A Ninfa e o Poeta
1 A Ninfa e o Poeta - 1
Notas iniciais
Ninfas são belas criaturas. Se há quem diga que tal beleza se aproxima a das mulheres; corrijo, pois está além, muito além. Homens por sua vez, facilmente se deixam encantar por tão incríveis deidades; e esta estória que está prestes a conhecer, nada muda em tal principio. É só mais um conto encantado, para uma criança dormir.
Era uma vez um poeta, que claro, muito amava e pouco ou nunca, foi amado. Vivia num calmo vilarejo, onde todos o conheciam pelo triste olhar que carregava em seu semblante. Saia pelas manhãs de sua humilde morada, e caminhava em silêncio na direção do vento... Ou nuvens... Nunca se soube. Ao deparar-se com uma bela paisagem, procurava um aconchegante lugar para se sentar, e assim começava a compor seus versos. Dizem até, que ele só sorria ao término de seu poema, e o lia várias e várias vezes, contente com seu trabalho.
Acontece, que com o passar do tempo, ele já havia conhecido todas as paisagens possíveis. Não haviam mais jardins gigantes e coloridos; cachoeiras, lagoas e picos belíssimos onde pudesse se inspirar. Então, com o tempo, sua poesia foi morrendo, junto às folhas emboloradas.
O poeta, costumava expor seus poemas em um movimentado mercado no vilarejo. Havia um duende, amante da literatura, que se emocionava sempre que ouvia cada verso. Seus grandes olhos vermelhos enchiam d'água enquanto o poeta recitava calma e delicadamente, estrofe por estrofe.
Certa vez, ansioso para ouvir os novos poemas, o duende correu até o mercado, mas não encontrou o poeta. Decepcionado, resolveu procurá-lo em sua casa. Lá, foi bem recebido e, juntos, beberam um saboroso chá de cogumelos, enquanto o poeta explicava sua situação.
– Então é beleza que você procura? — Perguntou o duende, pensativo.
– Isso! — Afirmou o poeta – Procuro uma beleza excitante! Que faça minha alma arder com as labaredas da arte, que me envolva em um estado utópico de espírito, e que me ligue firme e profundamente à virgindade da natureza!
– Entendo, e onde beleza assim pode ser encontrada? — Questionou o duende.
O poeta, baixando a cabeça, respondeu.
– Se eu soubesse amigo, já estaria lá.
Os dois se calaram, pensativos, até que o duende arregalou os olhos e abriu um largo sorriso, de uma ponta a outra de suas orelhas.
– Já sei! — Disse eufórico.
– Diga-me onde, por favor?!
– Na Toca...
A toca qual o duende se referia, era uma mística floresta onde as criaturas mágicas viviam. Lá, humanos não entravam. Não que nada os impedisse, mas terríveis histórias eram contadas por quem lá entrava, e conseguia voltar.
– Confie em mim – Continuou o duende – Eu venho de lá, não tem nada a temer.
– Mas não é um lugar bem falado, amigo – Disse o poeta, cismado – Posso realmente confiar na sua palavra?
– Mas é claro! Nenhuma palavra é mais nobre do que a de um duende, creia nisso!
– Está bem, podemos ir amanhã, quando o Sol nascer?
– Claro, virei te buscar.
O duende então, partiu contente, deixando ansioso o poeta.
Amanheceu. Era enfim chegada a hora. O poeta era guiado até a Toca, e o duende fazia segredo sobre a tal beleza. Caminharam as pressas, e assim que chegaram, as lindas e altíssimas arvores logo na entrada, cativaram o coração do poeta.
– Se acha isso bonito, vai perder as pernas quando ver o que tenho a mostrar!
– Então vamos logo amigo, vamos logo!
Caminhando pela Toca, o poeta ascendia estrelas em seus olhos, vendo as belíssimas paisagens que surgiam a cada passo. Eram Faunos festejando a felicidade, fadas brincando entre o pólen das flores, e sereias descansando às margens de uma lagoa.
– É aqui! — Disse finalmente, o duende.
Estavam atrás de grandes arbustos, próximos à um bando de duendes, que pareciam espionar alguma coisa entre as folhas. Ouvia-se um lindo coral composto somente por vozes femininas.
– Está ouvindo? — Perguntou o duende – Este é o som da beleza!
– É realmente maravilhoso! — Afirmou o poeta, emocionado – Mas além de ouvir, quero ver!
– Claro, claro! Vamos nos juntar aos meus irmãos, é isso que eles veem! — — Mas cuidado, por favor, para não ser visto, seria o seu fim!
– Tudo bem!
Com passos silentes, o poeta e o duende caminharam até os arbustos, e com o corpo encolhido para se igualar a baixa estatura dos demais, o poeta finalmente pode ver...
Em volta de quatro colunas que estruturavam um templo aberto, quatro mulheres, com mascaras prateadas e inexpressivas, mais uma espessa camada de um tecido preto envolvendo seus corpos, cantavam. O tecido que as cobria partia de um amarramento do busto, até pouco acima dos joelhos, ficando bem justo nas moças. Era um preto forte, e seu corte era cuidadoso, parecendo serem usadas somente naquela ocasião. Quanto ao corpo das mulheres, digo apenas, que ilustram os ideais de perfeição que artistas tanto procuraram naqueles tempos, até os dias de hoje. Das quatro, uma era ruiva, de um corpo quase moreno, e lábios carnudos; seu cabelo era de um vermelho vivo, como a chama das tochas que iluminam a entrada da casa dos deuses. Outras duas, eram gêmeas, de pele branca como a bruma da manhã; cabelos cheios, ondulados, brilhantes e negros como os olhos de um demônio. A fisionomia das duas era extremamente semelhante, e delicada. Também altas e os cabelos passavam da cintura. Braços e pernas eram nem muito pomposos e, nem muito afinados. Os seios, menos volumosos que o da ruiva, eram de certa forma afastados, soando para qualquer artista, como um convite ao vislumbre daquelas formas. A quarta, aparentemente mais velha, tinha um cabelo cheio, castanho e cacheado, caindo rumo aos ombros. Um corpo mais bronzeado e viril, com as pernas e seios visivelmente torneados.
“É agora! É agora!” — Começaram a sussurrar os duendes.
– Agora é a melhor parte! — Disse o duende ao poeta.
Ele, porém, estava num profundo estado de embriagues. Suas pernas tremiam, seus olhos arregalados lacrimejavam, e respirava anelante.
As moças pararam de cantar. As gêmeas foram até um pequeno cômodo, improvisado com toras de tronco, e logo em seguida, voltaram trazendo uma quinta pessoa. Esta, estava completamente coberta por um longo casaco branco. Lenta e cuidadosamente, as gêmeas guiaram-na até a entrada do templo, onde havia um enorme recipiente de cristal, cheio d'água. Após a ajudarem a subir uns degraus que levavam a borda do recipiente, as gêmeas voltaram aos seus lugares.
As quatro voltaram a cantar. Então, delicadamente, a misteriosa tirou seu casaco e o jogou para trás. Era uma linda jovem. Completamente nua. Ela ergueu seus braços e a cabeça para o céu. Beleza tal seria pecado definir, já que nenhuma palavra na língua dos homens, simboliza tamanha perfeição. Sinceramente, não posso. Resta a quem conhecer esta história, tentar imaginar, sendo que já advirto, é muito mais belo que tudo aquilo que possa supor.
A moça, então, fechou os olhos e entrou no recipiente, encolhendo-se dentro dele. Enquanto isso, sete feixes de luzes saíram de cantos aleatórios da floresta, caindo em torno do templo. Dando forma a sete senhores.
“Veremos somente a dança” — Comentavam os duendes.
Os senhores eram bem parecidos. Todos barbados e robustos. Riam sem motivo, com vozes graves e, bebiam um de cada vez, em um grande galão de hidromel.
– Quem são eles? — Perguntou o poeta, gaguejando.
– São os sete espíritos guardiões da Toca – Respondeu o Duende.
– E o que eles fazem ali?
– É um ritual anual das ninfas. A mais linda de todas é escolhida para ceder aos Sete.
– Como assim, ceder?
– Ela vai “entregar” sua virgindade a eles.
– Como?! Não! Isso não pode! Eu... Eu não posso permitir!
– Não faça besteira! — Disse o duende, levantando o tom.
A garota se levantou, saiu do recipiente e desfilou até o centro do templo. Os Sete aplaudiram-na, excitados. Ao som do canto das quatro mascaradas, a ninfa pôs-se a dançar, no ritmo da linda melodia composta pela harmônica comunhão das vozes.
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