A Outra história de Silent Hill
2 Capítulo 2: A cidade congelada
Notas iniciais
- Qualquer coisa, é só ligar.
- Ok.
- Você está levando o intercomunicador, não se esqueça.
- Tudo bem, já entendi.
- Estou falando sério. Vou cumprir com minha parte do trato, mas você só tem dezessete. Qualquer coisa, não hesite em me ligar, eu trago alguns homens e...
- William! — Amy o interrompeu, quando nem eu aguentava mais a insistência do agente — parece muito preocupado para alguém que não acredita na "magia" da cidade, não acha? — foi impressão minha ou o agente corou? Amy riu — Vamos ficar bem, William. Prometo que, se a situação se complicar, eu chamo você. Ok?
Como era o único atrás de Amy, também fui o único a ver seus dedos cruzados escondidos atras da Glock em sua coxa direita. Não pude evitar de acompanhar seu sorriso, enquanto "William" assentia, convencido.
- Divirta-se... mas não tanto assim — o agente falou, enquanto agarrava a escada de corda e subia para o helicóptero que não havia pousado. Poucos minutos depois, a aeronave sumiu no horizonte.
- Finalmente! Argh! Acho que se tivesse que aguentá-lo mais UM minuto eu ia meter uma bala na cabeça dele — ela puxou a Glock e mirou o ponto na linha do horizonte onde o helicoptero havia desaparecido. Então suspirou e guardou a arma — Que bom que não foi necessário. Odiaria ter de explicar por que uma bala minha encontrava-se no crânio de um agente do FBI. Talvez fosse um pouco complicado.
- É, talvez — concordei, sem prestar muita atenção, enquanto olhava ao redor — Onde estamos, exatamente?
Amy me imitou, também olhando ao redor. Estávamos em alguma espécie de rodovia, mas eu não podia ter certeza, pois a neblina era tão forte que eu não podia ver mais do que cinco metros em cada direção. O chão acimentado era cinza, e haviam leves marcas de divisões de uma rodovia. O céu se perdia na imensidão branca, e logo percebi que Amy não ia gostar. Ela odeia branco
- Interessante — ela falou, os olhos escuros ainda analisando o ambiente ao seu redor — A cor não é muito agradável, com certeza, mas é bem parecido com como descrevem. Me pergunto se o resto também será.
- Esperemos que sim — falei, oferecendo a mão a ela — Vamos?
Amy pegou minha mão, mas não para caminharmos juntos. Ela simplesmente torceu-a para trás até que eu não consegui conter a careta. Então ela sorriu e saiu andando sozinha. Sem opção, a segui, pegando a 45 no cinto e empunhando-a com as duas mãos.
Amy caminhou com seus passos leves, silenciosos e graciosos até o que parecia ser o limite da estrada, e então parou. Se ela não tivesse colocado a mão no meu peito, parando-me, quando andei rapidamente para o "limite" da estrada, teria caído direto pelo despenhadeiro que abria-se após uma pequena mureta, que devia servir para impedir os carros de se arrebentarem lá em baixo. Certamente não funcionava com pessoas.
- Legal, né? — Amy olhou para mim sorrindo, e em seguida piscou um olho. Então, continuou andando, mantendo a murada de fim da estrada á sua direita. Antes de segui-la, chutei uma pequena pedra largada por uma falha na amurada. Acho que poderia ter ficado o resto da vida ali, e não conseguiria ouvi-la atingindo o chão. Assim, apressei-me em alcançar Amy.
A estrada, ou rodovia, ou o que quer que fosse, continuava por algum tempo, fazendo um curva leve para a esquerda. Algum tempo depois, houve uma mudança no cenário. Havia um grande portão, que, a julgar pela grossa corrente partida ao meio ainda presa á uma das portas, devia estar fechado. E, mais alguns metros adiante, havia um carro batido em um poste, logo ao lado da baixa murada.
- Tudo bate até agora — comentou Amy, os olhos negros varrendo o carro. — Devíamos ter trazido uma filmadora. Eu adoraria ver a cara do agente Smith...
- Ah, eu também. Aquele mala! — franzi a testa, como o agente Smith sempre fazia quando estava preocupado — "Use seu intercomunicator! Me chame se estiver em perigo!". Esse cara não sabe de nada. Nós somos profissionais, não precisamos da ajuda de nenhum queridinho do FBI.
- Falou tudo — concordou ela. — Nem que HAJAM mesmo criaturas sobrenaturais por aqui, o que eu duvido muito, quero ver qual delas sobrevive sem a própria cabeça. — ela pegou uma lâmina nas costas e girou-a na mão. Então arremessou-a, e ela fincou-se perfeitamente no número 2 da placa do carro batido. Aí, correu até o carro e, usando a própria lâmina fincada como degrau, subiu no teto do veículo — Que venham os monstros! — berrou
Eu ri e acenei com a mão.
- Vamos, mercenária. Se eles não nos encontrarem, nós os encontraremos.
- Ah, pode ter certeza de que vamos... — ela concordou, antes de pular do teto do carro, ainda dando uma cambalhota no ar antes de pousar perfeitamente, em um joelho, no chão. Aí arrancou a lâmina da placa e guardou-a nas costas, enquanto caminhava para longe do carro, eu logo atrás dela. A estrada logo acabou, como percebemos pela placa "Bem vindo a Silent Hill!" no final da estrada.
A cidade apareceu diante de nossos olhos. Ali, a neblina era mais fraca, mas apenas o suficiente para podermos ver os prédios dos dois lados da rua, nada mais. Havia bastante neve nas ruas, e mesmo com mangas compridas e jaqueta de couro, eu sentia um pouco de frio.
Olhei para Amy, usando apenas um traje de uma peça que, mesmo de mangas compridas e colado no corpo, não fazia muito contra o frio.
- Amy, você vai congelar — falei, me aproximando dela e a abraçando — Onde está seu casaco?\\
- Deixei no helicóptero — ela deu de ombros — Vou ficar bem.
- Sim, bem e congelada — concordei, tirando um braço de dentro da jaqueta e envolvendo-a com ele. Ela passou um braço por minha cintura e voltamos a andar.
Estávamos bem acostumados a ficar tocando um ao outro. Como quando ela torceu o tornozelo e eu tive que carregá-la por quinze quilômetros, ou quando eu fui atacado por aqueles cães, e ela teve de remendar metade do meu braço, e milhares de outras vezes. Mas, se quer saber, eu nunca me senti... normal quando ela me tocava. Sim, ela é super gostosa, tem um cabelo lindo e olhos penetrantes, mas... quando me tocava, era como se sua mão fosse feita de fogo, fazia minha pele formigar e querer tocá-la novamente. Duvidava que aquilo fosse normal.
Podíamos ouvir o silvo do vento ao nosso redor, passando pelas ruas desertas e frias. Olhando mais de perto, nem tudo aquilo que se depoaitava no chão, quase em flocos, era neve. Uma boa parte, como fui descobrir depois, parecia algo com fuligem, ou uma poeira grossa e cinzenta. Eu não sabia da onde vinha.
- Nada de especial até agora — comentou Amy, e percebi que ela obsevava os prédios, e não as ruas. — Você acha que tem alguém nesses prédios?
- Parecem bem abandonados para mim. — falei, analisando-os. — O que fazemos primeiro? Vamos começar montando acampamento?
- Mas é claro que não. Acabou de amanhecer, falta muito até de noite.
- O que famos fazer, então?
- Não é óbvio? — seu sorriso desafiador voltou — Nós vamos EXPLORAR.
. . .
Meti o pé na porta, e ela soltou-se facilmente das dobradiças, caindo no chão com um baque. Amy riu.
- É bom ter um companheiro que representa a própria força — ela comentou — Eu ia demorar para abrir essa porta.
- E o que você diz sobre uma companheira que é a própria agilidade e velocidade? — ergui uma sobrancelha — Nós nos completamos. Somos a parceria perfeita.
- É isso aí — concordou ela — É muito mais fácil com a ajuda um do outro. Eu já teria morrido umas cinco vezes e ido para a cadeia umas quinze se não fosse por você.
Dei uma gargalhada.
- E eu, então? Teria morrido umas dez e ido em cana milhões de vezes. Não tem como comparar.
- De fato — ela gesticulou para dentro da loja abandonada que havíamos acabado de arrombar — Primeiro as damas — ela brincou.
Resmunguei e, quando passei por ela, tentei pisar em seu pé. Mas ela o retirou do caminho no último segundo, sorrindo pra mim. Acabei desistindo e entrei na loja, resmungando.
- Tudo bem, isto aqui está definitivamente abandonado — comentou ela, tentando espantar a poeira de perto dos olhos com a mão. — Esta cidade está precisando de uma faxineira.
- Para a poeira. Quem vai limpar os monstros somos nós — falei, após uma risada — Se é que existem mesmo os tais monstros.
- É bom que existam. Ou teremos perdido tempo valioso — Amy disse, enquanto se aproximava do caixa e o jogava no chão com um estrondo — Mas, bem, de qualquer forma, teremos chance de fazer uma baguncinha, não é?
Ela olhou dentro do caixa destruído, mas não deve ter encontrado nada, pois apenas chutou-o e foi até atrás do balcão.
- O que está procurando? Isto aqui está cheio de dinheiro — perguntei, depois de ver notas e mais notas espalhadas pelo chão ao redor do caixa
- Não estou interessada em dinheiro — de fato. Se ela estivesse, teria aceitado trabalhar para o FBI.
- O que quer, então? — até aquele momento, tudo o que ela havia procurado nos locais que invadia era diversão. Mas, desta vez, parecia ter algo mais.
- Uma pista — Amy respondeu, erguendo-se de trás do balcão e rumando para as prateleiras cheias de produtos, que eram, em sua maioria, comidas e bebidas.
Dei de ombros e resolvi ajudá-la, com o que quer que fosse que estivesse fazendo. Começei a revistar tudo o que via pela frente: balcões, geladeiras, prateleiras, mesas e cadeiras. Como não encontrei nada que parecesse muito diferente, me juntei novamente a Amy. Ela estava agachada de frente á porta que levava aos fundos da loja, atrás do balcão, e parecia tentar arrombá-la.
- Amy, quer que eu...
- Shhh! Estou quase terminando!
Ela deu uma volta final com um dos grampos de cabelo que havia metido na fechadura e a tranca abriu-se com um clique. Ergui uma sobrancelha.
- O quê? Eu te disse que demorava mais. — contiunuei encarando-a, tentando segurar um sorriso. Ela apenas sorriu e me deu um soco que era para ter sido bem fraco.
Entramos no depósito. Era ainda mais empoeirado do que a própria loja, se possível, e não haviam tantas coisas quanto. Eram, principalmente, prateleiras velhas de madeira e pilhas e mais pilhas de caixas de papelão. Eu não tinha certeza se queria saber o que havia dentro delas.
- Não tem nada aqui — reclamou Amy, chutando a pilha de caixas mais próxima. — Que droga. Vamos ver outro prédio?
Saimos do depósito, Amy de braços cruzados, frustrada. Chutei a porta para fora do caminho e estávamos fora da loja, debaixo de uma neve que agora caía em leves flocos sobre nós. Amy tremeu, e eu a abracei novamente, tentando impedir que MINHAS mãos tremessem quando ela pressionou a lateral de seu corpo contra o meu. Mas não andamos muito. Alguns metros adiante, havia algo que se parecia muito com um hotel, ou talvez fosse um prédio comercial. Mas o que mais chamava a atenção era que as portas duplas da entradastavam completamente escancaradas, batendo no vento frio. Nos entreolhamos. Amy sorria, e eu tinha uma sobrancelha erguida. Seus olhos negros e brilhantes demonstravam claramente o que ela via ali: AVENTURA, gritavam eles. Amy se soltou de mim e correu em direção ás portas, e eu fiz o possível para alcançá-la. Mas nunca tivemos a chance de explorar aquele hotel, ou prédio, ou o que quer que fosse por que, naquele exato momento, fomos interropidos pelo som insurrecedor de uma sirene.
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