A Night Consequences
7 Hospital || Katniss
Notas iniciais

You gotta go and get angry
At all of my honesty
You know I try
But I don't do too well with apologies
I hope I don't run out of time
Could someone call a referee?
Cause I just need one more shot at forgiveness
I know you know that I made those mistakes
Maybe once or twice
— Sorry – Justin Bieber
~Já estou te esperando em frente a padaria. Venha rápido. Estou considerando comprar um dos sonhos da vitrine O_O
Gargalho alto. Quando completei onze semanas Clove inventou que tinha que entrar numa dieta louca de sem glúten, sem lactose e sem açúcar. Juro que duvidei muito que ela fosse conseguir ficar longe de doces por mais de vinte e quatro horas, mas fiz doze semanas de gestação e ela está indo muito bem. Até parar na frente de uma padaria com o doce que ela mais ama bem a mostra.
Torço para que ela resista ao doce até eu chegar na padaria. Sei que, em plena quinta feira, se ela render-se ao doce, o resto da minha semana vai ser um desastre. Clove está num complexo sobre seu corpo e eu não sei de onde veio isso, porém, caso ela decaia em sua dieta, passarei o resto das horas consolando-a por não ter conseguido ter pulso firme numa ideia louca que ela mesma criou.
Com a tarde de folga da faculdade e do trabalho, resolvemos sair. Faz muito tempo que não nos reunimos apenas para curtir algumas horas juntas. Nunca passamos uma tarde no shopping fazendo compras – até porque não temos condições para isso – mas sempre demos um jeito de assistir a um filme, comer pipoca ou nos empanturrar de refrigerantes e chocolates.
Não que eu possa me empanturrar exatamente. Os enjoos já passaram, porém as semanas também. Estou cada vez maior e não posso me dar ao luxo de engordar algo que não seja diretamente dos bebês.
Arrumo a alça da mochila de franjas nos ombros e atravesso uma rua. Descer uma ladeira é muito melhor que subir, com certeza, então quando estou apenas a uma quadra de chegar na padaria em que Clove me espera, nem mesmo estou ofegante.
— Realmente, Everdeen, você conseguiu me surpreender — escuto alguém dizendo. Olho para o lado. Madge. Ela está linda vestindo uma blusa amarela de tecido chiffon por baixo de um blazer e uma calça de linho branco, seu salto alto acaba com qualquer mulher, é de tiras douradas, lindo. Eu não chegaria aos seus pés nem se tentasse. — Engravidar do único filho dos Mellark? Realmente…
— Olha, Madge, eu preciso ir.
— Não, não, não. Você vai ficar aqui, vai conversar comigo — ela afirma e não parece disposta a negociar nada. — Direcione-se a mim usando meu sobrenome, garota, não somos tão íntimas assim.
Oh meu Senhor. Ajude-me a não surtar.
— O que quer?
— Acha mesmo que eu acredito que esse filho é do Peeta? Me poupe, garota. Conheço esses tais golpes que gente como você escolhe dar nos superiores, mas vou logo avisando que você não vai conseguir me tirar da família Mellark, muito menos o meu posto de nora lá.
Como pode ser tão mesquinha? Como pode se mostrar tão superior as outras pessoas e mesmo assim vir procurar briga comigo na rua?
— Veja bem, Peeta e eu já falamos sobre isso várias vezes, posso te garantir que eu não preciso de nada que venha de você, até porque eu não fiz um filho contigo, Madge.
Ela ri abusada. De aparência ela é belíssima, mas se o seu jeito de ser fosse sua única característica… A loira não estaria nada bem na fita.
— Não venha com esse papinho de que conversou com ele. Peeta deveria manter distância de você e dessas coisas que você carrega.
Respiro fundo. Não me surpreendo com o que ela diz, esperava até algo pior.
— Sinceramente não sei como aquele cara consegue ficar perto de você, Madge — comento.
— Já disse que para você é Undersee — ela cospe as palavras. — Vou avisar uma única vez: não te quero perto dele e muito menos da família.
— Não sou eu que procurei por alguém hoje para ameaçar.
Ela dá dois passos grandes em minha direção e encosta nossos narizes. Prendo a respiração enquanto as bochechas grandes dela ficam vermelhas de raiva, aperto as alças da mochila que fica em minhas costas como se ela fosse uma daquelas dos Pequenos Espiões e fosse me levar para longe daqui num clique de botão. O que não vai acontecer.
— Fico muito contente que alguém com tão baixo nível mental tenha entendido que isso é uma ameaça e pense muito bem antes de procurar por algum Mellark, Everdeen. Eu não sou uma pessoa paciente para com energúmenos da sua categoria. Espero que seus filhos não tenham o sobrenome do Peeta na certidão — ela gruda seus olhos demoníacos nos meus antes de morder o lábio inferior. — Será até melhor se não existir filho algum para ter sobrenome.
Arregalo meus olhos quando entendo o que ela quer dizer, mas não há tempo o suficiente. Suas mãos empurram meus ombros com uma força que eu jamais imaginei que ela pudesse ter e assim meus pés se embaralham neles próprios. Tento segurar-me nela, mas já estou rolando pela ladeira íngreme.
Não consigo contar quantas vezes girei sobre meu próprio corpo, mas resmungo com força quando paro e sinto uma terrível chuva começar acima de mim. Tudo dói, não consigo respirar, não consigo me mexer, não consigo abrir os olhos direito.
— Katniss! — escuto o grito de Clove ao longe, logo sendo seguinte pelo barulho de seus passos desesperados. — Katniss, hey! Fala comigo.
Meu corpo treme em um soluço quando ela se abaixa ao meu lado. Forço meus olhos a se abrirem e a primeira coisa que vejo é a expressão de extrema preocupação de Clove. Madge me empurrou! Ela podia ter causado um grave acidente.
Clove encosta em meu quadril para poder me olhar melhor enquanto a chuva continua caindo cada vez mais forte em cima de nós.
— Aii! — reclamo de dor. Ela desencosta de mim na hora.
— Desculpa! — ela diz, fazendo uma careta quando eu me contraio. Movo meus dedos o suficiente para que minhas mãos estejam ao menos perto de minha barriga. Meus bebês! Como eles estão? — O que foi que aconteceu, Katniss?
— Madge.
Clove entende, não preciso dizer mais nada e agradeço por isso. Minha lombar está explodindo por não estar completamente apoiada no chão por culpa da mochila meio volumosa. Minha amiga pega um guarda-chuva de sua bolsa e o abre sobre nós, não adianta muito, pois já estou toda molhada – o que me causará certa dificuldade em tirar essa causa jeans –, mas não tenho condições de rejeitar sua ajuda.
— Precisamos te levar para o hospital — ela constata com urgência. Nego com a cabeça e abraço minha barriga o máximo que consigo, inspiro com exaustão e sinto minhas lágrimas descerem sem parar. Parece que fui atropelada por um caminhão da Coca Cola.
— Não consigo…
Ela se apreende, eu me sinto ainda pior. Clove puxa o celular que ainda está no bolso frontal da minha calça e procura por algum número nele. Não sei em que estado se encontra o celular, mas só de saber que ele não saiu voando fico aliviada em saber que não precisarei gastar dinheiro que não tenho com um novo.
— Oi, é a Clove, amiga da Katniss. A gente precisa de ajuda! Ela sofreu um acidente e não tem chance de eu conseguir tirar ela daqui e levar para um hospital — vejo a dizer com rapidez. Não sei com quem fala e nem mesmo como conseguiu o número de alguém que possa nos ajudar, contudo a única coisa que importa é que ela está resolvendo a situação como sempre. — Estamos no centro da cidade, próximas a faculdade — mais um tempo em silêncio. — Rápido, por favor.
— Quem chamou? — sussurro a pergunta, procurando por alguém na rua. A chuva assustou todo mundo e fez com que todos saíssem correndo para suas casas. É incrível o tamanho azar que tenho, pois quando se precisa de ajuda ninguém está por perto, mas quando se quer estar sozinho e em paz, todos fazem questão te conferir até o meu registro geral.
— Alguém que possa te tirar daqui — ela responde. — Preciso tirar você daqui o mais rápido possível. Que merda, você está toda arranhada.
Ela vai tocar em mim. Não!
— Clove, para! — quase grito, quando ela toca em minha cabeça para tentar me levantar. — Puta merda.
— Vamos, Katniss. A mochila está machucando seus ombros.
— Não consigo mexer os braços.
Clove não liga para o que eu digo e, além de tentar abaixar as alças mesmo assim, ela levanta todo o meu corpo de uma vez e puxa a mochila ao mesmo tempo. Eu grito de dor, mas ela não para. Preciso abrir meus braços para que as alças saiam da parte da frente dos meus cotovelos, porém não consigo fazer isso.
Ela o faz por mim e minha visão fica turva de dor. Parece que estou numa sessão de tortura a vinte minutos.
— Já acabou! — ela sentencia, jogando a mochila em minhas pernas e me abraçando. Apoio-me nela, pois já não me aguento. Sua mão agarra a minha e as coloca sobre minha barriga saliente. O guarda-chuva já caído no chão molhado, sem nenhuma utilidade. — Katniss, não desmaia agora!
— Estou cansada…
— Eu sei, mas precisa prestar atenção em mim, okay?
Não lhe respondo, contudo consigo ouví-la avisar que nossa ajuda chegou junto do som de pneus marcando o asfalto molhado. Logo dedos quentes passam por meu rosto como se estivessem limpando toda a sujeira que ganhei no acidente para longe de mim.
Mantenho meus olhos fechados, deixo que eles façam tudo que querem fazer. Estou anestesiada e com todas as curvas do meu corpo formigando.
— Precisamos levá-la para o Hospital Central — escuto uma voz masculina.
— Eu não quero ser rude, mas não acho que o plano de saúde dela consiga cobrir uma consulta naquele lugar.
— Não se preocupe com isso, Clove — a pessoa responde, colocando-me em seus braços. Solto um leve ruído pelo movimento. — Posso arcar com os custos sem problemas. Só preciso que dirija o carro.
— Eu nunca mexi numa Land Rover, Peeta.
Peeta? Sorrio em meio a escuridão. Aposto que agora estou quase sendo colocada no banco traseiro ainda em seu colo. Estou surpresa por tê-lo aqui, não sei como foi que Clove descobriu o número dele – já que eu não tenho no celular – e nem mesmo o porquê de Peeta ter vindo tão rapidamente até nós.
— É urgente. Você vai conseguir.
¬¬¬
Não me lembro quando foi que dormi ou quando foi que induziram meu sono, porém alguém encosta algo molhado em meus lábios repetidas vezes e é isso que me faz acordar. Tomo, primeiramente, consciência da minha mente, para, só então, tentar me mover e chamar a atenção de quem cuida de mim.
— Não se mexa muito — ouço Peeta sugerir, sua voz está bem presente, então antes mesmo de abrir os olhos já sei que ele está ao meu lado. — Esse acidente te deixou bem remendada.
— Você continua com o humor afiado, não é mesmo? — sussurro. Agito minha garganta para tirar o incômodo que senti ao falar e isso afasta um pouco Peeta de mim.
Analiso meu corpo envolvido por aquela típica vestimenta feia de hospital. Quem foi que me trocou? Olho para Peeta. Ele veste uma camisa social listrada acompanhada de uma calça e sapatos que devem custar o triplo do meu sapato mais caro.
— Acho que aprendeu muito sobre mim, Cereja — suspiro, vendo-o jogar uma espécie de gaze molhada que ele usava para aliviar a secura de minha boca no lixo.
— Onde está a Clove?
— Ela já foi. Acho que os pais dela tem algum conceito com um tal de jantar em família nos dias de semana. Depois que o médico garantiu que você ficaria bem, ela se deixou ir embora.
— Espera. Eu saí de casa não passava de duas e meia da tarde. Quanto tempo eu apaguei?
— Uma quatro ou cinco horas. Ninguém sabe ao certo. Não é como se estivéssemos contando — ele dá de ombros. — Enfim, depois que trouxemos você para cá, os médicos fizeram alguns exames – claro que nada de raio X – e as enfermeiras limparam todos os seus machucados. Caramba, Cereja, você sabe como sofrer um acidente.
— Como é?
Ele anda envolta da maca em que estou parcialmente deitada. Confiro a agulha infiltrada em minha veia na parte fronta do cotovelo e engulo em seco. Nunca tive um complexo com elas, mas também não as considero minhas melhores amigas.
— Não sei como foi que conseguiu essa proeza de sair rolando uma ladeira como aquela, Cereja. Acho que seu grande cérebro pesou e você não suportou o peso extra. Acho que a gravidade não é muito sua parceira.
— Está supondo que o que aconteceu essa tarde foi provocado singularmente por mim? — pergunto-lhe e ele afirma, como se eu fosse a idiota por falar isso. — Você é burro ou tem algum bloqueio mental mesmo?
— Assim me ofende, Cereja.
— Não! Você quem está me ofendendo. Eu nunca faria nada que pudesse machucar os meus filhos.
— Quem o faria então? — indaga. Aparentemente, parece que ele sabe a resposta, mas não a enxerga nem quando está a um milímetro de acertar seu belo rosto.
— Não seja besta, Peeta. Não consegue pensar em uma única pessoa cruel o suficiente para machucar outro alguém? Principalmente se essa pessoa for a mãe dos seus filhos?
Inclino a cabeça para trás e meu pescoço estala.
Que ótimo.
Vejo que ele para pra pensar, mas não diz nada. Onde é que está o cérebro pensante dele?
— Acorda, Mellark! A sua bela namorada Madge Undersee fez questão de me procurar para, além de me ameaçar, tentar me machucar e matar o meu filho.
Ele arregala os olhos.
— O que? — parece chocado.
— Pensei que você fosse um pouquinho mais inteligente para ver que ela é um monstro em forma de gente — sussurro.
Madge pode ter uma influência enorme na cidade, mas eu não tenho medo dela. Se tivesse que dedurá-la para o Presidente, eu o faria. Ela pode ser da família Undersee, mas eu sou uma Everdeen e não deixo nada sem ponto final.
— O que foi que ela disse para você? — questiona duramente.
Bufo.
— Pode pedir um pouco de água para alguma enfermeira?
— O que foi que ela disse, Katniss? — ele grita.
Me assusto um pouco. Nunca vi Peeta assim. Ele costuma me chamar de Cereja e isso me deixa confusa. Uma hora ele é um cretino que não para de usar esse apelido ridículo, em outras, como agora, ele parece totalmente são de si e do que está acontecendo. Parece um homem que se importa.
Isso é bipolar.
— Pergunte para ela — dou de ombros. — Sabe que eu não quero nada de você além do seu interesse pelos bebês, Peeta. O que importa é que ela me empurrou e isso podia ter matado meus filhos.
Ele congela.
— Os bebês ainda estão… vivos. Não estão? — pergunto num sussurro.
Peeta se vira e soca a parede azul. Merda!
Levo a mão à boca e meus músculos se retorcem pelo movimento. Isso não pode estar acontecendo.
Meus olhos começam a lacrimejar e tudo fica em silêncio.
— Ei, Katniss! Está tudo bem — Peeta tenta me tranquilizar. Ele acaricia minha testa e puxa minha mão livre para ficar em cima da minha barriga juntamente da sua. — Nossos bebês estão aqui, não vou deixar ninguém fazer mal a eles, entendeu?
Ele disse nossos?
Sinto um beijo em minha testa e tomo coragem para abrir os olhos. Presto atenção em Peeta e só nele. Seus orbes azuis são como um mar sem ondas, um porto seguro temporário.
— Você me assustou — sussurro e ele sorri.
— Me desculpe, ainda estava pensando sobre o que a Madge fez. Não se preocupe, vou cuidar de vocês três agora.
Entrelaço nossos dedos que estão juntos aos nossos bebês.
Sei que ele está aqui comigo agora, mas não estará todos os segundos do dia e preciso estar em segurança quando ele for conversar com a Madge. Sabe-se lá o que ele vai fazer e eu não quero pagar para ver.
Além do mais, Peeta é inconstante, inconsistente. Está tudo pencando para o melhor agora, mas e depois?
— Avisaram minha mãe que eu estou aqui?
— Claro. Ela está conversando com a minha faz horas lá na sala de espera, as duas estão muito animadas. Vou chamá-los.
— Mas já? — nunca pensei que fosse conhecê-los. Nunca vi o Senhor e a Senhora Mellark de perto, eles são quase inalcançáveis aos olhos de quem compartilha da mesma classe social que eu.
— Penso eu que está na hora deles conhecerem a mãe dos primeiros netos da família.
— Juro que se estivesse em condições daria um soco nesse seu rosto bonito.
Desta vez ele se afasta sem que eu possa impedi-lo, nossos dedos antes entrelaçados acabam por se separar e parece que nosso momento de trégua ganhou um ponto final. Até mesmo meu coração gela por conta da constatação.
— Eles estão preocupados. Sem falar que eu preciso do cartão deles para pagar o hospital. Estou com os bolsos vazios hoje.
Arregalo os olhos.
— Porque não me levou para um lugar menor, Peeta?
— Para ter que ficar esperando na fila de emergência com você desacordada nos meus braços? Não, obrigado. A segurança e saúde de vocês é de demasiada importância para deixar que se submetam à condições como aquela — sorrio. — O que foi agora?
— Você fica engraçado quando usa palavras difíceis.
Ele imita meu gesto anterior.
— Você fica linda quando não se mostra rabugenta, Cereja.
Que vergonha! Impossível não corar apesar do pequeno insulto e do apelido bobo.
Relaxo quando ele sai do quarto, são por poucos minutos, mas parece que respiro um ar muito mais limpo quando estou sozinha.
Ele retorna acompanhado de uma enfermeira e diz que seus pais e minha mãe só poderão entrar depois que eu passar por uma breve vistoria. São exames rápidos e indolores já que ela faz questão de não tocar em meus braços machucados. Sinto que estou com um esparadrapo na testa, mas posso contar o quanto de arranhados me foram deixados nos braços.
Parece que enfrentei uma guerra mundial com uma dúzia de gatos raivosos.
— Seria de grande utilidade fazermos o ultrassom. Os bebês não correm perigo, mas é por questão de segurança, só precisaríamos te levar para o segundo andar para realizar o exame que será cobrado à parte.
Retorço a boca.
— Podemos fazer sem problemas — Peeta responde por mim. — Dinheiro não entra em questão quando os bebês estão envolvidos.
Fico agradecida por isso e não me importo em lhe questionar sobre o quanto ele vai gastar com a minha breve internação mais o custo do ultrassom, porquê não tem como eu estar mais feliz em ver que ele está fazendo isso por mim e pelos filhos.
Algumas batidas na porta me distraem do que Peeta estava dizendo. Minha mãe coloca a cabeça para dentro do quarto e pede licença para entrar, depois dela os pais de Peeta entram e meu estômago se revira quando os vejo. São a personificação da perfeição. Os dois têm lindos cabelos loiros, o da senhora Mellark é liso enquanto o do senhor Mellark é cacheado, o que deu a Peeta esse contraste de estilo. Ela usa o um belo macacão preto transpassado de mangas longas. Um belo maxi colar dourado está em seu pescoço, assim como um cinto da mesma cor está em sua cintura fina, não reconheço o estilo do salto, mas é tão ou mais fino que uma agulha. O marido a acompanha na cor da vestimenta na parte da calça, porém usa uma camisa social branca, suspensórios rosa e uma bela gravata azul-marinho. Não sei quem é que o veste, mas garanto que tem bom gosto.
— Que bom que acordou — minha mãe diz, aproximando-se e acariciando meus cabelos. — Como está?
— Bem, meio dolorida, mas bem.
— Ficamos todos muito preocupados, querida — a mãe de Peeta fala, chegando perto de mim junto de seu marido. Sua voz é a mesma da de quando nos falamos pelo telefone meses atrás. — Nossa, você é tão bonita.
— Definitivamente melhor que a outra — senhor Mellark diz, referindo-se a Madge com sua voz grossa e presente.
— Obrigada — devo estar vermelha como um pimentão de tão envergonhada. Minha mãe até sorri orgulhosa. — Agradeço, senhor e senhora Mellark.
— Oh, não, querida. Nada de senhora. Effie e Haymitch é o suficiente — ela pede, acariciando meus pulsos.
— Podemos ir? — a enfermeira pergunta, atrapalhando nossa conversa.
— Ir? — Haymitch estranha.
— Fazer um ultrassom para ver se está tudo bem com os bebês — Peeta diz.
— Ah, claro — sua mãe concorda.
A enfermeira já começa a preparar uma cadeira de rodas. Minha mãe coloca sua mão em minhas costas e me ajuda a impulsionar o corpo para frente. Tudo continua doendo, até pouco mais do que quando eu saí rolando a rua. Reclamo da dor e ela para de me mexer.
— Deixe que eu tiro ela — Peeta pede e minha mãe se afasta. A enfermeira deixa a cadeira preta próxima a cama que estou e tira a agulha que estava fincada em mim para não atrapalhar.
Devagar, Peeta coloca um dos seus braços fortes em minhas costas enquanto outro vai para a parte de trás dos meus joelhos. Seguro em seu pescoço e deixo que ele me levante e Peeta faz isso com tanto gentileza, tanta delicadeza que nem parece ser ele.
— E a cadeira? — a enfermeira pergunta surpresa quando Peeta começa a sair do quarto comigo ainda em seus braços.
— Ela não precisa disso — ele responde.
Olho para as pessoas atrás de nós que nos seguem até um elevador e todos estão sorridentes pelo momento. Olho para Peeta e ele olha para mim. Ele pisca, brincalhão e sedutor.
Quem foi que clonou o Peeta e para onde levaram o original?
Nos enfurnamos todos no elevador quadrado e acompanho a luz vermelha adornar o número um e passar devagar para o dois. As portas se abrem e vamos até uma porta branca com uma plaquinha preta e o nome do médico: Anderson.
— Não, espera — peço para Peeta quando seus pais e minha mãe se encostam numa parede contrária a que eu e ele vamos entrar. — Eles podem ir com a gente? — pergunto para a enfermeira.
— É recomendado que só o casal entre.
— Eles não vão atrapalhar — afirmo.
Sinto que ela vai negar e pedir para que eles fiquem do lado de fora, mas a encaro com tanta precisão que acho que ela desiste e permite que eles três entrem conosco. Isso os faz feliz, então fico mais leve. É gostoso agradá-los. Afinal, os netos são deles também.
— Boa noite — Anderson, o médico aparentemente velho, nos cumprimenta.
Nós todos o respondemos. Peeta me deixa deitada e puxa um tipo de lençol fino para cima de mim, já que preciso levantar essa bata fina e não deixar nada meu de fora senão a barriga.
— Quantas semanas? — ele pergunta.
— Doze.
— De gêmeos, suponho — concordo.
Realmente, minha barriga deixa aparente que não carrego só um bebê, mas sim dois. Eles só fazem crescer e crescer. É incrível.
Por eu já ter feito uma consulta no início da semana, não me surpreendo muito com as coisas que o médico mostra e diz sobre os bebês. Eles estão bem e já tem uma aparência mais humana no exame. Da mesma maneira que Daisy fez, ele dá uma leve batida em minha barriga para ver se os bebês reagem ao impulso e eles o fazem certinho. Não consigo senti-los se movimentando, mas dá para ver pelo minutor que eles estão sim se mexendo.
— Você já tem alguma lista sobre os nutrientes que precisa ingerir?
— Tenho. Já os providenciei.
Assim que cheguei em casa com um papel em mãos com os alimentos que preciso comer durante o mês, minha mãe fez o favor de analisar e sair comprando o que Daisy pediu. Leite e iogurte para o cálcio, lentilha e manga para o cobre e até castanhas para aumentar o magnésio.
— Eu não quero garantir nada, mas tenho setenta por cento de certeza de que seus bebês sejam meninas. As duas.
Há alguns minutos de comoção entre todos da sala. Minha emoção está presa em minha garganta, minha mãe sorri emocionada e os pais de Peeta comemoram entre si. Já o pai dos bebês é o mais surpreendente. Seus braços ainda estão cruzados, mas ele tenta esconder uma lágrima que cai em sua bochecha gordinha.
Depois de tanto esnobar suas filhas, agora você chora?
É isso que tenho vontade de gritar para ele, mas sou bobona e tudo que tenho em minha cabeça agora é que Peeta está emocionado. Emocionado de verdade.
— Vou pedir para a minha obstetra conferir na próxima consulta para que tenhamos certeza — digo para o médico.
— Sem problemas.
Depois da consulta já tenho liberação para ir para casa. Desta vez, Peeta me deixa ser levada até seu carro com a cadeira de rodas mesmo. Vou no banco do passageiro ao lado dele, enquanto seus pais e minha mãe ficam atrás, conversando animados pela possibilidade de ganharem duas netas.
— Me conte como estão os preparativos para a chegada das bebês, Katniss — Effie pede ansiosa.
— Estão parados ainda. Acho que está um pouco cedo para sair preparando tudo — comento.
Não lhe digo a verdade, porém também não estou mentindo. Não tive a chance ainda de reunir o suficiente para começar a comprar alguma coisa – até porque não tinha ideia do que meus filhos seriam até alguns minutos atrás – e também acabei de completar três meses. Falta muito tempo para que elas nasçam.
— Entendo. Mas e você e Peeta já decidiram se vão morar juntos ou já armaram algum esquema de como vão compartilhar as meninas?
— Effie! Que tipo de pergunta é essa? — Haymitch se irrita.
— É uma pergunta normal. Você entendeu o que eu disse, não foi, Katniss?
— Sim — digo-lhe baixinho. Confiro minha mãe pelo retrovisor do carro e ela me passa um olhar confiante. — Na verdade Peeta e eu nunca conversamos sobre os bebês. A maior parte do que dissemos um para o outro envolve gritos e ofensas.
— Peeta! — sua mãe estapeia-lhe o ombro. Ele revira os olhos sem que Effie veja. — O que foi que eu disse sobre estressar a Katniss?
— Que é irresponsável e pode causar mal aos bebês — ele recita como se fosse um trecho que ele precisou ler e reler até gravar.
— Então qual a dificuldade de fazer o que sua mãe pede ao menos uma vez na vida? — ele não a responde. — Está vendo, Haymitch? Isso tudo é culpa sua? Eu disse para cuidar direito do Peeta quando ele era mais novo e você nem ao menos tentava diminuir os palavrões. Não sei como a primeira palavra dele não foi algum xingamento chulo.
Os dois continuam uma pequena discussão até que Peeta pare em frente a minha casa. Ele sai de trás do volante e faz um gesto para que eu espere. Sou colocada em seu colo mais uma vez, minha mãe a nossa frente abre a porta de casa e deixa que nós dois passemos primeiro.
— Precisa de alguma coisa? — ele me pergunta quando ajeito-me devagar no sofá de flores da sala. Nego com a cabeça e ele ainda leva alguns segundos para decidir se continua me olhando ou se vai embora. Ele respira fundo. — É tarde demais para dizer desculpa?
Foco em seus olhos azuis.
— Nunca é tarde demais para nada, Peeta — ele coloca sua mãos nos bolsos da calça. —, e a culpa não é sua. É da sua namorada demoníaca.
Ele concorda em um balançar sutil de cabeça.
— Certo — respiro fundo. — Até qualquer hora, Cereja.
Sorrio docemente e ele me acompanha num sorriso besta.
— Até qualquer hora, Peeta.
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