Quando o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos se rasga.


O vento uivava como um lamento antigo entre as árvores retorcidas de Raven Hollow, uma cidade esquecida no interior dos Estados Unidos. As folhas alaranjadas voavam como brasas, e as lanternas de abóbora tremeluziam diante das portas, desenhando sorrisos macabros no breu da noite.


Era 31 de outubro, o Halloween, e as crianças corriam pelas ruas fantasiadas de bruxas, vampiros, fantasmas e monstros. O riso delas era inocente, mas sob o chão coberto de névoa, algo despertava.


No coração da floresta — onde ninguém ousava entrar — havia um antigo círculo de pedras druídicas, conhecido como O Altar de Samhain. Segundo a lenda, ali o próprio espírito do Halloween dormia, aguardando o momento em que o véu entre os mundos se tornasse fino o bastante para libertar os esquecidos.


À meia-noite, o relógio da velha igreja bateu doze vezes.

O fogo das velas piscou.

E das sombras ergueu-se uma figura com cabeça de abóbora, usando um terno rasgado e um saco de doces nas mãos.


— “Hora de brincar...” — murmurou Jack O’Lantern, sua voz ecoando em mil direções.


O selo de Samhain fora quebrado.

E os mortos, famintos por lembrança, atravessaram de volta para o mundo dos vivos.


Capítulo 1 — A Colheita Sombria


A jovem Amélia Crowe, de dezessete anos, caminhava pela estrada de terra que levava à floresta. A lua cheia iluminava o caminho, e o som distante das festividades da cidade soava como algo pertencente a outro mundo. Ela levava em mãos uma lanterna e uma carta antiga, encontrada entre os pertences de sua avó — a falecida Morgana Crowe, uma bruxa respeitada (e temida) na região.


> “Quando o sangue e o fogo se misturarem sob o olhar da lua, o Halloween verdadeiro retornará.

— Que os herdeiros do véu estejam prontos.”


Essas palavras não saíam da mente de Amélia.

Nos últimos dias, ela vinha tendo sonhos estranhos — uma voz chamando seu nome, uma floresta em chamas e figuras com olhos brilhantes observando-a entre as árvores.


Enquanto avançava, um som metálico cortou o silêncio: o tinir de uma foice.

Do meio da névoa, surgiu uma silhueta alta e esguia. Um manto negro, um capuz, e o brilho mortal de uma lâmina prateada.


— “É perigoso andar sozinha nesta noite.” — disse uma voz fria.


Amélia deu um passo para trás, o coração acelerado.

— Q-quem é você?


A figura se aproximou, revelando o rosto pálido e o olhar vazio.

— “Sou apenas o ceifador... e você, criança do sangue Crowe, carrega algo que não entende.”


Antes que pudesse reagir, o chão estremeceu. Um rugido ecoou por toda a floresta. Das sombras surgiram criaturas grotescas — espantalhos vivos, com olhos de fogo e membros feitos de galhos e palha seca, marchando em direção à cidade.


— “Eles estão vindo atrás de você, herdeira.” — disse a Morte, levantando a foice. — “Corra, antes que a Colheita comece.”


Amélia correu em desespero, ouvindo o som dos espantalhos atrás dela. As tochas deles queimavam azul, e cada passo que davam fazia o chão apodrecer.


Quando chegou à estrada principal, o caos já havia começado.

As bruxas desciam dos céus em vassouras flamejantes, os fantasmas tomavam forma nas janelas das casas, lobisomens uivavam nas colinas e vampiros emergiam das sombras famintos por sangue.


O Halloween havia se tornado real.

E Raven Hollow seria o palco da noite em que todos os pesadelos despertariam.


Amélia caiu de joelhos, respirando com dificuldade.

— Isso não pode estar acontecendo...


Uma voz suave respondeu atrás dela:

— “Está, querida. E você é a única que pode detê-los.”


Ela se virou e viu uma mulher de cabelos brancos, olhos dourados e vestes antigas — Morgana Crowe, sua avó, morta há cinco anos.


A bruxa sorriu tristemente.

— “O Halloween voltou. E o espírito de Samhain quer seu coração.”


No alto da colina, Jack O’Lantern observava a cidade em chamas.

— “Feliz Halloween...” — sussurrou, antes de acender o fogo dentro da própria cabeça e dar início à caçada.