It's early morning, the sun comes out

Last night was shaking and pretty loud

My cat is purring, it scratches my skin

So what is wrong with another sin?

The bitch is hungry, she needs to tell

So give her inches and feed her well

More days to come, new places to go

I've got to leave, it's time for a show

Scorpions


— Mas que porra...


Clark Kent raramente deixava um palavrão escapar.


Jonathan Kent havia criado o filho acreditando que caráter também era demonstrado pela forma como alguém se expressava. Não era que um simples xingamento transformasse alguém em uma pessoa pior, mas perder a cabeça por qualquer motivo nunca resolveria problema algum. Martha seguia a mesma linha de pensamento, e, ao longo dos anos, Clark acabara absorvendo aquilo quase como um reflexo. Normalmente respirava fundo, contava até dez e procurava uma solução.


Por isso, quando um "que porra" saía de sua boca, era porque a situação realmente o havia atingido. Ou simplesmente porque seus pais não estavam por perto. E de fato parte disso acontecia, para a infelicidade de Clark. Jonathan já não estava vivo para lhe lançar aquele olhar reprovador acompanhado de um "linguagem, filho". Talvez, se estivesse, acabasse entendendo o motivo daquela reação.


Kara também parecia indignada.


Recostada na cerca de madeira que delimitava um dos pastos da fazenda, ela mantinha os braços cruzados enquanto observava Clark andar de um lado para o outro. Havia chegado à Terra fazia relativamente pouco tempo. Ainda assim, bastara esse período para compreender duas coisas: os Kent eram pessoas boas demais para o próprio bem (embora Clark pudesse ser extremamente chato e desconfiado, às vezes, mas Martha era um amor de pessoa) e os Luthor dificilmente faziam alguma coisa sem segundas intenções.


— Ela aceitou trabalhar para o Lionel Luthor... — Clark repetiu, como se ainda esperasse encontrar algum sentido na frase.


— Eu ouvi da primeira vez.


— Não consigo acreditar.


— Nem eu.


O problema não era Martha trabalhar. Muito pelo contrário. Clark sabia melhor do que qualquer pessoa que sua mãe nunca conseguira ficar parada. Desde a morte de Jonathan, insistia em ocupar o tempo com alguma atividade. Organizava campanhas beneficentes, ajudava vizinhos, participava de reuniões da comunidade, fazia trabalho voluntário na igreja e ainda encontrava energia para cuidar da casa sempre que Clark e Kara voltavam da lavoura.


O problema tinha nome e sobrenome: Lionel Luthor.


Durante anos, Lionel representara exatamente o tipo de homem que Jonathan Kent desprezava. Um empresário poderoso, acostumado a comprar pessoas, influenciar decisões e tratar vidas como peças de um grande tabuleiro. Clark conhecia o suficiente daquele homem para desconfiar de qualquer boa ação que viesse dele. Quantas vezes tiveram problemas, graças ao sujeito?


Ok, tudo bem. Talvez Lionel realmente estivesse mudando. Ou talvez não. Melhorar tanto assim, rápido assim? Era de lascar. Clark simplesmente não conseguia confiar. Kara também não. Embora não tivesse vivido todas aquelas histórias, bastaram alguns relatos de Clark e algumas poucas interações para a prima formar sua própria opinião.


— Humanos realmente têm um talento impressionante para complicar as coisas — comentou ela, balançando a cabeça. — Será que em Krypton, alguém aceitaria trabalhar para alguém em quem não confiasse? Não me lembro de nenhum caso assim!


Clark soltou uma risada sem humor.


— Aqui as contas chegam todo mês.


Aquilo, infelizmente, era verdade.


A Fazenda Kent sobrevivia, mas estava longe de viver uma fase confortável.


Os campos daquele ano haviam produzido uma quantidade excelente de milho. As espigas estavam grandes, saudáveis e douradas. Havia soja armazenada, hortaliças sendo colhidas semanalmente, além das frutas que Martha insistia em cultivar nos fundos da propriedade. Quem passasse pela estrada provavelmente enxergaria apenas uma fazenda bonita e organizada.


A realidade era um pouco diferente.


Boa produção não significava necessariamente bom lucro.


Os atravessadores pressionavam os preços para baixo, os custos com combustível aumentavam praticamente a cada safra, equipamentos antigos exigiam manutenção constante e qualquer problema climático podia destruir meses de trabalho em questão de horas. Jonathan sempre dizia que o agricultor era o único empresário que trabalhava um ano inteiro sem saber quanto receberia no final.


Clark entendia perfeitamente o que o pai queria dizer. Mesmo usando seus poderes para acelerar alguns (ou praticamente todos) serviços mais pesados, ele não podia fazer uma plantação crescer em um único dia, controlar o mercado ou impedir que compradores oferecessem valores injustos.


Kara vinha aprendendo isso da maneira mais difícil. Na Terra, descobria que boa parte das decisões das pessoas girava justamente em torno do dinheiro. Era complicado demais, para a mente da jovem!


Here I am

Rock you like a hurricane



— Ainda assim... — ela voltou a falar. — Ela não precisava aceitar justamente esse emprego.


Clark permaneceu em silêncio. Sabia que a crítica era mais emocional do que racional. Racionalmente, fazia sentido. Martha nunca desejara passar o resto da vida apenas administrando uma fazenda. Ela amava aquele lugar. Amava cada lembrança construída ao lado de Jonathan, cada árvore plantada por ele, cada canto daquela casa onde Clark crescera.


Como alguns poetas diriam? Mas sempre tem um mas? E um grande porém para Martha é que também existia uma mulher além da esposa e da mãe. urante décadas, deixara seus próprios planos em segundo plano para priorizar a família. gora Jonathan não estava mais ali. lark era adulto.


Kara, embora recém-chegada, tornara-se parte daquela família com uma naturalidade impressionante. Além disso, já era adulta quando chegou. Martha nunca fazia distinção entre os dois. Se Clark era seu filho, Kara era sua sobrinha. Era assim que a tratava, e ninguém seria capaz de convencê-la do contrário.


Talvez justamente por isso ela finalmente sentisse que podia olhar para si mesma. O desejo por trabalhar. Trabalhar além de sua fazenda. Desejava construir uma carreira. Desejava profundamente participar mais ativamente da vida pública de Smallville e, quem sabe, do Kansas inteiro. Lionel Luthor oferecera exatamente essa oportunidade. Não porque fosse um homem bom. E sim porque era um homem influente.


Afinal de contas, Martha não era ingênua. Sabia muito bem com quem estava lidando. Apenas acreditava ser madura o suficiente para manter sua integridade sem precisar concordar com tudo o que Lionel fazia. Além disso, o salário faria diferença. Ela jamais admitiria em voz alta, mas sonhava em juntar dinheiro suficiente para reformar completamente a fazenda. Queria trocar o velho celeiro, comprar equipamentos novos, quitar as dívidas que Jonathan insistira em esconder até onde conseguira e garantir que, quando decidisse se aposentar de verdade, Clark herdasse uma propriedade muito melhor do que aquela que recebera.


Se, no caminho, acabasse encontrando espaço na política...


Melhor ainda! Jonathan sempre acreditara que pessoas honestas deveriam ocupar cargos públicos. Já tinha sacanas o suficiente tomando a decisão por todos nós! Ou seja, talvez estivesse na hora de Martha tentar. Por que não?


Mesmo assim, Clark continuava desconfortável. Porque uma coisa era entender os motivos da mãe. Os motivos da mãe estavam completamente corretos. Outra completamente diferente era aceitar que Lionel Luthor passaria a fazer parte da rotina dela.


O assunto acabou ficando de lado quando a conversa naturalmente mudou para a Festa da Colheita.


Smallville inteira respirava aquele evento.


As ruas principais começavam a ser decoradas dias antes. Fardos de feno apareciam nas calçadas, espantalhos enfeitavam vitrines, barracas eram montadas na praça central e praticamente toda fazenda contribuía de alguma forma. Haveria concurso da maior abóbora, exposição de animais, leilões beneficentes, apresentações musicais de bandas locais, dança, comidas típicas e o tradicional desfile organizado pelos estudantes da cidade.


Os Kent já haviam separado parte da produção de milho para comercializar no evento. Afinal de contas, Martha normalmente passava boa parte do dia ajudando na organização, supervisionando barracas beneficentes e resolvendo pequenos problemas de última hora.


Na prática, trabalhava mais durante a festa do que em qualquer outro dia do ano.


Foi justamente isso que preocupou Clark.


— Você prometeu que vai, não prometeu?


— Prometi.


— Então vai como visitante.


Martha sorriu, percebendo imediatamente onde o filho queria chegar.


— Clark...


— Não, mãe. Estou falando sério.


Kara resolveu apoiar.


— Você passa o ano inteiro cuidando de todo mundo. Uma vez, só uma vez, deixe que outras pessoas resolvam os problemas.


— A cidade precisa de voluntários.


— A cidade inteira também gosta de você — respondeu Kara. — Tenho certeza de que vão sobreviver sem a senhora distribuindo tarefas por algumas horas.


Clark concordou com a cabeça.


— Quero ver você passeando pelas barracas, experimentando torta de maçã, assistindo ao desfile e conversando com as pessoas. Só isso.


— Sem reuniões.


— Sem documentos.


— Sem Lionel Luthor — acrescentou Kara, fazendo Martha rir.


— E, principalmente, sem inventar alguma desculpa para voltar ao trabalho antes da hora.


Martha observou os dois por alguns segundos.


Às vezes ainda custava acreditar no quanto aquela família havia mudado. Jonathan partira cedo demais. Kara surgira literalmente de outro planeta. Clark carregava responsabilidades que homem algum deveria carregar. Ainda assim, ali estavam eles, preocupados apenas porque queriam vê-la feliz.


Seu sorriso tornou-se mais sincero.


— Está bem.


Clark arqueou uma sobrancelha, desconfiado.


— Está bem?


— Eu vou aproveitar a Festa da Colheita. Não vou trabalhar. Não vou organizar barracas. Não vou resolver problemas de ninguém.


Kara estendeu a mão.


— Promessa?


Martha segurou a mão da sobrinha e sorriu.


— Promessa.


Clark finalmente relaxou.


Pelo menos durante um único dia, sua mãe deixaria de ser a mulher que carregava o mundo nas costas para simplesmente ser Martha Kent. E, para ele, isso já faria daquela Festa da Colheita uma das melhores que Smallville teria em muitos anos.


Here I am

Rock you like a hurricane


Em algum lugar de Gotham, porém, um certo bilionário já trabalhava em silêncio dentro de seu laboratório. Cercado por hologramas, bancos de dados criptografados e incontáveis arquivos, ele compilava tudo o que conseguira descobrir sobre indivíduos com habilidades extraordinárias, tanto em Gotham quanto em Smallville. Relatórios, fotografias, registros de testemunhas, padrões de comportamento e hipóteses eram organizados meticulosamente. Nada era deixado ao acaso.


Seu objetivo era simples: nunca mais ser pego de surpresa. Ou, pelo menos, reduzir ao mínimo as chances de isso acontecer. Afinal, o inesperado costumava ser o maior inimigo de qualquer plano.


Jim Gordon compartilhava da mesma opinião. Depois de tantos anos enfrentando criminosos comuns e ameaças cada vez mais incomuns em Gotham, o comissário aprendera que informação podia valer mais do que armas. Alfred, por sua vez, apoiava discretamente tal ato, ainda que preferisse vê-lo descansando de vez em quando. Ainda assim, a paciência precisava reinar ali. Os três estavam cansados de surpresas.