Assim que saí do cômodo que foi realizado o teste, fui parar na parte de trás da escola, onde os estudantes que já tinham realizando-o esperavam a emissão do atestado em grupinhos, rindo e conversando coisas sem sentido.

Senti dois pares de braços me envolverem.

— Você conseguiu, não foi? — Perguntou Brendan, histericamente.

— Sim. Consegui fazer essa falsa mancha no meu braço, dando a entender que foi resultado da descarga elétrica que a instrutora lançou em mim.

— Esplêndido. — Disse Fried, com um sorriso de orelha a orelha.

— Mas, Fried... — Hesitei.

— O que foi?

O olhar preocupado dele me atingiu.

— Eu não vou simplesmente passar minha vida se passando por uma sem virtude e não buscar resposta alguma do porquê que estou escondendo meu poder. Se eu sou diferente, quero saber o motivo dessa diferença.

— Imaginei que você fosse querer isso. — Admitiu Fried.

— Temos só mais alguns dias antes do Curso Preparatório se iniciar. Você tem que me ajudar a descobrir respostas até lá. Alguma ideia? O super dotado aqui é você.

— Bem, acredito que a coisa mais sensata a fazer é um teste em seu gene. Preciso analisá-lo e ver o que tem de errado nele.

— Você pode fazer isso? — Perguntou Brendan.

— Posso tentar. Vocês sabem que meus pais mantêm um laboratório, lá existe uma ala para análise genética, e já vi tantas vezes o procedimento que consigo fazer de olhos fechados...

— Não é arriscado, Fried? — Perguntei, meio ofegante diante da ideia.

— Acho que posso fazer dar certo, tudo bem?

— Essa análise de gene ia ser implantada pelo governo, não era? — Interviu Brendan.

— Sim. O governo nazista deveria usar esse tipo de análise para detectar a mutação de cada um, a partir do momento que cada um nascesse, porém, o gasto seria caro, então preferem fazer esse teste de habilidade. Corte de gastos. Mas a precisão dele é de 100%.

— Quando você pode realizar esse procedimento, Fried? Preciso saber o que há de errado comigo.

— Não sei te dizer agora, mas hoje à noite te trago uma resposta sobre isso, certo?

Balancei a cabeça afirmativamente.

— Brendan Wonderberg... Seu atestado. — Interrompeu uma voz trazendo um papel pólen para ser entregue ao Brendan.

— Obrigado. — Agradeceu Brendan.

— Parabéns, Brendan. — Parabenizei dando tapinhas nas costas do rapaz.

— Vou sentir muita falta de vocês. Meu Deus, acho que vou chorar. Helse e Fried, amo vocês, seus bocós.

A falta de jeito de demonstrar carinho do Brendan gerou um abraço coletivo entre nós três, interrompido apenas porque o atestado do Fried foi trazido, e em seguida, o meu.

— Sem virtude... — Lamentei para os garotos enquanto analisava meu atestado. — E sem respostas.

Caminhamos em direção ao local onde tínhamos deixado nossos familiares e corremos o olhar na tentativa de encontrá-los. Eu fui a primeira.

— E então, Helse? — Disse a voz calma da minha mãe logo atrás de mim.

— Sem virtude, mãe.

Minha vontade era de contar tudo a ela. Dizer que eu tinha sim um poder, eu sugava o poder dos outros, mas confessar isso poderia ser arriscado. Preferi, primeiramente, tentar descobrir o que tinha de errado em meus genes, com a ajuda de Fried.

Minha mãe me envolveu em seus braços e dispôs beijos sobre todo o meu rosto.

— Melhor irmos para casa. — Falou meu pai.

Já estávamos indo em direção à saída quando ouvi meu nome sendo chamado.

— Helse!

Meus pais e eu nos viramos em direção a voz e, para minha sorte, era apenas o Fried.

— Hoje, no mesmo lugar de sempre. Okay? — Falou ele com um sorriso.

Retribui o sorriso e conformei com a cabeça.

— Helse, é melhor você e o seu amigo Fried não se envolverem de forma errada. — Aconselhou minha mãe, quando já estávamos um tanto quanto longe da escola. — Não quero que você sofra. Vocês não podem ficar junto, é contra as regras. Alerto para o seu bem.

— Não tenho nada além de amizade com o Fried, mãe. Pode ficar tranquila.

— Ele te olha como se gostasse muito de você. — Comentou minha mãe.

— Ele tem namorada. — Usei minha desculpa de sempre.

— De qualquer forma... Eu... Tentei de alertar.

Assenti com a cabeça.

...

Às 20:46, pouco antes do toque de recolher, desci até à porta de saída da minha casa e saí em disparada até a floresta que costumava me encontrar com meus amigos.

Vestia apenas duas camadas de jeans nas pernas e um casaco vermelho um tanto quanto fino para o inverno. O frio rasgava cada poro meu e minha boca começou a tremer.

— Você demorou. — Disse Fried. — Daqui a pouco o alarme soa.

— Perdão, acabei dormindo um pouco demais depois que cheguei da escola.

— Obviamente você está com frio. Venha cá. — Ordenou Fried, com ternura.

Ele me abraçou e esfregou as mãos no meu braço, na tentativa de gerar calor.

— Onde está o Brendan? — Perguntei.

— Dispensei ele. — Disse Fried com um sorriso malicioso.

— Ele vai acabar se sentido deslocado.

— Que nada.

O alarme de recolher soou pela rua.

— Melhor entrarmos na floresta. — Alertou Fried, ainda me envolvendo firmemente.

Seguimos mata a dentro até acharmos uma árvore conífera que julgamos ser confortável. Sentamos mais próximos do que o normal e ele continuou a tentar gerar calor sobre o meu corpo frio.

— Então, trouxe as chaves do laboratório. Um pouco antes das 4 da manhã a gente entra e eu realizo o teste.

— Muito obrigada por se arriscar por mim.

— Sabe que eu faço qualquer coisa por você, minha Helse.

Nesse momento, Fried inclinou a cabeça em minha direção, deixando poucos milímetros de distância entre nossos rostos. Eu podia sentir seu bafo frio ir de encontro ao meu nariz.

— Não quero te perder. As coisas mudam quando cada um vai seguir seu caminho depois do Curso Preparatório. Os antigos amigos se afastam. — Falou.

Naquele instante, uma ideia perturbadora veio a minha mente: Será que eu ia encontrar alguém no mundo que me amasse tanto quando o Fried me amava? Provavelmente não. Meu destino seria ficar sozinha como uma sem virtude.

Eu precisava fazer o Fried, a pessoa que mais me amava no mundo, feliz naquele momento.

Inclinei minha cabeça e fui de encontro à sua boca.

O beijo de Fried era calmo, carinhoso e muito apaixonante. Desceu suas mão para a minha cintura e me pressionou para mais perto dele. Envolvi uma de minhas mãos em sua nuca e acariciei seus cabelos escuros.

— Eu quero me casar com você, Hel. — Admitiu ele, interrompendo o beijo.

Entrelacei minha mão na dele e vi que passar uma vida inteira ao seu lado não era uma má ideia. Talvez ele fosse o meu poço de felicidade. Ele estaria comigo para tudo. Por que simplesmente eu não conseguia o amar da mesma forma como ele me amava?

— Você possui um poder mental. E teoricamente eu sou uma sem virtude. Casamentos entre pessoas assim não são permitidos, você sabe.

— Meu Deus, como eu te desejo. Eu quero lutar por você, Helse. Não me importo em não casar, ser um fracassado, viver uma vida clandestina com você. Todos os sacrifícios do mundo são válidos para te ter comigo.

Acontece que eu não o amava suficiente para lutar por ele. Mas eu não iria dizer isso a ele, não podia magoá-lo.

— Não diga bobagens. Você tem um futuro com a Sarah.

Fried disparou um olhar de nojo.

— Argh! Não me lembre disso.

Ele me beijou de novo, dessa vez menos intensamente. Tirou do bolso interno do seu casaco uma garrafa de bebida e me ofereceu.

Peguei a garrafa e bebi dois goles profundos, entregando-a de volta a ele.

— Gostou do seu primeiro beijo? — Perguntou Fried.

— Como sabe que foi meu primeiro beijo?

Disparei um olhar desconfiado.

— Nunca te vi com garotos que não sejam eu e o Brendan. — Falou, bebendo um gole da bebida.

— Ah, claro. — Balancei a cabeça.

— Eu te amo. Obrigado por fazer esse pobre coitado infeliz um pouco feliz, hoje. Esse momento vai ficar guardado comigo para sempre, minha linda.

Acariciou minha pele com uma das mãos e eu assenti, colocando em minha face a expressão mais doce que conseguia fazer.

O resto da noite e da madrugada foi seguido por tragadas, goles na bebida e conversas nostálgicas sobre os bons tempos. Entre tudo isso, alguns beijos foram dados, e, então, próximo às 4 da manhã começamos o plano para ir ao laboratório.

Seguimos cautelosamente pelas ruas escuras que iam até o laboratório dos pais de Fried. Eu e ele estávamos brancos de medo, a qualquer momento um SS poderia nos achar e nos reprimir por estarmos violando o toque de recolher.

Quando enfim chegamos, deparei-me com um prédio composto basicamente de vidro e tinta branca. Um letreiro brilhava bem no meio do prédio sem graça, porém chique, escrito "Laboratório Müller-Dahren".

— Dahren é a família da minha mãe. Já Müller, a do meu pai, como você já sabe. — Disse Fried, notando que eu olhava para o letreiro.

Os pais de Fried eram ambos super dotados. Eram muito finos e ricos, possuíam cerca de 5 sedes espalhadas pela Alemanha do laboratório bem conceituado que construíram juntos.

— Vamos logo. Temos que ser rápidos. — Alertei.

Fried destrancou a porta lateral com facilidade, permitindo que entrássemos. Ele me conduziu para o terceiro andar do prédio através de um elevador todo de vidro.

Habilmente ele foi em direção a uma porta que continha uma placa anunciando em letras prateadas "Análise Genética II".

Abriu a porta com um cartão e me puxou pela mão.

— Sente-se na cadeira branca, por favor. Vou preparar o material.

— E as câmeras? — Indaguei.

— Eles não vão conferi-las. Não há motivos para fazer isso. — Respondeu Fried, calmamente.

Assenti, mas ainda nervosa.

Fried coletou meu material genético de maneira ágil e rápida.

— Sorte que as coisas são bem mais práticas do que eram há anos. — Falou sorridente. — Em poucos minutos vou poder analisar seu gene. Sem chances de fazer isso cerca de 50 anos atrás.

Fried colocou meu material genético em uma espátula de vidro e o enfiou em uma máquina branca que nunca tinha visto na vida. Posicionou seus dois olhos em uma lente e se concentrou.

Alguns minutos se passaram e eu tive que me atrever a perguntar.

— E então?

— Há algo muito estranho aqui. — Respondeu Fried, com a voz meio perplexa.

— O quê?

Segurei firme o braço da cadeira, já suando litros.

— Sabe os 26 genes de mutação existentes?

— Sei.

— Eu os vejo aqui. Todos eles.

— Co... Como?

— Eles estão presentes no seu gene, absolutamente todos. Porém, é como se eles não tivesse ativos.

— Está dizendo que eu possuo todas as mutações? Todos os poderes?

— Você os tem em seus genes, isso é fato, vejo-os aqui.

— Mas eu não consigo usar esses poderes.

E então, tudo ficou claro.

— Eu não sugo o poder dos outros. Eu sugo, eu sugo... Outra coisa. — Berrei.

— É como se você sugasse a energia necessária para ativar os seus poderes. Mas, é intrigante, sugar energia do poder de alguém é um poder, e ele deve estar contido nessas 26 mutações que achei em você. Não tenho resposta para isso.

— Fried, como eu posso ter todos os poderes? Isso é impensável. Por que isso?

— Isso já não é cabível a mim. Não faço a mínima ideia.

Minha cabeça começou a rodopiar junto com o meu corpo. Eu, Helse, a garota sem virtude, na verdade, possuía todos as virtudes. Mas eu precisava ativá-las se quisesse usá-las. Tudo me pareceu impensável, impossível, inteligível, era um grande misto se loucura e eu não fazia ideia de como fui parar bem no centro dele.

— Você é, sem dúvidas, poderosíssima, Helse, mais do que qualquer um. — Disse Fried.