A Nossa Secessão
9 Hazel Levesque: Temos um pequeno probleminha de contenção
Notas iniciais
5 de Julho de 1863:
A batalha passou como um borrão para mim. Não conseguia me lembrar de quase nada. Rostos e vultos se misturavam em uma massa de uniformes militares, escudos e armas e só de tentar pensar no que acontecera já me dava dor de cabeça. A única coisa da qual eu me recordava era o sorriso presunçoso da General La Rue segundos antes de eu desmaiar.
Inspirei fundo e um cheiro acre de fumaça invadiu as minhas narinas, quase me fazendo engasgar. Abri os olhos, temendo ainda estar no meio do campo de batalha, mas me deparei com o teto branco de uma tenda armada. Ao meu redor, os gemidos moribundos de outros legionários indicavam que eu estava na enfermaria. Tentei me levantar, mas meu corpo não respondia. Meus membros ainda pareciam estar entorpecidos e se rebelavam ao menor pensamento de se moverem. Bufei impaciente. Aquele era o preço que eu pagava por ter dado um passo maior que a perna.
Não. Não era minha culpa. Jason dissera que o conflito seria rápido, que não haveria resistência. Mas algo – ou alguém – notificara os gregos da nossa chegada. Antes mesmo que invadíssemos o acampamento, eles já estavam se organizando para reagir. Eu tivera que quase literalmente me dividir em cem durante o combate e aquilo me esgotara.
Lentamente, flexionei os dedos das mãos, depois os cotovelos, os dedos dos pés e por fim os joelhos. Tudo estava funcionando, mas eu sentia como se houvesse uma camada de ferrugem em todas as minhas juntas. Pelo menos não estava doendo.
Sentei-me devagar na cama, mas mesmo assim não consegui evitar que o mundo rodopiasse e pequenos pontos pretos dançassem no meu campo de visão. Massageei os olhos com a base da mão e apoiei os cotovelos nas pernas. O cheiro de fumaça começava a deixar a minha garganta irritada, ou melhor, mais irritada, visto que ela parecia ter se tornado um deserto enquanto eu estava apagada.
Olhei ao redor da tenda. Duas fileiras de camas se perfilavam de cada um dos lados, deixando um corredor estreito no centro. Braseiros estavam distribuídos esporadicamente, providenciando calor e luz para o ambiente, apesar da luz que passava através do tecido já ser suficiente. Todas as macas estavam ocupadas por semideuses. Alguns aparentavam estar apenas inconscientes, outros tinham membros recobertos em bandagens e pareciam respirar com dificuldade. Deviam ter ficado presos nos incêndios. Uns poucos conversavam em voz baixa, em um tom que deixava muito claro a sua irritação.
Não havia sinal de nenhum curandeiro e nenhum dos presentes parecia me notar. Por isso decidi que era seguro sair. Joguei as cobertas para o lado, pendurando as pernas para fora da cama. Calcei as minhas botas, peguei a minha espata recostada ao lado da cama e, calmamente, me levantei.
O mundo oscilou, mas eu consegui me equilibrar.
Um passo de cada vez, caminhei até a entrada e deixei a tenda para trás. O vento frio da montanha me recebeu e o sol alto quase me deixou cega. Com uma das mãos protegendo os olhos, encarei o céu. Deveria ser meio dia. Agora bastava descobrir de qual dia.
Afastei o cabelo do rosto e me pus a andar. Meus passos eram trôpegos e eu tinha que tomar cuidado com o terreno irregular e inclinado da encosta ou então acabaria com a cara no chão. Observei os arredores enquanto caminhava. O nosso acampamento havia sido erguido sobre as ruínas do grego, o que explicava o cheiro de fumaça. Quase todas as tendas deles foram reduzidas a amontoados de suportes de madeira carbonizados e restos de tecido e equipes de três a quatro legionários vasculhavam os restos em busca de algo que pudesse ser útil. Pelas expressões carrancudas em seus rostos, eu diria que eles não tinham encontrado muita coisa. As poucas que restaram de pé haviam sido esvaziadas e desmontadas e agora estavam dispostas em pilhas bem organizadas no gramado pisoteado para que uma equipe de campistas fizesse o inventário.
A julgar pelo humor de todos, havíamos perdido a batalha.
Torci para que ninguém me notasse. Não ia demorar para que começassem a apontar dedos sobre quem era o responsável pela derrota e eu não duvidava que grande parte fosse votar em mim. Eu deveria ter protegido todos, ter feito os nossos números parecerem maiores do que realmente eram. E eu falhara no momento mais crítico da invasão. Quem mais poderia ser culpado?
Continuei caminhando. Eu não sabia exatamente para onde estava indo. Não queria ficar na enfermaria junto com os outros feridos, mas também não queria ter que interagir com ninguém. Por conta disso, acabei vagando sem rumo, sentindo os músculos das pernas protestarem, até que Dakota, centurião da Quinta Coorte me avistou. Seus olhos se cravaram em mim com preocupação e ele avançou de modo tão decidido que eu nem sequer tive tempo de tentar desaparecer atrás de uma das tendas.
— Hazel, o que você está fazendo de pé? – ele tinha um tom de repreensão na voz.
— A enfermaria estava fedendo a fumaça. – respondi sem pensar muito – Estava sufocante lá dentro.
Ele sorriu, como se entendesse exatamente o que eu estava passando. Talvez tivesse tido alta a pouco tempo...
Ele pegou um odre no cinto, tomou um gole curto e me ofereceu. Eu ergui as sobrancelhas e lhe lancei um olhar questionador.
— É suco de uva. – ele falou, sorrindo constrangido e desviando os olhos para o chão – Eu... Eu estou tentando... – Dakota respirou fundo – Por favor, não conte para Jason. Ele pode achar que eu tive uma recaída e... bom... Você sabe...
Assenti, aceitando o odre e tomando um longo gole. Minha garganta agradeceu, apesar de eu ter achado o suco pouco diluído. Pelo menos ele ajudou a remover a sensação de carregar um deserto dentro do pescoço.
Devolvi o cantil, limpando a boca com as costas da mão.
— Não se preocupe. – falei com um sorriso cúmplice – Seu segredo estará a salvo comigo. Se você me disser onde Jason está.
Eu não sei por que eu queria falar com o nosso general, mas algo em minha mente me dizia que eu lhe devia explicações sobre o ocorrido. Talvez eu só quisesse que ele não me visse como culpada pela derrota.
— Já vai me denunciar, hein? – Dakota brincou, apontando com o polegar por sobre o ombro – Ele está monitorando a limpeza da tenda principal.
De fato, eu podia ver a silhueta de Jason parada junto a uma enorme pilha de cinzas, com os braços cruzados. Sua postura parecia tensa.
Dei um sorriso agradecido para Dakota e comecei a me afastar na direção que ele me indicara, mas sua voz me fez parar no meio do caminho.
— Não se exija de mais, Hazel. – ele pediu – Você ficou apagada por um dia e meio.
Um dia e meio?! Isso era tempo de mais, mas por algum motivo, aquilo não me surpreendia tanto quanto deveria. Considerando o tanto de energia que gastara na batalha, devia ter ficado até mais tempo.
Concordei com um aceno breve de cabeça e segui o meu caminho. A subida logo me deixou cansada. As minhas batatas da perna e coxas protestavam, como se nunca tivessem sustentado o meu próprio peso antes. Meus pulmões ardiam, sem ar. Isso tudo em uma subida de menos de dois minutos. Bufei irritada, secando o suor da testa. Eu estava pior do que imaginava.
Ok, chega de se bancar de vítima. Não há espaço para vítimas em uma alcateia. Muito menos na alcateia treinada por Lupa. Empertiguei-me e segui em frente.
Jason estava prostrado diante do que parecia ser uma enorme pira funerária. Eu me lembrava vagamente de ter visto uma tenda maior do que as outras ali, quadrada e branca assim que chegara. Mas os únicos resquícios de sua existência eram alguns suportes de madeira carbonizados até quase se transformarem em tocos e uma grande mancha escura no chão.
Mesmo assim, equipes de busca vasculhavam os restos, levantando nuvens de cinzas por onde passavam. Não tinha a menor ideia do que eles buscavam encontrar, mas pelo estado de suas roupas, eu diria que já estavam naquilo fazia mais de hora.
Parei alguns poucos metros atrás de Jason e endireitei a postura, tentando parecer o mais confiante e recuperada que conseguia.
— General Grace? – chamei.
O filho de Júpiter se virou para mim com uma expressão de alívio iluminando seu rosto.
— Hazel! – ele sorriu – Graças aos deuses você acordou! Já estava ficando preocupado.
Eu quase podia ver o peso deixando os seus ombros. Jason nunca se perdoaria se eu morresse por me esgotar durante uma batalha seguindo as suas ordens.
— Como está se sentindo? – ele perguntou.
— Bem. – respondi. Não queria que ele ficasse preocupado comigo – Um pouco abatida ainda, mas vou me recuperar
O pretor assentiu, satisfeito.
— Isso é muito bom de ouvir. – sua voz adquiriu um tom amargo – É bom receber uma boa notícia para variar.
Senti um aperto no peito. Era agora.
— General. – uma voz nos interrompeu. Um dos legionários da equipe de busca estava parado no meio de tudo, secando a testa na manga do uniforme, o que deixou uma comprida mancha preta de fuligem em seu rosto já encardido – Não tem nada aqui.
Jason suspirou, derrotado.
— Os gregos fizeram um bom trabalho. – ele resmungou para si mesmo e se virou para os soldados que vasculhavam as cinzas – Muito bem. Descansem. Mais tarde discutimos outras alternativas.
Agradecido, o grupo se dispersou, massageando as costas e pescoços e limpando as mãos em trapos imundos. Jason passou os dedos pelos cabelos loiros. Parecia exausto. Tinha a aparência de quem não dormia pelo mesmo período de tempo que eu ficara apagada, com olheiras profundas e as bolsas sob os olhos inchadas.
— Jason, o que aconteceu? – perguntei preocupada.
Por um momento ele me encarou como se não entendesse a pergunta. Mas depois suspirou e sua expressão relaxou um pouco. Ele começou a andar e eu o segui, fazendo o máximo de esforço para não demonstrar que minhas pernas estavam me incomodando.
— Bom, nós perdemos. – ele respondeu amargurado, enfiando as mãos no bolso do uniforme – Perdemos a batalha e o filho de Netuno. Estamos de mãos vazias. – sua cara se fechou em uma carranca irritada – Eu estava tentando recuperar algum dos mapas ou planos de guerra da tenda principal, mas aqueles que não foram levados, queimaram até virarem cinzas. – um suspiro escapou por seus lábios — Até nisso os gregos nos derrotaram.
Senti um aperto no peito. Jason não estava falando nada, apenas apresentando os fatos, mas eu sabia quem a legião ia culpar. No momento que o general fizesse o relatório sobre o fracasso da investida, todos iam olhar ainda mais feio para mim. Como se já não bastasse os olhares que recebia por conta da minha cor de pele.
— Jason, me desculpe. – comecei, os olhos baixos – Eu devia ter prestado mais atenção, talvez ter focado a minha energia onde era mais necessário ao invés de me dispersar tanto. Se eu tivesse feito isso, teria forças para ao menos resistir a General La Rue. Eu sinto...
O pretor ergueu a mão para me interromper.
— Hazel, o que aconteceu não foi sua culpa. – ele me lançou um olhar reconfortante – O erro foi meu. Eu julguei mal o tempo de resposta dos gregos e subestimei sua capacidade de resistência. Mas pior do que isso: Nós caímos em uma pegadinha.
Paramos na frente de uma tenda guardada por dois legionários armados. A um aceno de cabeça do pretor, os soldados liberaram a entrada e eu o segui para o interior.
Se não fosse a luz do sol atravessando o tecido, o lugar estaria escuro. Dentro do ambiente quadrado, mais romanos montavam guarda. Pelo menos meia dúzia estavam de pé no perímetro da tenda, olhando de cima um prisioneiro acorrentado ao chão: um garoto de dezesseis anos e aparência latina que nem se dignou a erguer os olhos quando entramos.
— Este é Chris Rodriguez. – Jason falou com um tom neutro como se apresentasse uma peça de museu – Filho de Mercúrio que conseguiu a incrível façanha de roubar todos os berrantes de alarme dos grupos de cerco estacionados a oeste e ainda nos confundiu ao soprar um deles a leste, dando as suas tropas a chance de escapar.
O garoto sorriu, deixando seu rosto com uma expressão de elfo sapeca. Tinha um corte coberto com sangue seco no supercílio, onde, provavelmente, ele fora atingido pelo punho de uma espada.
— Não foi nada. — ele falou em um presunsoço, como se o filho de Júpiter tivesse acabado de elogiá-lo.
— Pronto para falar? – Jason perguntou se inclinando sobre ele.
— Já disse. – Chris rebateu depois de um revirar de olhos – Eu não sei de nada. Sou apenas um mensageiro.
O filho de Júpiter suspirou e me indicou a porta.
— Por que você me mostrou isso? – perguntei confusa assim que deixamos a tenda.
— Só mais uma prova de que você não tem culpa na nossa derrota. – o pretor respondeu, olhando para o céu como se buscasse algum sinal de ajuda divina.
Respirei fundo, aliviada. Oficialmente, a culpa não seria minha. Jason iria cuidar para que não me responsabilizassem, era isso que ele queria dizer com aquilo. Óbvio que ele não podia calar os rumores e sussurros pelas costas. Dei de ombros internamente. Tudo bem. Eu já lidava com eles todos os dias. Mais um ou outro não faria diferença.
— O que vai acontecer com o grego? – perguntei após alguns instantes em que caminhávamos em silêncio.
Jason levou as mãos para trás do corpo.
— Ele será levado para Charleston, como prisioneiro. – ele respondeu em um tom neutro – Ele será mantido no nosso acampamento até resolver cooperar ou a guerra acabar. O que vier primeiro.
— Octavian não vai... – comecei, sentindo um gosto amargo na língua e um frio desagradável na boca do estômago.
O filho de Júpiter negou com a cabeça.
— Não. – seu tom era duro, como se pensar no que o áugure podia fazer já o deixasse nervoso. Eu não o culpei. Octavian podia ser um monstro quando queria e a guerra só tornava isso ainda mais evidente – Eu garanti que ele estivesse ocupado no Forte Wagner.
Contive um suspiro de alívio. Nós paramos no ponto mais alto do acampamento e nos viramos para apreciar a vista do vale. Várias montanhas recobertas de floresta verdejante se estendiam em todas as direções.
— E quanto a nós? – perguntei.
— Nós vamos nos juntar a ele. – Jason respondeu como se comentasse sobre uma temperatura levemente desagradável. Involuntariamente, eu fiz uma careta, o que não passou despercebido ao pretor, que me deu um sorriso cansado e compreensivo – Não temos escolha. Os gregos estão planejando um ataque para a metade do mês e eu não vou perder mais um combate para eles. Acredito que a Primeira e a Quinta Coorte juntas possam dar conta do problema. Os gregos não são mais numerosos do que nós, de maneira alguma.
Mas isso não me animava. Eu não queria lutar ao lado de Octavian. O garoto era a pior companhia que a filha de uma ex-escrava poderia pedir. Preferia – mas não ousava dizer isso em voz alta, óbvio – me aliar a um grego por uma semana do que combater ao lado dele por uma hora.
Eu talvez tenha deixado isso muito claro em minha expressão, porque Jason me olhou com piedade.
— Vou precisar que você vá na frente e encontre Gwen. Peça para que ela nos encontre com suas tropas em Colúmbia. De lá seguremos juntos para Charleston.
A perspectiva de uma viagem me deixou animada, principalmente porque ela me permitiria montar em Árion.
— Está se sentindo bem para viajar? – Jason prosseguiu com um tom paternal na voz.
— Nunca estou mal o suficiente para cavalgar. – respondi.
O pretor assentiu satisfeito e voltou a olhar o horizonte.
— Muito bem. Da última vez que tive notícias dela, eles estavam se retirando do Tenessi após a batalha de Hoover’s gap. Avise-a que levaremos de um dia e meio a dois para chegar a cidade. – ele me lançou um olhar de esguelha – Depois preciso que siga sozinha para o Forte Wagner e notifique Octavian da nossa chegada em no máximo uma semana.
Assenti, mal conseguindo conter meu entusiasmo. Mais uma missão com Árion. Mal podia esperar! Tudo bem que eu teria que falar com o áugure cara de espantalho, mas eu poderia cavalgar antes e era isso que importava.
— Quando eu parto? – perguntei, provavelmente soando como uma criança entusiasmada.
— Bom, eu pretendo partir amanhã cedo. – Jason coçou o queixo – Eles talvez levem um pouco mais de tempo para chegar do que nós, dependendo da distância que estiverem da cidade. Acho que o ideal seria que você partisse agora.
Não consegui conter o enorme sorriso que se abriu em meu rosto. Se o pretor viu, não demonstrou.
— Vou recolher as minhas coisas e partir imediatamente, senhor. – respondi, batendo uma continência breve.
— Obrigado, Hazel. – ele respondeu e eu senti que aquele agradecimento era por muito mais do que simplesmente aceitar um serviço de mensageira.
Comecei a me afastar, mas me detive, uma ideia surgindo no meu cérebro.
— General Grace. – chamei. Ele voltara a olhar o horizonte e trazia uma expressão pensativa e distante no rosto, mas se virou para mim – Deveria procurar pelos gregos no meio do caminho?
O pretor franziu o cenho por um momento, depois negou com a cabeça.
— Deixe que eles tenham essa vitória. – ele falou com calma – A mãe do filho de Netuno ainda está sob a nossa custódia. Eu confio que o garoto vai tentar resgatá-la mais cedo ou mais tarde. Quanto às tropas da General La Rue... Eles vão estar esperando por um ataque até saírem do estado. Deixe que as Coortes ao norte os interceptem. Nosso assunto mais urgente é o Forte Wagner. Temos prisioneiros lá que não podemos nos dar ao luxo de perder.
Assentindo com a cabeça, voltei pelo caminho que tínhamos feito para encontrar Dakota.
—----X-----
A viagem foi mais rápida do que eu gostaria. Gwen e sua tropa estavam ao norte da Georgia próximos da fronteira com o Tenessi, ainda se recuperando da batalha. Ela não pareceu muito entusiasmada em ir para o forte, não sei se por não querer entrar em um combate tão cedo ou por ter que aturar Octavian, mas prometeu que se reuniria ao restante da Quinta Coorte em Colúmbia dentro de quatro dias.
Ela também me pediu que levasse Bobby comigo até o ponto de encontro para que ele se reunisse antes com Jason. O legionário ficou bem aterrorizado por ter que montar em Arion e, quando chegamos na cidade, desmontou resmungando algo sobre elefantes serem meios de transporte muito mais seguros. Não o culpei. Poucos realmente apreciavam cavalgar acima da velocidade do som. Na verdade, acho que eu era a única.
Observei ele se afastar pelas ruas em direção ao norte da cidade, por onde as tropas de Jason viriam. Arion mudou o peso de uma pata para a outra e bufou. Inclinei a cabeça para olhá-lo.
— Você sabe que foi ótimo, seu convencido. – falei com um sorriso – Você não precisa que eu fique falando isso para você.
Outro bufo, dessa vez misturada a um relinchar baixo. Parecia dizer: Óbvio que você não precisa. Mas não foi isso que eu quis dizer. Revirei os olhos.
— Você quer ouro, não quer? – perguntei, sondando os arredores. Uma pepita do tamanho de uma cereja subiu a superfície – Desculpe, Arion. Mas não tem muita coisa aqui para você.
O cavalo relinchou infeliz, mas comeu a pedra.
— Para o Forte Wagner agora. – falei, me segurando ao seu pescoço.
O garanhão não precisou de outro estímulo. Disparou pela cidade, levantando uma trilha de poeira por onde passava. A paisagem ficou borrada. Florestas e cidades passaram tão rápido que nem tive tempo de assimilar tudo. Mas não me importei. Gostava da sensação de cavalgar: o vento jogando meu cabelo para trás, a sensação do galope, a velocidade. Tudo isso fazia com que eu me sentisse mais viva, deixava todos os meus sentidos despertos, como se eu tivesse acabado de tomar um litro de café. Montada, eu consegui deixar para trás toda a minha exaustão da batalha anterior.
Charleston passou correndo ao meu redor. As grandes mansões em estilo vitoriano nada mais eram do que borrões coloridos. Arion ignorou as ruas e saltou sobre o píer para a água, correndo sobre sua superfície em direção à Ilha Moris. Avistei o Forte Sumter brevemente, guardando a entrada da baía em sua ilha, a bandeira da confederação tremulando em seu mastro.
Tudo começara ali, eu pensei enquanto a construção de pedras desaparecia às minhas costas.
Chegando à ilha, Arion fez um ziguezague para desviar de estacas afiadas de sabal e minas terrestres, além de outras defesas que os confederados haviam espalhado. Sem nem mesmo diminuir a velocidade, ele saltou sobre o fosso de três metros que cercava o forte, escalou a parede e estacou no meio do pátio. Alguns soldados pareceram surpresos com a minha chegada abrupta, mas não fizeram nada além de levantarem a cabeça assustados e me lançar um olhar enfezado. A grande maioria ali era mortal. Mil e setecentos homens a serviço da confederação, dos quais pouco mais do que quarenta pertenciam à legião. Eu tentava evitá-los ao máximo. Confederados e negros não se davam bem.
Não demorei a localizar a Primeira Coorte, apesar da Névoa ali ser muito densa devido à proximidade com os humanos. Estandartes, lanças e escudos estavam recostados contra as paredes de terra e areia de nove metros de altura, intercalados com estacas de madeira e sacos de areia, que serviam para o sustento do muro, e canhões para defesa da baía.
Mas algo estava errado ali. Muitos semideuses estavam aglomerados em um mesmo lugar, falando alto em um tom que parecia mesclar medo e raiva. Até mesmo Arion pareceu ser afetado por aquela atmosfera. Ele farejava o ar e batia com os cascos dianteiros no chão, escavando a terra. Mal tive tempo de desmontar e ele disparou para longe, deixando e seu lugar uma nuvem de poeira. Isso me fez lembrar algo que minha mãe me dissera. Que cavalos conseguem sentir a presença de espíritos e outras criaturas paranormais. Talvez...
Disparei em direção ao grupo, pedindo licença quando podia e empurrando para o lado aqueles que não ouviam. Recebi muitos olhares irritados, mas ninguém mexeu comigo. Ser filha de Plutão tinha essa vantagem: as pessoas têm medo de você, mesmo que você seja uma garota franzina de treze anos. O fato de eu manipular a névoa não melhorava muito a minha situação.
No centro do amontoado de campistas estava Octavian. Não em toda a sua pose e pompa fazendo discursos sobre porque ele era uma melhor opção para pretor do que uma latina, mas sentado no chão, com diversos ferimentos nos braços e no rosto enquanto um filho de Apolo o tratava. Parecia que alguém havia tentado abrir suas pálpebras à força. Ladeando-o estavam duas estátuas em tamanho real de legionários com espadas em punho e olhos arregalados em uma expressão de surpresa e horror debaixo dos elmos.
Um calafrio percorreu a minha espinha e eu recuei um passo para trás.
— O que aconteceu aqui? – perguntei em um fio de voz.
Octavian ergueu os olhos feridos para mim. Parecia genuinamente assustado.
— Ela fugiu. – ele murmurou com a voz trêmula – Eu tentei impedir, mas... — ele indicou o arredor, impotente
Quase perguntei quem, mas segurei a língua. Só havia um monstro com a capacidade de transformar pessoas em pedras. Engoli em seco.
Medusa estava a solta.
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