A Nova Seleção
8 Capítulo 8 - A Verdade
Notas iniciais

SCARLETT’S POV
Abro os olhos devagar e sinto aquela dor em minha nuca, levo a minha mão direita até o ponto da dor e encosto. Sinto algo molhado e seco, olho para minhas mãos.
É o que estou vendo em minhas mãos, o meu sangue. Não sei o porquê de a minha nuca doer tanto, mas com o passar dos minutos lembro-me dos acontecimentos recentes. Rebeldes no Palácio. Noah ferido. Eu sendo levada. A dor na nuca. A escuridão. E agora, aqui estou.
Observo a minha volta; Estou sentada numa cadeira de ferro, minhas mãos estão com algemas que estão presas na cadeira, mas tem um pedaço de corrente para dar um pouco de movimento para os meus braços. O meu vestido foi cortado até a altura do joelho e correntes prendem as minhas pernas as pernas da cadeira; a minha volta vejo apenas paredes muito brancas e uma porta de ferro com uma pequena janela.
A dor em minha nuca cessa e dá lugar a uma dor de cabeça muito forte. Estou olhando para a porta de ferro pelo que parece uma eternidade quando de repente ela se abre e o homem que atirou em Noah entra.
“Acordou. Poderemos começar.” – diz fechando a porta. Estou assustada e percebo que estou tremendo
“O que você quer?” – assusto-me com o som da minha voz, não parece a mesma. O homem sorri.
“Eu quero as informações, eu quero tudo o que você sabe e não me importo em retirar isso á força” – ele diz com raiva em seus olhos. Informações? Tudo o que eu sei? O que eu sei sobre o que?
“Não estou entendendo.” – digo em voz alta olhando diretamente em seus olhos que despertam meus maiores medos.
“Pode se fazer de difícil agora, mas depois que eu começar você vai contar tudo.” – nesse momento ele retira um canivete de dos bolsos de sua calça. Eu estremeço. Ele começa a caminhar em minha direção passando os dedos pela lâmina.
“Quem é você?” – digo assustada.
“Você deve ter ouvido falar de mim...” – diz olhando para a parede ao meu lado esquerdo – “... o sobrenome Kirkman te lembra alguma coisa?” – ele pergunta. Kirkman? É-me familiar, já o escutei em algum lugar. Estou tentando lembrar o que faz com que minha dor de cabeça aumente.
“Vejo que reconhece, mas em todo caso meu nome é Adam Kirkman e eu não me importo de você saber, você não vai sair viva daqui mesmo.” – ele diz olhando diretamente para mim. Seus olhos são de um azul muito claro, seu cabelo loiro é cortado perfeitamente; ele usa uma camisa preta e uma calça de soldado preta, um coturno também preto. Tem preto demais. Ele esta com um sorriso sínico em seu rosto. Um sorriso que já vi. Ele tem uma aura parecido com uma pessoa que conheci, se é que eu posso reconhecer auras.
“Angel.” – digo rapidamente o olhando. Ele fecha o rosto em uma amargura.
“É você lembrou”
“Como você a conhece?” – depois que digo é que percebo o quão idiota minha pergunta é, eles tem o mesmo sobrenome, devem ser parentes.
“Angel, vamos dizer assim, temos uma ligação” – quando ele diz a palavra ligação levanta sua mão esquerda e é quando eu vejo um anel.
“Como?” – pergunto. A dor de cabeça esta melhorando, mas agora não sei o que pensar. Angel e ele? Juntos? Ela é uma das selecionadas, como pode ser?
“Vejo que está tentando descobrir, tentando ajuntar as peças, deixo esclarecer para você antes de qualquer coisa.” – e é assim que ele revela toda a verdade.
Angel e ele são casados, os dois comandam um grupo de rebeldes. Angel se infiltrou no Palácio como uma das selecionadas, o porquê ele não me disse. Resumindo tudo, ela está organizando algumas coisas no Palácio para algo maior e ele ficou do lado de fora para continuar com seus planos. A verdade foi como um baque. Sempre achei que tinha algo de estranho em Angel, mas nunca imaginei algo assim.
“Eu entendi, mas o que eu tenho haver com isso?” – enfim pergunto.
“Você não tem direito de saber.” – diz. Ele continua a manejar o canivete em suas mãos.
“A conversa foi ótima, mas esta na hora de descobrir respostas.” – ele vem na minha direção, a tremedeira que nunca me deixou desde o momento que ele entrou na sala fica mais forte.
“Eu tenho meios de descobrir respostas, diga o que precisamos” – ele segura a faca com a mão direita e se aproxima mais e mais.
“Eu não sei o que você precisa!” – digo. Vejo raiva em seus olhos, ele chega mais perto e passa a lâmina lentamente sobre a minha barriga. Imagine aqueles cortes que fazemos quando estamos cortando alguma coisa como, por exemplo, tomates. O corte quase nunca é fundo, mas dói e dói muito. O que estou sentindo agora não é nada comparado a isso, a dor é excruciante, agonizante e ela se repete várias e várias vezes. Em meios aos gritos de dor tento dizer para ele que não sei de informação nenhuma, que não sei o que ele quer dizer, mas a cada vez que digo algo que ele não quer ele me corta novamente. Minha barriga está sangrando e a dor esta muito mais forte por conta dos cortes.
“Fala logo o que eu preciso!” – ele coloca o canivete de volta no bolso e avança com o punho fechado em minha direção. Eu nunca havia levado um soco no rosto, mas agora posso afirmar que dói. A minha visão embaça e vejo pontos pretos, minha cabeça esta latejando. Além de a minha barriga estar sangrando minhas mãos também estão por causa das tentativas de me proteger, depois de três tentativas percebo que é melhor ficar parada.
“Eu. Não. Sei. Desculpa.” – digo tentando retomar a visão. Ele fala alguma coisa em outra língua e sai da sala me deixando. Agradeço a Deus. Eu disse desculpa para o homem que está me torturando? Onde eu estou com a cabeça?
Não percebi antes, mas estou chorando. Água se misturando com o sangue. Olho para o meu vestido, ele está agora vermelho, observo meu sangue escorrer pelos cortes. Tudo em mim dói. Levo a mão até o pingente de rosa que Noah me deu e o seguro forte, como se esperasse que tudo fosse um terrível sonho e que eu acordasse no exato momento, o que não acontece, pois tudo é real. Meu sangue quente é real. A tortura é real. A dor é real. Tudo é muito real.
Depois de alguns minutos uma mulher entra com uma maleta em mãos.
“Por favor, chega, por favor, eu não sei de nada.” – digo respirando dificilmente e desesperada.
“Eu vim cuidar de seus ferimentos.” – é a única coisa que me diz. Eu fico com medo, mas algo em seus olhos castanhos me acalma. Lentamente ela corta o que resta o meu vestido revelando a gravidade de meus ferimentos. Conto oito cortes, alguns mais fundos outros mais superficiais, mas esse detalhe não interfere na dor. Ela joga algo nos ferimentos que faz com que eles comecem a arder instantaneamente, grito de dor. A mulher não liga e começa a passar um pano branco com água. Ela franze as sobrancelhas e vai até a porta, bate três vezes e ela se abre. Um homem todo de preto aparece. O que eles têm contra as outras cores? Ela diz algo para ele que eu não consigo entender, ele responde e entra na sala e vem direto em minha direção. Preparo-me para mais uma leva de tortura, mas isso não acontece. Ele retira as correntes me libertando, apenas deixa as algemas.
“Levante-se” – sua voz me assusta. Tento me levantar mais estou fraca demais e os cortes doem mais do que qualquer coisa e sem falar do lado esquerdo do meu rosto que não para de arder. Tento levantar mais uma vez, mas escorrego e caio no chão.
Olho para a poça de sangue no qual escorreguei, o meu sangue. Não sou perita em medicina, mas creio que todo esse sangue vai me fazer falta. Sinto alguém me levantar. Não vejo quem é, pois lentamente minha visão fica cada vez mais escura até não ver mais nada, até não escutar mais nada, até eu não ser mais nada, além de um peso quase morto.
NOAH’S POV
Faz algumas longas horas que Scarlett foi levada. Não pude fazer nada, ela se sacrificou por mim. Logo após o ataque rebelde, fui levado ao centro médico para tratarem o ferimento que a bala causou. Tentei de todas as maneiras ir atrás de meu pai para ele me contar o que está acontecendo, mas tudo o que recebi foi silêncio e uma frase: Recupere-se, eu cuidarei de tudo. Isso foi tudo que me disseram.
Eu não suporto ficar deitado sem fazer nada, não consigo imaginar o que aquele homem irá fazer com ela. Lembro-me de como o seu rosto estava ao me deixar. Lembro-me de suas ultimas palavras Minha vida não é tão preciosa quanto a tua. Eu não sabia o que fazer, fiquei em choque, queria dizer que não existe a minha vida sem ela, que eu não sou nada sem ela, mas não consegui e as imagens se repetem a cada instante em minha mente.
Eu pensei que esse dia seria o mais feliz da minha vida, o dia em que finalmente mostraria ao mundo que encontrei a pessoa que quero para mim, mas no final não foi como eu imaginei. Nunca é como eu imagino.
Eu em uma cama impossibilitado de andar, não porque não possa, mas porque estou proibido de me levantar. Scarlett em algum lugar e aquele homem fazendo o que sei lá com ela. Eu quero respostas, preciso obtê-las de alguma maneira, não posso ficar parado, pois se eu o fizer me odiarei para sempre. Eu não posso ficar parado. Eu preciso fazer algo e nada vai me impedir.
A não ser o soldado colocado ao meu lado com ordens para fazer o necessário para me manter na cama. Tenho que elaborar um plano.
“Soldado?” – digo com a voz firme. Ele me olha.
“Sim Alteza.” – responde. Vejo em sua identificação, Soldado McHurt. Não presto atenção em sua feição.
“Preciso ser levado imediatamente ao meu pai.” – digo somente, esperando que ele obedeça.
“Não posso leva-lo Alteza, tenho ordens a seguir” – olha fixamente para um ponto na parede.
“Soldado McHurt eu tenho plena certeza que tem, mas você não poderá me manter aqui.” – me levanto da cama. O soldado rapidamente segura meus braços para que eu não prossiga.
“Soldado se você não me soltar neste exato momento terei que tomar providências” – digo dando ênfase em providências. Claro que não poderei tomar nenhuma, pois são ordens de meu pai que regem o seu comportamento, mas parece que o Soldado McHurt não deseja saber se posso ou não, assim ele solta o meu braço. Feliz sigo pelos corredores do Palácio para encontrar meu pai. A perna ainda dói, mas não me impede de seguir meu caminho. A cada minuto que passa Scarlett pode estar sofrendo, logo afasto esse pensamento.
Chegando ao meu destino abro a porta rapidamente sem ao menos me pronunciar. Papai está reunido com vários outras pessoas, eles conversam calmamente.
“Já enviamos tropas para procurá-la nesta área.” – diz Ceaser, comandante das tropas do país.
“E nesta aqui?” – pergunta papai apontando para uma área no mapa que esta sobre a mesa.
“Também Majestade, todas as providencias foram tomadas, vamos encontra-la.” – diz. É neste momento que percebem a minha presença. Meu pai me olha como se já soubesse que eu viria.
“Noah, creio que havia ordens de ficar na cama.” – diz.
“Eu nunca ficaria naquela cama com Scarlett sequestrada e o senhor sabe disso.” – tento manter a voz firme, mas ela vacila quando digo o nome de Scar.
Tudo mudou quando a encontrei. Apaixonei-me desde o momento que a vi naquele baile tentando se afastar de tudo, ela parecia tão nervosa, eu senti que deveria lhe dizer algo, parecia aflita. Sua voz foi como uma doce canção tocada por violinos, que ecoou em meus ouvidos. Olha o que amor faz com você, te deixa vulnerável e todo romântico, mas antes não era assim.
Sempre fui muito sozinho aqui no Palácio. Minha mãe nunca engravidou depois que nasci, pois perdeu muito sangue durante o parto, ela quase morreu. Os únicos amigos que tive não eram nem amigos de verdade, eram Príncipes de outros países, o único que foi e é meu amigo de verdade talvez seja Sam, de um país muito distante.
Quando Scarlett foi espontânea mesmo nervosa, ela mal sabia que eu também estava nervoso e precisava daquele momento, mesmo que ele fosse vergonhoso e meio alegre demais. Por incrível que pareça ela não se importou quando as pessoas a olharam estranhamente, naquele momento ela queria apenas se divertir. Ela é tão forte, tão meiga, tão imprevisível. Ela despertou sentimentos que eu achava que não poderia ter, ela é diferente de todas as outras, ela se destaca sem precisar desmerecer qualquer outra pessoa. Com ela eu posso ser apenas Noah.
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