A Partir De Um Sonho.
5 Despertando e mudando a história
Notas iniciais
Ronan tentava se levantar, se esforçava mais do que tudo, a última imagem que tive em vida foi a do meu amado arrancando-me de Elesis, que foi jogada ao chão.
–O que está fazendo? – Perguntou a ruiva, como se não tivesse nenhum remorso das atitudes que tomara. Estava fora de sua razão.
–Salvando a pessoa que eu amo, tirando-a das mãos da pessoa que eu mais desprezo! – Gritou Ronan, deixando que lágrimas invadissem seu rosto sem permissão.
Ele se ajoelhou no chão comigo em seu colo, Ronan tocou em meu rosto, sujando-o um pouco do sangue que estava em sua mão. Eu estava gelada, meus olhos já estavam fechados.
–Não! – Elesis se levantou e correu até ele – Solte-a! Deixe-a morrer! Assim ficaremos juntos para todo o sempre.
–Não há o “para todo o sempre” quando somos apenas meros mortais, prontos para morrer a qualquer momento. O eterno mesmo é o sentimento que habita em nós, o amor entre mim e Arme. Você pode tê-la tirado de mim, o que eu nunca a perdoarei por te feito isso, mas o meu amor... Esse irá durar até mais que o além...
–Não diga isso, Ronan, ficaremos juntos. – Elesis tentou mais uma vez. Insana do que dizia.
–Nunca. – Ronan pegou-me no colo, a dor que estabelecia em seu corpo, não passava de um simples detalhe.
Eu já não tinha mais força. Mais voz. Enquanto permaneci viva, olhava para Ronan. Sofria com a sua dor. Não queria que aquilo acontecesse. Mas não poderia fazer nada.
Elesis veio caminhando lentamente atrás de Ronan.
–Se não ficares comigo, farei com que seu desejo se concretize e ficarás junto de Arme, mas não será em vida... – Os olhos da ruiva estavam lacrimejando, estava possuída de ódio e rancor por não ter conseguido o que sempre quis.
Ronan não parou de andar, Elesis foi sorrateira e parou atrás do mesmo.
–Sei que não irá me perdoar... Mas quem disse que preciso de perdão?
Ronan estranhou tal frase da ruiva e se virou para olha-la, ela sorriu e o empurrou para cair junto a mim no lago profundo e de águas frias. Havia uma parte quebrada na ponte e Elesis aproveitou essa brecha para empurrá-lo no exato local.
Elesis nos olhava enquanto afundávamos no lago, nos olhava fixamente. Lágrimas rolavam em sua face, ela parecia que estava morta, mesmo respirando, mas sua vida não tinha mais sentido. Ela tentou matar duas pessoas, uma ela conseguiu, e só não matou a outra pessoa por ela ter o amado, mesmo sendo um amor doentio e obsessivo. Elesis se manteve imóvel, como se não estivesse mais ali.
Como eu estava nos braços de Ronan, na queda, ele segurou firme em minha mão, assim não nos separamos quando colidimos na água. Ao afundarmos, pela altura da queda e o peso de nossos corpos, Ronan fez de tudo para nos levar para cima. O frio era insuportável. Nossos corpos foram perdendo coloração, estávamos pálidos, eu não estava mais presente em vida, apenas em alma.
Ronan usava a pouca força que seu corpo permitia usar. Seu ferimento não o atrapalhava. Aproximou-se de mim, ele tremia e eu queria salva-lo, mas não podia. Apenas o olhava de longe, como observadora dos fatos. Já não era mais eu ali. A outra Arme voltara para seu corpo e eu apenas via tudo o que acontecia como um espírito.
Ronan boiava tentando manter-se firme na água e olhava-me.
–Não me deixe, não vá... – Sua lágrima quente caiu sobre meu rosto, pena que não pude mais senti-lo. – Arme... Não me deixe... – Seus dentes se debatiam um com o outro, logo, logo, Ronan não aguentaria permanecer boiando naquele lago, era gelado demais. – ARME!!
Ele gritou, gritou para todos ouvirem... Gritou e eu despertei. O olhei confusa.
–O que houve? – Perguntei um tanto zonza.
–Você dormiu durante o filme.
–O-o quê?! – Dei um pulo no sofá. Dei uma boa olhada no ambiente e eu estava na casa da Elesis, minha roupa era a mesma que me encontrava quando saí de casa, não me sentia molhada, mas estava com frio. – Então... Então tudo foi apenas um sonho? Quero dizer, pesadelo? – Perguntei ofegante.
–Sei lá, Arme, você apenas dormiu, se sonhou ou não, eu não sei dizer. – Ronan me olhava, franzindo a testa.
Ele percebeu que eu ainda estava desesperada e ofegante, aproximou hesitante sua mão até mim e sentiu meu coração.
–Está... Está acelerado... Teve mesmo um pesadelo, né?
–Sim... – Mil coisas vieram mim minha mente, as lembranças do sonho, tudo... Pisquei os olhos tentando restabelecer-me, observei a sala de novo – Só estamos nós dois aqui?
–Ér... Sim. Hum... O filme acabou e, como você estava dormindo, pensei em ficar aqui com você, estava dando uma luta ainda agora. Fiz de tudo para não acorda-la, mas teve um momento que você se remexeu muito, pensei que estivesse passando mal, porque suava frio, fiquei preocupado e te chamei, desculpa.
Ronan se levantou e eu segurei em sua mão, não sei de onde a coragem surgiu, mas o segurei impulsivamente. Ele me olhou surpreso e sorriu.
–Nã-não precisa pedir desculpas, ainda bem que me acordou... – Murmurei, estava com muita vergonha. – E... Obrigado por ter ficado aqui comigo, foi muito gentil de sua parte.
Ronan ficou sem graça e coçou a nuca, agora eu sorri.
–Acho melhor vocês dois irem dormir. – Olhei para ver quem tinha dito isso e era Elesis ainda bem sonolenta, passando a mão nos olhos.
–O que faz acordada a essa hora? – Perguntou Ronan.
–Queria saber o que vocês estavam fazendo aqui sozinhos. – A ruiva riu e eu a olhei séria – O que foi, Arme? Está tudo bem?
–Não. – Será que eu tinha que contar o meu sonho?
–Não? Por quê? O Ronan te fez alguma coisa? – Elesis lançou um de seus olhares para o menino, que recuou.
–Tem a ver com o Ronan, mas o assunto mesmo é você.
–Como assim? – Perguntou ela, confusa.
Respirei fundo, eu precisava falar tudo o que estava engasgado em minha garganta, mesmo que revelasse algumas coisas. Chega de esconder, chega de viver um amor que nem possa existir, chega de tentar entender algo que só Elesis poderia me explicar.
–Eu não entendo muito a sua “implicância” quando estou perto do Ronan, sempre tenta nos afastar, sente ciúmes? Você gosta dele?
Elesis me encarou por uns segundos e depois começou a rir, agora eu fiquei confusa.
–Sério mesmo, Arme? – Questionou a ruiva, ainda rindo.
–Seríssimo!
Ronan apenas me olhava e olhava para Elesis tentando entender o que se passava entre nós duas.
–Não é implicância, Arme, eu só tinha medo que você se apaixonasse por esse idiota, afinal, não queria vê-la sofrer, já que ele está namorando. Sempre soube... – Elesis hesitou em falar e eu sabia o que ela diria. Apenas a olhei e ela entendeu o recado, prosseguindo – Eu sempre soube que você amava o Ronan e, quando descobri que ele estava namorando, fiz de tudo para você não parecer uma idiota na frente dele, sendo romântica ou algo do tipo, tentando conquista-lo.
Fiquei boquiaberta e vi que Ronan ficou do mesmo jeito.
–Então foi por isso mesmo? – Perguntei, sentindo um alívio no meu coração e uma tristeza ao mesmo tempo.
–Claro. Não gosto desse azulado, não para ficar ou namorar; gosto muito, mas como amigo, você sabe que eu... Eu...
–Você...? — Provoquei, instigando-a admitir.
–Ah, Arme, eu gosto de outra pessoa, que coisa! – Elesis cruzou os braços.
Eu ri, sabia que ela falava do Lass. Ronan ainda nos olhava surpreso, assustado, confuso, curioso...
–Eu posso falar? – Perguntou ele.
–Fiquei a vontade, agora eu vou dormir, se quiserem conversar... – Elesis deu os ombros e voltou para o quarto, mas me lançou um olhar amigo e reconfortante. Foi necessário desabafar sobre aquilo tudo. Acho que Elesis sentiu a mesma necessidade.
–Isso tudo que eu ouvi... É verdade? – Ronan indagou.
A timidez voltou mais forte do que nunca, minhas mãos ficaram trêmulas, perdi a voz. O sonho nem me afetava mais. Agora era eu e Ronan na vida real.
–Então...? É ou não verdade? – Insistiu ele em saber.
Engoli a seco, agora que ele sabia, não deveria desmentir tudo.
–S-sim... – Abaixei o rosto.
–Nossa! Por essa eu não esperava.
–Mas não precisa se preocupar com isso, aliás, está namorando, não quero que pense que eu...
–Na verdade... – Ele me interrompeu, antecipando-se – Eu terminei meu namoro.
Olhei para Ronan e tive a vontade de sorrir, mas apenas mantive meu olhar fixo no dele.
–Eu acho melhor dormirmos. – Ronan quebrou o silêncio que se instalava entre nós dois depois de sua confissão.
–É... – Suspirei em meio a minha resposta. Já tínhamos dito coisas demais naquela noite.
Ronan se aproximou de mim, fiquei corada, com certeza. Meu coração acelerou, meu rosto ficou fervendo e eu não sabia o que fazer. Fechei os olhos e senti apenas seus lábios colidirem com os meus, a parti dali começamos um beijo. Ronan envolveu seu braço em minha cintura, juntando nossos corpos. Levei minha mãe até sua nuca, acariciando seu cabelo. Afastamo-nos pela fala de ar. Nem questionei nada sobre o fim do namoro dele, me senti tão bem, Ronan gostava de mim e isso era tudo.
–Boa noite. – Ele riu da forma mais linda e fofa e completou – Minha bela dama...
A memória voltou em minha mente, entrei em um pequeno transe, sentei-me no sofá e balancei a cabeça.
–Preciso descansar, tive um dia e tanto. – Resolvi ficar na sala mesmo, peguei um edredom e me cobri, entrando em mais um sonho, sendo que desta vez a história mudara...
“–Aquele rapaz que fica na sacada da janela e que tanto olhas é o Ronan Erudon, eu o conheço, porque seu pai é amigo do meu.
–Interessante, ele é bem encantador. – Olhei para Elesis, que tinha acabado de me contar sobre o tal menino, e sorri.
–Pretende conhecê-lo? – Ela me perguntou.
–É provável.
–Ele é um ótimo partido para você, Arme.
–Assim como o Sr. Isolet é para você, Elesis.
Rimos e a ruiva olhou para frente, sua expressão mudou.
–Com a sua licença, irei ver meu amado.
–Fiquei a vontade, senhorita, e vê se não demore muito com o Sr. Isolet. – Brinquei.
Elesis estava tão diferente, sorria da forma mais graciosa, seu jeito durão e insensível mudara. Aquilo me deixou com certa paz no coração. Viajei um pouco em meus devaneios, mas fui despertada por alguém que me tocara no ombro.
–Ah! – Virei-me imediatamente para ver quem era.
–Perdoe-me, bela dama, não queria assustá-la.
–Tudo bem, Ronan. – Disse, arrumando meu vestido.
–Como sabes meu nome? – Indagou ele, levantando uma sobrancelha.
–Uma amiga me contou... – Sorri.
–Ah sim... Com certeza fora certa ruiva, muito amiga minha também. – Comentou.
–Acho que isso já foi combinado por essa certa ruiva, não acha? Ou é apenas uma coincidência teres vindo até mim?
–Prefiro acreditar em destino...
–Acreditas também que o homem possa ultrapassar seus limites, já que acredita em destino?
–Sim... Creio que o homem poderá ultrapassar a linha do mar e seguir além do horizonte.
–Perfeito... – Sussurrei.”
Acordei no meio da noite... O sonho mudara, mesmo sendo igual ao que eu tive anteriormente. Acho que tudo se explica agora, quando adormeci, tinha uma impressão de Elesis formada em minha mente, mas depois que tudo se esclareceu, o sonho acabou sendo outro e posso dizer que foi bem melhor. Antes do filme, estava tensa e com medo, o sonho foi movido por isso, não foi à toa que se transformou num verdadeiro pesadelo. Depois que tive a conversa com a Elesis e ela me contou toda a verdade, esse pequeno sonhou, ou lembrança, sei lá. Só sei que mostrou o que realmente aconteceu... Ou quase isso.
Senti um vento suave balançar meu cabelo, refrescar meu rosto. Olhei para a janela e a mesma estava fechada.
–Também sentiu algo diferente? – Uma voz surgiu atrás de mim, assustei-me e só não gritei, porque pus a mão em minha boca.
–Ronan! Ufa... – Disse aliviada – Que susto.
–Desculpa de novo, não foi minha intenção, é que senti um vento passar por mim e quando acordei, tudo estava fechado e todos ainda dormiam. Achei estranho.
–É... Eu senti o mesmo. Acho que nossas almas finalmente se libertaram do pesadelo. – Disse sem me preocupar com o nexo que isso faria aos ouvidos de Ronan.
–O quê?
–Nada... – Eu ri – Esquece e não precisa se preocupar, isso é passageiro. Deve ter alguma janela aberta e não sabemos.
–Eu hein... — Ronan deu uma pausa — Se estiver tudo bem, então voltarei a dormir e espero mesmo que seja uma janela aberta fora da nossa visão. Até...
–Até... – Respondi um tanto desanimada.
–Mas... – Ronan se virou em minha direção, desistindo de voltar para o quarto que os meninos estavam. – Se você deixar, eu posso ficar aqui com você. Tipo, eu durmo no chão, sem problemas.
Eu estava pensando em dormir no quarto com as meninas, mas ficar ao lado do Ronan falou mais alto.
–Tá... – Falei baixinho e bem animada.
Como Ronan havia dito, ele se deitou no chão, havia um colchão fino no piso, assim ele não ficaria com frio. Ronan se cobriu e eu fiz o mesmo, deitando no sofá. Olhamo-nos por alguns segundos, até o sono nos dominar por completo.
Acabamos dormindo de mãos dadas, foi perfeito... Quem diria que tudo começaria com um filme, depois um sonho e um esclarecimento que desencadeou um sentimento entre mim e Ronan?
Se o passado nos perturbava, eu cumpri minha missão ao fazer com que a história não fosse um terror e sim um romance ideal. Um romance verdadeiro, sem rima ou métrica, sem se igualar ao impossível de Romeu e Julieta, mas sendo tão puro quanto eles.
Fale com o autor