A Ninfa da Cascata
17 Cara a Cara com os Medos do Passado
Notas iniciais
A Ninfa da Cascata
Capítulo 17 – Cara a Cara com os Medos do Passado
“Eu não acredito nisto!” exclamou Sulfus, atirando uma revista contra a mesa da sala de estar onde muitas outras estavam. Levantou-se do sofá e andou de um lado para o outro pela sala, tentando acalmar-se, estava farto de tudo isto…”Eu devia era processar essa gente toda!”
“Sulfus acalma-te, por favor” disse Seraph vendo o estado de nervos que o filho estava. Estavam todos reunidos na sala, era a manhã seguinte depois do baile de ano novo que havia ocorrido na noite anterior em casa do presidente da cidade, e digamos que a manhã para os Zolfanello não começou da melhor maneira, pelo menos para Sulfus…
“Como é que queres que me acalme, mãe?!” disse o jovem “Como é que queres que eu me acalme quando esta gentinha anda a escrever e a publicar todas estas mentiras e barbaridades sobre a Raf?!” ele agarrou numa outra revista “ ‘Jovem faz-se passar pela desaparecida filha dos Eryn e engana a família Zolfanello para ter acesso à sua fortuna’ ?! Como é que queres que me acalme depois de ler ISTO!” atirou de novo a revista para cima da mesa.
“E tu achas que não é isso que eles querem? Que tu te enerves? Que tu tentes processá-los, que faças um escândalo que depois vai parar a outras revistas?” disse Edan
“O teu pai tem razão, tens de te acalmar” afirmou Seraph, mas o jovem simplesmente não conseguia fazê-lo apesar de saber que o que os seus pais lhe estavam a dizer era mais do que verdade…era isto que estes repórteres queriam, que eles o tentasse processar, que ele fizesse escândalo, estas revistas viviam para isso, para escândalos sobre a vida dos mais ricos e a sua família há já muitos anos que era massacrada por estas coisas, mentiras atrás de mentiras….tinha sido por esta razão, por causa destas revistas que Sulfus mantera a sua relação com Kabale apesar de já não a amar…só queria que a sua família tivesse paz…
O jovem suspirou e deixou-se cair sobre o sofá, metendo a cara entre as suas mãos, foi então que sentiu duas mãos sobre os seus ombros, ele virou-se e deu de caras com Raf que lhe sorria de maneira a tentar acalmá-lo. Ele suspirou de novo e agarrou-lhe nas duas mãos.
“Lamento o que está a acontecer…” ela abanou a cabeça e continuou a sorrir, como se quisesse dizer que não era culpa dele “Ainda quero saber como é que eles conseguiram ter acesso há zona da varanda…”
“Sulfus não penses agora nisso, não vale a pena massacrares-te com isto. O que tu tens a fazer de melhor é ignorar esses canalhas e viveres a tua vida normal” o jovem suspirou e assentiu, ainda com a sua mão agarrada à de Raf, os dois levantaram-se do sofá e saíram de casa. Visto que Raf se tinha recordado de tantas coisas ao caminhar por sítios ou a fazer coisas que no passado fazia, Sulfus estava decidido a continuar a usar esse método.
Os dois chegaram a uma clareira, não havia nada mais do que árvores sem folhas e neve neste preciso momento “Era aqui” murmurou então Sulfus, colocando um braço em roda da cintura de Raf e puxando-a para mais perto de si, ela no entanto não percebeu o que ele quis dizer.
“Era aqui a tua casa” continuou ele, caminhando um pouco mais até chegarem perto de umas ruínas cobertas de vegetação “Depois do incêndio, isto foi o que restou da tua casa…” Raf fixou o lugar onde as ruinas se encontravam, Sulfus então levou-a até um lado das ruinas, lá havia um pequeno monte que levava até a um rio “E aqui foi onde te vi pela última vez, tínhamos saído por ali” disse ele indicando um buraco que se encontrava ainda na parede de umas ruinas. A jovem de cabelos loiros fixava os lugares que lhe foram mostrados agora mesmo…mas tudo isto era muito confuso para ela…vários flashes começaram a surgir e desaparecer na sua cabeça, uns atrás dos outros e ao contrário do que havia sucedido no dia anterior, ela simplesmente não conseguia ver nada do que a sua mente lhe mostrava…a jovem colocou as suas mãos entre a cabeça e fechou os olhos.
Sulfus não deixou de notar na aflição em que a namorada se encontrava e metendo as suas mãos sobre os seus ombros, tentou perceber o que se passava “Raf? Raf, o que é que tens?”
Ao contrário de todas as outras vezes em que ela conseguia acalmar-se, desta vez isso não aconteceu. A jovem soltou-se do agarro do rapaz e fugiu, correndo pela clareira dentro, ainda com as mãos na sua cabeça. Sulfus após recuperar da surpresa, não tardou a correr atrás dela. Mas Raf já ia longe e acabou por perde-la de vista.
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Raf continuou a correr pela clareira e por entre a neve, não vendo sequer para onde estava a ir. Acabou por tropeçar numa pedra escondida por entre o manto branco, caiu e ainda rebolou um pouco. Abriu os olhos mas permaneceu no lugar onde estava, recuperando o seu fôlego.
Foi então que uma sombra cobriu-a por completo, pensando que era Sulfus, a jovem ergueu o olhar e descobriu que estava errada…
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Sulfus chegou ao centro da clareira onde pensava ter visto a sua amada dirigir-se, também ele tentou recuperar o fôlego mas não deixou de olhar em volta, tentando avistar Raf mas não conseguia ver nada. Mas algo então chamou-lhe a atenção, algo que brilhava no meio do manto branco. O jovem não hesitou em aproximar-se e quando chegou mais de perto, viu a pequena caixinha de música dourada. Sim ele tinha-lhe devolvido o objecto a Raf pouco antes de ela ter saído do hospital, visto que o fio se tinha partido da última vez que a jovem o utilizara, Sulfus tinha colocado um novo.
Mas aqui estava ele de novo, enterrado na neve, perdido e afastado da sua portadora…o jovem de cabelos negros agarrou no objecto e de novo olhou em volta…viu então umas pegadas, de dois sapatos diferentes e pareciam estar a dirigir-se para a cidade…Sulfus franziu a testa…tinha um mau pressentimento…
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“Sabes que é uma vantagem muito grande para mim, tu não poderes falar miudinha” disse a voz de um homem enquanto arrastava com força a pobre e assustada Raf “Assim ninguém te ouve gritar e tornas as coisas mais fáceis para o meu lado” a jovem rapariga tentou libertar-se do agarro do seu raptor mas este agarrou-a ainda com mais força, não sabia para onde ele a estava a levar mas rapidamente descobriu quando entraram pelas traseiras de um velho estábulo.
O homem, que era nada mais, nada menos do que Edwin Rosso…Raf tinha de admitir que o olhar que ele lhe dava, a assustava e fazia-a pensar cada vez mais no que é que ele lhe iria fazer…os olhos de cor índigo do homem fixaram a jovem de cabelos loiros com ódio e desprezo.
Raf levantou-se o mais rápido que conseguia do chão e tentou correr para fora do estábulo ou ao menos fazer com que alguém a visse e viesse em seu socorro. Mas Edwin rapidamente a agarrou pelos cabelos e forçou-a a voltar para trás “Nem penses que vais escapar, não desta vez, não de novo” ele agarrou-a então pelos braços com força “Já interferiste demasiadas vezes nos meus planos, miudita. Tu devias ter morrido naquela noite, tu devias ter morrido naquele incêndio com os teus paizinhos!” atirou-a ao chão.
Ajoelhou-se diante dela e com uma mão agarrou-lhe o rosto “Sabes…eu vou contar-te os meus planos…já que vai morrer aqui e agora, não há problema. Desde o início que tive em mente de colocar a minha filha com o Sulfus Zolfanello, eu estava na ruína e a fortuna dos Zolfanello era a única coisa que me podia ajudar a sair do buraco onde me tinha enfiado mas para isso precisava de me aproximar deles…tinha tudo planeado quando a tua familiazinha apareceu na cidade e olha quem diria, que o teu paizinho era o melhor amigo do Edan Zolfanello. Vocês todos tornaram-se um grande obstáculo para mim e ainda mais quando vi a proximidade entre ti e o Sulfus, contigo no caminho seria mais difícil para a minha Kabale aproximar-se dele…por isso elaborei um plano…”
Raf arregalou os olhos “É isso mesmo, eu sou o responsável pelo incêndio que matou os teus pais há 11 anos atrás! Estava tudo planeado, bastou infiltrar-me por uma janela e pegar fogo aos vários cortinados, fogo que mais tarde pegaria a tudo o resto. Eu descobri que os Eryn tinham uma passagem secreta e sabia que salvarem a ti e ao Sulfus seriam a prioridade dos teus pais, portanto esperei e quando vi vocês os dois estavam a sair, assim que me certifiquei que o Sulfus já estava o longe suficiente da casa, kaboom…fiz a casa explodir, uma explosão que te apanhou também. Vi-te caída e sem te mexeres, por isso assumi que estavas morta...depois disso certifiquei-me que a Kabale se aproximava do Sulfus…a minha mulher descobriu que tinha sido eu a causar a morte dos Eryn e por isso tive de eliminá-la, fiz tudo para parecer um acidente…anos depois a minha filha e o Sulfus assumiram a relação deles, tudo estava a correr como planeado…mas com o passar do tempo comecei a ver que o Sulfus estava a perder os sentimentos pela minha filha e que depressa a deixaria, por isso agi e lancei o boato sobre o facto de o Sulfus estar a planear pedir a Kabale em casamento, eu sabia que ele faria tudo para manter o nome da família e que manteria a relação com ela.”
Com a outra mão, ele agarrou-a de novo pelos cabelos, causando uma dor enorme à rapariga “Mas então TU apareceste e arruínas-te tudo, de novo! Fizeste com que o Sulfus se apaixonasse por ti e deixasse a minha filha, o meu plano estava a ir por-água-abaixo! Tentei acusar-te de roubares o colar da minha falecida esposa, enviando um homem para se infiltrar no teu quarto e coloca-lo no meio das tuas coisas mas ainda não sei como é que a policia obteve provas de que tu eras inocente” Raf arregalou os olhos de novo…então Edwin não sabia que tinha sido a própria filha a entregar as provas que a ilibavam do crime que nunca cometera “De novo tu estavas no caminho e por isso cheguei ao limite, como se diz: “Se queres algo bem feito, tens de ser tu a fazê-lo” o teu fim chegou miudinha, vais ter com os anjinhos…”
Raf mordeu a mão que lhe agarrava a cara e tentou atacar o homem, arranhando-lhe a cara, ele gritou cheio de dor e empurrou a rapariga com a cabeça com força contra um dos pilares de madeira do estábulo, a jovem caiu inconsciente. Edwin olhou-a com ódio e retirou do seu bolso uma algema, agachou-se de novo, agarrou a mão da jovem e prendeu-a com a algema ao pilar…”Daqui já não sais”
Então começou a espalhar gasolina por todo o estábulo…uma vez feito, dirigiu-se para a saída e acendendo um isqueiro, atirou-o contra o chão…não tardou muito até que o estábulo começasse a pegar fogo…Edwin fechou as portas do estábulo e desapareceu do cenário…
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Sulfus seguira as pegadas que vira na floresta e estas guiaram-no até à cidade…mas onde encontraria Raf no meio daquela confusão toda…não tinha outra escolha senão perguntar às pessoas que por ali andavam se a tinham visto. A cada pessoa que perguntava o jovem descrevia Raf o melhor que podia apesar das respostas serem sempre as mesmas: não a vi.
O rapaz estava a começar a desesperar e foi então que viu a nuvem de fumo negríssimo que se erguia no ar e o cheiro a queimado. De repente sentiu alguém puxar-lhe a camisola e ele olhou para baixo, vendo um rapazinho “Senhor está à procura de uma rapariga de cabelos loiros e olhos azuis? Uma rapariga que está sempre consigo?”
Sulfus sentiu uma onda de alívio propagar-lhe o corpo “Sim estou, sabes onde ela está ou viste-a?”
“Sim vi mas tem de vir comigo” o rapaz agarrou na mão de Sulfus e os dois correram até onde o pequeno dizia que sabia onde se encontrava Raf. Não tardaram muito a chegar ao estábulo em chamas…”Ela está ali dentro, eu vi um homem a traze-la para aqui e quando fui buscar ajuda, o estábulo já estava a arder”
Sulfus arregalou os olhos enquanto fitava as chamas “Não…” murmurou ele, estava completamente paralisado! Ele queria entrar por aquele estábulo adentro de salvar a amada mas algo o impedia, o seu corpo não correspondia aos comandos da sua mente…ele pensava que tinha ultrapassado o medo do fogo mas pelos vistos enganava-se….
“Sulfus!” ouviu alguém chamá-lo, o jovem virou-se e deu de caras com Kabale que corria na sua direcção
“Kabale…?”
“Eu vi as chamas e vim tentar ver o que se passava…o que estás aqui a fazer?” perguntou a jovem
“Eu…a Raf…ela…”
“A Raf? O que é que se passa com ela?”
“Está…dentro do estábulo…”
Kabale arregalou os olhos âmbar quando ouviu aquilo, fitou o estábulo onde várias pessoas atiravam vezes sem conta baldes cheios de água para tentar apagar mas em vão, as chamas eram demasiado fortes. Sulfus pareceu então sair do seu transe e um olhar determinado substituiu o seu olhar de assustado….
“Eu vou lá busca-la…” murmurou ele
“O quê?! Estás louco?!” gritou Kabale
“Antes estivesse…mas não posso deixá-la ali…”
“Os bombeiros devem estar a chegar, de certeza que ainda a conseguem salvar!”
“Não percebes!” gritou ele, surpreendendo a jovem “Eu tenho de fazer isto! Eu tenho de a salvar! Há 11 anos deixei que ela me escapasse por entre os dedos, não consegui salvá-la! Não posso deixar que isso aconteça outra vez!”
“Eras uma criança Sulfus não podias fazer nada!”
“Exacto, eu era uma criança mas agora já não sou e eu vou fazer isto!” de repente agarrou num dos baldes de água e em vez de atirar contra as chamas, despejou-o sobre si, sabia que ao estar molhado as probabilidades de se queimar ficam mais reduzidas, tirou o casaco e então correu na direcção das chamas, entrando por onde antes tinham estado as portas do estábulo.
As pessoas ali presentes nem queriam acreditar no que estavam a ver “O que é que ele está a fazer?!” “Ele é louco!” “Vai morrer!” “Ele não vai conseguir sair dali!” diziam as pessoas…
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Raf abriu os olhos mas mal conseguia ver, nem respirar, olhou em sua volta e viu com horror as chamas que a circundavam, os seus olhos cor de mar arregalaram-se com medo, choque e terror. O medo do fogo voltara a assombrá-la e paralisou-a…e então ao reparar na algema que a prendia ao pilar, soube que não havia escapatória possível…
Encolheu-se cada vez que as chamas se aproximavam, mais e mais dela…
“Raf!” ouviu alguém chamá-la mas não conseguiu perceber quem…”Raf!!”
‘Sulfus…?’ pensou a jovem depois de reconhecer a voz do amado…’O que é que ele está aqui a fazer…?’
‘Veio salvar-te, sabes que ele nunca desistirá de ti’ disse uma voz, voz que Raf não conseguia reconhecer
‘Quem és tu…?’
‘Sou eu o Espírito do Lago, mas neste moment tu tens de encontrar a força e coragem para lhe dares a tua localização’
‘Mas eu não posso, eu…eu não consigo falar…’
‘É claro que podes, só tens de encontrar a coragem para enfrentares o teu medo. Lembra-te que foi o medo que te tirou a voz, então também é esse medo que ta devolverá…’
‘Mas eu não consigo…’
‘É claro que consegues! E tens de fazer agora antes que seja tarde demais!’
‘Eu..’
‘AGORA!’
De repente a boca da jovem abriu-se e…”SULFUUUUSSSSS!!!!” gritou com toda a sua força para que o amado a conseguisse ouvir…
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”SULFUUUUSSSSS!!!!” o jovem de cabelo negro ouviu a sua voz a chamá-lo e rapidamente se apercebeu de onde ela vinha, colocando os seus braços frente à cara, Sulfus correu por entre as chamas, abrindo caminho até encontrar a sua amada…
“Raf!” exclamou ele, correndo até ela
“Sulfus…” murmurou ela enquanto lágrimas começaram a jorrar pelo seu rosto, o rapaz arregalou os olhos ao ouvi-la falar
“E-Estás a falar…”
Ela assentiu “Sim…mas isso agora não interessa…tu tens de sair daqui”
“Eu não vou sem ti!” exclamou ele
“Tens de ir, não há maneira de eu escapar!” disse ela, apontando então para a algema que a prendia…Sulfus ainda assim não desistiu e tentou partir o ferro da algema mas em vão, não conseguia parti-la! “Não vale a pena!” exclamou Raf, as chamas aproximavam-se cada vez mais do casal…
“Eu não vou sem ti” repetiu o jovem, colocando as mãos entre o rosto da amada, tentando secar as lágrimas que continuavam a cair “Estamos juntos para o que der e vier…eu perdi-te uma vez, não vou perder-te de novo…”
“Mas não há maneira de escapar…não há maneira de eu escapar mas tu podes, salva-te enquanto podes” ambos tossiram por causa do fumo e então uma coluna caiu atrás deles, aproximando ainda mais as chamas deles
“Não…eu não te vou deixar…se este é o fim…então partimos juntos…” disse Sulfus, aceitando a dolorosa verdade mas sem nunca ponderar em abandonar a amada…os seus lábios uniram-se aos da rapariga num beijo desesperado…então abraçaram-se e esperaram que o fim chegasse…
Tudo para eles ficou negro até que não podiam ouvir ou ver mais nada…
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Luz…luz branca era o que os seus olhos viam…mas via tudo desfocado…onde estava? O que é que tinha acontecido…? Ah sim…um incêndio…as chamas…e sem saída possível…então viu duas sombras aparecer por cima de si, pareciam estar a murmurar alguma coisa mas pouco percebia…
“Está a acordar, finalmente” disse uma delas
“Que alívio” disse a outra
“Sulfus consegues ouvir-nos?” falou a primeira sombra
“Mãe…?” murmurou o jovem, ainda meio confuso…
“Sim querido, sou eu” sentiu uma mão sobre o seu rosto
“Onde estou…?” perguntou ele à medida que a sua visão melhorava, agora apercebeu-se de que estava num quarto de hospital, circundado pela sua família e por Kabale…”O que é que aconteceu…?”
“Não te lembras de nada?”
“Lembro-me…vagamente…do estábulo a arder…eu entrei e…”
“E não saíste de lá” completou Kabale
“Raf…onde é que…onde é que ela está? Ela está bem?!” perguntou o jovem ao aperceber-se da ausência da amada
“Sulfus acalma-te” pediu-lhe o pai
“Eu só quero que me digam onde ela está e se ela está bem!” exigiu o rapaz
“Calma, querido, ela está bem” assegurou-lhe a mãe “Ela está no quarto ao lado”
“Foi um verdadeiro milagre, quando os bombeiros chegaram, o estábulo estava completamente rendido às chamas, não havia maneira de vocês sobreviverem mas depois de extinguirem as chamas, eles entraram lá dentro e vocês estavam bem, aparte algumas queimaduras mas estavam bem” disse Kabale, após ouvir aquilo nem Sulfus percebeu o que possivelmente os poderia ter salvo das chamas….
“Eu…eu quero vê-la” murmurou o jovem
“Sulfus, devias esperar que o médico te visse” disse Edan
“Eu quero vê-la agora…” insistiu o rapaz, a mãe assentiu e amparado por esta e por Kabale, as duas levaram-no até ao quarto do lado onde lhe tinham dito que Raf se encontrava. Assim que abriram a porta, Sulfus viu que também a amada já estava desperta e que ouvir a porta a abrir, ergue a cabeça, um sorriso iluminou o seu rosto quando viu o rapaz diante dela.
Sulfus, ao vê-la, ganhou todas as forças que necessitava e libertando dos braços da mãe e da ex-namorada, correu até Raf, ambos abraçaram-se, mais felizes que nunca por verem que ambos estavam bem, sãos e salvos…
“Estás bem….” Murmurou o jovem
“Estou bem” respondeu a jovem, surpreendendo-o, já mal se lembrava que a jovem tinha recuperado a sua voz
“Ainda nem acredito que finalmente consegues falar”
“O médico disse que é raro mas que algumas pessoas conseguem voltar a falar” explicou Seraph, Kabale avançou na direcção deles e colocou uma mão sobre a de Raf
“Raf…eu quero pedir-te muitas desculpas…por tudo…o que o meu pai te fez…a ti e à tua família…” disse Kabale em tom sofredor…
“O teu pai…?” murmurou Sulfus, olhando para as duas, ambos assentiram
“Depois de vocês terem sido tratados…os médicos viram que ela tinha algo nas unhas, parecia pele e como aquele miúdo disse que tinha visto alguém a leva-la para o estábulo e depois sair, a polícia achou que deveria ser da pessoa que ateou fogo ao estábulo…quando os resultados vieram…bem…eram do meu pai, foi o meu pai que ateou fogo ao estábulo e que quase vos matou…e então depois de a Raf despertar, prestou o seu depoimento à polícia e revelou tudo o que ele lhe contou…que foi ele a causar o incêndio de há 11 anos atrás e também…matou a minha mãe…porque…ela descobriu o que ele andava a fazer…” lágrimas caiam do rosto da jovem
“Kabale…lamento muito…” murmurou Sulfus, colocando uma mão sobre a da jovem
“Não importa…o que está feito, está feito e ele já está a ter o que merece…eu já não o considero meu pai, não o considero nada…só espero que ele apodreça na cadeia para sempre…” murmurou a jovem, ela olhou para o casal e forçou um sorriso “Eu só espero que vocês os dois consigam ser muito felizes…merecem depois de tudo o que passaram…”
“Tu também mereces, Kabale…és uma boa rapariga, vais encontrar alguém correcto para ti” disse Raf, a jovem assentiu antes de sair do quarto, deixando o casal a sós
“Raf…” começou Sulfus “O que é que nos salvou…? Não tínhamos escapatória possível…”
“Foi o espírito do lago…” murmurou a jovem, ele arregalou os olhos
“Ela?”
Raf assentiu “Ela…disse que o nosso amor era puro e que um amor destes não existe muitas vezes…por isso deve ser preservado…e então criou uma barreira protectora à nossa volta e protegeu-nos das chamas…”
“E-Estou a ver…”
“Sulfus…”
“Sim?”
“Eu lembro-me….lembro-me de tudo…o que aconteceu depois há 11 anos atrás depois do incêndio…”
“L-Lembraste? E…o que é que aconteceu…?”
“Depois da explosão, eu fui projectada para perto do rio…um sítio meio escondido onde ninguém me conseguia ver, eu bati com a cabeça numa pedra e desmaiei. Quando voltei a acordar, não me lembrava de nada e já não estava no mesmo sítio, estava encostada a algo macio e peludo, olhei e vi a fêmea Alfa que me tapava com a cauda dela para não ter frio e o corpo dela era como uma almofada, assustei-me e afastei-me dela mas então vi os outros todos. Quando tentei gritar, não consegui…então o espírito apareceu e disse-me apenas que agora estava a salvo mas que teria de lidar com a minha mudez, mas nunca me disse qual foi a causa…agora entendo qual foi…o trauma de ver os meus pais morrerem naquele incêndio…foi o suficiente para me tirar a voz…e passei o resto da minha vida com os lobos, até ao dia em que estava a passear pela floresta e vi o teu barco. Depois vi-te cair dentro d’água e desapareceres e…era como se o meu coração me dissesse que tu eras importante e que tinha de te salvar…por isso atirei-me para dentro d’água e levei-te até à superfície, mas o barco já estava longe, por isso levei-te até ao lugar onde tu então acordaste”
“Uau…incrível…” murmurou Sulfus
“Eu nunca me vou esquecer o que os lobos e o espírito fizeram por mim…acolheram-me quando eu não tinha mais ninguém, criaram-me como se eu fosse a sua própria filha…para mim, eles vão ser sempre a minha família, eu quero ficar contigo mas não me quero separar deles…” disse a jovem encostando a cabeça sobre o ombro do rapaz
Ele beijou-lhe a cabeça “Eu tenho a solução ideal para isso…”
TBC…
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