A Nossa Secessão
10 Percy Jackson: Annabeth me conta uma história
Notas iniciais
4 de Julho de 1863:
A general Chase me guiou floresta a dentro em uma corrida desenfreada pelas nossas vidas. Descíamos a encosta da montanha em uma velocidade perigosa e eu constantemente fazia uma das coisas mais estúpidas que você pode fazer enquanto corre: olhava para trás. Mais de uma vez tropecei em pedras e raízes que quase me lançaram ao chão e quase dei de cara com uma árvore em outro momento. Teria sido uma cena engraçada em qualquer outra circunstância se eu não estivesse desesperado para sair dali com vida.
— Pare de ficar olhando para trás seu... Cabeça de Algas! – ralhou Annabeth depois que eu enrosquei meus pés em um arbusto e esbarrei em uma pedra, ralando meu cotovelo.
— Cabeça de Algas?! – Olhei para ela exasperado, voltando a correr, apesar de estar completamente sem fôlego. – Que tipo de xingamento é esse?!
Ela me olhou por sobre os ombros. Aqueles olhos cinzentos como duas tempestades prontas para lançar um raio em cima de mim quase me fizeram me arrepender de ter feito a pergunta. A resposta era clara em sua expressão: Não me questione.
— Para onde estamos indo afinal de contas? – perguntei ofegante.
— Acampamento Meio Sangue – ela respondeu sem me olhar. – É nossa base de operações.
— A base de operações de vocês é um acampamento? – deixei escapar.
Annabeth soltou um grunhido irritado.
— Você quer calar a boca?
Fechei a cara, mas obedeci. A última coisa que eu queria era ser abandonado no meio de uma floresta sendo perseguido por um exército.
Continuamos correndo. Não sei por quanto tempo. Seguíamos o contorno da encosta e já estávamos longe do acampamento, mas não o suficiente para escaparmos dos sons do combate. Eu ainda conseguia distinguir o retinir de metal contra metal das espadas se chocando e o clamor dos soldados de ambos os lados. A brisa trazia consigo o cheiro acre de fumaça que me arrastou de volta para o meu sonho...
Eu estava de pé no meio de um enorme salão de mármore. As paredes eram decoradas por diversos estandartes e cortinas de veludo vermelho. O chão e as colunas brancos davam ao lugar um ar frio. O mais assustador, porém, era o mosaico acima da minha cabeça: uma loba amamentando dois bebês humanos. A imagem em si não era o problema, mas sim os olhos do animal, que pareciam me observar com desprazer, como se minha presença ali não fosse bem vinda.
No centro de tudo isso ficava uma mesa de madeira escura com duas cadeiras de espaldar alto logo atrás. De cada lado dela ficava uma estátua de um galgo, um dourado e outro prateado, com olhos de rubis grudados em mim. As cadeiras estavam ocupadas por um garoto loiro que não devia ser mais velho do que eu, apesar de aparentar ser mais alto, e uma garota da minha idade com aparência hispânica e os cabelos pretos trançados. Ambos usavam armaduras douradas por cima do uniforme dos confederados e um mando roxo. A frente deles estava um terceiro garoto, muito mais alto do que eu e definitivamente mais musculoso. Usava apenas o uniforme de general dos confederados e se mantinha de pé diante da mesa, posicionando pecinhas em um mapa.
— As informações do grego se confirmaram – falou o loiro. – Eles de fato estabeleceram uma base no Monte Mitchell. A Tenente Levesque identificou uma grande quantidade de Névoa no local, mas não ousamos dispersá-la para não soar um possível alarme.
— Foi uma decisão inteligente – a garota concordou segurando o queixo entre o indicador e o polegar em uma expressão pensativa. – Qual será o nosso próximo passo?
— Vou guiar metade da Quinta Coorte para o confronto com essa unidade dos gregos. Hazel pode manipular a Névoa para resolver o problema numérico.
A garota assentiu.
— General Zhang? – ela inqueriu e o garoto grandalhão diante dela se aprumou.
— Vou coordenar a movimentação de prisioneiros para o Forte Sumter. A mãe do filho de Netuno e os dois mensageiros gregos. Não podemos deixá-los espalhados pelo país. Isso facilitaria um trabalho de resgate.
— Que Coortes vão ficar responsáveis por esse transporte? – perguntou o loiro.
— Metade da Terceira Coorte está com os filhos de Mercúrio. A mortal está sub a guarda de um destacamento da Segunda, pretor.
— Muito bem. Transfira todos para os cuidados da Terceira e deixe-os no Forte Sumter. – O loiro moveu uma peça sobre o mapa. – Não quero os gregos tentando nenhuma gracinha durante o ataque ao Forte Wagner.
— Não podemos concentrar todas as nossas forças no litoral, Jason – a garota comentou. – Precisamos de nossas tropas em outros lugares e os gregos não são tão numerosos.
— Além disso, — acrescentou o general Zhang — de acordo com a carta que o grego nos entregou, ambas as generais deles estão ocupadas no Monte Mitchell.
— Não se esqueçam que os prisioneiros que temos lá são moedas tão poderosas quanto o Filho de Netuno – Jason argumentou.
— Sei que quer proteger a sua irmã, Jason – ela falou, olhando-o com gentileza. Pela sua postura isso me pareceu o máximo de expressão de afeto que ela se permitia demonstrar na frente de outras pessoas. – Mas temos que começar a nos organizar para o cerco aos gregos.
— Uma coisa de cada vez, Reyna – pediu o pretor. – Deixe essa metade da Terceira Coorte no Forte Sumter até o ataque ao Forte Wagner acabar. Depois disso eles são seus para fazer o que achar melhor.
A jovem assentiu satisfeita.
— Alguma notícia do... nosso informante? – perguntou o grandalhão.
— Nenhuma – Reyna respondeu. – Ele disse que voltaria assim que conseguisse encontrar a passagem.
— Se ela existir – acrescentou Jason em um murmúrio baixo que não escapou os ouvidos da garota ao seu lado.
— Você não acredita que a passagem exista, General Grace? – O tom dela era frio e parecia informar: cuidado com as suas próximas palavras.
— Estou mais para preocupado do que descrente, General Arelleno – o loiro respondeu, neutro. – Não só quanto a sua existência, mas quanto à sua... aplicabilidade. Afinal de contas, se estamos falando sobre o labirinto de Dédalo...
— O labirinto existe, Jason – argumentou Reyna. – Nós já comprovamos isso.
— E também comprovamos que ele é instável e letal – Jason rebateu. – Dos vários exploradores que se voluntariaram para a tarefa, quase nenhum voltou de lá com sanidade o suficiente para nos explicar o que viu.
— Um exército inteiro não vai enlouquecer se tivermos um guia decente. E já estamos providenciando isso.
— Só estou dizendo que talvez não valha a pena. – O pretor levantou as mãos em um gesto de rendição.
— Guerras não são ganhas da nossa zona de conforto, Jason – Reyna falou com calma, tocando o cabo de sua faca sobre a mesa, como se buscasse nela o apoio que não recebia do colega. – É necessário aceitar certos riscos.
Um silêncio tenso pairou sobre o trio. Os dois sentados nas cadeiras pareciam embotados em seus próprios mundos enquanto o terceiro estava com os maxilares tensos observando o mapa diante de si, como se procurasse algum jeito de sair dali. Pode ter sido a minha impressão, mas por um momento pensei ter visto as mãos dele se transformarem em enormes patas de ursos. Por fim, ele deu um pigarro desconfortável. A cabeça dos dois generais se ergueram para encará-lo.
— Talvez, nós... hã... devêssemos discutir os... hum... outros pontos abordados na carta que o... grego nos trouxe — ele comentou com a voz nervosa.
— Precisamos arrumar um código para ele — resmungou Jason, distraído. — Não podemos correr riscos de que alguém descubra quem é o nosso informante.
Reyna pareceu ponderar sobre a proposta. Seus olhos recaíram sobre as estátuas dos galgos e suas sobrancelhas franziram enquanto encaravam o cão dourado. Aquilo me deixou nervoso. Algum instinto de autopreservação me dizia que ela não podia descobrir que eu estava ali, ou então isso seria perigoso para mim, mesmo que aquilo fosse só um sonho.
— Cronos — ela respondeu por fim, finalmente desviando os olhos das estátuas.
— Cronos? – Jason pareceu confuso. – Por que dar o nome do rei dos titãs para esse garoto?
A general deu de ombros, passando os olhos de forma atenta pela sala. Quando ela me encarou, me encolhi no lugar. Em minha mente eu sabia que ela não podia me ver, mas sua expressão era tão intensa que me deu calafrios.
— Me pareceu um nome apropriado para quem pretende trair o próprio pai.
O pretor pareceu aceitar a explicação.
— Muito bem. Que outras informações Cronos nos trouxe naquela carta?
— Os gregos estão planejando reorganizar suas frentes de batalha —começou general Zhang, aparentemente satisfeito por sua intervenção ter funcionado. — Eles contam com a presença do filho de Netuno para conseguirem a supremacia marítima, mas estão desfalcados em números. Daí a necessidade de uma reorganização.
— Precisaremos de mais detalhes para conseguirmos decidir qualquer coisa — Reyna argumentou. – Vamos torcer para que Cronos nos traga as informações que precisamos. Por enquanto, vamos para o relatório de status das nossas tropas.
Zhang começou a discorrer sobre as diversas posições de suas Coortes, fossem elas o que fossem. Eu não prestei muita atenção. Eram números de mais, nomes de mais. Mas por algum motivo, eu queria olhar o mapa. Mesmo que aquilo tudo fosse apenas fruto da minha imaginação, eu me sentia impelido. Era como se eu soubesse que ele me traria algum tipo de resposta. Por isso eu ousei me aproximar. Um passo atrás do outro, pé ante pé. Tentando fazer o mínimo de barulho possível. Na verdade, eu não conseguia ouvir os meus próprios passos, mas não percebi isso na hora. Assim como não percebi os olhos de rubi das estátuas me seguindo pela sala.
Quando eu estava a menos de cinco metros da mesa, as duas estatuas de cães ficaram de pé e rosnaram, exibindo dentes metálicos que pareciam mais afiados do que navalhas. Reyna ergueu uma mão, interrompendo o general e olhou para as feras/estátuas com o cenho franzido. Os dois garotos fizeram o mesmo, apesar de suas expressões exibirem muito mais nervosismo do que confusão.
— Algo está errado – a garota murmurou para si.
Tentei recuar um passo, mas os cães rosnaram novamente. Reyna estreitou os olhos.
— Tem mais alguém nessa sala.
Foi como falar uma palavra mágica. Meu coração se apertou até ficar do tamanho de uma moeda de dez centavos, Jason ficou de pé e Zhang se virou para onde os cães estavam olhando, os dois sacando espadas de ouro das bainhas presas aos seus cintos. Reyna foi a única que permaneceu sentada, com uma calma que me gelou a espinha. Sua expressão era ainda mais dura do que a dos bustos de estátuas de mármore.
— Aurum! Argentum! — ela latiu e os cães ergueram as orelhas, desviando brevemente o olhar para encará-la — Pega.
Os animais dispararam na minha direção. Comecei a gritar pedindo ajuda, mas nenhum som saiu da minha garganta. Comecei a correr, mas tropecei nos meus próprios pés e caí no chão. A última coisa que eu me lembro de ver antes dos cães avançarem sobre mim com os dentes a mostra prontos para arrancar a minha cara do meu crânio foram os olhos da loba de mosaico no teto que pareciam ao mesmo tempo decepcionados e divertidos.
Depois disso, o cenário se dissolveu e o mundo ficou escuro. Mas meus sonhos não acabaram por aí. Uma sequência de imagens passou voando diante dos meus olhos, como flashes de relâmpago. Vi uma garota afro americana vestida com o uniforme dos confederados com os olhos fechados enquanto o ar parecia se dobrar as suas ordens e, dele, saiam fileiras e mais fileiras de soldados armados. Vi essa mesma garota erguer um muro ao redor do acampamento no monte Mitchell apenas com um movimento de sua mão. Vi tendas queimando e soldados caindo, um a um. Assisti enquanto aqueles que tentavam fugir eram surpreendidos pelas forças de um cerco escondido dentro da floresta e eram rapidamente subjugados. As imagens ficaram tão rápidas que eu não conseguia mais distinguir o que estava acontecendo. Ouvia apenas gritos de dor e raiva e o crepitar das chamas enquanto o cheiro de fumaça e sangue dominavam as minhas narinas, me sufocando.
Estava tão distraído com essa memória que não percebi que Annabeth havia parado de andar e dei um encontrão nela. Isso, óbvio, não a deixou mais feliz comigo.
— Eu te disse para olhar por onde estava andando! — ela sibilou, os olhos brilhando de fúria.
Ergui as mãos em sinal de rendição, ainda confuso por causa da memória. O medo que eu sentira na hora que os cães metálicos me atacaram tornara a fazer meu coração martelar contra as minhas costelas, tentando achar um jeito se sair da minha caixa torácica.
Com um grunhido, a general tornou a se virar de costas para mim. Estávamos parados em uma pequena clareira íngreme e rochosa. A umidade do ar matinal erguia uma névoa do chão, embaçando os contornos de tudo ao nosso redor. Ainda conseguia ouvir os sons da batalha, mas ele parecia distante e estava abafado pelo canto de alguns pássaros.
— Ninfas, por favor — pediu Annabeth falando com o nada. – Precisamos de ajuda.
Por um momento achei que ela tinha ficado louca de vez. Ver monstros era uma coisa, falar com o ar era outra completamente diferente. Mas então uma figura saiu de dentro de uma árvore próxima. Literalmente. A garota tinha a pele verde e cabelos castanhos escuros decorados com uma coroa de agulhas de pinheiros e pinhas pequenas. Usava um vestido curto e leve que era muito inadequado para a temperatura local. Estava descalça, e seus pés pareciam se fundir com a terra, como se quisessem criar raízes ali mesmo.
— Em que posso ajuda-los, semideuses? — perguntou a garota, que tinha uma voz doce e gentil.
— Você é uma dríade, certo? — Annabeth parecia muito confortável com o fato de que aquela mulher tinha surgido de dentro de uma árvore. Eu estava me contendo para não esfregar meus olhos e me dar um beliscão para ter certeza de que não estava dormindo.
A garota verde assentiu.
— Me chamo Pina. Sou a ninfa que habita este pinheiro. — Ela indicou uma das árvores, que parecia exatamente igual a todas as outras ao nosso redor. Eu me perguntei como ela conseguia distinguir qual era a própria casa e se ela alguma vez tinha entrado na árvore errada — Ouvi sua prece, filha de Atena. Em que posso ser de seu auxílio?
— Precisamos deixar o monte Mitchell. Sabemos que há um cerco romano entre nossa posição e a base da montanha. Você poderia nos indicar um caminho seguro?
— Não há caminho seguro — a ninfa respondeu de cara — Mas um de seus companheiros tem um plano ousado. Espere pelo sinal do berrante inimigo para furar suas defesas.
Eu não entendi nada do que ela disse, mas Annabeth pareceu captar a mensagem. Quase podia ver as engrenagens girando dentro de sua cabeça enquanto processava as informações que acabara de receber. Eu soube exatamente quando as palavras fizeram algum sentido para ela: seus olhos se arregalaram em uma expressão de espanto e ela avançou um passo, ansiosa.
— Um dos campistas vai atrair os reforços romanos para longe? — Ela soava incrédula com um quê de desespero na voz e, ao que Pina assentiu, isso só se tornou mais evidente. – Sozinho?
— É um sacrifício que ele está disposto a fazer — a ninfa respondeu. — É a única forma que todos podem escapar em segurança.
O rosto da general era uma máscara de nervosismo e pânico.
— Não, não, não... – ela começou a murmurar para si mesma. – Não, eu não posso deixar isso acontecer. Não posso... Eles são meus amigos, eu não posso... – Seus olhos se ergueram para a dríade. – Por favor, eu preciso que você o ajude!
Mas Pina negou com a cabeça, seu rosto com uma expressão neutra e passiva.
— Essa guerra não é nossa, filha de Atena – ela falou com calma, como quem explica algo para uma criança. – Apenas ajudamos quando pedem por auxílio. Mas não vamos interferir nos combates. Gregos ou romanos... Continuamos existindo na mesma forma. O conflito de vocês não nos afeta.
Annabeth parecia querer argumentar, mas a ninfa não deu espaço para as suas palavras.
— Boa sorte, semideuses. – E desapareceu em uma nuvem de vapor com cheiro de pinho.
— Isso não é bom – ela murmurou, mordendo o lábio inferior e juntando as sobrancelhas. Sua expressão me dava a impressão que ela estava à beira das lágrimas. Tive que resistir ao impulso de puxá-la para um abraço.
— Talvez ele escape – disse, tentando ser otimista. Como eu não sabia muito sobre quem eram os romanos, foi uma coisa fácil.
A expressão que Annabeth me lançou era uma mistura de: Eu quero te dar um soco com Por favor, não me faça ter esperanças.
— Você não entende – ela resmungou, olhando ao redor como se procurasse pelo garoto que planejava se sacrificar. Talvez ele também saltasse de dentro de árvores ou algo do tipo. – Eu sou uma general. Já estou abandonando as minhas tropas para te escoltar. Eu não posso permitir que...
Ao longe, um som profundo, parecido com aquele que o berrante de chifre de boi/Minotauro produzia, ecoou pela floresta. Annabeth olhou na direção que ele vinha e dessa vez eu tive certeza que ela estava prestes a chorar. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela apertou os lábios em uma linha fina, murmurou alguma praga em uma língua que eu não conhecia, mas que entendi de primeira, e se empertigou, como se em sua mente estivesse honrando o sacrifício do desconhecido.
— Vamos – ela murmurou me dando as costas e voltando a avançar pela floresta. – Precisamos dar o fora daqui.
Não questionei. Não via a hora de deixar aquela floresta. Com um último olhar por sobre o ombro, segui a garota em direção a base da montanha.
— Obrigado – murmurei para ninguém em especial.
Quem quer que tenha feito aquele plano merece os parabéns.
Quando alcançamos a linha de defesa do cerco descobrimos que ela se resumia a quatro garotos em uniformes confederados jogando cartas ao redor de uma fogueira. Annabeth nem se preocupou em entrar em combate direto com os caras. Afastou-se alguns metros do posto e o contornou com tranquilidade, sem nem se preocupar em colocar o chapéu da invisibilidade na cabeça. O quarteto estava tão distraído com seu jogo que nem perceberam a nossa presença. Nem mesmo quando eu fui trouxa o bastante para pisar em um dos poucos galhos secos da região, provocando um estalo que deve ter sido ouvido em um raio de três quilômetros. Annabeth me olhou de cara feia, mas o máximo de reação que eu consegui arrancar dos soldados estacionados foi um abanar de mão de um deles, como se o ruído fosse um mosquito irritante ou algo do gênero.
Logo estávamos no sopé da montanha, em um vale estreito, caminhando rumo ao norte. A general voltara para o seu mundinho de silêncio. Não falava comigo, não me olhava... Eu começava a suspeitar que ela estava com raiva de mim, fosse porque ela me achava um idiota, fosse por eu não ter ido imediatamente contar para ela sobre o meu sonho profético. Ora me desculpe se do mundo de onde eu venho os sonhos são apenas sonhos e não mensagens dos deuses ou previsões do futuro!
Continuamos andando. O sol já estava quase em seu zênite, mas a floresta parecia longe de acabar. Meus pés e minhas pernas já não me aguentavam mais e, em um acesso de birra velada, eu me sentei no chão contra o tronco caído de uma árvore morta.
— Chega – falei, ofegante. – Preciso descansar. Estamos andando faz mais de cinco horas!
Annabeth se virou para mim com uma expressão feroz no rosto. Percebi, por seus olhos vermelhos e bochechas úmidas, que ela estivera chorando em silêncio esse tempo todo.
— Olha... – comecei, já me levantando.
Ela ergueu uma das mãos para me interromper e observou os arredores com os olhos estreitados.
— Não, tudo bem. Você está certo. Precisamos parar um pouco e os romanos não parecem estar nos perseguindo.
Disfarcei um suspiro de alívio, agradecendo a minha ousadia infantil por ter conseguido uma pausa para as minhas pernas.
— Você tem água? – perguntei, percebendo o quanto a minha boca estava seca.
Annabeth negou com a cabeça.
— Não tive tempo de pegar nenhum suprimento antes de sairmos do acampamento. Vamos precisar resolver isso.
— Caçando? – Eu não gostava de caçar e não era algo em que eu costumava ser bom. Mas na hora da fome, acho que eu poderia abrir uma exceção.
Mas a general negou com a cabeça.
— Temos um esconderijo alguns quilômetros para o norte – ela respondeu se sentando ao meu lado. – Uma parada para os mensageiros. Temos várias dessas espalhadas pelo país. Vamos seguir para lá antes de ir para o acampamento.
Franzi o cenho.
— Achei que a gente ia resgatar a minha mãe primeiro.
Annabeth bufou, puxou as pernas para perto do corpo e apoiou os braços nos joelhos.
— Percy... Eu tenho que te levar ao Acampamento Meio Sangue. Lá é o único lugar seguro para você. Para todos nós na verdade. De lá, poderemos organizar uma missão para resgatá-la.
Passei as mãos pelos cabelos, desesperado e fiquei de pé. Eu era uma pessoa agitada. Não conseguia ficar muito tempo no mesmo lugar, especialmente sentado. E isso só piorava quando eu ficava nervoso. Eu não gostava de me sentir impotente, especialmente quando o assunto era amigos e família. Eu não conseguia, conscientemente deixar pessoas com quem eu me importava em perigo e seguir com a vida. E se alguém me dissesse que eu não podia ajuda-los, era aí que a coisa ficava séria. Era aí que eu ia querer fazer alguma coisa.
— Isso não faz sentido... – eu murmurei. – Ela está aqui no sul. Qual é a lógica de ir todo o caminho até o norte apenas para voltar para Charleston? Esperar eles chegarem ao Forte Sumter?
A garota fez uma cara engraçada, me olhando com cautela e franzindo a testa.
— Forte Sumter? De onde você tirou isso?
De repente me lembrei que eu não tinha mencionado aquela parte do meu sonho. Ficara tão abalado com o ataque dos cães e as imagens que se seguiram que quase me esquecera do restante do que eu vira e ouvira.
— Do meu sonho – admiti, observando-a com a visão periférica.
Estava com medo que ela pulasse em meu pescoço por ter deixado isso de lado. Em vez disso, ela apenas suspirou e abraçou os joelhos.
— Acho que está na hora de você me contar tudo o que você viu.
Então eu contei. Expliquei cada detalhe do que eu tinha visto naquela reunião de oficiais. Annabteh não pareceu muito chocada com as pessoas que eu descrevi, mas sua expressão logo se metamorfoseou para de tristeza quando eu mencionei o agente duplo. E pareceu ainda pior quando contei sobre os planos romanos e os filhos de Mercúrio capturados.
Ao final do meu relato, ela tornou a suspirar.
— As pessoas que você viu na sala eram Jason Grace, Reyna Arelleno e Frank Zhang. Os dois primeiros são pretores do Acampamento Júpiter. Frank é filho de Marte e ascendeu ao posto de general por mérito próprio.
— Quem é o terceiro general de vocês? — perguntei.
— Nós não temos. – Ela deu de ombros com o olhar distante. – Os líderes dos chalés de Ares e Atena é que lideram a guerra, geralmente ao lado de filhos de Zeus, Poseidon e Hades.
Deixei essa informação de lado. Eu não tinha nenhum plano de me juntar aquela guerra maluca deles. Nenhum posto de general ia mudar isso.
— Você está preocupada com o agente duplo – comentei, observando seus ombros ficarem tensos.
Annabeth mordeu o interior das bochechas e fixou os olhos no horizonte.
— Eu só... não consigo acreditar que alguém trairia o acampamento. Quero dizer... Foram os romanos que começaram tudo isso afinal! Foram eles que...
Suas palavras foram interrompidas pelo grito próximo de uma águia. Nós dois ficamos de pé em um salto e olhamos para o céu por entre os galhos das árvores.
— Se esconda – mandou Annabeth.
— O quê?
— Rápido!
Ela enfiou o chapéu da invisibilidade na própria cabeça e desapareceu diante dos meus olhos, me deixando sozinho no meio da floresta. Teria ficado parado ali, sem saber o que fazer, tentando me acostumar com a ideia de que aquela garota acabara de ficar invisível, mas um segundo grito de águia me despertou do transe e eu me joguei no chão logo abaixo do troco caído, usando algumas samambaias, musgo e folhas secas como cobertura.
Uma sombra enorme passou sobre a copa das árvores, escurecendo o chão ao meu redor. Ouvi o bater de asas e o farfalhar de penas, mas, para o meu alívio, a ave não pousou. Mesmo assim, esperei Annabeth me cutucar antes de sair de onde estava escondido. Ela me puxou para as sombras, os olhos sempre atentos ao céu.
— Temos que continuar andando – ela murmurou. – Se ficarmos aqui, os romanos vão nos encontrar.
Minhas pernas protestaram, mas o grito distante da águia foi suficiente para me convencer de que ela estava certa. Os romanos voltariam. Uma hora teriam que descer a montanha e nada os impediria de enviar uma patrulha para vasculhar a floresta. Claro que a floresta era enorme, mas nós dois havíamos deixado vários rastros em nossa fuga desenfreada do acampamento. Não ia ser difícil nos encontrar, e quanto maior a distância que colocássemos entre eles e nós, melhor.
— Tudo bem – murmurei desanimado. – Vamos dar o fora.
Caminhamos o dia inteiro, sem parar. Eu estava exausto, com sede, fome e sono. O combo perfeito para cair desmaiado na primeira sarjeta que eu encontrasse. Mas tinha dois problemas: o primeiro eram as águias gigantes e o exército confederado nos perseguindo; o segundo foi que eu não encontrei nenhuma sarjeta.
Já estava ficando escuro quando finalmente paramos. Estávamos perto de um barranco coberto de heras. Sua parte mais central era irregular e protuberante, como se alguém tivesse escavado um buraco ali e depois jogado a terra de volta de qualquer jeito. Ao nosso redor, apenas mais floresta e chão de terra batida.
— O que é esse lugar? – perguntei ao perceber que Annabeth se aproximava do paredão de terra.
— Um dos nossos esconderijos que eu te falei – ela respondeu, afastando as plantas e revelando uma parede de pedra exposta.
— Uma pedra é o esconderijo de vocês? – rebati cético, erguendo as sobrancelhas e cruzando os braços.
A general me lançou um dos seus típicos olhares irritados enquanto levava os dedos a uma das fissuras na rocha. Ouvi um estalo baixo e a terra começou a se mover. A princípio achei que estivesse havendo um deslizamento, mas depois percebi que, na verdade, era a pedra que estava se dobrando para dentro dela mesma, se deslocando em placas como se aquilo fosse algum tipo de quebra cabeça de casco de tartaruga gigante. Quando o ruído das engrenagens funcionando e motor a vapor finalmente parou, havia uma abertura de dois metros por um no lugar em que estivera a rocha, como uma enorme cicatriz negra no solo.
— Ok... – murmurei um pouco embasbacado. – Não é uma pedra.
Annabeth tirou uma faca de bronze do cinto e a segurou com a ponta virada para cima, como se fosse uma tocha. O metal emitia um brilho fraco que dava um tom dourado aos seus cabelos.
— Você vem? – ela perguntou com um sorriso travesso nos lábios.
Sem muita opção, a segui para o interior do esconderijo.
O lugar era agradável. Discos de bronze no teto baixo reagiram a nossa presença, iluminando um interior que poderia facilmente abrigar umas vinte pessoas de forma confortável. Havia esteiras empoeiradas distribuídas pelo chão e estantes e mais estantes repletas de jarros e potes tampados e várias caixas de madeira. Outras exibiam uma coleção de armas antiquadas de todos os tipos e tamanhos: arcos e aljavas lotadas de flechas com penas brancas, adagas e facas embainhadas em couro, lanças com mais de dois metros de altura, escudos redondos e espadas de diferentes formatos. Se não fosse pela trilha de pegadas no chão recoberto por uma fina camada de poeira, eu diria que o lugar não era usado fazia muito tempo.
— Então... Todos os seus esconderijos são assim? Cobertos de teias de aranha?
Pode ter sido minha impressão, mas Annabeth pareceu tremer levemente com a menção do aracnídeo. Ela fez a porta se fechar e deu de ombros.
— Alguns são mais usados do que outros – ela comentou casualmente e passou os olhos pelo ambiente. – Mas você tem razão. Tem algo errado aqui. Geralmente quando os mensageiros param em algum dos postos, eles dão uma arrumada nas coisas. Travis e Connor deveriam ter parado aqui...
Senti um calafrio descer pela minha espinha. Odiava ter razão quando o assunto era problema. Eu tinha mania de estar certo nesses casos.
Ela seguiu as pegadas até uma das esteiras mais distantes da entrada e se abaixou ao seu lado, pegando algo em sua superfície. Eu me aproximei para olhar.
— Um deck de cartas marcadas – comentei quando ela me passou o objeto. – Parece um dos que os mensageiros estavam usando.
— E essas camas foram usadas recentemente. – Ela indicou uma segunda esteira ao lado da que ela estava, onde havia uma menor quantidade de poeira – Pode ter sido Travis e Connor... Mas então por que eles deixariam o baralho para trás?
— Talvez eles tenham esquecido. – Dei de ombros.
— Pouco provável. – Ela ficou de pé e olhou ao redor – Eles parecem ter saído às pressas.
Senti gelo se depositar no fundo do meu estômago.
— Isso quer dizer que...?
— Os romanos podem ter localizado esse esconderijo. – Annabeth franziu a testa. – Mas se esse fosse o caso, qual seria o sentido deles nos deixarem entrar aqui? Se o lugar estivesse sendo vigiado, eles deviam ter nos detido antes.
— Então não estamos sendo vigiados?
Ela me encarou, mordendo o lábio inferior e com as sobrancelhas juntas de preocupação.
— Eu... Não tenho certeza. Talvez fosse melhor dormirmos lá fora. Vamos nos abastecer com o que pudermos e damos o fora daqui antes que as coisas deem errado.
Contive um grunhido de irritação. Eu bem que ia gostar de dormir ali, naquela caverna escavada. O lugar tinha uma temperatura agradável e uma tranca que poderia nos manter seguros. Mas é claro que o destino ia conspirar contra mim para que eu tivesse que passar a noite ao relento. Puxa! Valeu, destino! Era exatamente isso que eu queria!
— Podemos ao menos descansar aqui um pouco? – perguntei, olhando com cobiça para uma das esteiras e seu cobertor.
Mas Annabeth negou com a cabeça.
— Não quero arriscar. – E seguiu para as estantes – Me ajude aqui, por favor?
Xingando a minha má sorte, fui ajuda-la. Encontramos dois sacos de viagem em uma das prateleiras e começamos a enchê-las com suprimentos: cobertores, carne seca, castanhas, mapas, bússolas, cantis com um conteúdo suspeito que Annabeth chamou de néctar e pequenos quadradinhos de um bolo que ela disse ser ambrosia. Também colocamos dois odres vazios para enchermos com água mais tarde, alguns fósforos e um pequeno kit de primeiros socorros composto de agulha, álcool, linha, gaze e um unguento de ervas que muito provavelmente já estava estragado.
Quando a general se deu por satisfeita com o conteúdo das malas, me arrastou com ela para as estantes que pareciam terem saído direto de um arsenal medieval.
— Você precisa de uma arma – ela falou diante da minha cara de confusão. – É importante que um semideus tenha algo com o que se defender.
— Por que eu não posso usar uma pistola ou um mosquete? – perguntei.
— Você até poderia, se as balas fossem feitas disso. – Annabeth indicou a lâmina da própria faca.
— Bronze?
— Bronze celestial – ela me corrigiu. – É um metal especial. O que os mortais chamariam de mágico. Ele é muito raro, mas é a única coisa que pode ferir monstros. Ou deuses.
— Então esse negócio não pode me ferir? – testei o balanceamento da espada mais próxima. Estava uma droga.
— Quem dera. – A general me entregou outra espada, que pareceu ainda mais desajeitada nas minhas mãos. – Se você fosse apenas um mortal, não teria que se preocupar com isso. Qualquer lâmina de bronze celestial passaria diretamente por você. Mas como você é meio mortal, meio deus... Todas as armas dos dois mundos, humano e olimpiano, podem te ferir.
Peguei outra espada, mas logo descartei ela também.
— Ah, que divertido. O que mais faz parte do pacote semideus?
Annabeth deu uma risada contida, como quem ri da própria desgraça e voltou a me observar testar arma por arma.
— Talvez você devesse tentar outra coisa. Uma faca, talvez. Ou uma lança.
— Eh... Eu não acho que faço o tipo dessas armas – murmurei passando reto por uma sequência de armas que pareciam exatamente iguais as que eu tinha acabado de testar.
— Arco e flecha, então?
Foi a minha vez de rir.
— A minha pontaria é uma droga.
— Certo. Continue procurando. Eu vou ver se encontro algo melhor para você.
Ela desapareceu atrás de uma das estantes e eu continuei vasculhando os artefatos atrás de algo que me servisse. Nenhuma das lâminas, porém, – nem mesmo as adagas, eu testei – pareceu realmente balanceada em minhas mãos. Elas me davam a sensação de ser um completo desajeitado que não servia nem para erguer uma faca de cozinha.
Depois de um certo tempo, eu comecei a desistir de procurar. Annabeth ainda não voltara e eu fiquei apenas observando as armas, como se elas estivessem em alguma vitrine de museu. Foi passando os olhos de forma desinteressada pelas prateleiras que eu notei a luneta. Não era nada de mais. Um objeto de madeira escura com detalhes dourados. Fechada, cabia na palma da minha mão e esticada em seu comprimento máximo não devia ter mais de trinta centímetros. Eu não entendi porque aquele objeto sem graça chamara a minha atenção. Por acaso eu planejava lutar contra os monstros com uma luneta?
Mas então eu reparei na inscrição no aro metálico ao redor da lente menor. Era um alfabeto que eu não conhecia – o mesmo que fora usado na gravação no chifre do Minotauro –, mas que mesmo assim eu conseguia ler.
— A-na-klus-mos – murmurei enquanto limpava o metal coberto de poeira com o polegar – Contracorrente?
Olhei através dela. A lente ocular estava imunda, tornando tudo um enorme borrão. Tornei a fechá-la para o tamanho mínimo e comecei a limpá-la na camisa. Devo ter girado alguma das sessões dela, ou apertado alguma coisa que não devia, porque, antes mesmo que eu pudesse processar o que eu tinha feito, a luneta se alongou e se transformou, ficando mais pesada na minha mão até se transformar em uma espada de bronze com lâmina em formato de folha e punho enrolado em couro. O mais estranho de tudo? Ela parecia ter sido feita sob medida para mim. O balanceamento era perfeito e eu senti como se fosse apenas um prolongamento do meu braço.
— Percy, eu sinto muito, mas não encontrei nada – Annabeth falou, reaparecendo de detrás das estantes. – Acho que é melhor você...
Virei-me para encará-la. Seus olhos estavam arregalados e sua boca se abrira um pouco. Tinha uma expressão de espanto e surpresa estampada no rosto enquanto observava arma nas minhas mãos.
— O que foi? – perguntei, me perguntando se eu devia tentar devolvê-la para a prateleira e torcer para ela se transformar de novo em uma luneta.
— Onde você acho isso?! Essa espada deveria estar com Quíron!
Engoli em seco. A última coisa que eu queria era ser acusado de roubo por um centauro de mais de mil anos de idade.
— Eu posso... hã... devolver pra ele.
— Não! – ela falou um pouco alto de mais e, com uma careta, aprumou sua postura e adquiriu um tom mais profissional. – Ela é perfeita para você. Fique com ela por enquanto. Quando chegarmos ao acampamento, vemos o que vamos fazer.
— Certo – resmunguei, encarando a arma enquanto esperava ela revelar os seus segredos para mim. – Como eu faço para... você sabe... – Annabeth ergueu as sobrancelhas, confusa. – Tipo... Como eu faço para fazer ela voltar a ser uma luneta?
— Uma luneta?
— É, tipo... Eu encontrei ela na prateleira como uma luneta e eu... hã... fiz alguma coisa que eu não sei e ela virou uma espada e eu... bom...
Cocei a cabeça e a general esticou a mão, me pedindo a espada. Entreguei para ela me sentindo meio idiota e observei com atenção enquanto ela analisava cada centímetro da arma, até que...
— A-há! Aqui está. – Annabeth me indicou um pequeno disco na base da empunhadura, quase na junção com o punho – Se você girar isso aqui para a direita, talvez... – a espada começou a encolher até voltar a ser a luneta de antes – Prontinho.
— E como que...
Annabeth girou o aro metálico com a inscrição e a luneta voltou a ser espada.
— Acho que isso resolve – ela falou, me passando a arma novamente na sua forma de luneta. – Agora podemos ir.
Quis argumentar, mas contive o impulso. Annabeth estava certa. Para o caso dos romanos saberem sobre o esconderijo, seria melhor passar a noite ao relento, onde teríamos mais chances de escapar uma tentativa de emboscada. Se ficássemos ali, seríamos como ratos em uma gaiola.
Saímos para a noite fresca. Os grilos cricrilavam na noite em uma sinfonia descoordenada. Caminhamos em silêncio pela floresta, atentos a qualquer ruído que denunciasse que estávamos sendo seguidos enquanto íamos coletando madeira para fazer uma fogueira. Só fomos parar quando já estávamos a uns bons três quilômetros de distância do esconderijo.
— Não seria melhor ficarmos mais perto? – perguntei, ajudando Annabeth a montar acampamento. – Pra verificar se a sua teoria estava certa?
— Não quero arriscar – ela respondeu, esticando seu cobertor no chão. – Não com você por aqui.
Depois disso, ela deu o assunto por encerrado e não me deixou espaço para fazer novas perguntas, mandando eu acender a fogueira e comer alguma coisa. Foi assim pelos próximos dois dias. Rumávamos para o norte, nos falando menos do que eu imaginava ser possível. Nossas comunicações se resumiam a indicações de caminho, determinação das vigílias e eventuais resmungos de insatisfação.
Conforme nos afastávamos do Monte Mitchell, Annabeth ia ficando mais relaxada. Como era sempre ela que ia na frente, eu notei seus ombros deixarem de ficar tão curvados e sua passada reduzir o ritmo, ao que eu agradeci internamente, porque minhas pernas estavam me matando.
Foi só no terceiro dia seguido de marcha, quando montávamos acampamento depois de uma breve visita à cidadezinha de Big Lick na Virgínia (sim, já tínhamos caminhado tudo isso), enquanto eu ouvia Annabeth resmungar sua ladainha de como aquilo não tinha sido uma boa ideia e que deveríamos andar mais um pouco para nos afastar dali para não me colocar em perigo, que eu finalmente consegui uma brecha para fazer a pergunta que tanto me incomodava:
— Qual o problema comigo, afinal?
Ela suspirou, esticando o cobertor no chão.
— Você é importante. – Ela se limitou a responder.
Revirei os olhos.
— Tá, mas por quê? – Comecei a trabalhar no fogo. – O que um estivador nascido em Nova York pode ter de tão especial?
— Você é filho de Poseidon. – Ela me jogou os fósforos.
— Tá, certo – murmurei, acendendo um deles e incendiando um pouco de folhas secas que eu logo enfiei de baixo da madeira e comecei a soprar para atiçar as chamas – E daí?
— E daí que estamos em uma guerra civil, Percy. E o lado que você escolher pode mudar em muito as coisas.
— Da última vez que eu chequei, os Confederados não estavam procurando semideuses para o seu exército – rebati. – Vocês é que se aproveitaram do conflito para fazer a sua própria guerra, isso sim.
Annabeth baixou os olhos. A luz do fogo parecia acentuar a tristeza e vergonha em sua expressão.
— Essa guerra é nossa culpa, Percy – ela murmurou. – Fomos nós, semideuses, que demos início a esse conflito.
— Nem pensar. Foram os confederados invadindo o Forte Sumter quando eles se recusaram a abaixar a bandeira da União.
Mas a general negou com a cabeça.
— Não foi isso o que aconteceu – ela respondeu amarga, ainda encarando o chão. – O forte era um dos nossos postos avançados para monitoramento do movimento dos romanos pelo mar. Foi o nosso acordo com o fim da Guerra de Independência.
— Pera. Vocês causaram a Guerra da Independência?!
Annabeth fez uma careta.
— Eu não estava viva na época, mas sim. Foram os semideuses gregos que começaram o conflito com os romanos naquela época. Dessa vez foi o contrário.
Ela ficou em silêncio e, por alguns instantes, a única coisa que se podia ouvir naquela clareira era o crepitar do fogo.
— O que aconteceu? – insisti em tom baixo.
Annabeth suspirou.
— Os romanos acusaram os gregos de utilizarem o Forte Sumter como uma base de espionagem. O acampamento deles fica nos arredores de Charleston e a nossa posição ali vinha sendo alvo de críticas já fazia algum tempo. E então eles atacaram. Ocuparam o forte e fizeram prisioneiros todos aqueles que não morreram na investida. – Ela fez uma pausa em que ficou encarando as chamas, como se elas pudessem acabar com aquela guerra. – Eu tinha uma amiga lá. Thalia. Ela era filha de Zeus. Depois do ataque, Luke me disse que ela morreu.
Silêncio novamente. Havia um chiado baixo e constante na noite. Provavelmente vinha de alguma madeira molhada que tínhamos colocado no fogo, então não me preocupei muito. Estava distraído com a conversa. Todo aquele papo parecia um pouco absurdo de mais para mim, mas até aí eu estava carregando um chifre de Minotauro e uma espada que se transformava em luneta, então não podia falar muita coisa sobre bizarrices. Observei Annabeth, sentada a minha frente, abraçada aos joelhos e com o olhar perdido nas sombras dançando em seu rosto, deixando-a com uma expressão sombria. Pelo seu tom de voz frio e controlado, deduzi que aquelas lembranças eram muito dolorosas para ela.
— Enfim – ela prosseguiu de repente. – Com um filho de Júpiter na posição de pretor, Zeus acabou tendendo para sua forma romana, e arrastou consigo boa parte do Olimpo. Hades acompanhou o irmão por conta de Hazel, que é sua filha. Nós estávamos desesperados atrás de algo que pudesse reverter esse quadro, então quando Quíron nos contou sobre a sua existência...
— Vocês todos correram atrás de mim como um bando de loucos tentando garantir a vantagem. Sim eu lembro dessa parte. Mas por quê? Por que vocês precisam de mim? Por que não procuram outros filhos de Zeus?
— A maioria dos semideuses fica na Europa e eles estão resolvendo seus próprios problemas. Não tem tempo para vir nos ajudar. – A garota me encarou através das chamas, o fogo dançando em suas íris cinzas. – Além disso, os irmãos de Zeus, Hades e Poseidon, são os únicos que conseguem se opor ao rei dos deuses em poder. O que significa que ter um semideus filho de um desses dois do nosso lado...
— Pode equilibrar as coisas – completei.
Ela assentiu.
— Mas então por que os romanos me querem preso? – perguntei. – Que diferença isso traria para eles? Eu já não sou grego?
— Sim , você é. – Annabeth se arrumou sobre o cobertor. – Mas manter você preso seria o mesmo que dizer a Poseidon que você pertence a eles. O mar então, ficaria sobre o controle de Netuno, a versão romana de seu pai. Tão poderosa quanto a grega, porém menos respeitada e muito mais temida.
— E por que isso seria bom para os romanos?
Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e mordeu o lábio inferior de forma pensativa.
— Provavelmente porque Netuno é um deus que só vai trazer problemas para os romanos se for desrespeitado. Se a Décima Segunda Legião não mexer com seu pai, ele provavelmente não vai interferir no conflito.
— Mas ele não devia, sei lá, interceder por mim, ou algo do tipo? – Meu estômago roncou e eu abri minha bolsa atrás de um pouco de carne seca.
Annabeth negou com a cabeça.
— Os deuses não podem interferir no conflito de seus filhos. Fazer isso poderia provocar problemas de favoritismo.
— Mas se eu sou o único semideus filho de Poseidon nos Estados Unidos, isso já não me faz o favorito?
A garota me olhou com uma cara engraçada, como se tentasse entender de onde vinha aquele tipo de pergunta.
— Isso você vai ter que perguntar diretamente para o seu pai, Cabeça de Algas.
— Muito bem, Sabidinha – rebati. – Onde posso encontrá-lo?
— Bom, ele tem um palácio no meio do oceano. – Ela coçou o queixo. – Mas a localização dele é sigilosa. Você também pode visitá-lo no Monte Olimpo nos solstícios, mas para isso terá que viajar até a Inglaterra.
— Achei que o Olimpo ficava na Grécia – comentei.
— A montanha fica. Mas o centro de poder dos deuses migra conforme o centro da civilização ocidental migra de um povo para o outro.
— Faz sentido – respondi depois de pensar um pouco. – Eu acho. Não sei... É normal o cérebro começar a virar papinha depois desse tipo de explicação?
Ela riu.
— Se você não foi criado dentro desse universo como eu, super normal.
— Ótimo, porque eu realmente...
Me interrompi. Um calafrio desceu a minha espinha de repente, deixando todos os meus sentidos alertas. Algo chamara a minha atenção, mas o quê? Tentei ouvir alguma coisa por sobre o ruído baixo do fogo, mas o chiado da madeira úmida era a única coisa que eu conseguia distinguir. O som estava mais alto e parecia mais agudo e sibilado, como se fosse...
— Cobras. – O rosto de Annabeth estava pálido mesmo sob a luz da fogueira – Isso não é bom.
— O que é agora? – perguntei, instintivamente levando a mão para onde eu guardara a luneta.
— Precisamos sair daqui — ela falou com urgência e começou a recolher as suas coisas.
Nem tive tempo de imitá-la antes de uma voz com um sotaque exótico se pronunciasse da floresta atrás de mim.
— A não, meus queridos. Vocês não vão ao lugar nenhum.
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