Notas iniciais
Boa tarde, picochoooooos. Antes de tudo queria agradecer às duas lindezas que recomendaram ANC. A Nadi (que veio do Wattpad) e a Luly (que faz os lindos banners que vocês veem aqui). Obrigada, princesas ♥ Booooom, AVISO que estamos entrando na SEGUNDA FASE da história, então tem muita novidade, muitas diquinhas pequenas do futuro, muita emoção a caminho, por isso peço que se preparem, okay? É isso, BOA LEITURA ♥

Think about
Walking out
Leaving the familiar
Eager now to try something new
By yourself
No-one else
These are your decisions
I won’t try to change your view

– Undecided – Morten Harket

— Katniss — alguém chama, balançando meu corpo para frente e para trás. — Querida, acorde.

— Ainda é cedo — resmungo, encolhendo-me como uma gatinha em baixo da coberta.

— Não, são onze e meia e eu preciso que atenda o telefone.

Abro os olhos e encaro minha mãe. Sinto que não dormi nada e tenho certeza de que estou com o rosto todo inchado e marcado pelo travesseiro. Estou cansada. Com dezesseis semanas tenho a confirmação de que espero duas meninas, tenho a barriga já redonda e muito sono. Muito mesmo.

— Quem é? — pergunto baixo, vendo que o telefone residencial preto está em suas mãos.

— A senhora Mellark.

Tusso forte e forço a garganta para não perder a voz e não deixá-la transparecer o quão sonolenta estou.

— Bom dia, Effie.

— Bom dia, querida, estava dormindo, não é? Sinto muito em ter lhe acordado — ela se desculpa, sonoramente arrependida.

— Não, tudo bem — viro-me para cima e observo o teto, escondendo meus olhos do clarão do quarto assim que minha mãe começa a abrir as cortinas. — Já estava na hora de levantar mesmo.

— Eu liguei para te perguntar se você e sua mãe possuem algum compromisso no horário do almoço.

Penso um pouco. Definitivamente não.

Nossos domingos são livres de tudo e qualquer coisa e também não é como se fossemos uma família com a necessidade de agenda para anotar todos os compromissos. Quase não os temos.

— Não. Estamos livres.

— Excelente! — ela comemora, posso até imaginá-la batendo pequenas palmas. — Então se arrumem que em trinta minutos o nosso motorista passará em sua casa para buscá-las. Organizei um almoço para a família.

Óbvio que eles têm um motorista e que ela organizou o almoço. Mas o que o almoço pode ter demais para precisar ser organizado? Não é um evento que necessita de planejamento.

— Ah, claro. Tudo bem.

— Ótimo. Vejo vocês logo, logo.

— Até daqui a pouco.

Sento-me na cama e bocejo, estico todo o meu corpo e solto barulho estranhos quando espreguiço minhas costas.

— Vai sair? — minha mãe pergunta.

— Sim. Almoço na casa da família Mellark — respondo e deixo meus ombros caírem. — Vai ser tão estranho.

— Você faz parte daquela família agora, Katniss. Uma hora ou outra eles pediriam para te conhecer melhor. Esse mês foi um pouco louco, por você estar em recuperação do acidente e tendo aulas imensas na faculdade — ela ri. — Hoje você não escapa deles.

— Nem eu e nem você — ela enruga a testa. — Vamos juntas.

— Sério?

— Sério — sorrio. — Vamos, arrume-se. Em poucos minutos o motorista deles estará em nossa porta para nos levar até lá.

Ao passo em que minha mãe corre para procurar alguma roupa que ela julgue ser boa o suficiente para um almoço com uma das melhores família da cidade, eu levanto-me com calma e deixo meu corpo relaxar em baixo da água morna do chuveiro. Se fosse quente, eu dormiria no box, se fosse fria, eu molharia parte por parte do meu corpo. Está calor, mas o chuveiro parece ter apenas três temperaturas: polo norte, normal e vulcânico.

Melhor continuar no meio.

Não lavo meu cabelo, deixo ele ficar mais um pouco na trança até que eu precise soltá-lo para me arrumar. Seco-me com tranquilidade e procuro por uma roupa com a toalha branca ainda enrolada em mim. Encontro um vestido de fundo rosa claro e estampa floral que nunca usei, ele sempre foi largo demais e acho que agora estará na medida senão perfeito. Já tenho barriga, então não saberei se não o vestir.

Analiso minhas roupas íntimas e cato entre elas um dos sutiãs que Clove me deu. O branco sustenta meus novos seios com maestria. Escolho uma sapatilha de ponta arredondada coberta de paetês dourados e a deixo junto do vestido.

— Querida, o que acha dessas aqui? — minha mãe pergunta esbaforida, segurando sete roupas ainda penduradas em cabides.

— Mãe, preste atenção — peço-lhe, vendo ela se apreender. —, pare de se importar com que roupa você vai vestir. Escolha o que vai te fazer sentir confortável, a família Mellark sabe que não somos como eles, então porque se importa em agradá-los?

— Katniss, sabe que causar uma primeira boa impressão é fundamental.

— A primeira impressão que eles tiveram de nós foi no dia em que você correu até a casa deles para contar que eu estou grávida — relembro e ela respira fundo. — Não há mais impressão nenhuma para se ter. Esqueça isso.

— Tudo bem — ela se rende. — Mas se eu acabar te constrangendo na frente deles a culpa será unicamente sua.

— Confio no seu gosto — pisco brincalhona e ela se vira bufando. — Eu te amo!

— Claro que ama, sou sua mãe! — ela grita. Sento-me na cama e procuro pela caixa de papelão colorida em que guardo minhas maquiagens. — Também te amo, querida.

Aplico um pouco de corretivo abaixo dos olhos, pó por todo o rosto e dou leves batidas de blush coral em minhas bochechas com um pincel gasto. Perco tempo decidindo se faço um delineado preto em meus olhos ou não, porém lembro-me que não tenho o poder da precisão que Clove possui, então provavelmente começarei a aumentar cada vez mais o traço e acabarei tirando tudo com raiva por não ter conseguido concluir a maquiagem.

Melhor deixar para lá.

Quando acabo de aplicar o rímel, ponho o vestido e ele fica incrível. As alças largas cobrem quase que completamente meus ombros, o tecido valoriza meus seios e adorna lindamente minha barriga, deixando-a super aparente e, por fim, a parte de baixo é rodada, o que deixa a leve impressão de que são ondas em movimento quase em meus joelhos.

Desfaço minha trança e solto meus cabelos. Meus fios estão lisos em cima e vão ganhando uma marcação ondulado leve do meio para o final. Se assemelha ao efeito babyliss quando está quase saindo do cabelo.

— Estou pronta — escuto mamãe avisar. — Nossa. Você… está linda, querida.

Termino de calçar as sapatilhas e levanto-me, também pronta.

— Muito obrigada — agradeço e analiso a roupa que ela escolheu para usar. Com certeza tinha algumas coisas guardadas em segredo em seu armário. — Você está incrível.

— Uma vez ou outra a gente faz um esforço — ela ri, sem graça.

Puxo-a para se sentar em minha cama desarrumada e passo um pouco de pó, blush e rímel em seu rosto maduro e em seus cílios.

Quando aviso que terminei, aprecio seu pacote completo. Uma calça de cintura alta bege, blusa fina de botões e mangas pretas que foram puxadas até a altura dos cotovelos, o cabelo meio-claro solto e liso, salto estilo anabela preto com detalhe no tornozelo e enfim um par de brincos dourados.

Decido até colocar um brinco pequeno também para complementar as minhas escolhas de visual.

A campainha soa e meu peito treme. Não sabia que estou tão nervosa para esse almoço.

O que esperar dele? Fico me perguntando durante todo o caminho até a casa deles, porque realmente não tenho nenhuma ideia do que pode acontecer. Será que o Peeta que estará lá é o que me chama de Cereja ou o que me chama de Katniss? Será o completo imbecil que namora a Madge ou o gentil que não se conforma com o que a namorada fez comigo? Será o lado ruim ou bom do transtorno bipolar que o adorna?

— Obrigada.

— Não por isso, senhorita — o motorista bem-vestido responde ao pararmos em frente a casa dos seus patrões.

Respiro fundo. A casa é muito bonita, o que já era de se esperar, porém possui um design retangular quase que dividido em duas partes. Na frente, um jardim pequeno e de pequenas plantas verdes acima da grama bem aparada, uma garagem aberta com dois carros e tudo de vidro e algumas paredes de pedras. Até mesmo as duas varandas de cima são adornadas por vidro, o que me surpreende, já que com o humor incoerente de Peeta, uma hora ele pode estar querendo quebrar tudo e na outra consertar o que foi destruído.

Os fundos da casa devem ter uma boa piscina e uma ala para festas ou churrascos, já que no verão quase ninguém se aguenta na cidade e viaja para outros cantos do país. O que eles também devem estar acostumados a fazer.

Em geral, tem o tipo clean da Effie, parece espaçoso e ainda assim muito moderno.

— Preparada? — mamãe pergunta, abraçando minhas costas.

— Não faço ideia.

Assim que finalizo minha sentença a porta branca de três metros de altura se abre e uma Effie animada e arrumada nos recebe. Ela pede para que entremos em sua casa e abraça minha mãe sorridentemente antes de virar-se e medir-me de cima a baixo por um longo tempo.

— Querida, eu… nossa, você… — ela gagueja. Isso é muito louco.

— Está sensacional — Haymitch diz, aparecendo de repente, mas roubando da esposa todas as palavras que ela não conseguiu dizer.

— Isso mesmo — Effie sorri. — Veja só essa barriguinha linda. Posso tocar?

Passo uma mecha de cabelo para trás da orelha. Ninguém nunca acariciou minha barriga.

— Pode.

E então uma sessão de carícias começa. Primeiramente Effie, depois Haymitch e minha mãe. Quando eles acabam até eu paro para deixar meus dedos deslizarem de um lado para o outro em cima da minha barriga. Parece uma demonstração de amor e proteção em forma de carinho.

— Depois que fiquei doente ninguém mais me chama para festas. Desde quando me tornei uma qualquer?

Olho para trás e me assusto.

Uma senhorinha magrinha e de cabelos brancos como nuvens, vem até nós sentada numa cadeira de rodas motorizada, guiada por suas mãos enrugadas. Quem é ela?

— Mamãe, o que eu disse sobre ser grossa quando estamos com visitas? — Effie indaga, quase colocando a mão sobre a cintura.

É a avó de Peeta. Porque é que ninguém fala sobre ele ter uma avó?

— Não ouse me ensinar nada, Effie, os papéis aqui são inversos — ela resmunga, chegando mais perto de nós. — E você, querida — ela me olha. —, tudo bem?

— Sim e a senhora?

— Oh, não — ela balança a cabeça. — Mags. Sou tão jovem quanto você.

— Aposto que sim — afirmo.

— Mãe, essa é a Katniss. Ela está grávida de gêmeos — Effie explica.

Ela mexe a cabeça.

— Imaginei que essa bela barriga não fosse de gordura — e logo em seguida faz uma careta horrorizada. — Quem foi que a engravidou? Não foi você, né Haymitch?

— Mamãe! — Effie bate o pé no chão. Haymitch nem ao menos se mexe, ele parece já ter se acostumado com coisas assim. — Pare de implicar com o meu marido!

Mags se dá por vencida e sai da sala devagar. Estranho, muito estranho.

— Sinto muito, minha mãe passa dos limites as vezes —Effie desculpa-se.

— Tudo bem, não se preocupe — minha mãe diz para ela e eu apenas balanço a cabeça em concordância.

Ao tempo em que Effie e Haymitch decidem apresentar os cômodos mais importantes e relevantes da casa para nós duas, a porta de entrada é aberta com a maior força bruta de todos os tempos. Peeta. Ele entra correndo com a blusa cinza toda manchada de… sangue?

— Peeta! O que foi isso?

Haymitch sai perguntando e segurando os braços do filho. Levo a mão a boca quando vejo o grande corte no supercílio dele, é tão grande que o sangue escorre e pinga em sua roupa.

— Não, enche! — Peeta grita, soltando-se do aperto do pai.

— Quem foi que fez isso com você? — o pai retorna a perguntar.

— Quem você acha? Claro que a Madge.

— Eu já pedi para ficar longe dela e mesmo assim você insiste!

— Pai! Eu não quero saber disso, valeu?

Observo bem o ferimento em Peeta. O supercílio sangra, mas há também um machucado na ponta direita da testa, próximo a raiz do cabelo, que acaba fazendo o sangue se misturar ao corte do supercílio e manchar todo o seu rosto, queixo, pescoço e enfim a blusa suja.

— Para, para! — grito, parando a briga que pai e filho estavam prestes a começar. Caminho até Peeta e seguro seu queixo, movendo sua cabeça em diferentes direções para que eu possa ver melhor o ferimento. — Meu Deus, precisa limpar isso aqui o mais rápido possível antes que infeccione.

— Katniss…

— Cale a boca e senta! — ordeno, empurrando-o num sofá. — Vocês têm algum kit de primeiro socorros?

— Temos, espere aqui! — Effie anuncia, correndo atrás do kit que lhe pedi.

Tiro as sapatilhas dos pés e me sento ao lado de Peeta. Jogo seu cabelo loiro todo para trás para que nada atrapalhe a limpeza do machucado. Retorço a boca quando tento ver por baixo do sangue se o corte foi fundo, pois, caso seja, precisaremos levá-lo para o hospital e assim ele levará os devidos pontos.

— Vai cuidar de mim, Cereja? — ele pergunta com a cabeça apoiada no estofado e um dos braços ao redor de minhas costas, o que deixa minha barriga grande quase encostada na sua, como se estivesse sendo protegida.

— Preciso fazer isso. Te devo uma, lembra?

— Alguma coisa me diz que não é por isso.

Suspiro e encaro seus olhos azuis brilhantes que parecem conseguir desvendar todos os segredos que nem eu sei que possuo. Mordo meus lábios e ele aperta minha cintura quase que numa reação instantânea.

— Você não costuma pensar muito, na verdade. Descanse seu cérebro antes que ele acabe pifando.

Ele ri, mas continua parado. O que me deixa satisfeita. Effie chega com a maleta laranja, está desesperada em ver o filho meio que coberto de sangue, mas peço para que ela se sente e se acalme.

Abro a maleta e, primeiramente, esfrego minhas mãos com um pouco de álcool em gel, para não deixar a possibilidade de infeccionar a ferida de Peeta com algo que esteja em mim.

Acho um pano limpo dentro da maleta e o dobro em diversas partes até que consiga cobrir unicamente os dois machucados. Pressiono por uns dois ou três minutos e levanto para ver se continua sangrando, parece que diminuiu, então dobro o pano mais uma vez e pressiono para começar a limpar.

— Não vai precisar levar ponto — conto-lhe vento que o corte no supercílio é, na verdade, um corte sem importância. Não é profundo, só largo. — Deu sorte. Está mais para uma escoriação, nos dois lugares.

— Aposto que gostaria de me ver sendo costurado — ele comenta baixinho.

— Você costuma me subestimar — respondo-lhe no mesmo tom.

Uso um algodão embebido em soro fisiológico para limpar tudo. Peeta faz umas caretas, mas eu não paro de tirar toda a sujeira e o sangue. Por fim, para não deixar nada exposto, uso um quadrado de gaze em cima de cada um dos machucados preso por duas fitinhas de esparadrapo.

— Prontinho. Tente trocar os curativos quando perceber que esses já não estão mais adiantando.

— Pode deixar — ele concorda.

O braço que nos unia acaba saindo de minha cintura. Tomo isso como um sinal e afasto-me dele. Desse jeito, Peeta toma a liberdade de se levantar e subir as escadas de mármore branco para tomar um banho e tirar todo o resquício de sangue de sua pele clara.

Na hora de nos sentarmos para comer Peeta senta-se ao lado de sua avó que parece nem sentir a presença dele ao seu lado, mesmo que em um momento ou outro ele precise ajudá-la a se alimentar.

É suspeito. Peeta tem deboche exalando em seus poros porta a fora, mas ao lado de Mags, ele parece precisar abaixar a cabeça com medo de que ela diga alguma coisa que vá machucá-lo. Mais cedo, Mags disse algo sobre estar doente. Que tipo de doença é essa que deixa Peeta tão submisso à avó?

Depois da sobremesa – esta que continha uma cereja em cima, o que causou um risinho bobo por parte do Peeta – ele olha para mim e pede:

— Katniss, você pode vir aqui comigo rapidinho.

— Claro — respondo, já levantando da cadeira.

Sigo-o para fora da sala de jantar e acompanho-o até o segundo andar, segurando-me firmemente no corrimão quando estamos na escada. Não deixo de reparar nos quadros de pinta abstrata colocadas nas paredes, porém quando Peeta para e abre uma porta, não consigo me concentrar em mais nada.

É um quarto. O cheiro de Peeta está bem presente no espaço, mas ao contrário do que achei que fosse encontrar – sendo pôsteres de mulheres nuas, garrafas de cerveja vazias, filtros de cigarros jogados ou qualquer coisa deste gênero – só vejo um lugar arrumado e um monte de protótipos de robôs mecanizados.

— Esse quarto é seu?

— É — ele ri. — Surpresa?

— Eu… Sim — confesso. Ele abre uma gaveta grande de sua escrivaninha. — O que é que você estuda na faculdade?

— Robótica — ele responde de costas pra mim.

Está explicado.

— Então você é tipo que um gênio da matemática — sugiro, sentando-me em sua cama arrumada. Deixo um dos quatro travesseiros em minhas costas e me ajeito no meio do colchão.

— Mais ou menos isso — ele afirma, colocando algumas sacolas em cima da cama, perto dos meus pés inchados. — Até porque estudar robótica, engenharia de controle e automação tudo junto não é para qualquer um.

— Certo, senhor inteligência. Qual o seu projeto para o futuro então. Muitos protótipos — aponto para eles. —, precisa ter uma ideia de onde usá-los.

— Sabe que minha família tem uma empresa de tecnologia, não é?

Ele senta-se aos meus pés, deixando cinco sacolas coloridas entre nós dois.

— Quem não sabe?

— Eu estou tentando criar alguma espécie de robô que ajude cegos ou pessoas que baixa porcentagem de visão a se sentirem mais confiantes a andarem sozinhos, mas ainda não saí muito do papel, preciso testar e ver as condições em que pessoas assim vivem. Sem falar em consegui uma patente para o projeto — ele dá de ombros. — Ainda é um projeto limitado.

— É incrível. Espero que consiga.

Ele sorri.

— Obrigado. Quem sabe um dia.

E aqui está: o lado bom do bipolar Peeta Mellark.

— O que é que temos aqui? — questiono, apontando par as sacolas.

Ele respira nervoso.

— São para… para as meninas.

Arregalo os olhos. Não! Ele fez compras para as nossas filhas?

Apoio os cotovelos em minhas pernas e começo a abrir todas as sacolas com ele. Primeiro encontro duas caixinhas com um par de sapatinhos de linha cada: um cor de rosa e outro lilás. Coloco meus dedos dentro deles e sinto o quentinho que é criado por eles, vão ficar lindos nelas. A próxima sacola é de macacões brancos para a saída das bebês do hospital, a seguinte tem um vestidinho de joaninha e outro de borboleta e a quarta tem duas mantas com Everdeen Mellark bordado em roxo na base junto com um caderninho de nomes.

— Quando decidirmos os nomes, vou mandar bordar também — ele avisa quando eu passa a folhear o caderninho. — A quinta é a minha preferida. Abra.

Seguro a quinta sacola com a maior expectativa de todos os tempos. Puxo o embrulho e desenrolo o papel fino e fosco que enrola alguma coisa macia, quando consigo abrir vejo duas toquinhas coloridas: uma amarela quadrada e outra rosa triangular. Quando viro-as ao contrário não consigo controlar a risada. São toucas caracterizadas com os rostos do Bob Esponja e do Patrick! Genial.

— São lindas!

— Obrigado. Assim que as vi foi impossível não comprá-las.

Olho todos os presentes ao meu redor. Eu não comprei nada para as minhas filhas até o presente dia e Peeta, que aparentemente nunca se importou com elas até o dia em que sua namorada maníaca quase me matou, já as presenteou com as coisas mais lindas, fofas e significativas de todas. Me sinto um pouco mal por causa disso, mas também me sinto bem por ver que ele finalmente as aceitou com dele.

— Elas irão adorar, Peeta, sério mesmo.

Ele baixa a cabeça levemente e quando levanta estamos quase que com os rostos grudados um no outro. Peeta esfrega seu nariz no meu sutilmente, o ato me aquece e me arrepia, minhas pálpebras começam a tremer e meus sentidos se enebriam com o seu cheiro gostoso de homem.

— Tenho certeza que sim — ele sussurra.

O quarto some, os presentes somem e Peeta começa a se inclinar sobre mim, fazendo-me deitar na cama tão devagar que jamais imaginei ser possível. Assim que minha cabeça está nos travesseiros, ele coloca seus antebraços ao lado de minhas bochechas e as acaricia com o dedo.

Sua língua toca meu lábio inferior antes de qualquer coisa, ele atiça-me, deixa seu corpo sobre o meu e desenha meus lábios sem descolar o nariz do meu, quando me beija, parece que o planeta Terra explodiu. É sedento, matador de saudades, aquecedor de almas e um antídoto, como se estivesse me dando um gostinho do que aprontamos quatro meses atrás, porém muito melhor. Não estamos com bebidas em nossa corrente sanguínea, o que acaba por deixar tudo mais lúcido e real.

— Você nunca me decepciona, Cereja — ele garante antes de colocar sua língua em minha boca e deixar que tenhamos realmente um beijo.

Saboreio seu gosto, a maciez de seus lábios e o prazer de puxar-lhe os fios claros de cabelo que vão até o início de sua nuca. Porém nossas filhas, não familiarizadas com o a interação prazerosa de seus pais, acabam por manifestar-se dentro de mim. Inicialmente parece apenas algumas bolhas no estômago, mas são fortes e agitadas. Elas estão se mexendo.

— Peeta! — chamo, afastando minha boca da sua e arfando pela falta de ar. — Acho que elas estão se mexendo.

— O que? — ele entra em pânico.

— Elas estão se mexendo — sorrio. — É a primeira vez que isso acontece.

Ele olha para baixo antes de me perguntar:

— Posso tocar?

Confirmo sem ter muito o que dizer.

Peeta encosta em minha barriga, retraio-me pelo gesto, mas ele não desiste e espalma suas mãos grandes ao meu redor. As meninas se acalmam e ele sorri feliz, como se também estivesse sentindo o que elas podem fazer. Acaricio os cabelos dele e respiro fundo. Poderíamos passar o dia inteiro aqui, ele tendo essa interação com as filhas e eu apenas o observando esse momento histórico.

— Peeta, Katniss! Desçam, crianças, está na hora de se despedir!

O grito de Effie faz com que acordemos do sonho. Foi bom enquanto durou, mas ao mesmo tempo não posso prever quando algo mágico assim voltará a acontecer.

Ele se levanta e estende a mão para que eu faça o mesmo. Guardamos os presentes em suas devidas sacolas e ele me acompanha até o primeiro andar com a mão ainda na minha. Me despeço de Effie e Haymitch, mas Mags não está em lugar algum para que possa falar com ela também.

— Obrigada pelos presentes, Peeta, são muito especiais.

Ele me abraça. Minha mãe acena para ele e entra no mesmo carro que nos trouxe para cá. Viro-me para segui-la, mas um puxão em minha mão faz com que eu volte. Peeta segura meu rosto e beija de leve meus lábios antes de dizer:

— Vou ter ligar qualquer dia desses. Quero te levar a um lugar.

— Tudo bem — afirmo. — Até.

— Até, Katniss.

Quando consigo tirar minha roupa e voltar a deita em minha cama penso seriamente no quanto esse dia me deixou confusa.

Mags, Peeta, presentes, beijos…

O problema é que já não sei se o que aconteceu hoje foi real ou não. Não sei se esse Peeta é quem eu quero que seja ou se sua versão do mal foi completamente para o espaço, porém sei que não conheço tudo sobre Peeta Mellark. Ele pode ser uma pedra pronta para ser lapidada e descoberta, um pouco de barro pronto para se transformar num lindo vaso.

Contudo, pode ser também uma espécie de furacão Katrina pronto para a devastação de qualquer coisa que jurei ser verdadeira, um terremoto de escala sete que pode abalar toda e qualquer estrutura que montei ao meu redor. Não há dúvidas de que estar perto de Peeta é estar perto do desconhecido e, teoricamente, de Madge, mas também não há nenhuma chance de estar longe dele ou fazê-lo ficar longe de mim. Não é o que eu quero, não é o que minhas filhas precisam…

Talvez seja primordial estar ao seu lado para aprender a conviver e saber o que fazer em situações como esta em que me encontro agora, pois o que aprendi sobre Peeta até o exato instante é que não há nenhuma garantia. Ele tem uma personalidade bipolar e nunca se sabe se está em um dia bom ou ruim.

Seria muito mais simples se ele fosse fácil de ler e entender. Infelizmente ele é o cara de exatas e não de humanas como eu. Peeta pode fazer cálculos para encontrar a fórmula que lhe explique como eu funciono, mas ele não é uma oração onde eu possa dizer se o sujeito é simples ou composto, existente ou desinencial.

Ele me tem nas mãos a hora que quiser.

Notas finais
Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=xm_pUBPjYTc Link do grupo no facebook (fanfics): https://www.facebook.com/groups/ProjetosCarolDantas Link do grupo no facebook (originais): https://www.facebook.com/groups/RomancesCarolDantas Link da versão original no Wattpad: https://www.wattpad.com/story/56451669-consequ%C3%AAncias-de-uma-noite Byyyy the way, algumas coisas foram jogadas aí no ar, vamos ver como vocês lidam com isso. Grande beijo. Até sábado que vem