A Pequena Fazenda em Smallville
3 Você e eu
I lose control because of you babe
I lose control when you look at me like this
There's something in your eyes that is saying tonight
I'm not a child anymore, love has opened the door
To a new exciting life
Scorpions
Lex Luthor, filho do bilionário Lionel Luthor, é enviado ainda muito jovem para Smallville para administrar o Espaço Amar. Se Martha Kent havia dado uma segunda, terceira ou até quarta chance para o desgraçado do Lionel, então por que Clark Kent não poderia fazer o mesmo com Lex?
Depois que Clark salva sua vida, os dois acabam construindo uma amizade surpreendentemente rápido. Lex se mostra inteligente, prestativo e, acima de tudo, um amigo leal. Ainda assim, sua curiosidade nunca desaparece. Desde o primeiro dia, ele tenta descobrir quais segredos Clark esconde do resto do mundo.
Porra... Lex já tinha provado inúmeras vezes que era alguém em quem se podia confiar. Clark não deveria continuar alimentando tanta desconfiança e tanto ressentimento contra alguém que, um dia, foi quase como um irmão. Era isso que seus amigos viviam dizendo. Até Kara, que tinha todos os motivos do mundo para odiar os Luthor, insistiu para que Clark pegasse mais leve com Lex.
Talvez eles estivessem certos. Foi por isso que Clark decidiu convidá-lo para a grande festa que aconteceria nos próximos dias.
— Eu sei que você odeia essas festas do interior, mas fica o convite. Dessa vez, quero fazer uma coisa legal por você, Lex. Toda a comida é por minha conta.
Clark até entenderia se Lex recusasse o convite. Não fazia exatamente o estilo dele.
Durante a festa, os primos Kara e Clark aguardavam para ver quais amigos aceitariam o convite, enquanto trabalhavam puxado entre barracas de milho, música country e crianças correndo pelo gramado. No entanto, Clark acabou reparando em um rosto que não via havia anos e nem havia se lembrado de convidar.
Demorou alguns segundos para associar aquela expressão séria ao garoto que conhecera na adolescência. Quando finalmente reconheceu, um sorriso espontâneo surgiu em seu rosto.
— Bruce Wayne!
Bruce virou lentamente. Por um breve instante, sua expressão impassível vacilou.
— Clark.
Os dois apertaram as mãos. Não era exatamente um reencontro caloroso, embora o kryptoniano se esforçasse para tal. Clark apresentou Kara, que cumprimentou Bruce com educação, enquanto Alfred fazia questão de ser muito mais simpático que seu patrão.
Conversaram brevemente sobre os velhos tempos, focando nas notícias novas sobre Smallville e Gotham. Ouviram notícias que Gotham crescia bastante, e os primos kryptonianos estavam genuinamente curiosos. Quando fez um breve silêncio, foi então que Bruce comentou, quase casualmente:
— Ouvi dizer que a fazenda está à venda.
Clark e Kara se entreolharam.
— Ouviu? — perguntaram ao mesmo tempo.
— Não está?
— Não! — responderam novamente, em uníssono.
Bruce franziu a testa. Aquilo não fazia sentido. Durante semanas, diferentes fontes haviam mencionado exatamente a mesma informação. Algumas eram empresários interessados na propriedade; outras, pessoas ligadas ao mercado imobiliário. Nenhuma delas costumava errar.
Antes que pudesse responder sem ao menos pensar, Alfred aproximou-se segurando um copo de caldo de milho. Sabe aquele olhar de pessoas experientes, que sugerem um mínimo de paciência antes de falar qualquer coisa? Aquilo fez Bruce suspirar, ainda que irritadiço.
— Querem dizer que minhas informações são falsas?
Clark respirou fundo antes de responder.
— Falsas, sim. Não porque você esteja mentindo. Alguém mentiu para você.
Seu tom continuava educado, mas havia firmeza. Clark já era chato quando queria. E ainda alguém chegar com uma coisa daquelas? Céus, era de esquentar o sangue dele!
— A fazenda passou por dificuldades, como qualquer propriedade familiar. Tivemos anos ruins, dívidas e colheitas perdidas. Só que nunca pensamos em vender este lugar.
— Honestamente, quem espalhou isso queria alguma coisa — Kara cruzou os braços, enquanto falava levemente descontraída.
Bruce permaneceu em silêncio, ainda mais quando vê um rapaz se aproximando e cumprimentando Kara. O rapaz comprou um caldo de milho e se afastou. O que Bruce falaria, agora, exatamente Aquilo só aumentava sua desconfiança. Se não estavam vendendo a fazenda... por que tanta gente acreditava nisso? Quem lucrava espalhando aquele boato? Ou Clark estava escondendo alguma coisa?
O silêncio só foi quebrado por Kara, ao terminar de atender o cliente que havia chegado ali e cumprimentar outras pessoas.
— A única coisa que estou vendendo hoje é milho. Milho cozido, bolo de milho, pamonha, cural... Querem experimentar?
Ela abriu um sorriso sincero.
— Aprendi a fazer cural recentemente. Não é exatamente uma comida norte-americana, mas é muito boa. Gostaria muito que alguém que não fosse da família dissesse se ficou bom.
Alfred levantou a mão imediatamente. O seu bom humor estava em dia, e, como sempre, sentia a grande necessidade de lembrar ao ranzinza (e já adulto) Bruce como se comportar em público. Ele não poderia ser um morceguinho a vida inteira.
— Eu aceito com enorme prazer — Alfred respondeu.
— Eu aceito também — invade Pete, amigo de longa data de Clark e que chega de fininho, com vontade de experimentar todas as quitandas gostosas.
Kara sorriu (e se divertiu ainda mais ao perceber que Pete não reconheceu Bruce, mesmo que tenham estudados juntos e mesmo que aquele grande nome de Gothan aparecesse de vez em quando nas televisões).
— Sabia que alguém teria bom gosto.
Bruce apenas observava. E havia muitas pessoas ao redor para poder retrucar à vontade. Enquanto Alfred conversava alegremente com Kara e Pete sobre receitas, manteiga e açúcar na medida certa, Bruce analisava tudo ao redor.
A fazenda. As cercas. Os celeiros. A quantidade de pessoas. Muitas pessoas, ele sempre seria repetitivo nisso. As rotas de entrada e saída. Velho hábito. Tudo parecia genuíno demais. Alfred, por outro lado, parecia completamente satisfeito. Na verdade, Alfred já esperava que aquela história da venda pudesse ser um boato. Inclusive havia avisado Bruce antes da viagem: "Nem toda informação é verdadeira só porque veio de alguém influente."
Bruce não dera muita atenção. Agora começava a admitir, mesmo que apenas para si mesmo, que talvez Alfred tivesse razão. Além disso, fazia anos que Alfred não tinha um dia de paz. Deveriam aproveitar a festa calma? Porcaria de zona rural, embora aquele inferno de lugar estava um dia calmo. Inferno pacífico, não? Sem explosões. Sem perseguições. Sem Coringa. Sem Charada. Sem Espantalho. Apenas uma festa simples numa cidade pequena. Era quase um milagre, ainda mais que sabia um pouco sobre as pessoas sobrenaturais dali.
E Alfred aproveitou cada segundo. Conversou com agricultores. Aprendeu sobre plantações. Experimentou pamonha, cural, bolo de milho e ainda saiu elogiando a hospitalidade dos Kent. Além disso, visitou outras barracas, se divertiu vendo tantos animais de perto e tudo sem alguém para atrapalhar. Nenhum dos heróis presentes imaginava que aquele senhor elegante conhecia praticamente todos eles, ainda que sob outras identidades.
Mais curioso ainda: Alfred não reconheceu nenhum grande vilão infiltrado na festa. Pela primeira vez em muito tempo, ele simplesmente descansou.
I'm not a child anymore, love has opened the door
To a new exciting life
Na manhã seguinte, Clark e Kara só acordaram perto do meio-dia.A festa havia terminado tarde, e o cansaço finalmente cobrava seu preço. Prepararam um café da manhã reforçado e já estavam bebendo um pouco do café quando ouviram a campainha. Kara abriu a porta.
Bruce Wayne. Ela o deixou entrar e o convidou para um café, mas algo continuava incomodando. Afinal, Bruce era educado e elegante. Educado até demais. Parecia medir cada palavra antes de pronunciá-la. Isso mais do que no dia anterior, no meio da festa? Como se estivesse interpretando um personagem, jogaria o palpite. Kara não sabia explicar por quê, mas aquilo lhe causava certo desconforto.
Poucos minutos depois, ao sentar-se na mesa e deixar os dois primos beberem seu café confortavelmente, Bruce foi direto ao assunto.
— Clark. Vim conversar sobre a propriedade.
Clark arqueou uma sobrancelha.
— Ainda nisso?
— Quanto quer pela fazenda?
Kyle soltou uma risada curta.
— Você realmente não desiste.
Bruce sequer olhou para ela. Seu olhar permanecia preso em Clark.
— Quanto?
Clark apoiou a caneca sobre a mesa.
— Bruce... ela não está à venda.
Silêncio. Bruce respirou lentamente.
— Então alguém gastou tempo e dinheiro para espalhar essa informação.
— Parece que sim.
Bruce aproximou-se alguns passos.
— Você sabe quem fez isso?
Clark sustentou seu olhar.
— Não. E sei nem se quero saber, de tão cansado que eu tô agora.
Os dois permaneceram imóveis. Kara podia sentir a tensão crescendo. Era como assistir duas pessoas jogando xadrez sem mover nenhuma peça. O problema é quando Kara percebeu que muito daquilo era uma tensão sexual. Bruce queria entender porquê gastou tempo indo ali, e apenas isso, ou queria aproveitar o problema para falar com Clark?
Bruce resolveu testar outra estratégia.
— É mais fácil admitir que está escondendo alguma coisa.
Clark sorriu de canto.
— Engraçado. Eu ia dizer exatamente a mesma coisa sobre você.
Kara não conseguiu conter a risada. Bruce ignorou.
— Vamos ser sinceros — Clark continuou. — Você não atravessaria metade do país só para comprar uma fazenda.
Bruce respondeu imediatamente.
— E você acredita que sabe por que eu vim?
— Acho mais fácil você admitir que só queria me rever — Kara quase cuspiu o café de tanto rir.
— Por que eu faria isso? — Bruce permaneceu sério.
Clark deu de ombros.
— Vai saber. Talvez queira me convidar para alguma equipe de super-heróis, igual nas histórias em quadrinhos.
Bruce não respondeu. O que aquele roceiro sabia sobre Bruce Wayne? Clark continuou, divertido.
— Ou talvez tenha lido alguma notícia absurda dizendo que eu sou superforte — Kara levou a mão ao rosto para esconder o riso. O espírito de quinta série estava forte. — Essas fanfics sobre mim estão ficando criativas. E eu saí muito no jornal, eu sei disso!
Bruce permaneceu imóvel. Clark sorriu.
— Foi só sorte. Igual aconteceu com Lex anos atrás. Trabalho pesado na fazenda deixa qualquer um forte. Não sou nenhum Super-Homem.
Kara forçou bastante para não perder completamente a compostura. Ela queria ajudar ou atrapalhar?
— Super-Homem... essa foi boa.
Bruce observou os dois em silêncio. Cada resposta de Clark parecia cuidadosamente construída. Nem mentira. Nem verdade. Algo entre as duas. E Kara sendo a cúmplice perfeita.
Depois de alguns segundos, Bruce perguntou calmamente:
— Só sorte?
Clark sustentou seu olhar.
— Só sorte.
Always somewhere
Miss you where I've been
I'll be back to love you again
Scorpions
Pouco depois, Bruce entrou no carro. Alfred ligou o motor. Por alguns quilômetros, nenhum deles falou.Foi Alfred quem rompeu o silêncio.
— Acho que já podemos voltar para Gotham, senhor.
Bruce continuou olhando pela janela.
— Ainda acha que foi perda de tempo?
— Acho que descobrimos menos do que o senhor esperava... e mais do que imaginávamos.
Bruce não respondeu. Alfred sorriu discretamente.
— O Coringa continua preso. O Pinguim não vai desaparecer sozinho. Gotham continua precisando do Batman. Dessa vez, no entanto, Batman se alimentou e dormiu melhor.
Bruce fechou os olhos.
— Eu sei.
A fazenda não estava à venda. Nunca esteve. Mas havia outra coisa ali que Bruce jamais conseguiria comprar. Algo invisível. Algo simples. Algo que Clark carregava sem perceber. Quando deixaram Smallville para trás, Bruce olhou uma última vez pelo retrovisor. Bruce Wayne jamais admitiria em voz alta que gostou de rever Clark Kent.
Jamais confessaria que, entre todos os rostos que conhecera, aquele sorriso simples de fazendeiro insistia em permanecer em sua memória. Nunca se interessou antes no kryptoniano. Por que agora? Por que agora aquele sorriso? Clark parecia pertencer ao sol, ao vento e aos campos dourados de Smallville, enquanto Bruce havia sido moldado pela chuva, pelas sombras e pelo concreto de Gotham.
Guardou aquele sentimento onde escondia tantas outras coisas: atrás da máscara, no lugar onde ninguém jamais pisaria.
Clark continuaria sendo apenas uma lembrança bonita, como uma estrela vista ao amanhecer.
Always somewhere
Miss you where I've been
I'll be back to love you again
E, no fim das contas, Lex realmente não apareceu. Nem na festa e nem mesmo depois.
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