A Night Consequences
5 Other Day || Katniss
Notas iniciais

With her wine-stained lips,
Yeah she's nothing but trouble
Cold to the touch,
But she's warm as the devil
Gave her my heart
But she wanted my soul
She tasted a break and I can?
Get more
— Chains – Nick Jonas
Aplaudo a quinta dupla que termina de apresentar seu trabalho. Espero que o professor anuncie a dupla seguinte e levanto-me quando ele cita o nome do meu projeto e o de Clove. Deixo que a baixinha prepare no computador nosso slide, enquanto confiro, uma última vez, tudo que preciso falar em nossa apresentação num pequeno pedaço da folha de caderno.
— Hoje, Katniss e eu falaremos sobre o nosso projeto de fotografia — Clove diz, pondo-se ao meu lado. — A nossa ideia inicial era fazer com que as nossas fotos tivessem também potencial para entrar em qualquer propaganda. Seja ela um comercial, um folheto ou um vídeo promocional.
— Dito isso, nós duas reunimos as fotos mais simples e vimos o que cada uma delas poderia ter de diferente — o slide de um pacote de fraldas aparece atrás de nós. — Não é novidade que um pacote como esse apareceria num comercial voltado para mães que estão tendo ou esperando seus filhos. Mas o que nenhum desses comerciais diz é que cada unidade de fralda leva seiscentos anos para se decompor na natureza. Isso porquê o plástico existente nela é imune à umidade e a produtos químicos naturais.
— Agora imagine quantas fraldas um bebê usa até que ele tenha idade o suficiente para aprender a viver sem elas. São milhares e milhares até que isso aconteça — Clove diz. — Agora multiplique tudo isso por dez bebês, por cinquenta bebês e por um milhão de bebês. Não há natureza que aguente esperar tantos anos para decompor tanto uso assim.
— Algumas pesquisas foram feitas e descobrimos que alguns cientistas do estado de São Paulo no Brasil acharam uma maneira de fazer um plástico a partir de lixo de usinas de açúcar e fábricas de suco, o que acaba tornando o plástico feito de material reutilizado, a favor da natureza e que se degrada em seis meses — pontuo, deixando todos da sala surpresos. — Se alguma empresa investisse em pesquisas para saber se é possível usar esse plástico em fraldas, a marca seria reconhecida mundialmente.
— Então, além de ser uma marca que mostra o quão a favor do meio ambiente pode ser e o quão diferente e inovador é, poderiam fazer comercial de pacote de fraldas comum, como a da foto, ser também uma maneira de mostrar que todo o plástico usado se transformaria em adubo em pouco tempo.
Sorrio feliz pela reação positiva de nosso professor. Desde que ele anunciou o projeto de fotografia, fiquei entediada. A meu ver não existem coisas hiperlegais e diferentes que possam ser feitas num projeto para uma matéria dessas, acabei quebrando minha cabeça desde então com Clove para que encontrássemos algum jeito do nosso projeto se diferenciar dos outros de maneira surpreendente.
Até os alunos já estão cansados de ver tantas fotos de paisagens bonitas que depois se transformam em fotos de lixões nojentos em preto e branco que, teoricamente, te fazem repensar no quão podre o ser humano pode ser para conseguir acabar com as coisas mais belas que o Mundo tem.
É um cliché que todos pensam em usar, um dos primeiros que passa pela cabeça das pessoas também.
Não na nossa.
A primeira coisa que pesquisamos foi sobre fraldas, porque é tudo em que meu subconsciente consegue pensar. Depois disso a ideia foi evoluindo e conseguimos terminar o projeto em uma semana sem nenhum tipo de trabalho ou problema durante as pesquisas. Nunca pensei que conseguiríamos ter uma evolução e um aprofundamento tão grande numa matéria como fotografia. É exatamente por termos esse olhar mais profundo diante das coisas que me sinto muito satisfeita em ter escolhido essa faculdade. É incrível.
— Está tudo bem? — Clove me pergunta baixinho quando respiro fundo.
— É só um enjoo — respondo-lhe, sem muita certeza.
Agora com dez semanas, tem tudo ficado muito mais complicado. Passei a usar camisas um pouco mais folgadas, pois sinto que aparentemente já dá para perceber que algo está diferente em mim, mesmo minha mãe e Clove dizendo que não. Consegui manter o peso como a doutora Daisy pediu, mas a vontade constante de fazer xixi surpreende até a mim.
Clove termina de apresentar nossa pequena discussão sobre onde mais os sabonetes de glicerina podem ser utilizados que não em crianças e quando nosso professor vai fazer alguma pergunta não me aguento. Corro da sala de aula e saio em disparada para o banheiro feminino mais próximo. Não tenho tempo de ver se as cabines estão vazias ou ocupadas, viro-me para a pia e coloco todo o café da manhã para fora. Todo o iogurte, toda a granola… eca!
O sinal bate quando estou passando água gelada por meu rosto e nuca. Alguém abre a porta do banheiro e vejo Clove aparecer preocupada.
— Isso é horrível, não?
Ela acaricia minhas costas.
— Nada melhor do que começar o dia vomitando — ironizo.
— Tem certeza que vai trabalhar hoje?
— Clove eu não posso ficar faltando — encaro meu reflexo no espelho. — Sabe que esse emprego é a única garantia que eu tenho de que isso tudo vai dar certo. Além do mais — suspiro. —, o senhor Snow me ajuda muito, não posso fazer essa desfeita com ele.
— Trate logo de se recompor — ela manda. —, porque todos já estão desconfiando das coisas que estão acontecendo com você.
— Acha que eles vão descobrir? — pergunto-lhe, preocupada.
— Qualquer dia desses sim, Katniss, não tem como esconder.
Clove está certa como de costume. Minha gravidez de gêmeos vai ser nítida em poucas semanas e mesmo que eu queira, não tem como esconder nada de ninguém. Ainda mais por pretender seguir na faculdade até que eu não aguente mais a rotina puxada e seja obrigada a sair daqui para ficar em casa. Se bem que, por minhas contas, terminarei as aulas antes de chegar aos oito meses.
Ainda assim, odeio me sentir incapaz, mas não é como se eu tivesse escolha.
— Vamos sair daqui.
Puxo minha mochila de suas costas e a passo para meus ombros. Saímos juntas e evito olhar para qualquer objeto ou pessoa que esteja ao nosso redor, sentindo que os alunos e até professores me encaram e cochicham entre si.
— Preciso ficar para a aula — a baixinha diz ao meu lado.
— Desenho?
Ela concorda.
— Acho que vou passar na obstetra antes de ir trabalhar — aviso-lhe.
Cubro meus olhos pelos raios de sol que me atingem.
— Quer que eu vá com você?
— Não. Sei que essa aula optativa é importante — ela me encara firmemente. — Mas pode deixar que eu vou te mandar mensagem caso precise de ajuda.
Clove para na minha frente.
A maioria dos alunos já se deslocou para o portão de saída, e mesmo que alguns ainda estejam olhando para nós duas, a maioria deles já nem liga mais.
— Sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, não é?
— Claro que sim, Docinho, pode ficar calma que a Lindinha aqui sabe que pode correr para você sempre que precisar.
Ela sorri para mim, bem mais tranquila dessa vez. Sei que usar esses apelidos que nos remetem às Meninas Super Poderosas é infantil, mas nunca nos negamos a assistir esse desenho quando ele passa em algum canal esquecido pelas crianças de hoje em dia. Até porque, Clove se parece mesmo com a Docinho com esse cabelo preto liso, a cara emburrada e o jeito marrento de ser. As aparências enganam. Ela é a pessoa mais amorosa e linda de todos os tempos.
Eu não seria nada sem ela e nem tenho medo de dizer isso em voz alta.
Seu ego aumentaria sem dúvidas, porém sei que represento para ela tudo que ela representa para mim. Somos como o símbolo do infinito, não se sabe onde começa e nem onde termina.
— Promete? — ela pergunta, levantando o mindinho.
— Prometo — respondo, cruzando o meu no dela.
Nosso pacto é das antigas e ainda assim inquebrável.
¬¬¬
— Boa tarde, Katniss — Daisy sorri.
Entro em sua sala e dou-lhe os devido cumprimentos. Conforme o passar das semanas, fomos criando mais intimidade uma com a outra, acabei contando-lhe minha situação com o pai dos meus bebês e ela me disse que a menina negra dos cabelos enrolados que a abraça na foto do porta retrato de sua mesa é sua filha. A mãe biológica da menina morreu no parto e por ser mãe solteira, não havia mais ninguém para ficar com a criança, nem mesmo a família. Sendo assim, ela recorreu à justiça e conseguiu adotá-la em menos de um mês.
Uma linda história que só fez com que Daisy ficasse mais feliz ainda com sua vida.
— Desculpe vir aqui sem estar com uma consulta marcada para hoje, mas eu preciso mesmo de ajuda — bufo, soltando meu corpo na maca.
— Diga-me o que está acontecendo — ela pede, aparentemente preocupada.
— Eu tenho estado muito enjoada esses dias. Parece que nada consegue ficar quieto no meu estômago, sem contar que meus seios parecem que vão explodir — toco neles por cima da camisa. — E não sei se é algo da minha cabeça, mas eu, com certeza, vejo uma barriga que não tinha semanas atrás.
— Muito bem — ela ri. —, vamos por partes, uma coisa de cada vez.
— Por favor.
— Sobre os enjoos primeiro. Existem muitas técnicas que funcionam, você precisa testá-las para saber qual funciona contigo e qual não. Eu recomendo que você tome um pouco de chá de gengibre e coma barrinhas de granola. Algumas pessoas dizem que comer um pouco de biscoito de água e sal antes mesmo de levantar, ajuda. Então deixe o pacote ao lado da cama junto de uma toalha úmida, para, caso você se sinta meio mal, colocá-la sobre a testa ou olhos para relaxar um pouco.
— O que mais? — lhe pergunto, anotando tudo em minha mente atormentada.
— Evite, principalmente, duas coisas: deixar o estômago muito cheio e vazio demais.
— Ah, ótimo — reviro os olhos.
Ela ri.
— Sobre seus seios, não tem jeito. Você continuará vendo eles aumentarem. A única coisa que posso te indicar é que renove sua gaveta de sutiãs.
— Entendo.
Que merda, não estava preparada para gastar com roupas íntimas novas, elas conseguem ser bem caras quando os fabricantes e as lojas querem.
— Levante a camisa para que eu possa ver sua barriga — ergo-a até a barra chegar próximo ao meu pescoço, deixo o corpo ereto para que ela consigo ver o que eu vejo, mesmo que eu precise criar alguma ilusão de ótica para isso. — Nós, sem dúvida, temos uma barriguinha já formada aqui. Serão bebês grandinhos.
Olho para baixo e sorrio com a sua confirmação.
— Então eu não estou louca.
— Claro que não, Katniss — ela me encara. — Isso se chama instinto materno. Você está completamente certa no que disse.
Neste exato momento parece que eu nasci para isso, porém quando paro para pensar um único milésimo, percebo uma coisa: tudo já começou a mudar. Meu corpo, meu humor, minhas medidas, minhas roupas e toda a minha vida. Nada mais será o mesmo.
Nunca!
Por isso, quando estou saindo de seu consultório, viro-me para ela e pergunto:
— Algum conselho para me dar enquanto a próxima consulta não chega?
Ela afirma com a cabeça com uma parte de seu cabelo fino caindo de seu penteado.
— Se acalme e não se estresse.
Bom, isso é, definitivamente, impossível quando se trata sobre o cotidiano de Katniss Everdeen.
¬¬¬
— Fico muito feliz por não ter que aplicar-lhe mais um sermão, Doce Katniss — senhor Snow lembra, deixando-se apoiar na minha cadeira pelos cotovelos. — Quantas vezes já foi preciso que eu dissesse que agora você só trabalha sentada?
— Sabe que não faço por mal — garanto, encarando-o. — É que este não é exatamente o meu emprego e a menina que teve que sair do caixa deve estar possessa comigo.
Ele revira os olhos.
— Ela entende o porquê de eu ter trocado a função das duas e cá entre nós — ele se aproxima. — Se estiver incomodada, a porta está bem ali.
Gargalhamos juntos. O espírito livre do senhor Snow, mesmo depois do que aconteceu a ele em anos anteriores, é a melhor coisa que pode existir. Deixa o dia de todos muito mais leve.
— Você é incrível.
— Já me disseram isso, querida, acredite.
— Não tenho dúvidas.
Estou sorrindo para ele, mas assim que percebo que seu corpo fica tenso, meu sorriso se esvai. Madge está entrando em nossa loja e isso não podia ser mais aterrorizante.
E se Peeta disse para ela que engravidou alguém? E se ele disse que foi a mim? E se ela estiver com raiva e está aqui para descontar sua fúria na mãe dos filhos do seu namorado?
Merda, merda, merda. Este momento é uma grande montanha de merda.
A observamos entrar na loja e escolher tudo que precisa. Um engradado de Guinness – provavelmente para Peeta – alguns pacotes de salgadinho e, por fim, uma embalagem de cigarro. Desde quando a patricinha fuma? E se o faz, é bem escondido de seus pais.
Quando ela se aproxima vejo que a embalagem é a do Benson & Hedges Menthol. Com certeza não é para ela, este é bem forte, faz muita fumaça, não é recomendado para iniciantes e muito menos para mulherzinhas, apesar de que, como o nome já diz, tem sabor de menta. Específico para mulheres como a Madge, acho que o Sampoerna A Menthol está mais incluso em sua categoria refinada, além da fumaça relativamente cheirosa, o gosto de cravo e menta que fica nos lábios deve ser convidativo para quem aprecia cigarros.
Não que eu entenda tudo de cigarro, óbvio. Mas já li muito as embalagens enquanto refazia o estoque da loja.
— Boa tarde — Snow diz para ela, que ignora o que lhe foi dito.
Seco minhas mãos suadas em minha jardineira e começo a passar suas compras pela máquina que detecta o código de barras e nos mostra o preço. Ela não fala nada, mas me encara nos olhos sem diminuir a intensidade nem por um segundo. Nem consigo respirar direito com isso acontecendo.
Snow não sai de trás de mim, agradeço por isso. Parece que nós três explodiremos num estalar de dedos.
Se Madge soubesse de alguma coisa ela já teria arrancado meus cabelos, não teria?
— Essa foi por pouco — suspiro aliviada assim que ela vai embora, sem nem mesmo ter trocado uma sílaba comigo.
— Pelo jeito ela não sabe de nada — senhor Snow comenta. — A pergunta agora é: isso é bom ou ruim?
Molho os lábios com a ponta da língua.
— Eu não sei.
— Eu também não, Doce Katniss — ele acaricia meu ombro. — Eu também não…
¬¬¬
Quando fecho a loja, vejo o último ônibus da noite atravessar o cruzamento. Tentei de todo jeito não demorar muito para sair da loja, porém um último caso passou mais tempo do que o esperado escolhendo algumas tiras de chicletes.
Resultado? Preciso ir caminhando para casa no escuro e no vazio das ruas.
Excelente.
Respiro fundo, coloco as mãos no bolso da jardineira e sigo em frente. Não tem outro ônibus que me leve até em casa, então não tenho escolha.
Claro que eu venho caminhando de casa até o trabalho de segunda a quinta-feira, mas não ouso fazer isso de noite. Denver fica perigoso assim que o sol se põe.
Quando completo um terço de passos necessários para chegar em casa, um carro preto se aproxima e diminui a velocidade, ficando ao meu lado, seguindo-me por uns segundos. Meu coração gela e para.
Deus, por favor, não. A janela do carro é aberta e escuto:
— Como vai, Cereja?
Reviro os olhos. Peeta.
Meu coração se acalma e volta a bater normalmente.
— O que você quer? — pergunto, mas não paro de andar. Ele, consequentemente, não para de me acompanhar.
— Deixe de ignorância, Cereja, assim você me magoa.
Deixo as mãos em meus bolsos. Nem ouso olhá-lo, mas com minha visão periférica percebo que ele está lindamente vestido com uma de suas blusas casuais, o nome de algum time de basquete estampado na frente. Ele controla o carro usando apenas a mão esquerda, seu braço apoiado na janela e seus dedos, indicador e médio, movendo o volante apenas quando preciso.
— Como se dentro do seu corpo houvesse um coração para se magoar.
Ele ri, teatralmente ofendido.
— Do jeito que me trata, Cereja, não há porque você não deixa.
Continuo andando, tentando não ligar para ele, porém sei que é impossível. Peeta nunca desiste. Ele me pergunta o que estou fazendo sozinha a esta hora na rua, primeiramente não respondo, pois não é da conta dele o que faço ou deixo de fazer, mas quando ele questiona mais uma vez, respondo logo para que não continue me enchendo e vá logo para sua casa. Estou longe da minha, mas ele está triplamente mais distante da sua.
— Perdi o ônibus. Agora preciso ir andando.
Paro em frente a um prédio de sete andares e olho bem para os portões da garagem a fim de saber se tem algum carro para entrar ou sair antes de voltar a caminhar.
— Entra no carro. Eu te levo, Cereja.
Ouço ele batendo a palma da mão no banco ao lado do seu e bufo irritada.
— Primeiro: pare de me chamar assim. Segundo: não confio em você no volante essa hora da noite — confesso sem papas na língua nem enrolação. Meus pés doem por estarem inchados dentro do tênis, minhas costas estão doloridas pelas horas que passei sentada no trabalho, mas não vou me arriscar, entrando nesse carro com ele.
— Porque não?
— Sério? — mordo o interior da bochecha. — Sua namorada comprou cervejas e cigarros para você mais cedo. Quem me garante que você está sóbrio o suficiente para cuidar de mais três vidas?
Ele fica em silêncio, mas volta a falar:
— Como sabe que o que ela comprou foi para mim?
Atravesso de uma calçada para a outra. As ruas desertas me assustam e, estranhamente, a companhia de Peeta não deixa que eu enlouqueça aqui.
— Sinceramente, Madge não tem cara de quem aguenta um engradado de Guinness, muito menos a cara de quem carrega um pacote de Benson & Hedges no bolso da calça de quinhentos dólares — digo-lhe. — Ou ela levou o que comprou para o Hawthorne ou tudo isso foi parar na sua corrente sanguínea e nos seus pulmões.
— Certo, Miss Óbvia. Pode ser de sua escolha ir andando mais três ou quatro quilômetros por puro capricho, mas não pode me impedir de ir te acompanhando.
— Não se trata apenas de mim, Peeta.
— Eu sei — ele afirma, agarrando o volante com as duas mãos dessa vez. — E é por isso que só saio do seu lado quando estivermos em sua casa.
Não dissemos mais nada durante todo o caminho. Cheguei em casa destruída e cheia de dor, porém Peeta fez o que disse e só foi embora quando eu tranquei minha porta. Sem obrigada e sem boa noite, porém foi o gesto mais gentil que ele já fez por mim e pelos filhos.
Não tem como ignorar.
Assim que me reúno com minha mãe, já estou de banho tomado e estômago parcialmente cheio. Conto para ela sobre a consulta de última hora que fiz e ela já prepara todas as dicas que a doutora Daisy me deu pela tarde. Desde o chá até a toalhinha.
— Acho que você deve mesmo trocar de sutiã, Katniss, olha só essas marcas nos seus ombros — ela aponta, acariciando com os dedos a parte toda vermelha que vai do meio das costas até a parte de baixo dos meus seios.
— Não posso comprar nada para mim nesse fim de mês.
Ela bufa pelo nariz. Sei que se irrita por eu não estar gastando devidamente comigo. Só que eu não desisti de juntar dinheiro para gastar com os meus filhos, eles vem em primeiro lugar. Não importa a necessidade.
— Então mande uma mensagem para Clove e veja se ela tem algum que possa te dar. Nunca vi uma baixinha com tanto volume nos seios como ela. Vai saber — ela sugere, levantando-se da minha cama e beijando minha testa. — Boa noite, querida.
— Boa noite, mãe.
Perco algum tempo da noite pensando sobre isso e noto que não posso fugir. Continuar com os meus está me matando, então mando uma mensagem para Clove e em menos de dois segundos ela responde.
~Claro que sim, Katniss. Tenho dois aqui, amanhã os levo para você. Não pense duas vezes antes de me pedir alguma coisa! Sabe que estou aqui para lhe servir ;)
Sorrio e respondo com um agradecimento. Clove, como sempre, está disposta a fazer seu papel de anjo na Terra. Ela está sempre cuidando de mim.
Antes de dormir, levanto-me para ir ao banheiro e depois de esvaziar minha bexiga cheia – um dilema complicado da gravidez – fico em pé de frente para o espelho. Levanto minha camisola fina até a base de meus seios soltos e encaro minha barriga. Ela já está evidente. Daisy confirmou.
A acaricio pela primeira vez. Sem pressa, sem pressão, sem medo.
Sorrio.
É mágico.
Pela primeira vez, não me sinto ansiosa ou estressada pelo estado em que me encontro. Parece certo, parece que o destino, finalmente, entrou nos trilhos e está deixando tudo bem.
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