A Partir De Um Sonho.
4 Minhas memórias chegando ao fim
Notas iniciais
Acordei de um pequeno lapso. Novamente havia tido uma lembrança, agora eu sabia o porquê de Elesis ter dito tudo aquilo, ter ameaçado a mim e a Ronan. Assim como a primeira recordação, essa também veio como um flash, assim que me apoiei em Ronan, a memória voltou, nem parecia que fiquei apenas alguns minutos abraçada ao meu amado, pois a lembrança foi de um momento longo, é nesse aspecto que eu não consigo compreender a lógica de um sonho...
–Está tudo bem? – Ele me perguntou.
–Sim. Iremos partir agora? – Adiantei-me, perguntando.
–Não sei se é o melhor a fazermos, Elesis desapareceu, tenho medo que ela faça algo contra você.
Aproximei-me dele, encostando meu dedo em seus lábios, o impedindo de continuar a falar.
–Shiiii... Não pense nela, passamos por tanta coisa, lembra-se do nosso primeiro encontro, onde nosso amor aflorou? Bem... Estávamos certos do que deveríamos fazer, não podemos deixar com que o medo vire uma incerteza e nos impeça de fugirmos.
Ronan sorriu, ele, com certeza, lembrou-se da frase que disseste para mim quando também senti medo. Beijamo-nos, e este não tinha mais a sensação de ser o último.
–A carruagem nos espera do outro lado da ponte, tens a plena certeza de que queres continuar?
–Estarei ao seu lado, irei sempre aonde você for. – Passei toda a minha confiança para ele.
–Tudo bem, vamos explorar o horizonte juntos.
Começamos a caminhar em direção a ponte, senti novamente que alguém nos perseguia, olhei para trás num impulso e não havia ninguém. Entrelacei meus dedos nos de Ronan. Ele me olhou, indagando o porquê de eu ter feito aquilo.
–Está tudo bem?
–Já é a segunda vez que me faz esta pergunta. – Tentei não demonstrar preocupação.
–Perdoe-me.
O silêncio surgiu em meio à escuridão da noite, éramos iluminados apenas pela lua e sua reflexão no lago, a luz do fogo das tochas já não nos alcançava mais.
Estávamos na ponte, atravessando-a, um vento soprou gélido como em noites de inverno, e estávamos nesta bela Estação, senti meu corpo agir rapidamente para me aquecer, um arrepio tomou-me.
–Aonde pensam que vão? – Uma terceira voz soou em minha mente, hesitei em olhar para trás, mas tinha que ver quem era, mesmo já sabendo.
Ronan apertou minha mão e se virou.
–Elesis, pare de nos seguir, deixe-nos em paz!
–Eu irei... Não quero mais perturbá-los. Só vim aqui para me despedir, Ronan.
A ruiva começou a andar em nossa direção, eu e meu amado recuamos a passos lentos, enquanto os de Elesis apenas aceleravam.
–Se queres apenas se despedir, faça isso logo! – Exclamei, parando perto da saída da ponte.
–Farei... Não precisa apressar-me, Arme. Até porque, és tu que vai embora. Para sempre. – Elesis sorriu e senti o pavor em suas palavras.
Ronan foi para a minha frente.
–Não tente defende-la, não há escapatória... É notório que farás tudo para impedir o destino de sua amada, mas, Ronan, não se preocupe, ficarás feliz sem ela, pois terá a mim!
Elesis depositou uma faca no abdome de Ronan, foi tão rápido, nem percebi que estava tão próxima de nós dois. Minha respiração pausou por um momento, não acreditava no que via. Levei minhas mãos imediatamente para minha face, estava horrorizada.
–Não grite, não faça nenhum alarde... Senão o matarei bem aqui. – Elesis falava num tom frio, retirou a faca e Ronan caiu de joelhos na madeira velha da ponte. Seu sangue começou a escorrer, transformando a madeira marrom desgastada em rubro.
Lágrimas inundaram meus olhos, parecia até que um oceano invadira minha face. Não via mais a lua brilhar, encontrei-me numa completa escuridão.
–Fu...Fuja.... Arme... – Ronan falava pausadamente, tentando não usar todo o fôlego.
–Não! Irei enfrenta-la! Irei salva-lo! – Disse com firmeza na voz, tentei não transpor meu medo.
–Achas que pode contra mim? – Elesis ria de forma assustadora.
–Estás louca! Sempre foi louca e me deixei levar por isso, um rostinho que esconde a verdadeira face de quem és! – Gritei – Como teve coragem de machucar o Ronan? Disseste que o amava!
–Eu não poderia deixa-lo partir, não com você... Mas essa dor logo irá passar. – A voz da ruiva estava diferente, estava melancólica, parecia que estava sofrendo ao ver a pessoa, que ela dizia que amava, sangrando e ao sopro da vida.
Ela se agachou ao lado de Ronan, que permanecia ajoelhado pressionando a mão na ferida, seu vestido vinho se misturou com o sangue que estava escorrendo na madeira. Elesis acariciou o rosto dele e ele a olhava, seus olhos estavam assustados e impiedosos. Vi o ódio e a incerteza se que ainda continuaria vivo, no brilho do olhar de Ronan. Elesis também havia percebido isso.
–Vo-você conseguiu... Não faça nada... — Ronan buscou por ar. Seu pulmão parecia falhar quando falava — Nada com a Arme. Eu... Eu irei com você... – Ronan fechou os olhos.
Elesis sorriu logo depois das palavras ditas pelo meu amado, aquilo foi como uma facada em meu coração. Não poderia permitir que tal atrocidade acontecesse, não permitiria que nossos sonhos de explorar o mundo além do horizonte fosse destroçado por uma louca a qual um dia chamei de amiga, não poderia...
–Não, Ronan, não permita que ela acabe com tudo, eu contarei a todos quem é a verdadeira Elesis e seremos felizes e livres desta maluca! — Esbravejava em meio ao choro desesperado. Eram minhas lágrimas e as da outra Arme.
–Não percebes, Arme, que ninguém irá acreditar em você? Eu fiz a cabeça de todos, se fugires com Ronan, será um estorvo para sua família, irá desonra-la para sempre.
Pensei no que Elesis disseste, realmente não poderia fugir e deixar que essa louca ficasse e contasse a sua versão do que aconteceu, ou seja, mentiria, como sempre fez.
Olhei para Ronan. A imagem dele me fez chorar mais ainda, ele poderia morrer e aquilo me mataria junto. Senti raiva. Elesis segurava a mão de Ronan como se não tivesse o ferido minutos antes. Ele se recusou a segurar a mão dela, mas a ruiva tinha mais força naquele momento.
–Seremos felizes juntos, não é? – Ela o olhava sorrindo. Aquele sorriso mórbido.
Aquilo estava me dando nojo, e eu não poderia fazer absolutamente nada... Ou poderia?
Agi por instinto. Empurrei Elesis no chão e a faca caiu no lago, sujando um pouco a água com o sangue do Ronan.
–Ele está morrendo! – Minha respiração estava descompassada, a adrenalina estava tomando meu corpo — Você é uma louca obsessiva e está matando o Ronan!
–Não... Tu que irás morrer! – Arregalei os olhos ao ver que Elesis foi para cima de mim.
Não havia arma agora, mas a ruiva era mais forte que eu e me pressionou contra o corrimão da ponte. Minhas costas estavam colidindo de forma bruta, arrancando de mim um gemido de dor pela força que Elesis usou. Senti minha carna arder. Meus músculos se contraírem. A dor tomar conta de mim.
–Conseguiste o que sempre quis, não é? Estás prestes a me matar. – Soltei essas palavras como se as tivesse cuspido.
–Seria muito fácil apenas jogar-te daqui de cima, nessa água fria. – Elesis começou a apertar sua mão em meu pescoço, mas antes, imobilizou-me para que não reagisse. Senti minha respiração cessando, a força dela era sobrenatural.
Ronan não aguentou ver-me naquele estado e tentou se levantar, sem muito sucesso. Gritei para chamar a atenção de alguém, um grito agonizante, mas ninguém surgiu, estávamos longe da casa onde estava ocorrendo o baile.
Ronan completara dezoito anos naquela noite, iríamos fugir para sermos felizes sem que alguém nos impedisse, iríamos ultrapassar o limite da linha onde diziam que o mar chegava ao seu fim, mas a verdade é que não tinham coragem para explorá-lo muito mais do além. Esse era o pensamento da época que estava vivenciando. Todos nossos planos, sonhos... Desmanchando como o sangue no lago.
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