A Ninfa e o Poeta
2 A Ninfa e o Poeta - 2 Final
Notas iniciais
Os sete, sem se conterem, entraram no templo e cercaram a ninfa, esta, que ignorava a presença dos senhores. Jogavam olhares perversos sob as intimidades da moça, enquanto as demais só cantavam e assistiam a cena.
Cheio de ódio, o poeta saiu de meio aos arbustos, e gritou:
- Parem! Parem com isso agora!
Furiosos com a intervenção, os sete senhores rodearam o poeta, e fizeram sinal para que as ninfas parassem de tocar, e a jovem parasse de dançar.
Em coro, eles falaram:
“Ousada cria, rebelde,
no bronze tosco cerrado e
do milho e arroz denegrido;
Se no perigo tens faltado
com a hesitação no risco:
Vinde ao limbo – Castigo!
Pelo infinito, penado!”
- Amaldiçoem-me com quantos fardos quiserem, e prometo resistir à todos eles, contanto que parem de assediar esta ninfa! — Disse o poeta, contendo seu medo no peito acelerado, e olhando nos olhos de cada senhor.
Em coro, os sete perguntaram:
“Você a conhece?”
- Não!
“Por que defendê-la?”
- Por que é o certo, só isso!
“A que raça pertence, criatura?”
- A classe dos poetas!
“Desconhecemos”
- É uma raça nobre entre os mortais. Consta em nossas leis, defender com a vida, se preciso, tudo que é belo!
“Que seja! Esse é um ritual sagrado, não tens o direito de interferir”
- Não importa. Defendemos absolutamente tudo! Tudo que é belo, independente de ser posse dos deuses, ou dos demônios!
“O que está disposto a sacrificar por esta ninfa?”
- O que for preciso!
Os senhores se calaram, trocando olhares. Após um tempo de reflexão, disseram:
“Estamos dispostos à fazer um acordo, poeta”
- Digam.
“De que mais sua raça precisa, para ser útil?”
Depois de pensar, por um tempo, respondeu.
- Dos olhos, afinal, a poesia é uma arte expressa pela escrita, portanto, preciso ver e ler o que escrevo.
“Certo. Dê-nos seus olhos, e terás a ninfa a todo gosto”
- Aceito!
Dito isso, dos cantos de seus olhos, finas gotas de um sangue bem tinto vieram a esparzir. O poeta ajoelhou-se, já sem sua visão.
- Agora, cumpram sua parte no acordo!
Os Sete então, caíram em gargalhadas, dizendo:
“Como é tolo, poeta! Não se fazem acordos sem testemunhas. Temos as ninfas, e você, ninguém!”
Com um sorriso desafiador, o poeta contradisse:
- Sim, eu tenho testemunhas... Espero...
“Quem?”
De dentro dos arbustos, dezenas de duendes se revelaram, visivelmente assustados.
- Meu amigo! — Disse o poeta, emocionado ao ouvir os passos dos duendes – Fico feliz por vir me ajudar, e ainda trazer seus irmãos!
Os Senhores, encabulados, assim revidaram o testemunho dos duendes:
“Já se sabe, aqui por baixo
Quão maiores somos nós;
Só devemos, se queremos
pactar laços mortais;
Fique dito, as rebeldias
Que essa ninfa divinal
Terá sorvendo a divindade
Sete Cobras, sedentas
Por cálices virginais!”
- Mas que tipo de espíritos são vocês? — Disse o poeta, furioso – Traidores desprezíveis, e covardes?!
“Como ousa falar desse modo? Profano! Também tiraremos sua língua!
- Típico de... — O duende tampou a boca do poeta, dizendo – Por favor, grandes espíritos da Toca, devolvam os olhos deste meu amigo, e levem os meus.
“ Por quê o sacrifício?”
- É que assim – Ele respondeu – Ele poderá escrever seus poemas, e eu poderei ouvir ele os recitar.
“É um preço justo. Está certo disso?”
- Não! — Gritou a ninfa, com o corpo nu trêmulo, e alvejado pelos olhos esbugalhados dos duendes – Levem os meus olhos, é o que menos vale em meu corpo para os senhores!
A voz da ninfa era tão suave, tão bela e celestial, que ao dizer isso, todas as arvores envolta do templo, acharam que era outono, e floresceram.
- Cale-se! — Gritaram as outras ninfas, provavelmente enciumadas.
“Queremos você inteira, toda bela.”
- Se é só isso que eu posso ser para vocês, é isso que eu deixarei de ser! — Disse a ninfa, levando suas mãos ao rosto, pronta a arranhá-lo. Os duendes, ao ouvirem a voz da ninfa, caíram num profundo sono, sonhando com a mesa mais farta, e a musica mais bela – Vou transformar meu rosto em carne viva banhada em sangue escuro, até que vocês enojem minha presença!
As ninfas, ao ouvirem a voz da outra, desta vez, transformaram-se em rouxinóis, e voaram.
- Não! — Impôs o poeta, livre do duende, que estava desmaiado – Deixem que eles a levem, eu prometo que a trarei de volta.
“É o que veremos. Agora é tarde, vamos!”
Os sete senhores voltaram a forma de luz, envolveram a ninfa, e num grande brilho, todos sumiram.
Diz a lenda, que após acordarem, os duendes não encontraram o poeta. Ele ficou vagando pela floresta, recitando um poema tão fúnebre e apavorante, que toda a Toca estava morrendo, aos poucos. Faunos choravam, sereias adoeciam, fadas caíam, flores murchavam, e até a corda do lutê dos bardos, de repente, quebrava!
Os Sete, por se alimentarem da energia viva da Toca, perdiam lentamente suas forças. Tanto, que ficaram impotentes diante da ninfa. Amedrontados com a poder da poesia, os senhores entregaram, intacta, a ninfa ao poeta, junto com seus olhos. Os espíritos, Inférteis, deixaram de existir.
Quando a ninfa e o poeta se beijaram, tudo que era vivo sorriu, toda doença foi curada, toda vida prolongada, e ninguém no mundo mais sentiu: ódio, rancor, inveja, ciume, gula ou tristeza.
Quando o poeta recitou um poema em homenagem a sua ninfa, a Toca voltou a brilhar. Faunos festejavam, sereias cantavam, fadas brincavam, e os bardos tocavam em paz suas belas canções.
O casal tornou-se guardião da floresta e, depois do belo sonho que teve, o duende se tornou poeta. Assim... Todos viveram felizes para sempre.
FIM
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