Já a salvos de sermos pegos no laboratório, eu e Fried nos posicionamos em um beco escuro próximo.

Nós dois ficamos escorados na parede fria feita de tijolos, sem dizer uma única palavra.

Seja lá o que tinha da acontecido ali, tínhamos realmente presenciado algo sobre comum. Eu tinha todos os genes mutantes.

A história dos seres humanos mutantes no mundo se iniciou em 2074, quando os nazistas evoluíram tanto a sua engenharia genética que conseguiram modificar genes e promover uma verdadeira evolução nos humanos. A princípio, o foco da descoberta nazista em relação à mutação genética era apenas formar um exército invencível.

Soldados, tenentes, generais, todos começaram a ser modificados geneticamente, e o exército nazista realmente se tornou uma barreira difícil de ser passada. Afinal, qual exército no mundo conseguiria bater de frente com nazistas que conseguiam controlar água, fogo, eletricidade, ler mentes, voar e muitas outras habilidades que antes eram impensáveis de um ser humano possuir?

Logo, os filhos e filhas desses guerreiros nazistas começaram a nascer com genes modificados. E hoje, quase 200 anos depois, a população do Novo Reich é quase toda composta de mutantes, mas há aquelas anomalias, os chamados sem virtudes. Mesmo filhos de pais com o código genético modificado, acabaram por nascer sem poder algum. Eu achei que fosse um deles. Até descobrir que possuo os 26 genes modificados. Na verdade, eu era a pessoa com mais virtudes existente no Reich.

— Ninguém jamais nasceu com 2 genes mutantes, imagina 26. — Falou Fried, quebrando o silêncio no beco.

— Saber que possuo os 26 genes mutantes não responde a pergunta. Por que eu sou assim? Minha mãe é uma super dotada, meu pai um animador, como eles podem ter gerado alguém como eu?

Senti todo o meu corpo tremer, em parte por causa do frio, em parte por causa do medo.

— Helse, não tem como descobrir o porquê disso. Eu... Eu não consigo pensar em nada que justifique você ser assim.

— Preciso contar aos meus pais.

— Não... Você tem que manter isso em segredo.

— Acha que eles vão me dedurar e deixarem que o governo me leve? Pelo amor de Deus, eles não vão fazer isso!

— Eu sei que não. Mas, Helse, você contar a eles não vai mudar em nada. Não há o que fazer.

— Eles me geraram, eles podem me dar respostas.

— Não, eles não podem.

— Já chega, vou para casa.

Antes que eu pudesse me virar totalmente para sair, Fried me puxou pelo braço e me encarou.

— Não faça nenhuma besteira, Helse. — Alertou.

— Não vou fazer. Obrigada por me ajudar, de verdade.

Meu agradecimento soou frio e rígido. Eu não estava brava com o Fried, não tinha motivos para ficar. Porém, estava muito aborrecida por não ter respostas necessárias sobre mim mesma. Minha única preocupação naquele momento era chegar em casa e me esconder entre as cobertas.

— Eu te amo. Cuide-se. — Ouvi Fried dizer enquanto eu deixava o beco escuro.

Não respondi e continuei seguindo entre as sombras da rua, na tentativa de me esconder de algum SS de plantão.

Estava tão frio que as lágrimas que brotavam nos meus olhos pareciam que iam congelar a qualquer momento.

Queria encarar meus pais e tirar deles todas as respostas necessárias.

Mas no fundo eu sabia que eles não tinham conhecimento sobre uma filha que possuísse 26 genes mutantes. Sempre percebi os olhares diferentes deles sobre mim, mas o motivo não era esse. Se eles soubessem de algo anormal em mim, não hesitariam em me contar.

Existia algo mais ali, algo que sei que não conseguiria arrancar deles.

Talvez o Fried tivesse razão. O que eu ganharia contando a descoberta que fiz sobre mim mesma aos meus pais? Na certa eu ganharia olhares mais diferentes ainda sobre mim, e não sei se eu estaria preparada para esses olhares.

Seja lá qual fosse a resposta que eu estava procurando, eu precisava encontrá-la sozinha. Mas com quem? Onde? Eu gostaria dessa resposta?

Eu tinha medo. E não podia esconder esse medo de mim mesma.

...

No café da manhã, tentei transparecer tranquilidade, como se nada tivesse acontecido.

— Amanhã já se inicia o Curso Preparatório, não é mesmo? — Perguntou meu pai, enquanto passava manteria em uma torrada.

— Sim.

— Está tão calada. Ainda chateada por ser uma sem virtude? — Interveio minha mãe.

Ser uma sem virtude era uma das minhas últimas preocupações.

— Não mais. -Respondi.

— Hmm. Algo está te chateando? — Insistiu minha mãe.

Tinha vários "algos" me chateando. A possibilidade de ser descoberta pelo governo e ser levada embora, não entender por que eu era assim, dizer um adeus a Fried e a Brendan.

Mas eu apenas sorri e respondi que não.

— Não, mãe. Está tudo bem.

Eu queria gritar, berrar e perguntar ao mundo por que eu era diferente, mas eu simplesmente não podia.

Mais tarde, próximo do anoitecer, Brendan e Fried apareceram na minha casa, convidando-me para sair.

— Não vou. — Respondi.

— Mas é nossa última noite antes de nos levarem ao Curso Preparatório. — Insistiu Brendan.

— O Fried deve ter te contado o que eu sou, é complicado, não tenho mais vontade de fazer nada que não seja procurar respostas. — Falei cabisbaixa.

— Ficar trancada em casa, sozinha, não vai te trazer resposta alguma. — Falou Fried.

— Eu sei, nas não tô no clima de sair. Desculpa.

Abracei cada um deles, como se jamais fosse vê-los novamente.

— Por favor, Helse... Talvez a gente passe meses sem se ver, venha conosco. — Disse Brendan, quase chorando.

— Íamos ter que dar esse adeus de qualquer forma, por que não agora? — Falei, por fim.

— Nós te amamos, Helse.

— Eu... Eu amo vocês. — Falei com a voz falha. — Tentem se comportar no Curso Preparatório.

— Acho que você que devia se preocupar com o comportamento... — Brincou Brendan.

Sem muita cerimônia, Fried me puxou para si e depositou um beijo em mim. Retribui com a mesma intensidade, ignorando completamente a presença de Brendan.

— Eu precisava fazer isso antes de ir. — Fried falou, ainda com os lábios próximos aos meus.

— Como vocês são discretos, beijando-se bem no meio da rua.

— Deixa de ser chato, Brendan. — Falei, tentando fazer cara de mau. — Não estamos na rua. Estamos em frente à minha casa. — Bufei.

— Tá, tá... Eu aguento essa pegação de vocês.

— Esses meses sem você vão ser sufocantes. — Admitiu Fried, enquanto me dava um último abraço. — Espere por mim, Helse.

Eu não prometi esperar por ele. Sabia que mesmo depois que o Curso Preparatório terminasse as coisas não seriam as mesmas. Cada um ia seguir um caminho diferente, que era definido a partir da habilidade de cada um. Por mais que Fried pudesse abrir mão de uma carreira espetacular como super dotado, não queria que ele fizesse isso por mim. Eu não o amava suficientemente para desejar que ele fizesse esse sacrifício, então, não dei esperanças de que ia ficar esperando por ele.

Aguardei que a silhueta de cada um desaparecesse antes de entrar de volta para casa, precisava ter uma última imagem deles na minha mente, afinal, muitas coisas poderiam acontecer, eu poderia ser descoberta, poderia nunca mais retornar a vê-los.

Subi para o quarto e apenas me deitei, esperando o sono tomar conta de mim. Deixei a tarefa de arrumar as malas para o Curso Preparatório a cargo da minha mãe, não estava nem um pingo animada para me iniciar no Curso, diferentemente dos milhares de jovens de 17 anos ao redor do Novo Reich.

No dia seguinte, os raios que penetravam pela persiana fizeram o trabalho de me acordar. Assim que pus os pés no chão e corri o olhar pelo quarto, vi uma mala cinza arrumada bem ao lado da porta. Era o dia de dizer adeus por um tempo.

Vesti um casaco azul marinho com uma calça jeans e desci a escada com a mala até a sala.

O relógio na parede cinzenta marcava 08:48.

— Meu amor, venha dar um abraço em seus pais. — Anunciou minha mãe, de mãos dadas com o meu pai.

Corri em direção a eles e dei um abraço apertadíssimo.

— Vocês não imaginam o quanto vou sentir falta de vocês! — Admiti.

— Assim que liberarem visitas, vamos até lá. Certo? — Disse meu pai.

Concordei com a cabeça.

— Se despediu dos seus amigos? — Perguntou minha mãe.

— Eles passaram aqui ontem... Nos despedimos.

Uma batida na porta ecoou pela sala.

— Deve ser os SS. — Disse minha mãe, indo em direção à porta.

— Essa é a residência de Helse Haperlaire. A senhora deve ser Eliza Haperlaire, mãe da Senhorita Helse, correto? — Disse a voz grossa do SS, mais em tom de afirmação do que de pergunta.

— Correto. — Afirmou minha mãe.

— O ônibus está esperando para levá-la até o Curso Preparatório para os sem virtude, como já deve saber... Ela está pronta?

— Já, sim. — Falei, indo em direção à porta e mostrando-me para o SS.

— Ótimo. Só preciso que a Senhora Eliza e o senhor... — Conferiu no papel que trazia em sua mão. — Senhor Nouel assinem esse documento.

Meus pais assinaram o tal documento e o SS deu algumas instruções. Logo depois, era a hora da despedida final.

Fui sufocada pelo abraço mútuo dos meus pais, enquanto eles falavam para mim que me amavam.

— Se cuida, minha pequena. — Falou meu pai, livrando-me do abraço.

— Farei o possível. — Tentei brincar.

Peguei a mala sem graça e sai em direção ao ônibus, que me esperava bem em frente à minha casa.

— Nós te amamos. — As vozes atrás de mim disseram ao mesmo tempo.

Olhei para trás e vi a mulher franzina de cabelos vermelhos e o homem alto com cabelos já grisalhos que eu amava tanto. Minha mãe esbanjava olhos meio lacrimejados, já meu pai parecia estar mais firme. Joguei um olhar de despedida e cruzei a porta do ônibus.

Quando entrei no cubículo, deparei-me com vários rostos de sem virtudes vidrados em mim. Alguns deles eram rostos familiares, que conhecia vagamente da escola. Caminhei pelo estreito corredor até o fundo do ônibus e sentei em uma cadeira que estava com os dois locais vagos.

Por sorte, depois que todos foram recolhidos de suas casas, ninguém havia sentado do meu lado.

— Assim que chegarmos na Instituição, nós iremos falar as instruções. — Anunciou o SS para os passageiros do ônibus. Ele parecia ofegante de tanto ter que descer do ônibus e recolher um por um dos jovens.

Olhei o sol pela janela e deduzi que já havia se passado cerca de duas horas desde que tinha me despedido dos meus pais.

O caminho até a Instituição foi basicamente rodeado por florestas verdes, o que me fez pensar que a tal Instituição ficasse um pouco distante da cidade de Ruswiastein.

Durante o trajeto não pude tirar os meus pais da cabeça. Como ficariam sem mim? Talvez eu passasse meses sem eles. Como eu aguentaria a saudade de casa, do Brendan, do Fried? Meu coração palpitou e tive que conter as lágrimas.

O ônibus freou, jogando-me para frente bruscamente.

— Chegamos. — Gritou o SS, em um tom aliviado.

Calmamente, uma fila de jovens se formou no corredor estreito do ônibus e foram descendo em ordem.

Uma brisa leve me cortou logo que sai do ônibus, e na minha frente estendia-se apenas um portão preto de ferro.

— Sigam-me. — Disse a voz do SS.

Obedecemos e em uma fila meio desorganizada cruzamos os portões.

Eu segurava minha mala firmemente enquanto seguia os jovens à minha frente. Em alguns minutos, cruzamos uma parede de mármore e fomos instruídos a irmos deixar nossas malas em nosso dormitório. Cada um de nós ficaria em um quarto acompanhado de mais uma pessoa.

— Helse Haperlaire, seu quarto é o número 16, juntamente com o senhor Erich. — Disse o SS. — Podem seguir pela minha direita. Deixem as malas e voltem para cá, vamos fazer um pronunciamento.

Eu teria que dividir o quarto com um garoto? Era isso mesmo?

O SS, percebendo minha hesitação, falou firme.

— Senhorita Haperlaire, a regra de convivência básica da nossa sociedade é tolerar uns aos outros. Portanto, acho melhor você ir para o seu quarto.

Concordei com a cabeça e fui em direção ao corredor dos quartos.

— Pelo visto você vai ter que aprender a viver melhor em comunidade. Sorte sua que estamos aqui para isso. — Falou a voz do SS atrás de mim.

Pensei em gritar com ele e me defender, dizer que eu sabia muito bem viver em sociedade, não precisava da ajuda deles. Mas seria um erro. Não podia arranjar confusão logo na chegada.

Então, apenas obedeci ao que o SS durão mandou eu fazer.

Procurei com dificuldade pelo corredor uma porta que possuísse o número 16, mas não estava encontrando.

— Aqui. — Uma voz falou.

Virei-me e fiquei de frente com um garoto pequeno, de pele pálida e cabelos castanhos bagunçado.

— Você é a Helse, não é? Aqui é o quarto 16. — Disse timidamente. — Sou o Erich.

— Ah, obrigada por me localizar. — Falei.

Entrei no quarto, era apenas um quadrado com uma janela, uma beliche, uma cômoda e uma porta que dava a um banheiro feio.

— Pode escolher ficar em cima ou embaixo. — Disse Erich, apontando para a beliche. — Não me importo.

— Também não me importo. Hmm... Vou ficar na de cima, está bem?

Erich assentiu.

Deixei a mala no chão e sai em direção ao lugar de origem, como o SS tinha mandado. Hesitei quando vi que Erich não estava indo também.

— Você não vem? — Perguntei.

— Ah, tem razão. — Respondeu atrapalhado, indo de encontro a mim.

Fomos em direção oposta a que tínhamos vindo e nos deparamos com um grupo de jovens enfileirados de frente a um pequeno palanque.

— Vão fazer um pronunciamento. — Cochichou Erich para mim.

— É. — Concordei com tom meio óbvio.

Ao lado direito, uma mulher passava, checando o número de jovens que estavam presente. No esquerdo, um grupo de pessoas sérias esperavam para falar.

— Bem, estão todos aqui... — Falou o SS, subindo no pequeno palanque. — Está na hora de vocês nos conhecerem.

Bufei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.