A Outra história de Silent Hill
1 Capítulo 1: Sem noção... de perigo
Notas iniciais
- Tem certeza de que quer fazer isso?
- Eu já menti pra você alguma vez?
- Não que eu saiba.
- Então é claro que eu quero. — Amy colocou as duas armas nos suportes, uma em cada coxa, para facilitar a retirada.
- Só queria ter certeza. Sabe, talvez não seja exatamente o que você espera. — reforcei, jogando duas lâminas afiadíssimas e decoradas em sua direção. Ela as pegou facilmente.
- É EXATAMENTE isso que espero, Johny. Que NÃO SEJA o que eu espero. E você sabe disso. — ela falou, prendendo os cabelos longos, loiros e lisos em um rabo de cavalo alto. Mesmo assim, eles chegavam até a cintura.
- Só estou checando — repeti, pegando minhas próprias armas e vestindo a jaqueta de couro. — Você está bem familiarizada com a fama do local.
- Silent Hill? — a gargalhada que Amy deu foi ao mesmo tempo deliciosa e assustadora — Quem não ouviu falar? Até nas praias ensolaradas da Califórnia as criancinhas sussurram sobre a cidade mais assustadora dos Estados Unidos. — ela sorriu cinicamente — Só espero que os mitos sejam reais. Fecha pra mim? — ela se virou de costas para mim.
Assenti, concordando, enquanto subia o zíper do macacão justo e negro que Amy usava, que com certeza não fazia nada para esconder as curvas em enorme quantidade do corpo dela. Embora fosse bem magra, tinha um corpo espetacular de dar inveja nas mulheres e desejo nos homens. Segurei seu rabo de cavalo e terminei de subir o zíper.
Eu havia conhecido Amy dois anos atrás, quando ambos tínhamos quinze anos. Naquela época, nós dois já éramos viciados en adrenalina, mas nossas aventuras eram muito mais simples e... menos perigosas, com certeza. De fato, nos conhecemos na fila do bungee jump. Assim, percebemos o quanto somos parecidos e começamos a fazer de tudo juntos. Companheiros de aventura, pode-se dizer. Mas foi quando as aventuras ficaram sérias é que entendemos o real significado desta amizade. Um livrara o outro da enrascada, um resgatava o outro e salvava a vida do outro. Já devíamos tanto um ao outro que nem contávamos mais.
Como daquela fez que invadimos uma delegacia de polícia á noite para roubar armas. Fomos pegos no flagra. Sorte que Amy tinha insistido em roubar um uniforme de policial também, e quando o carcereiro apareceu, ela se fingiu de estagiária e eu, de prisioneiro fugitivo. Quando a barra estava limpa, ela abriu a cela e nós demos o fora de lá, com as armas e o uniforme.
Ou daquela vez em que pegamos um helicóptero emprestado, mas ele estava quase sem combustível e tivemos que inventar uma desculpa para estarmos na cobertura trancada de um prédio junto com um helicóptero roubado. Se não fosse a minha desculpa brilhante, nós dois teríamos sido presos.
Tudo bem, tecnicamente, invadir delegacias de polícia e roubar helicópteros é crime, mas depois de algum tempo até bungee jump perdeu a graça, e precisávamos de outra fonte de adrenalina. Resultado, não roubávamos armas e helicópteros por roubar mesmo, mas pela diversão de fazê-lo, pela adrenalina de quase ser pego. Meio louco? Talvez. Mas nós nunca ligamos para isso.
Porém, com o tempo, acredite se quiser, até roubos perigosos como esses foram perdendo a graça. Então, começamos a fazer coisas REALMENTE perigosas. Não perigosas no estilo “se-der-errado-você-pode-acabar-na-cadeia”, mas perigosas do tipo “se-der-errado-você-pode-acabar-morrendo”. Ambos entramos na aula de esgrima e tiro ao alvo, e em tempo nenhum espadas e armas eram como parte de nossos corpos. Amy chegou a ser convidada para ser espiã do FBI com dezesseis anos, quando este ficou sabendo de suas habilidades.
Você pode achar que alguém como ela teria aceitado prontamente. Mas ela não aceitou. Pelo que entendi, o trabalho consumiria muito do tempo dela, além do tempo que ela já era obrigada a ficar na escola, e simplesmente não poderia continuar com as aventuras perigosas de sempre. Pra falar a verdade, acho que eu fui parte do motivo também, mas nunca perguntei, e ela nunca disse nada sobre isso.
Enfim, voltando ás aventuras incluindo perigos mortais. As habilidades com esgrima e armas, além da permissão de possuir algumas (nem pergunte, só digo que Amy acabou aproveitando sua ligação com o FBI para fazer algumas trocas de favores), acabarm se mostrando incrivelmente úteis quando se tratava de perseguir chefes mafiosos ou até em casos como daquela vez em que subimos no teto de um trem de carga e passamos a viagem inteira em cima dele (longa história...). Assim, fazia um bom tempo que não fazíamos nenhuma loucura.
Até que Amy ouviu a história de Silent Hill.
Nunca fomos muito de acreditar no sobrenatural. Procurávamos sempre fincar os pés no chão, trabalhar com aquilo que podíamos ver e tocar. Mas, bem, por que não? Digo, se não for verdade, o máximo que pode acontecer é darmos de cara com uma cidade abandonada e decrépita. E, se for, bem... Aí teremos nossa aventura. Não há perdas, de qualquer modo.
- Já está pronto? William vai nos emprestar o helicóptero – Amy falou, subindo o zíper da bota direita e então levantando-se e colocando as duas lâminas cruzadas, nas costas.
William era o agente do FBI com o qual fazíamos trocas. Ou melhor, Amy fazia trocas. Eiu nunca gostei de me envolver muito com o FBI. E quem pode saber os tipos de favores que eles podem pedir?
- William? – ergui uma sobrancelha – Desde quando ele é William? E o que você teve de fazer para ele lhe emprestar o helicóptero? Espere, eu não quero saber.
Amy riu, enquanto botava a bolsa com a munição e as outras armas no ombro.
- Não foi nada demais. E, bem, ele disse que só me emprestaria o helicóptero se começasse a chamá-lo de William em vez de agente Smith. – ela balançou a cabeça – Babaca.
- Pelo menos temos o helicóptero – peguei minha própria bolsa e fui até a porta – Está pronta?
- Sim. Ah, espere! – Amy voltou até o closet onde guardávamos o arsenal de armas e voltou com um cinto de granadas em volta da cintura.
- Granadas? Sério? – eu ri, enquanto abria a porta para ela passar.
- Sim. Não sabemos o que podemos encontrar lá. – ela deu de ombros e passou pela porta. A puxei de volta.
- O casaco. É bem frio lá – falei, entregando-lhe o agasalho. Ela ergueu uma sobrancelha, mas pegou-o.
- Onde vamos encontrar William? – falei, dando uma ênfase irônica ao nome do agente.
- Lá em cima – ela apontou para o teto – Você sabia que o seu prédio tem heliporto?
- Pra falar a verdade, não.
- Nem eu.
- William te contou?
Amy suspirou.
- Pare com isso. Você sabe que eu te amo mais.
- Eu sei?
- Sim, sabe.
- Tudo bem, então. – abri a porta das escadas e a mantive aberta para Amy passar – Madame?
Ela deu outro sorriso cínico e passou por mim, fazendo questão de pisar em meu pé. Tentei não fazer uma careta de dor. Subimos alguns andares até o telhado, onde a porta, incrivelmente, não estava fechada.
- Essa porta está aberta? O agente Smith providenciou até isso? Imagino como ele conseguiu convencer o síndico depois que a gente subiu aqui com aqueles balões cheios de água – sorri com a lembrança.
- Ele tem seus truques – Amy sorriu novamente. Paramos a alguns metros da porta, e em pouco tempo um helicóptero cinza com “William” e um estranho que imaginei ser o piloto dentro voou até o prédio, mas não aterrisou. De início, estranhei.
- Por acaso William não vai pousar para que possamos subir? – zombei – Ou será que teremos de pular?
- Não exatamente – enquanto ela falava, uma escada de corda desceu do helicóptero, a apenas alguns metros de nós.
- Criativo – elogiei, seguindo-a até a escada.
- É mais rápido do que pousar – Amy concordou, agarrando a escada e subindo um pouco – Você vem?
Revirei os olhos para ela e agarrei a parte da escada perto de onde agora estavam seus pés. O hellicóptero subiu um pouco mais no ar enquanto terminávamos de subir a escada de corda e sentávamos nos poucos lugares logo atrás do piloto e de agente Smith, que parecia estar exercendo a função de co-piloto.
- Boa noite, Amy, Johny – ele cumprimentou, virnado-se para trás e sorrindo para nós. Amy revirou os olhos e eu o encarei com raiva. – Tudo certo? Vocês tem certeza do que estão fazendo?
- E alguma vez nós não temos? Sabe, você não foi o primeiro a me questionar sobre isso hoje – ela me lançou um olhar de canto de olho, e eu lhe dei uma cotovelada de brincadeira.
- Ainda tinha certa esperança de que vocês desistiriam no último momento – ele suspirou, parecendo cansado – Não vão encontrar nada lá. É perda de tempo.
- E por que você se importaria. Logo você, que é o que mais se sente... Incomodado com nossos métodos. Nãoa teria nada a perder se realmente não houvesse nada lá – Amy ergueu uma sobrancelha.
- Ah, você sabe que realmente não concordo com o que vocês fazem. Podiam estar usando o talento, o dom que vocês tem `para algo útil, como proteger a população dos Estados Unidos. Em vez disso, só procuram aventuras bobas com as quais gastá-lo. Só pensei mesmo em avisá-la que não vai conseguir o que deseja lá. O que contam sobre Silent Hill são apenas mitos, e não passam disso.
A risada de escárnio de Amy chegou a ecoar em minha alma.
- E você acha que sou tão estúpida assim? Não sou do tipo que acredita em qualquer conto de fadas que ouve por aí, e você sabe disso. Mas vou, pelo menos, ver com meus próprios olhos antes de decidir alguma coisa. Certo, Johny?
- Com certeza. Não podemos fazer um julgamento decente sem possuir informações de primeira mão – concordei, apoiando a metralhadora que havia pendurado no ombro no chão.
- Está vendo? Não somos burros, William. Sabemos muito bem o que estamos fazendo – o agente fez mensão de dizer alguma coisa, mas Amy o cortou habilmente – Não, William. Não diga nada. Apenas cumpra sua parte do acordo nos levando até lá. Se precisássemos de uma terceira opinião, teríamos pedido.
Disfarcei o riso em uma tosse que não convenceu ninguém e o agente Smith encarou um ponto á sua frente, momentaneamente mudo. Eu podia até jurar que até o piloto segurou um risinho, embora não pudesse ter certeza.
- Até por que, eu realmente te fiz um favor. E um bem grande. Retribua com seu silêncio. – ela acrescentou, tirando do rosto uma mecha de cabelo que havia escapado do rabo de cavalo.
O agente não respondeu, apenas permaneceu calado. Não devia levar muitos foras e ordens lá no FBI.
O piloto curvou-se e sussurrou algo em seu ouvido. Ele deu uma risadinha e deu uma espiada em nós com o canto do olho.
- Perdeu alguma coisa aqui? O que é? – o tom de voz de Amy parecia cansado e levemente irritado ao mesmo tempo.
- Não é nada, só... O agente Collins acha que vocês poderiam estar indo para uma guerra, armado até os dentes. – agente Smith deu um meio sorriso.
- E você acha mesmo que é demais? Se dá conta de para onde estamos indo?
- Sim, sim. Também ouvi as histórias. Só te digo mais uma coisa: se elas forem reais, vocês podem precisar de muito mais do que isso.
- Sabemos improvisar – Amy falou, erguendo a mão em minha direção, e eu bati a minha na dela em um cumprimento.
A conversa parou por aí. De vez em quando, Amy me lançava um olhar significativo, e eu respondia com outro. Nada de palavras, absolutamente. Tantos dias de convivência e aventuras que elas não eram mais necessárias.
Tanto que a próxima frase dita não foi de nenhum dos dois. Foi do piloto, se não me engano allgumas horas depois.
- Chegamos – disse ele, sorrindo – Bem vindos a Silent Hill.
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