do meu conselho. Quando a hora chegar, ouça seu coração.

Ela me disse por último e eu respondi enquanto terminava com o abraço.

_Eu não me esquecerei disso. — Todos da Sociedade e os elfos próximos de nós ficaram olhando surpresos aquela cena. Mas eu não me importei.

Depois de algumas despedidas. Todos estavam carregando os barcos de suprimentos. Enquanto eu pegava algumas sacolas cheias de mantimentos, vi que Merry e Pippin comiam sem parar algo... Aqueles dois só comem! Revirei os olhos por causa disso.

_Achei que você tinha gostado da vida de princesa e que não viria conosco. — Tomei um susto com a voz de Erick tão próxima a mim. Quando me virei vi que o Anjo estava ao meu lado.

_Gostei de permanecer alguns dias no reino de Lothlórien. Mas você sabe que eu não sou uma princesa e que essa vida não combina comigo! — Respondi em tom brincalhão enquanto voltava ao meu trabalho de encher o barco com nossas coisas.

_Será mesmo? Não deseja ser uma princesa? Uma princesa de um reino élfico, para ser mais específico. — Erick tinha falado de um modo tão irônico e com um toque de maldade na voz que eu o olhei confusa.

_Hã? Do que esta falando?

_Nada, esqueça isso. Apenas não dormi bem a noite passada e estou um pouco rabugento agora. — O Anjo disse e logo depois se virou para ir embora, mas antes um pensamento pareceu lhe ocorrer então Erick parou e me disse. — Na verdade, é melhor você ir no barco com outra pessoa. Não estou de bom humor e não a quero por perto agora. — Dito isso eu o vi se afastar de vez e ir para perto de Aragorn e Frodo.

O que foi isso?! Eu já estava pronta para resolver aquela situação com Erick da melhor maneira possível, ou seja, pegar uma pedra e jogar na cabeça daquele imbecil e o obrigar a me explicar o motivo de estar agindo assim, quando a voz de Legolas soou perto de mim.

_Você vem comigo no barco? — Legolas sorria para mim, como se me ver fosse algo bom, já eu tive que me lembrar de que tinha decido trata-lo de forma natural, então resolvi aceitar seu convite.

_Sim, mas é melhor você não virar o barco ou eu invocarei uma onda para molha-lo, elfo! — Eu disse enquanto passava por ele e entrava no nosso barco.

_Mas se eu virar o barco significa que vou cair na água e já estarei molhado, então não tem sentido temer sua onda. — O elfo falou enquanto mostrava seu sorrisinho convencido idiota. E eu fiquei sem resposta para aquela provocação. Até que Gimli se aproximou tentando entrar no nosso barco, percebi como Legolas foi gentil com o anão ao oferecer a mão para ajuda-lo e como Gimli aceitou a ajuda sem nem pestanejar. Aqueles dois estavam cada vez mais virando amigos.

Então uma provocação me veio à mente.

_Sabe, Gimli... Legolas acabou de contar como gostaria de poder brincar na água. Será que em algum momento podemos parar o barco para o elfo descer e brincar? — Tentei segurar o riso, mas foi impossível ao ver a cara de indignação do elfo. Era tão fácil provoca-lo!

_Ah! Acho que podemos sim! Já que o principezinho quer tanto brincar, podemos fazer uma pausa no caminho. — Gimli falava entre gargalhadas e eu o acompanhava.

_Eu não quero brincar! — Legolas exclamou ainda mais irritado e só nos fez rir mais. Ainda estávamos rindo quando ele afastou o barco da margem e começou a remar para longe, seguindo os outros barcos que estavam com nossos companheiros.

E assim começou nossa travessia de dois dias pelo rio.

Algumas horas já tinham se passado e eu estava morrendo de tédio. Afinal não tem muito o que se fazer quando você está em um barco minúsculo.

Resolvi eu própria brincar com a água, me debrucei na lateral do barco e coloquei a mão na água... Logo depois eu estava criando formas, flores, animais e fios de água. Eu os fazia pular e dançar de um lado para o outro, como se eles fossem uma marionete e eu estivesse fazendo uma apresentação. Um sorriso bobo não saia do meu rosto.

_Quem que queria brincar com a água mesmo, Bleumer? — A voz de Legolas me despertou e eu o olhei. O elfo estava com o pescoço virado para trás e me fitava sorrindo. Provavelmente achando graça da minha brincadeira. Na mesma hora meu rosto adquiriu um tom de vermelho por causa do flagrante. Então fiz a coisa mais lógica. Mandei um jato de água no rosto do elfo, ele se engasgou e tossiu como se sufocasse... Opa! Acho que a água entrou no nariz de Legolas e a cena do elfo tossindo e vermelho não foi um dos momentos mais bonito dele. Por isso foi tão engraçado e eu comecei a rir. Gimli que estava na frente virou-se e olhou tudo sem entender.

_Tinha que ver sua cara de idiota, elfo! — Eu continuava rindo até que vi os olhos de Legolas brilharem... Como se ele tivesse tido uma ideia.

_Vamos ver se você gosta disso, Bleumer! — De súbito Legolas usou o remo para esguichar água na minha direção, assim molhando meu rosto e a parte de cima da minha roupa. Fiquei alguns segundos em silêncio até explodir em risadas. Aquele elfo era mesmo um idiota! Bem, não me importei em me molhar, o dia já ia alto e estava quente, então acabou sendo refrescante.

Na nossa frente Gimli resmungava algo sobre ser o único adulto ali e como éramos dois tolos.

_Bleumer... — Legolas ainda olhava para trás, para mim, mas algo na sua voz me fez prestar mais atenção nele... Sua voz tinha soado... Sensual. Na verdade ele me olhava quase hipnotizado. Então notei a situação que me encontrava.

A água que Legolas jogou em mim tinha molhado meu vestido... Algumas mechas dos meus longos cabelos agora estavam grudadas a minha pele, gotas de água ainda desciam vagarosamente pelo meu pescoço até se perdem entre meus seios, e não só isso, meu vestido branco agora estava transparente onde tinha sido molhado. Meus seios estavam praticamente à mostra, apenas com um fino pano os cobrindo, um pano que grudava na minha pele e realçava ainda mais meu busto. E Legolas podia ver tudo isso, não só podia como estava vendo.

Meu rosto tomou um tom impressionante de vermelho, levantei um braço e desferi um sonoro tapa no rosto de Legolas.

_Seu tarado! — Gritei enquanto puxava meu manto para me cobrir.

_Q-que?! Eu não... ! — Legolas tentou se explicar, mas Gimli o interrompeu.

_Tarado? Onde?! O que está acontecendo aí atrás? — O anão perguntou já erguendo seu machado e olhando para nós, mas o elfo se posicionou melhor e tapou a visão de Gimli sobre mim.

_Não foi nada! — Eu e o elfo respondemos em uníssono.

_Na próxima vez eu não vou viajar mais no barco com dois loucos! Vou com Aragorn ou Erick que são dois homens sensatos! — Gimli virou-se para frente e continuou resmungando sem parar.

Legolas também virou para frente e tornou a remar, dessa vez com mais força, só que agora Legolas exibia uma marca vermelha no rosto no formato perfeito da minha mão, além de estar com uma expressão emburrada. Elfo idiota e tarado!

Agora só me restava chamar o Ar e pedir que secasse minha roupa.

Pelas próximas horas não falamos nada, apenas seguimos o curso do rio até parar em uma margem para descansar para o próximo dia.

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Já era noite e todos estavam envolta de uma fogueira, comendo. Eu estava entre Sam e Frodo, mas notei que o portador do Anel não comia direito.

_Não sente fome, Frodo?

_Ah... Não muita. — O mestre hobbit soou distraído. Ao meu lado ouvi Sam suspirando por causa da resposta.

_Bem, não quer nem mesmo chocolate? — Reequipei uma barra de chocolate e entreguei para Frodo, antes mesmo dele responder. — Agora você vai ter que comer. — Pisquei para o pequeno ao meu lado.

_A senhora sabe como ser convincente. — Então Frodo sorriu um pouco. Aquilo me pegou de surpresa. Fazia muito tempo que não o via sorrir. Notei que Sam ficou igualmente aliviando. Até Aragorn sorriu de canto ao ver aquilo.

Um movimento me chamou atenção. Erick estava atirando pedrinhas no rio. Suspirei. Acho que está na hora de falar com ele e descobrir porque está tão distante. Ao me levantar e caminhar para perto do rio, vi que Boromir me seguiu com o olhar... E aquilo me causou um arrepio desagradável.

_Duvido fazer a pedrinha quicar 10 vezes. — Eu provoquei Erick e parei ao seu lado. E ele sem me olhar laçou a pedra e ela quicou três... Cinco... Dez... Quinze... Trinta vezes... E continuou quicando até chegar à outra margem.

_Venci.

_Não vale! Você usou telecinese! — Eu o acusei e foi inevitável não fazer um biquinho por causa da frustração.

_Você não especificou as regras. — Erick continuava não olhando para mim. E aquilo estava me irritando.

_Erick? Erick... — Eu o chamava e ele não olhava. — Erick!– Gritei com irritação e de súbito agarrei a frente do seu casado e o puxei para baixo, antes que o Anjo pudesse fazer algo eu dei uma cabeçada na testa dele.

_Ai! Ficou louca, mulher?! — Erick exclamou surpreso enquanto massageava a testa e me olhava confuso.

_Há! Agora você está olhando para mim! — Respondi enquanto massageava minha própria testa. Aquilo tinha doído! — Porque está me ignorando? Fiz algo que o chateou?

Erick passou a mão pelos seus cabelos negros, os bagunçando mais... Não pude deixar de notar como ele ficava lindo ao fazer isso. Mas eu também sabia que ele tinha essa mania quando estava nervoso com algo.

_É apenas a falta de sono. Não se preocupe com isso, deixe para lá. — Ele me disse enquanto desviava o olhar. Eu já ia retrucar quando do Erick continuou falando. — Eu ainda tenho muitas coisas para lhe ensinar sobre a Segunda Origem. Então venha.

Ao ouvir aqui toda minha atenção foi desviada. O que mais eu poderia aprender? Minha ânsia por saber mais ultrapassava qualquer coisa. Eu o segui de volta para perto da fogueira, Erick sentou em uma pedra e eu no chão. Como se esperasse ele contar uma história.

_Bleumer, eu liberei seu poder adormecido, mas isso não significa que você está pronta para usa-lo da maneira que bem entender. — Erick me disse sério. Firme. E eu o fitei sem entender. O que era aquilo?! Como assim?!

_Hã? Porque não posso usar do jeito que quero?

_Porque você nunca foi treinada para isso. Você pode perder o controle sobre seu poder, sobre seus elementos, sobre sua Segunda Origem e ser consumida por essa energia. Por isso, use com moderação. Eu vou treina-la a partir de agora para controlar esse poder novo. — Erick disse. Todos da Sociedade podiam ouvir nossa conversa, afinal ninguém mais estava falando algo.

_Isso quer dizer que você não vai embora em breve? — Legolas perguntou para Erick. Na voz do elfo havia um toque de raiva.

_Não. Não vou, fadinha da floresta. Só vou embora quando Bleumer abandonar esse mundo. — Erick respondeu. Mas nos olhos do meu amigo havia tanta ira pelo elfo que eu não entendi. Há até poucos dias os dois pareciam conseguir suportar a presença um do outro.

_Enfim. O que mais queria me ensinar? — Eu perguntei e Erick voltou sua atenção para mim. O Anjo suspirou pesadamente e disse.

_Eu sei o quanto você é imprudente com sua própria vida, Bleumer. Mas eu devo lhe contar uma coisa sobre o ataque Uranometria. Você sabe que esse é o último ataque de um Anjo, que ele precisa dar sua vida por esse poder, não é? — Erick me olhou nos olhos e eu assenti, o incentivando a continuar. — Então... Agora que você pode usar a Segunda Origem... Você também pode usar esse ataque mais de uma vez. Quando você o usar vai dar em troca sua primeira reserva de energia vital, mas graças a Segunda Origem você tem uma segunda reserva, então você permanecerá viva mesmo que use esse ataque, entendeu?

Toda aquela informação era nova para mim. E a ideia de poder usar um ataque tão poderoso quanto a Uranometria e continuar viva era incrível! Um sorriso se formou nos meus lábios. E Erick continuou.

_Uranometria não é apenas um ataque. É uma concentração absurda de poder que pode ser usado da forma que o conjurador quiser. Então essa energia pode ser usada para fazer um escudo protetor absoluto, um ataque mortal, você também pode direciona-la para alguém e encher essa pessoa de Luz, assim talvez salvando sua vida. Depende do desejo do coração do conjurador. Ha formas ilimitadas de usar esse poder. Mas lembre de uma coisa, Bleumer! Nunca, sob hipótese nenhuma, use esse ataque uma segunda vez na mesma batalha. Se você o fizer vai estar entregando em troca sua segunda reserva de energia vital... E você sabe o acontece depois.

_O que acontece depois? — Merry perguntou a Erick.

_Eu morro. — Eu respondi pelo Anjo e vi Merry arregalar os olhos.

_Oh! Então não podemos deixar Peregrina usar esse poder duas vezes na mesma batalha! Isso seria muito perigoso! — Pippin disse para todos.

_Tem razão, Pippin. Precisamos proteger Peregrina. Vamos usar nossa inteligência e músculos para isso! – Merry respondeu enquanto balançava o punho no ar, como se brigasse com algo.

_Bom, a outra coisa que tenho que... Ah! — No meio da sua fala Erick arfou de dor e seu braço estremeceu como se levasse um choque...

_Seu Bracelete Guia! — Apontei para o braço de Erick e uma luz vermelha piscava sem parar no Bracelete.

Uma luz vermelha... Aquilo só significava uma coisa. Meu corpo todo congelou. Vi quando Erick ergueu o braço e apertou um botão no Bracelete. Um instante depois uma voz automática, fria e robótica pode ser ouvida por todos.

Se você esta ouvindo essa mensagem significa que esta sendo convocado para lutar. Aborte sua missão e peça imediatamente para um Alquimista abrir um Portal dos Saltadores para você.

Alerta! Alerta! Alerta!

O Centro esta sendo invadido por forças hostis. Setor N7 comprometido.

Volte a Pandora imediatamente.

Alerta! Alerta! Alerta!

Erick apertou outro botão e a mensagem foi silenciada. No instante que antecede o caos, só houve silêncio por nossa parte e pela Sociedade. A própria floresta parecia se calar. Meus olhos encontraram com os de Erick e vi meu medo refletido nos olhos cinzentos dele.

Então tudo aconteceu.

Erick levantou de um pulo e começou a preparar-se para abrir um Portal, já que ele era tanto Anjo quanto Alquimista. Eu me levantei na mesma hora e olhei para a Sociedade.

_Preciso partir agora. Algo aconteceu no meu mundo e eu tenho que lutar por ele. Peço que me perdoem por abandona-los agora, mas voltarei e continuarei seguindo com vocês. Isso é um adeus. — Minha voz tremia e saía meio sem vida, como se eu tivesse decorado um texto. Legolas me olhou e nos seus olhos só pude ver pavor. Ele se ergueu e andou na minha direção.

_Você não pode ir embora! Preciso de você aqui! — A voz do elfo também tremia. Logo vi que Aragorn e Gimli tinham levantado e olhavam tudo sem saber o que fazer.

Abri a boca para dizer que precisava ir quando a voz de Erick me interrompeu.

_Legolas tem razão. Você não pode ir Peregrina. — Virei a cabeça de modo brusco ao ouvir aquilo de Erick. Quando eu o olhei ele fazia aparecer desenhos complexos e intricados no ar. Como se pintasse uma tela que só ele parecia ser capaz de ver. Eu sabia que aquilo significava que ele estava abrindo um Portal.

_O que?! Ficou louco?! Eu vou! Fomos convocados! Pandora está sendo atacada! — Eu gritei para ele, minha respiração já estava falha. Como se o medo bloqueasse minhas vias respiratórias.

_Eu fui convocado! Você não! Seu Bracelete não recebeu nenhuma mensagem! Significa que sua missão aqui é mais importante que a luta em nosso mundo! Portanto fique aqui! — Erick gritou de volta para mim. Ele estava nervoso. Eu podia ver. Nós dois sabíamos que a situação em Pandora devia estar muito crítica... Uma certeza assustadora tomava conta de mim... Só podia ser os Demônios dos quais Erick falou.

_Não importa! Eu vou! O setor N7 é o berçário e onde as cuidadoras ficam! Esses monstros estão atacando nossas crianças! Os bebês e humanos de Pandora! Eu preciso lutar! — Berrei as ultimas palavras. Todo meu corpo tremia.

Pude ouvir um gemido vindo de Frodo, como se lamentasse profundamente as perdas das crianças.

_Bleumer, se acalme. Vocês dois fiquem calmos. — Legolas tentou me tocar, mas dei um tapa na sua mão.

_Eu sei! Eu sei! Eu vou matar qualquer um que fizer mal para uma criança ou humano de Pandora! Mas você vai ficar aqui! — Erick gritou de volta e ao final do seu grito seu desenho também terminou. Um Portal começava a se forma os poucos. Parecia uma porta sendo aberta timidamente pela mão do Universo.

_Você liberou minha Segunda Origem para eu lutar! Deixe-me lutar pelo meu mundo! — Corri na direção do Anjo e tentei passar pelo Portal. Mas Erick me segurou com uma força descomunal.

_Eu liberei sua Segunda Origem para VOCÊ VIVER! E VOCÊ DEVE PERMANENCER VIVA! Seja uma guerreira! Aceite que sua missão não é a de lutar por Pandora agora, Peregrina! — Erick berrou na minha cara, enquanto apertava meus braços. Eu sabia que ele tinha razão, mas não queria desistir.

_Não! Todos que conheço estão lá! Estão sendo atacados por Demônios! Preciso ajudar! – Me debati inutilmente enquanto gritava, mas Erick me empurrou para longe, me afastando e ele próprio começou a entrar no Portal.

Corri de novo até ele e segurei suas mãos. Metade do corpo de Erick já tinha passado pelo Portal. Então o Anjo fez algo que eu não esperava. Algo que tirou meu chão e pegou todos de surpresa. Erick tomou meu rosto em sua mão e olhou dentro dos meus olhos. Depois aproximou nossas faces e selou nossos lábios. Erick me beijou com tanta ternura que quase foi possível ignorar o que estava acontecendo em volta de nós. Minha surpresa foi tanta que nem fechei os olhos. Mas ele fechou e seu rosto parecia tomado de paz enquanto me beijava.

Meu coração disparou ainda mais. Quando eu achei que meu coração ia sair pela boca, Erick interrompeu o beijo e me olhou.

_Eu a amo. Sempre amei. Desde que éramos pequenos. Você é a garota da música que fiz. Precisei de cem anos longe para reconhecer esse amor, mas não tive coragem de me declarar. Eu demorei demais para confessar meus sentimentos e agora tenho medo de seu coração já pertencer a outro. Mas eu não vou desistir de você. — A voz do Anjo soou decidida e ao mesmo tempo suave.

Eu estava atônita. Sem nenhuma reação. Apenas o olhei nos olhos tempestuosos do meu amigo e vi seu amor por mim ali. Era tão óbvio que me senti uma tola por não ter enxergado antes.

_Não desperdice sua vida por qualquer um, não seja imprudente. Ainda temos muito o que viver. — Erick acariciou meu rosto. Como um gesto de despedida. Agora eu notei que toda a parte abaixo do seu ombro já tinha sido engolida pelo Portal. Mas eu ainda não conseguia encontrar minha voz para dizer nada.

_Cuide dela enquanto não estou aqui. — Erick disse a Legolas. Então sem eu esperar o Anjo usou sua telecinese e me empurrou para os braços de Legolas, que se fecharam em volta de mim.

_ERICK!– Recobrei minha voz, mas já era tarde demais. Inutilmente estiquei meu braço na direção do Portal onde somente a mão de Erick ainda estava visível, mas sua mão também foi engolida pelo turbilhão de energia e sumiu. O próprio Portal de repente diminuiu e se fechou. Como se nunca tivesse existido.

Um silêncio carregado tomou conta do lugar. Todos olhavam para mim. E eu ainda podia sentir os braços de Legolas segurando meu corpo e me prendendo, mas eu não ofereci resistência. Minha mente parecia ter pifado.

Primeiro, Pandora foi atacada, possivelmente por Demônios.

Segundo, eu não fui convocada para lutar.

Terceiro, as crianças e os humanos tinham sido os primeiros a serem atingidos, talvez por aquele ser o ponto mais fraco do Centro.

Quarto, Erick me beijou.

Quinto, Erick se declarou para mim.

Sexto, todos da Sociedade viram isso. Legolas viu.

Sétimo, Erick foi lutar. E eu não consegui dizer nada. Ele sumiu de novo da minha vista.

Oitavo, Erick pode morrer nessa luta. Alguém que eu conheço e amo pode morrer hoje.

Nono, eu ainda tenho minha missão na Terra-Média para completar.

_Bleumer? Calma, eu estou aqui com você. – O elfo me disse ao pé do meu ouvido enquanto me abraçava mais. Tentando me reconfortar.

Décimo, pela primeira vez as palavras de Legolas não surtiram nenhum efeito em mim. Eu estava dormente para tudo.

Notas finais
Olá! Tudo bem? o/ *Erick se declarou para Bleumer? O que acharam disso? *Bleumer está confusa com o que fazer com Legolas... Quem não estaria também? *O que será que houve em Pandora, no Centro? Que ataque é esse? Alguma ideia? *Deixem comentários! Digam o que estão achando da história! Isso é muito importante para mim. :3 *Mereço recomendação? *--* Sobre o grupo do Whatsapp, ele foi criado e está sendo muito divertido conversar com outras pessoas! Além de que algumas imagens referentes a fic e prévias de coisas que vão acontecer são postadas lá. Então se você quiser entrar é só deixar o número (com o DDD) nos comentários ou por mensagem privada! o/ *Imagem meramente ilustrativa e editada pela minha beta. Até logo! Beijo de Luz do Viajante!