A Noite dos Mil Sussurros
2 O Pacto de Sangue
O vento frio cortava o rosto de Amélia enquanto ela observava a cidade em ruínas do alto da colina. As luzes de Raven Hollow piscavam como velas prestes a se apagar, e o ar cheirava a fumaça, ferro e medo. Os gritos ecoavam ao longe — parte deles humanos, parte... impossíveis de identificar.
Atrás dela, o som de passos lentos anunciou a presença da mulher que há cinco anos repousava sob a terra.
— “Você precisa ouvir com o coração, minha neta.” — disse Morgana Crowe, com a voz calma e poderosa. — “O sangue Crowe nunca morre... ele apenas dorme até que o Halloween precise dele.”
Amélia virou-se, os olhos marejados.
— Isso é loucura! Bruxas, espíritos, espantalhos vivos... e agora você! Eu não consigo acreditar que tudo isso é real!
A avó sorriu com tristeza.
— “Acreditar não muda o destino, mas aceitá-lo, sim.”
Morgana estendeu a mão, e o chão sob elas brilhou em runas antigas.
Do símbolo emergiu uma marca escarlate, em forma de meia-lua, que se gravou na palma de Amélia. A dor foi aguda — como se ferro em brasa tocasse sua pele — mas ao mesmo tempo, uma onda de energia percorreu seu corpo.
Ela ouviu vozes.
Mil vozes sussurrando em sua mente.
As vozes das bruxas Crowe que vieram antes dela.
— “Agora você carrega o fogo do Véu.” — disse Morgana. — “Com ele, pode ver, tocar e ferir o que não pertence a este mundo.”
Antes que Amélia pudesse responder, um rugido ecoou da floresta. Os galhos se quebraram, e um vulto colossal surgiu da névoa — meio homem, meio fera, com garras cobertas de sangue.
Morgana ergueu o braço.
— “Ele não é inimigo.”
O ser se ajoelhou, ofegante, o olhar cheio de dor e arrependimento.
— “Meu nome é Elior... outrora um homem, agora um monstro por maldição.”
Ele olhou para Amélia. — “Samhain quer você. Se ele conseguir, o mundo dos mortos tomará o dos vivos para sempre.”
Antes que pudessem continuar, um som metálico atravessou o ar — o tilintar da foice. A Morte reapareceu, envolta em sombras densas.
— “A Noite dos Mil Sussurros começou.” — sua voz ecoou como o toque de um sino fúnebre. — “Jack O’Lantern caminha pela cidade. Ele já abriu três dos sete portais de Samhain. Se o último se abrir, nem mesmo eu poderei conter o retorno do Espírito Antigo.”
Amélia respirou fundo, ainda sentindo o poder vibrar em suas veias.
— Então precisamos detê-lo. Mas... não posso fazer isso sozinha.
— “Ninguém pode.” — respondeu uma nova voz, doce e sombria.
Das sombras, surgiu uma mulher de pele pálida, cabelos longos e pretos como tinta. Os olhos vermelhos brilhavam, e um leve sorriso brincava em seus lábios.
Ela segurava um guarda-chuva manchado de sangue e usava um vestido vitoriano.
— “Sou Selene Draviel, exilada do clã dos vampiros. Já lutei contra Samhain uma vez... e perdi tudo.”
Morgana a encarou, cautelosa.
— “Você busca vingança ou redenção?”
Selene deu um meio sorriso.
— “Depende do que o sangue de sua neta puder oferecer.”
Amélia ergueu a mão marcada. A marca da meia-lua começou a brilhar, e o ar ao redor das quatro figuras se aqueceu.
As runas de Morgana, o rugido de Elior, o toque da Morte e o olhar de Selene se uniram em um só círculo.
A terra tremeu. As estrelas escureceram.
E um feixe de luz carmesim conectou todos os corações.
— “Que se forme o Pacto de Sangue.” — declarou Morgana. — “Entre vivos e mortos, monstros e bruxas, sob a lua de Halloween.”
O poder explodiu em todas as direções. Amélia sentiu suas pupilas ficarem douradas e seus cabelos flutuarem. Pela primeira vez, ela viu além do mundo físico — e percebeu as correntes que prendiam as almas em Raven Hollow, alimentadas pela energia de Jack O’Lantern.
Ela caiu de joelhos, ofegante.
— Ele está no coração da cidade... na antiga igreja. Está abrindo o quarto portal.
A Morte segurou sua foice e olhou para o horizonte em chamas.
— “Então não há mais tempo.”
Selene abriu o guarda-chuva ensanguentado e sorriu.
— “Vamos fazer o inferno sangrar.”
Elior ergueu-se, transformando-se completamente em lobo.
Morgana elevou o bastão ancestral.
E Amélia, com o fogo do véu em suas mãos, sentiu a força das gerações em seu sangue.
Naquela noite, a bruxa, a vampira, o lobo e a própria Morte marcharam juntos pela cidade em ruínas — para enfrentar o espírito do Halloween.
A Noite dos Mil Sussurros acabara de começar.
A neblina cobria Raven Hollow como um véu de morte. Cada passo que Amélia, Selene, Elior e a Morte davam ecoava pelas ruas vazias, onde apenas as sombras se moviam. O fogo das lanternas tremulava, projetando rostos sorridentes nas janelas — rostos que riam, zombando dos vivos.
O sino da antiga igreja tocou três vezes.
E então, o som de risadas infantis se misturou ao uivo do vento.
Bonecas quebradas pendiam nas árvores, e doces ensanguentados cobriam o chão.
— “Ele está brincando conosco,” — disse Selene, rangendo os dentes. — “Jack sempre gostou de transformar o medo em espetáculo.”
Amélia apertou o punho. A marca da meia-lua queimava em sua mão, pulsando como um coração vivo.
— “Ele está aqui dentro.”
A igreja de São Bartolomeu — antes um santuário — agora era uma ruína profanada. As cruzes estavam invertidas, e as janelas de vitrais se retorciam como se chorassem sangue. No altar, uma figura de cabeça de abóbora observava calmamente o grupo.
Jack O’Lantern.
Seu terno rasgado parecia parte da própria escuridão. As chamas em seus olhos refletiam o fogo do inferno.
Em uma das mãos, ele segurava uma vela acesa; na outra, um coração humano — pulsante.
— “Bem-vindos, convidados do Halloween.” — sua voz era doce, quase gentil. — “E olhem só... a herdeira Crowe, portadora do Véu.”
A Morte ergueu a foice, e o chão tremeu.
— “Você abriu portais demais, Jack. Feche-os, antes que o mundo desabe sobre si mesmo.”
Jack gargalhou, uma risada que ecoou em mil ecos.
— “O mundo dos vivos é uma festa que se repete há séculos, ceifador. Eu só quero convidar os mortos para dançar também.”
E então ele ergueu o coração ensanguentado.
A igreja inteira vibrou com uma energia escura. As paredes pulsaram, as velas se apagaram e um buraco se abriu sob o altar — um portal rodopiando em chamas negras.
Do portal, espíritos deformados começaram a emergir — sombras que gritavam, crianças com rostos sem olhos, mulheres com bocas costuradas, soldados de ossos e fogo.
Amélia avançou. O fogo do véu em suas mãos reluzia em tons dourados e carmesim.
— “Jack! Você quer libertar Samhain, mas ele vai consumir tudo, até você!”
Jack virou-se lentamente, e o sorriso iluminado pela chama cresceu.
— “Samhain não me controla, menina. Eu sou Samhain. Eu sou o fogo da colheita, o medo da noite, o primeiro grito e o último suspiro.”
Amélia sentiu o chão desaparecer sob seus pés. As vozes em sua mente começaram a gritar. As bruxas Crowe que viviam em seu sangue tentavam resistir ao poder que emergia do portal.
Morgana apareceu ao seu lado em forma espectral.
— “Lute, Amélia! Use o fogo do Véu!”
Ela estendeu as mãos.
As chamas douradas explodiram, envolvendo o templo inteiro. Selene saltou sobre o altar e fincou suas garras no peito de Jack, enquanto Elior, em forma lupina, despedaçava os espíritos que tentavam protegê-lo.
A Morte girou sua foice em um arco perfeito, cortando as correntes do portal. Cada golpe libertava um grito e uma alma.
Jack rugiu de dor. As chamas em sua cabeça aumentaram até se tornarem um sol infernal.
— “Vocês acham que podem deter o próprio Halloween?”
Amélia avançou, olhos dourados, cabelos flutuando.
— “Não. Mas posso purificá-lo.”
Ela pressionou a palma marcada contra o peito dele.
A marca da meia-lua brilhou intensamente, e um feixe de luz rompeu as trevas.
O fogo dourado e o fogo laranja se fundiram, queimando o mundo em torno deles. A igreja se despedaçou, e o portal se fechou com um rugido final.
Quando o silêncio caiu, só o som do vento restava.
As cinzas de Jack O’Lantern se espalharam, e sua risada desapareceu com o último eco da noite.
Amélia cambaleou, caída entre os escombros.
Selene a amparou.
— “Você conseguiu... mas o preço ainda não foi pago.”
A Morte se aproximou, olhando para a marca em sua mão.
— “O Véu está selado, mas o poder de Samhain vive em você agora. Um dia, ele vai despertar de novo — e quando isso acontecer, a bruxa Crowe precisará escolher entre os vivos e os mortos.”
Amélia olhou para o céu. A lua já não era vermelha; as estrelas voltavam a brilhar.
Mas em sua mão, a marca da meia-lua ainda queimava levemente, como uma lembrança.
E, ao longe, entre as ruínas da cidade, uma lanterna apagada balançava sozinha no vento.
Jack O’Lantern sussurrou, invisível:
— “O Halloween nunca acaba...”
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