Capítulo IX

Enquanto Rin tentava se convencer de que ouvia realmente Sesshoumaru pedi-la em casamento, ele assaltou sua boca com voracidade. Qualquer tentativa de raciocínio abandonou-a de vez. Correspondeu ao beijo com toda a emoção que sentia e abraçou-o entre ondas de prazer.

- Você está me matando — Sesshoumaru protestou baixinho.

- Você pediu que eu me torne sua esposa. Eu estou dizendo que sim...

Rin tomou a iniciativa de beijá-lo. Emocionado, Sesshoumaru a levantou nos braços e aprofundou o beijo.

De repente, uma voz grave os alcançou.

- Sinto que é meu dever avisá-los de que apesar de não termos instalado câmeras no banheiro, colocamos um microfone.

Palavras em árabe foram proferidas.

- Acho melhor não pedir que o tradutor entre nesta linha.

- Kouga caçoou. — Meus parabéns aos dois. Poderiam, agora, fazer o favor de saírem do banheiro? Alguns de nós estamos com a respiração suspensa.

Sesshoumaru puxou Rin imediatamente para fora. Estava furioso. Ela, no entanto, sentia uma vontade imensa de rir.

- Ele foi correto em nos avisar antes que o constrangimento pudesse ser maior.

Sesshoumaru tornou a praguejar e ela a não entender.

- Você me ensinará árabe quando nos casarmos?

- Só se o Kouga estiver bem longe.

- Eu ouvi isso — declarou o agente.

- Desligue o microfone, Kouga — Rin ordenou. — Estou tentando aceitar uma proposta de casamento.

Após um risinho e votos de felicidades, Rin e Sesshoumaru ouviram um clique.

- Você tem certeza? — Rin indagou, temerosa. — Os problemas serão tantos. Seu povo não gosta dos americanos, não é verdade?

- Meu povo gostará de você — Sesshoumaru afirmou.

- E se o rei não lhe der permissão para se casar comigo? — Rin insistiu preocupada. — ele tem esse poder não tem?

- Ele poderia dificultar as cosias, se quisesse, mas eu lhe garanto que isso não acontecerá. Ele ficará encantado com você.

Rin sabia que Sesshoumaru estava exagerando, mas o elogio a deliciou.

- Espero que sim. — ela fez uma pausa. — Nós teremos de morar em Saudi Mahara?
Ele assentiu com um movimento de cabeça.

- O tempo todo?

- A maior parte. Viajo muito no desempenho de minhas funções, mas a cidade de Mozambara, a capital, é onde está localizada minha residência. Espero que você aprenda a amá-la como eu amo.

- E quanto a Shippo?

- Ele virá conosco, é claro — Sesshoumaru respondeu, categórico, como se uma outra alternativa estivesse completamente fora de questão.

- Ele terá de se afastar de suas raízes. Eu também. Precisaremos aprender outros costumes. Outro idioma...

- Aspectos que serão facilmente contornáveis, se você me ama bastante.
Rin o fitou e viu um certo receio naqueles olhos. Ela também sentia um pouco de insegurança diante do futuro. Mas isso não importava.

- Eu te amo o bastante. Eu te amo mais do que a mim mesma.

Sesshoumaru atraiu-a de encontro ao peito. Seus braços queriam sentir o calor de Rin, queriam tê-la permanentemente. Ele nunca considerara a necessidade de ter alguém sempre ao seu lado antes. Mas estava ficando mais velho e Saudi Mahara precisava de um herdeiro.

- Gosta de crianças, Rin?

- Gosto.

Ele respirou fundo.

- Eu precisarei de um herdeiro. É meu dever dar uma ao país.

- Engraçado. — Rin sorriu. — Eu sempre julguei que fossem os reis que já nasciam com essa missão. Nunca ouvi falar em ministros. De qualquer modo, a exigência será bem vinda. Adoro bebês.

Sesshoumaru estava por demais tentado a revelar toda a verdade, mas temia que Rin entrasse em pânico. A verdade aumentaria suas preocupações com relação a um provável atentado.

O medo, talvez, a fizesse recuar em sua decisão. O melhor seria esperar até que os problemas fossem resolvidos.

- Venceremos os obstáculos juntos. Ele tornou a abraçá-la.

Rin pressionou o corpo contra o dele e aspirou profundamente o perfume exótico de sua colônia.

- Tenho vinte e dois anos — contou, distraída.

- Sim, eu sei.

Ela ficou imediatamente curiosa e riu.

- Como vim, a saber, não vem ao caso. Vá descasar. É tarde.

- Estou cansada, mas não acredito que conseguirei dormir.

- Ao menos deite-se.

Após um longo beijo de boa noite, cada um foi para seu quarto.

Kouga não poderia se mostrar mais arrependido quando chegou ao apartamento, na manhã seguinte. Rin precisou segurar Sesshoumaru pela mão. Provavelmente não aconteceria nada entre os homens, mas não custava garantir.

- Desculpem o mal-entendido. Perdoe-me Rin. Quanto ontem à noite, eu resolvi que seria melhor avisa-los enquanto ainda havia tempo. Não há outra saída. Todos os cômodos precisam ser vigiados.

- Quanto mais cedo acabar essa história, melhor será — Sesshoumaru afirmou, seco.

- Todos nós estamos torcendo para isso, vocês acreditem ou não. Nenhum agente dormiu esta noite.

- Vocês não se organizam para revezamento? — Rin estranhou.

- Os turnos são de doze horas. A mão-de-obra é escassa em nosso meio. Somos agentes federais, lembra-se.

- Falhas da democracia — Sesshoumaru zombou.

- Ao menos não corremos o rico de sermos decapitados em praça pública, caso não façamos um bom trabalho — Kouga contra-atacou.

Sesshoumaru se ofendeu.

- Não mando executar ninguém há uma década. Somos uma nação em desenvolvimento. Até permitimos passeatas de protesto, como os ocidentais.

- Lembro-me muito bem da última passeata — Kouga comentou.

- A repressão foi inevitável. Eles tentaram invadir o palácio.

- De que vocês estão falando? — Rin interveio.

- Da sua nova pátria — Kouga replicou e encarou Sesshoumaru.

- Assim que derrubar os obstáculos diplomáticos — Sesshoumaru prometeu -, e ter certeza de que ela não será assassinada junto comigo a caminho de Saudi Mahara.

- Entendo — Kouga concordou. — Agora, se me dão licença, vou tomar um café e tirar um cochilo.

- Alguma novidade? — Sesshoumaru perguntou.

- Várias. Vocês terão companhia esta noite. -Kouga se dirigiu a Rin. — Você acredita que poderá sobreviver a uma intensa vigilância policial não apenas do lado de fora do apartamento, mas também em seu interior?

- Claro. Desde que não precise atirar em ninguém.

- E seu irmão?

- Ele também.

- Não se preocupe sobre tiroteios. Nós não os exporemos a perigos.

- E quanto a você? — Rin quis saber.

Kouga deu de ombros.

- Estou acostumado. É para isso que sou pago.

- apesar de sua tendência à bisbilhotice, eu detestaria vê-lo machucado — Sesshoumaru acrescentou.

- Saberei me cuidar. Temos quase certeza de que os homens farão o atentado esta noite. Estaremos prontos para recebê-los. Com um pouco de sorte, os apanharemos e poremos um fim nessa prisão de vocês. Até o final da semana, acredito que poderão se colocar a caminho de casa.

- Assim espero – Sesshoumaru murmurou com um olhar que Rin não entendeu. Não continha apenas preocupação com o atentado. Havia algo mais.

O dia custou a passar. Sesshoumaru e Shippo se dedicaram a ler revistas científicas trazidas por Kouga, enquanto Rin saía, a contragosto, para trabalhar. Sua mente não conseguia se concentrar nas tarefas de rotina. Pensava no perigo a que todos eles estavam expostos e, especialmente, na proposta de casamento de Sesshoumaru. Queria se casar com ele. Amava-o. Mas não se sentia preparada para enfrentar as complicações de um casamento com um estrangeiro.

Em sua hora de almoço, foi até a biblioteca pública e pesquisou todos os livros que encontrou sobre Saudi Mahara. Era uma nação tão pequena que mal constava na geografia mundial. Havia um livro sobre os costumes árabes com um capítulo dedicado ao papel da mulher nessa sociedade. Copiou-o. Talvez ele lhe proporcionasse subsídios para sua nova vida. Para Sesshoumaru, também, seria melhor se a esposa tivesse conhecimento do comportamento que seria esperado de sua parte. Não que ela fosse usar véu e andar atrás dele, é claro.

Quando chegou em casa encontrou Sesshoumaru e Shippo discutindo sobre física nuclear e quatro membros da inteligência governamental vasculhando em sua geladeira.
A visão a fez parar, mas Sesshoumaru sorriu complacente.

- Eles não comem nada desde o almoço de ontem.

Os quatro se voltaram abruptamente. Um segurava um pacote de leite; outro um pote de iogurte. Os outros dois disputavam o último pedaço de queijo.

- Mais um pouco de paciência — Rin pediu. — Farei uma travessa caprichada de espaguete.

Ela era rápida na preparação. Em poucos minutos estava distribuindo os pratos e talheres com o macarrão fumegante banhado em um rico molho a bolonhesa.
Kouga chegou no momento em que ela começava a lavar a louça. Após as brincadeiras habituais, reuniu-se com os demais agentes e passou às instruções.

Queremos que vocês se comportem naturalmente. Façam o mesmo que tem feito todas as noites, desde que Shippo saiu do hospital. Varremos todo o apartamento em busca de câmeras e microfones inimigos, e encontramos tudo limpo. De qualquer forma, tentem não se mostrar com alguma novidade. Tenha calma. Um de nós estará com vocês permanentemente.

Era verdade. Não se tratava de um filme sobre terroristas.
Estariam expostos a elementos com aramas automáticas no lugar de compaixão. Gente que matava com rapidez e eficiência, sem misericórdia. Ela olhou para Sesshoumaru e Shippo e cogitou que poderia perder ambos em questão de segundos. Empalideceu.
Sesshoumaru colocou um braço ao redor de seu ombro e a fez apoiar contra ele.

- Não é hora de esmorecer — sussurrou — Você precisa ter coragem e a dignidade de uma ministra, mesmo sob ameaça. É o comportamento esperado.

Sesshoumaru dizia isso porque era um alto oficial de seu governo. Ela não o desapontaria.

- Não estou preocupada por mim.

- Eu sei. Também não estou preocupado por mim.

Ele levou a mão de Rin aos lábios.

- Vamos parar de namoros e tratar dos negócios? — Kouga brinca, embora houvesse um tom sério em sua voz.

No mesmo instante, Sesshoumaru a soltou e voltou para junto de Shippo e das revistas. O menino estava bem melhor, mas ainda se apresentava pálido e um pouco fraco. Sesshoumaru o estudou.

- Sinto-me orgulhoso em pensar que logo farei parte de sua família.

O menino sorriu.

- Eu também em fazer parte da sua. Nós vamos nos mudar para seu país?

- Com certeza.

- Eu adoraria aprender a cavalgar. Dizem que não há cavalos no mundo que se comparem aos árabes.

- É verdade — Sesshoumaru concordou. — Os meus, em especial, são magníficos. Nasceram na Áustria e...

O ataque foi tão inesperado que Rin cogitou se havia adormecido por alguns minutos e tido um pesadelo. A porta do apartamento se abriu com um estrondo e homens mascarados o invadiram, atirando à queima roupa.

Sesshoumaru puxou Shippo para o chão em um gesto espetacular enquanto Rin se escondia atrás do balcão da cozinha.
Foi uma cena surrealista. A explosão dos tiros fazia pensar em fogos de artifício.
Rin deitou-se no chão e se recusou a pensar em Sesshoumaru e Shippo. Enlouqueceria se algo de ruim houvesse acontecido com eles. Preferiu pensar que Kouga e os outros agentes os salvariam.
Os tiros cessaram. Vidros se estilhaçaram. Em seguida ela ouviu passos muito rápidos. Eram Sesshoumaru e Shippo.

- Você está bem? — Sesshoumaru ajudou-a a se levantar e abraçou-a. Seu rosto estava pálido sob a tez morena.

- Estou. E vocês?

- Estamos bem — Shippo respondeu, a voz trêmula. — Caramba!

Rin abraçou a ambos e sentiu uma vontade imensa de chorar. Aqueles homens estavam dispostos a matar Sesshoumaru.
Todas as balas haviam sido destinadas a ele.

Kouga surgiu, de repente, carregando sua arma automática.

- Não os deixe sair daí ainda — recomendou a Sesshoumaru.

- Eles escaparam? – Rin quis saber, temerosa.

- Não, estão todos aqui.

Rin baixou os olhos. Não eram necessárias maiores explicações.
Sesshoumaru aninhou-a entre os braços e a fez sentar de costas para a sala. Shippo tentou espiar, mas Sesshoumaru chamou-lhe a atenção com severidade.

- Eu só estava curioso — o menino se justificou.

- A curiosidade às vezes cobra um alto preço. Mas agora acabou. Kouga havia me contato que os mandatários serão presos a qualquer instante. O atentado falhou.

- Seu rei ficará aliviado — Shippo observou. — Você acha que ele está bem?

- Oh, sim — Sesshoumaru respondeu, distraído. — O rei nunca esteve melhor em sua vida.
Mais tarde, depois de apagados os sinais do ataque, Sesshoumaru, Rin e Shippo foram levados para outro apartamento.

Rin queria que Sesshoumaru lhe contasse os detalhes da operação, mas ele insistiu que seria melhor se ela não se envolvesse.

- Confie em mim, chérie.

- Eu confio.

Com um beijo, ele a deixou e a Shippo a fim de ter uma conversa particular com Kouga.
O agente tentava relaxar após a terrível experiência, movimentando os ombros e o pescoço.

- detesto ser eu a lhe dizer, Sesshoumaru, mas sua irmã foi levada sob custódia. Não a incriminaram de fazer parte do grupo de terroristas, mas sim ao marido. O fato de a prenderem deve-se a uma medida de precaução apenas. Quanto a você sua presença no país é imprescindível. Deverá se preparar para partir com a máxima urgência.

- Eu sei. Mas Rin ignorou minha posição. Não quero que ela saiba da verdade por enquanto. Preciso de algum tempo para solucionar os problemas. Não seria justo eu envolve-la e ao irmão. Já basta a experiência de hoje.

- Não é a primeira vez que você sofre um atentado — Kouga declarou. — Seu pai foi morto e esse é o seu segundo.

- Os mandantes foram sempre os mesmos. Agora estão presos. Quanto a Yasmim, tenho certeza de que não tentaria me matar.
- Contrate um bom advogado para ela.

- É o que farei. Nosso sistema judicial é muito mais rigoroso que o seu e não evitamos a pena de morte, quando julgamos necessária, Os culpados serão punidos severamente. Você pode apostar.

- Provavelmente serão todos executados.

- Provavelmente. Só espero que Rin não fique chocada demais. Temo que ela se recuse a se casar comigo quando descobrir sobre minha verdadeira identidade. É lamentável que eu não possa ter contado a verdade desde o início.

- A decisão foi nossa, e não sua. — Kouga comentou.

- E isso importa? — — Sesshoumaru se afastou. — Estarei pronta para partir assim que amanhecer. Obrigado por tudo o que você e seus rapazes fizeram. Por mais que lhe paguem, nunca será o suficiente pelos riscos que enfrentaram.

- Fomos bem pagos, não se preocupe.

- Vocês são corajosos — Sesshoumaru disse com sinceridade. — Se algum dia seu governo os dispensar, terão um emprego no meu.

- Obrigado. Talvez um dia eu possa precisar.
Shippo teve dificuldade em dormir depois de tanta agitação. Ainda não sabia o que estava acontecendo, e não descasaria enquanto alguém não lhe desse uma explicação.

- Como você foi obrigado a participar da terrível experiência conosco — Sesshoumaru falou, segurando entre suas mãos as mãos de Rin e de Shippo — é justo que saiba a razão. Eu sofri um atentado em meu país.

- Que não é o México.

- Que não é o México – Sesshoumaru admitiu. — Vivo em Saudi Mahara, um país do Oriente Médio. Vim para os Estados Unidos, representando meu povo, a fim de fechar um contrato para compra de vários aviões da Ryker Air, a empresa para a qual sua irmã trabalha.

- Nosso governo precisava de um lugar para escondê-lo até que pudessem descobrir quem eram os assassinos que estavam tentando mata-lo -Rin prosseguiu. — Acharam que disfarça-lo de imigrante mexicano seria uma boa preocupação. Como ele e eu não nos entendíamos bem, e todos no escritório sabiam, os agentes consideram que o meu apartamento seria o último lugar que os inimigos pensariam em encontrá-lo.

- Vocês não se gostavam? Shippo riu.

Sesshoumaru olhou para Rin com imensa ternura.

- Eu me senti imediatamente atraído por sua irmã, quando ela atirou um peso de papéis em minha cabeça. Foi a primeira vez em minha vida que alguém se atreveu atacar a minha pessoa.

- Acho difícil de acreditar — Rin deu de ombros. — Você tem o dom de irritar as pessoas, quando quer.

- Ás vezes — Sesshoumaru admitiu — No meu país, contudo, qualquer tipo de ataque a mim é considerado um crime.

- Seu rei deve tê-lo em alta estima — Shippo afirmou.

Sesshoumaru procurou mudar de assunto.

- Rin, você não mudou de idéia sobre casar comigo?

-Eu vi os livros que trouxe para casa sobre os costumes orientais.

-Encontrará algumas informações que poderão perturbá-la.

- Não o suficiente para que eu retire minha palavra — ela respondeu com firmeza.

- De jeito nenhum — Shippo confirmou. — Eu não vejo a hora de montar em um cavalo.

- Infelizmente ainda levará algum tempo — Sesshoumaru comunicou, aproveitando-se da súbita oportunidade. Há algo que eu preciso lhes contar.

- O que é? Rin perguntou tensa.

- Eu preciso partir amanhã. Sozinho.