Notas iniciais
CHEGUEEEEEI! YEEEEEEEY! Vocês pediram e eu vim. Vocês enlouqueceram com o Peeta nos spoilers e vão ver como ele consegue pifar nossa mente. Não se enganem, quando ele parece ser o mocinho é, na verdade, o vilão. Boa sorte! Vão precisar...

Breathe me in, breathe me out
The music's got me going
Breathe me in, breathe me out
No stop until the morning
Breathe me in, breathe me out
You know I'm ready for it
For it, for it
Yeah

— Slow Down – Selena Gomez

Seguro um pedaço de papel higiênico entre os dedos e tiro o excesso de batom roxo, apertando os lábios sobre ele. Clove já me ensinou várias técnicas para fazer a maquiagem durar mais e por estar indo a uma festa como a de Gale Hawthorne não posso deixar a desejar.

Não que eu realmente seja lunática e queira parecer uma das universitárias da parte norte da cidade, mas muitas vezes preciso fazer meus sapatos de galerias parecerem com os de centenas de dólares comprados nas melhores lojas da cidade.

— Deixa que eu te ajudo com isso — Clove se oferece.

Sento-me em minha cama de casal levemente desgastada e observo-a puxar da caixa de papelão colorida uma embalagem preta e redonda de pó compacto. Com uma esponja fina, ela faz pequenas batidas do produto em minha boca e logo passa outra camada de batom escuro por cima. Projeto um leve bico com os lábios e ela pisca, aprovando a nova tendência.

Caminho até o banheiro e encaro meu reflexo. Sem Clove eu não seria capaz de aplicar uma máscara para cílios corretamente, faz um delineado pine-up sem tremer então…

— Você seria uma excelente cirurgiã, Clove. A precisão que você tem é incrível.

Ela ri ao meu lado, arregalando seus olhos para deslizar o lápis de olho preto em sua linha d'água.

— Sabe que gente com a renda como a nossa jamais seria capaz de pagar uma faculdade como essa. Se a de publicidade eu quase não consegui, a de medicina está mais para um sonho impossível.

Confirmo com a cabeça apesar de não querer.

Para entrarmos na universidade do bairro quase infartamos com o preço pedido anualmente por eles. Com sorte, os pais de Clove entraram em um acordo e passaram a negar-se algumas futilidades para pagar, já eu tive que procurar por algum emprego que me ajudasse em, pelo menos, uma parte da despesa.

Não que eu e minha mãe sejamos pobres, mas ela sustenta toda a casa com seu emprego de doméstica na casa de uma das famílias da parte nobre da cidade. Sem contar que meu trabalho de meio período na loja de conveniência do senhor Snow não exige tanto de mim. Ainda mais por eu ter folga todas as sextas-feiras por fechar a loja uma noite ou outra.

— Ainda não consigo acreditar que vamos para a festa de aniversário do Gale. Como foi que você conseguiu essa proeza? — ela revira os olhos.

— Sabe que ele é gamado em você desde o colegial, Katniss — sorrio. — Mandei uma mensagem para ele numa das redes sociais e disse que se ele me convidasse para a festa, eu daria um jeito de te levar junto.

— Você é uma mulher chantagista — afirmo.

— Sou uma mulher estratégica — ela reverte, batendo seus grandes cílios negros. — Sabe que meus pais são chatos com horários nos dias de semana, a última coisa que eu quero no final dela é ficar em casa sem fazer absolutamente nada de divertido.

— Certo, saidinha. Só não beba muito para conseguirmos chegar bem em casam não estou a fim de dar banho em bêbado hoje.

Ela me lança um sorrisinho malicioso, relembrando-nos de algumas festas da faculdade. Essa baixinha já teve noites muito loucas e problemáticas por culpa do álcool.

— Não vou te dar trabalho, querida. Hoje preciso ficar atenta para ver se encontro algum gatinho que faça minha roupa de baixo valer a pena.

Ignoro seu jeito desinibido.

Depois de nos despedirmos de minha mãe, ela faz questão de ressaltar:

— Gale é primo de segundo grau do filho dos Mellark. Não deixe que Peeta chegue perto de você — respiro fundo. — Ele não presta.

¬¬¬

Não me surpreendo quando paramos em uma casa que é o quíntuplo da minha repleta de jovens com copos vermelhos de bebida em mãos.

Suspiro ansiosa e contraio os dedos dos pés antes de começar a subir os degraus do jardim da entrada. Clove e eu descemos do ônibus no ponto de duas quadras antes da casa de Gale, não teve como virmos para cá de carro, visto que não temos um, mas os saltos em meus pés não foram feitos para serem usados em caminhadas de média distância.

O cheiro forte de cigarro faz meu nariz se retorcer, porém fica ainda pior quando a fumaça predomina o ambiente. Mal consigo enxergar os pares de corpos se agarrando à minha direita.

Faço uma nota mental em minha cabeça de rejeitar qualquer brownie oferecido pelas pessoas. Vai que imitaram os veteranos bobos da faculdade e colocaram maconha nos bolinhos para ver os desavisados se drogando pela primeira vez numa festa.

Alguns pagam micos que se eternizam para toda a vida.

— Vamos arrumar alguma bebida com aquele barman gostoso — Clove diz, puxando-me pelo pulso para perto do open bar profissional. As luzes coloridas que piscam para todos os lados poderiam causar uma convulsão em alguém.

— Trate-o apenas como um barman, Clove — peço-lhe em meio à música eletrônica. — Queremos bebidas e não o telefone dele.

— Diga isso por você.

Ela pisca para mim antes de se debruçar sobre o balcão de mármore. Leio o pequeno cardápio de bebidas seguidas por seus respectivos ingredientes. Rio com os nomes e ouço Clove pedir dois orgasmos para o cara que já está, aparentemente, acostumado a isso. Arregalo os olhos, mas lembro que é apenas a bebida e não o sentido literal da palavra.

Ao menos eu acho.

— Vamos dançar! — ela grita animada.

Puxo um dos copos que estão em suas mãos para mim e bebo um longo gole do líquido. Deixo o álcool tomar conta dos meus sentidos e fico desinibida rapidamente.

Levo em consideração a frase que Clove me diz em todas as poucas festas que frequentamos: ''Deixa de ser careta e se solta, Katniss!''.

Nos esprememos em meio aos outros corpos que dançam, pulam e se atracam ao meu redor, mas não deixo de acompanhar minha amiga e rebolar exageradamente quando as músicas pedem.

Quando já estou segurando meu sexto copo que percebo que Clove está com um cara dançando com o corpo colado ao dela. No mesmo segundo duas mãos passam a apertar minha cintura.

— Você fica uma delícia dançando desse jeito para mim, morena — o cara sussurra em minha orelha.

Minha nuca se arrepia na hora e sinto seu cheio gostoso de morango, provavelmente misturado a algum tipo de vodca ou cachaça.

Sei que a voz não é de Gale e isso deixa tudo mais misterioso e excitante.

Viro-me para ele e vejo seu belo cabelo loiro bagunçado e seus lindos olhos azuis. Sem falar que ele está tão confortável e despojado em suas roupas que parece que as roupas que vestiram ele hoje e não o contrário.

— Quem disse que eu estava dançando para você? — lhe pergunto, sorrindo de lado.

— Ninguém precisou dizer — ele afirma, colocando meus braços trêmulos em seu pescoço. — Seu corpo chamou pelo meu desde o início, morena. Só pelo meu.

Foi impossível não suspirar, ainda mais quando ele aperta minha bunda e faz-me rebolar junto de seu corpo largo em meio a pista. Perco na voz deleitosa e presente de Selena Gomez que ecoa pelas caixas de som, o cheiro do perfume do homem bonito deixa-me inebriada e o risco em seu queixo quadrado fica na altura dos meus olhos. Um estranho irresistível.

Apesar de seus toques ousados, não me sinto desconfortável em ter meu corpo explorado levemente por ele.

Estamos tão próximo um do outro, tão envolvidos pela música, pela dança e pelo álcool que quase não entendo quando ele pergunta meu nome.

— Katniss — respondo ofegante.

— Peeta.

É o primo do Gale! Puta merda!

Não tenho tempo de me afastar dele, pois ele me beija. De forma possessiva e deliciosa. Seus lábios estão molhados, macios e vorazes como nunca antes senti em minha vida. O gosto de morango inunda minha boca, sua língua me acaricia com se tivesse passado uma vida inteira me estudando para saber do que eu gosto.

Não conseguiria me afastar mesmo que quisesse, então só retribuo tudo que ele me dá e ainda exploro seus cabelos bagunçados com os dedos.

— Prefiro chamar você de Cereja — ele diz, traçando um caminho de beijos entre minha boca e meu ombro esquerdo coberto pela renda do vestido. — O licor está impregnado na sua boca.

— Você tem gosto de morango — aviso, sorrindo. Como se estivesse duelando pelo direito de escolher a melhor fruta.

Aperto meus olhos quando ele chupa com força o lóbulo da minha orelha.

— Mal posso esperar pelo momento em que poderemos fazer nossa batida de frutas. Tenho certeza que algo incrível vai sair disso, Cereja.

Gargalho em seus lábios antes de deixá-lo beijar-me mais uma vez.

— Você é engraçado — notifico.

— Você é mais sexy que qualquer capa de revista —ele retribui. — Aceitar ir até o segundo andar comigo, Cereja?

Nem consigo pensar, as palavras escapam sem eu nem perceber.

— Qualquer coisa com você.

¬¬¬

Com a mão em minhas costas, ele me conduz pela escada até o segundo andar, sinto alguns olhares em nós dois, mas a excitação presente em meu corpo é tão grande que não me importaria nem mesmo se fosse Clove ordenando que eu saísse de perto de Peeta. Minha mãe não passa em minha cabeça um segundo sequer.

Ele mexe em algumas maçanetas antes de encontrar um quarto aberto e desocupado. Ele me coloca para dentro e tranca a porta em suas costas enquanto eu procuro algum lugar seguro para me segurar.

Acabo com os ombros na parede como os casais do primeiro andar cinquenta minutos atrás.

O corpo quente de Peeta aperta-se no meu, seus lábios colam-se em todos os cantos livres do meu corpo, suas mãos infiltram-se por baixo do meu vestido justo e não consigo parar de soltar sons em seus ouvidos.

Sou uma marionete que ele pode controlar.

— Eu vim sozinho hoje, Cereja — ele puxa meu lábio inferior e o chupa. Impulsiono-me na parede e rodeio sua cintura com as minhas pernas, ele ri malicioso, parecendo aprovar minha iniciativa.

Nossas intimidades acabam se batendo e isso arrancam suspiros de nós dois.

— Oh!

— Hoje eu sou seu, Cereja — beijo-lhe os lábios, minha calcinha sendo puxada por seus dedos ágeis. — Só seu.

Não raciocino o quão estranho pode ser essa frase dele, só interesso-me em abrir todos os botões de sua camisa social de trezentos dólares. Toco seu peitoral, arranho-o com minhas unhas e deixo que Peeta marque meu pescoço com seus chupões.

Ele descola-me na parede desconfortável e anda com as mãos na parte de trás dos meus joelhos e a boca na minha.

Caímos numa cama, ele por cima de mim, o vestido já passando pela minha cabeça. Peeta se inclina, aquece minha pele como se estivesse ateando um esqueiro num balde cheio de álcool. Não uso um sutiã, então ele logo procura por meus seios para chupar os bicos duros.

— Você não acha isso estranho? — pergunto em meio aos gemidos.

Ele se ajoelha entre minhas pernas e desafivela o cinto marrom escuro antes de descer a calça jeans e jogá-la em qualquer canto do quarto. Nem vi ele tirar seus tênis, mas já deve estar com os seus pés descalços há um tempo.

— Transar numa festa? — ele ri irônico. — Claro que não. Você se importa?

— Não, mas… Pode ser o quarto do seu primo.

— Não esquente com isso, Cereja — ele pisca, galanteador. Suas palmas abertas logo ao lado da minha cabeça. — Ele deve estar ocupado comendo alguma outra garota não muito longe daqui.

Uau. Ele realmente consegue ser um cretino usando palavras tão chulas. Além do mais, quem fala coisas assim do próprio primo?

— Se concentre, Cereja. Não temos muito tempo — ele lembra.

Ficamos desesperados um pelo outro. Ele quer beijar meus seios e minha barriga enquanto eu quero tocar em suas costas, cabelos e quadril. Puxo sua cueca para baixo e não me surpreendo quando seu pênis pula duro em minha direção, massageio-o por um tempo até que Peeta o tira de meu domínio e pede para que eu coloque as pernas em sua cintura de novo.

— Meus saltos — reclamo, quando a ponta afiada deles bate em sua bunda.

— Deixe-os. Gosto de você com eles.

Depois disso nossos movimentos são como flashes de dezenas de câmeras ao mesmo tempo. A música rola solta do outro lado da porta, várias pessoas bebem, dançam e se beijam, o meu corpo e o de Peeta se friccionam e tornam-se uma mistura louca de cheios, sons e suor.

Meu cabelo se torna uma bagunça, as costas dele devem estar com feridas a ponta de sangrar e mesmo assim não ligamos para mais nada além de nós mesmos, além de nosso próprio prazer, além de proporcionar para a outra pessoa algo que se possa fazer palpável e inesquecível.

Eu nunca tive um orgasmo tão gostoso e duradouro como o que tive com Peeta.

— Terminamos por aqui — ele diz, arfante e confiante.

Limpo as bordas dos meus lábios e vejo ele se vestir tão rápido quanto foi para tirar suas roupas impecáveis que agora carregam alguns amassados.

Certo, eu também nunca havia sido tratada desse jeito.

— Tenha uma boa noite, Katniss. — ele abre a porta e sai do quarto. Desse jeito. Sem mais nem menos.

Franzo a testa antes de perceber que o cara me deixou saciada, nua e sozinha num quarto. Certo, isso, de um jeito parcial, não foi nada legal.

Visto minha calcinha e meu vestido antes de passar a mão sobre meus fios negros bagunçados. Saio do quarto de cabeça baixa, com medo de que alguém tenha percebido a situação constrangedora em que Peeta me deixou e venha a me jogar algum olhar esnobe.

Desço as escadas correndo e procuro por Clove em todo o lugar, por sorte acabamos trombando e ela parece ter passado por alguma situação parecida com a minha, agora se foi só a transa ou a parte da saída constrangedora do cara é outra história. Ainda terei tempo para descobrir.

— Já deu por hoje, Clove — afirmo, puxando-a pelos pulsos para fora da mansão. — Vamos embora.

— Parece que você foi comida de jeito! — ela gargalha, bem alta por causa dos drinques. Arfo alto, estou puta da vida. — Certo, teremos tempo para falar sobre isso.

¬¬¬

Afundo minha cabeça no travesseiro macio, Clove geme cansada ao meu lado e puxa o coberto para cima. Mesmo após uma noite bem dormida e um bom banho assim que o relógio apitou nove e meia da manhã, nós não conseguimos nos recuperar dos acontecimentos da noite passada.

— Eu não acredito que ele tem namorada — resmungo. — Como foi que eu caí nessa, Clove? Ele disse algo sobre estar sozinho na festa, mas não me toquei nenhum um pouco que pudesse ter algo mais implícito nisso.

— Até sua mãe disse para você não deixar ele chegar perto de você, Katniss. Falta de aviso não foi.

Resmungo exageradamente.

— Fui uma verdadeira idiota. O cara é conhecido em toda a região, como é que eu não sabia que ele namorava com a Undersee. Aquela garota faz questão de ser o centro das atenções até se estiver na África — exclamo.

Agradeço pela cortina escura que impede que toda a luminosidade do dia entre no quarto, porque eu não poderia estar mais vermelha de vergonha. Talvez até mesmo estupidez.

— Nós duas fazemos questão de não irmos para o lado nobre da cidade e eles não passam pela parte pobre, pois na visão deles aqui todos nós carregamos algum tipo de doença contagiosa — ela brinca. — Se você tiver visto Peeta e Madge juntos duas vezes em toda a sua vida, foi muito.

Permanecemos em silêncio por vários minutos. Afinal, eu não tinha como prever que Peeta era comprometido.

— Mas e você? Antes de encontrar com Peeta, tinha alguém dançando contigo — relembro.

— Digamos que a minha noite terminou de uma maneira muito menos desastrosa que a sua — levanto as sobrancelhas. — Fiquei só com a parte do orgasmo alucinante e os beijos quentes como brasa.

Jogo um dos travesseiros em sua cara amassada.

— Eu nunca classifiquei a minha noite com Peeta com esses termos.

— Nem precisou, querida. Todos sabem do que o Mellark é capaz.

¬¬¬

O último sinal do dia finalmente bate. Me sinto mal como nunca antes, minha cabeça parece que vai cair e meu estômago explodir. Tive tantas ânsias de vômito nessa aula que imaginei que vomitaria nos peitos moles e caídos da professora.

— Está tudo bem, senhorita Everdeen? — ela pergunta, preocupada.

Minha visão gira e levo alguns vários segundos para conseguir enxergá-la sem nenhum aparente tremor.

— Claro — respiro fundo. — Só uma dor de cabeça.

Eu estaria bem se fosse só isso, mas não é.

Preciso guardar o meu material com muito calma, para não deixar que nada escorregue da minha mão, não me lembrava que zíper abrisse tão pouco a mochila.

O dia não está ao meu favor. Clove não veio para a aula e consequentemente preciso ir para casa sozinha. Saio da sala e apoio-me nas paredes para conseguir chegar até os portões sem sofrer nenhum acidente, o sol me cega quando chego a parte descoberta do campus e então preciso tomar fôlego e prestar atenção em meu caminho, pois já não tenho mais onde me apoiar.

Assim que deixo a faculdade para trás, vejo-me sozinha nas ruas, os cantos da minha visão escurecem e preciso sentar no banco de uma praça que vejo à uns cinquenta metros de mim. Quase corro até ele.

Assim que me sento, coloco todo a café da manhã para fora junto do pequeno lanchinho que fiz entre o intervalo das aulas.

Pelo menos tive sorte em uma coisa: não vomitei nos meus tênis recém-limpos.

Agarro a garrafa de água que tenho num dos bolsos externos da mochila e coloco um gole em minha boca. Bochecho com força e jogo tudo fora de novo. Depois disso bebo direito, tentada a tirar qualquer gosto presente.

Tomo ar. Deixo o oxigênio rodar bastante em meus pulmões, fazer toda a sua trajetória pela laringe, artérias, coração, veias… o que for. Só deixo o carbono sair de dentro de mim depois de uns vinte segundos.

— Katniss? — alguém bate em meus joelhos algumas vezes. Abro os olhos em meio a uma respiração e vejo que é o Peeta. Ótimo. — O que aconteceu contigo, garota? Está mais branca que a seiva de uma árvore.

— Estou bem — empurro seus braços para longe.

— Não é o que parece — ele constata, debochado. — Tem algum tipo de problema de pressão ou alguma coisa assim? Só vai conseguir chegar em casa se for se arrastando como um bebê.

— Olha, Mellark, você não está me ajudando. Será que pode dar um tempo? — brigo.

Ele dá de ombros, batendo seus cílios loiros como se não se importasse. O que é meio contraditório já que ele me dispensou três semanas atrás e agora não sai de perto de mim.

— Puff. Eu tento ajudar as pessoas e é assim que elas retribuem.

Reviro os olhos e deixo que ele se sente ao meu lado. Está todo engomadinho, vestindo uma bela camisa polo e um jeans tão bem alinhado que parece que algum Deus Grego da beleza contratou alguém especialmente para passar as roupas dele.

— Se quiser ajudar alguém, procure pelo centro de crianças carentes logo no bairro ao lado. Use seu dinheiro para algo que preste — resmungo, tirando o cabelo que grudou em minha nuca. Desde quando ficou tão quente? — Além do mais, é melhor fazer isso escondido da Princesinha Real. Sua namorada não gostaria que você estivesse associado às crianças menos favorecidas.

— Você só sabe reclamar?

— Você só sabe encher o saco?

Ok, estar perto de Peeta depois do que aconteceu na festa do Hawthorne não é nada legal.

— Como você é gentil, Katniss — ele observa.

— Como você é…

Suspiro.

— O que? Lindo, forte e rico?

— Irritante, debochado e traidor.

Ele para e pensa.

— Traidor?

— Está se fazendo de desentendido? — reclamo. — Você traiu a sua namorada ficando comigo!

— Achou que aquela transa que tivemos na casa do Gale significou alguma coisa? — ele pergunta e continuo o olhando. — Deixa de ser ingênua, garota. Aquilo foi só questão de momento, não significou nada para mim e devia ter sido o mesmo para você.

— Não sou acostumada a fazer esse tipo de coisa como você — aponto.

— Ter uma noite sem compromisso? — sugere.

— Tratar as pessoas como se elas fossem iguais a lixo.

— Eu não faço isso com as pessoas, elas fazem isso consigo mesmas. Todos sabem que comigo só conseguem ter uma coisa: prazer. O que vem depois disso, e às vezes até com isso, é por puro dever da garota aceitar e lidar. Não preciso que corram atrás de mim e muito menos que venham cobrar explicações. É sexo e apenas isso, Katniss. Não preciso de mais nada.

Aperto meus dentes. Nunca conheci alguém que pudesse ser tão cafajeste assim. Não me importa se ele estabelece algum tipo de regra com as garotas com quem transa, mas nem todas são como ele e carregam, sim, algum sentimento pelo que acontece entre quatro paredes com o Mellark.

Agora se é raiva, paixão ou vontade de ter mais, é outra estória.

Apesar de nojenta, a filosofia de vida dele não poderia ser mais sincera. Isso é horrível.

— Você é louco — observo.

— E você está passando mal em plena praça pública. Eu vou te levar para casa, venha.

Não rejeito sua ajuda. Apesar de estar odiando-o por tudo que fez e disso, ainda estou com os resquícios do vômito em minha mente. Sem contar que ele está de carro e isso vai ajudar muito. Minhas pernas não aguentariam nem metade do caminho.

Enquanto explico em quais ruas o Mellark deve entrar, pego meu celular detonado e ligo para Clove. Ela diz que estará em minha casa em dez minutos para me ajudar.

— De que era é esse seu celular? — ele zoa. — Acho que nem minha mãe era nascida quando lançaram esse modelo.

Certo, meu celular pode não ser um dos melhores, mas é o que dá para ter e usar.

— Juro que se você não parar de falar, eu vou acabar vomitando no seu carro, só por estar ouvindo sua voz.

Dessa vez ele se cala e continua assim até parar em frente a minha casa.

Saio correndo do carro e destranco a porta antes de me jogar no banheiro e colocar um pouco de espuma branca para fora. Que merda é essa?

Surpreendentemente, Peeta me ajuda a levantar e molha sua mão com a água gelada da pia para em meu rosto e pescoço. Devo estar numa situação deprimente para estar sendo ajudada pelo maior cretino de todos os tempos, ao menos ele não é um imprestável como os outros.

— Katniss! — escuto Clove gritando e logo ela está se enfurnando no pequeno banheiro com a gente. — Nossa mãe, o que foi que aconteceu com você?

— Foi a mesma coisa que eu perguntei para ela — Peeta responde.

— Vocês dois têm um poder de incentivo que eu aprecio muito — debocho.

Juntos, eles dão de ombros.

— Certo, Peeta, me deixe ter um minutinho sozinha com a Katniss. Prometo que é rápido — Clove o expulsa do banheiro e ele nem parece surpresa por ela saber seu nome. Afinal, quem da cidade não conhece o grandioso Mellark?

— Nem consigo acreditar que ele me trouxe para casa. Apesar da breve briga que tivemos, não foi de todo o mal — confesso.

— Não acredito que ele discutiu com você estando desse jeito.

— Não foi uma discussão, estava mais para uma troca de ideias que não se assemelham em nada.

Jogo a cabeça para trás. Que dia cansativo.

— Enfim, eu tenho algo que você deve estar precisando — ela diz, puxando um saco plástico de farmácia da bolsa. — Foi por causa disto que eu não fui para a faculdade hoje, passei o dia inteiro enrolando sem coragem de fazer esse teste. Pegue, é seu.

Um teste de gravidez, puta merda.

— Não, Clove — arregalo os olhos. — Eu não estou grávida, só passei mal.

— Fala sério. Nós duas tivemos uma noite bem movimentada na casa do Gale, você não foi a única que se divertiu. Eu também tive sintomas, então por favor faço o teste no meu lugar antes que eu infarte e você precise cuidar de mim também.

Ela coloca a embalagem rosa em minha mão com força e não tenho outra opção que não a que ela me deu. Jesus, eu não posso estar grávida. Muito menos de um bebê que veio do pinto do Peeta.

Que merda.

¬¬¬

— Por favor, não chora agora! — ela implora, quando vemos o resultado juntas.

Grávida! Grávida de Peeta Mellark! Isso não pode estar acontecendo.

— Clove…

— Olha, nós podemos fazer um exame de sangue, certo? — ela se apavora. — Esses testes de farmácia tem uma porcentagem de erro, pode ter sido engano e, senhor, isso não… é tão improvável.

— O que eu vou fazer agora?

— Nós podemos falar com a sua mãe, ou, não sei, pedir ajuda.

— Pedir ajuda para quem, Clove? — grito. — Para o meu pai? Aquele cara que eu nem sei quem é e que me deixou nos braços da minha mãe quando eu só tinha três dias de vida? Para o meu chefe? Para os pais do Peeta? Não tem ninguém que possa me ajudar agora.

— Nós só precisamos nos acalmar e…

— Ei! Porque vocês estão gritando? — Peeta pergunta, abrindo a porta e olhando para nós duas. O exame voa da minha mão pelo susto e vai parar logo em seus pés.

Obrigada, destino! Por foder com a minha vida de vez.

Peeta se abaixa com calma e pega o objeto retangular com a maior lerdeza que eu já vi. Sua testa se franze até que ele entenda o que está segurando e veja os dois tracinhos rosa.

— Isso não é o que você está pensando — lhe digo a frase mais cliché de todos os tempos. O que mais eu posso fazer?

— Me parece um teste de gravidez — ele diz. Peeta não podia ser só um pouquinho burro? — É seu?

— Peeta, olha… eu não sabia.

Ele começa a gargalhar. Sério, risadas fortes e altas mesmo. Até Clove estranha sua reação, pensei que ele fosse sair quebrando o pau em cima de mim e destruindo toda a casa, mas não. Ele só continua rindo.

— Sério isso? Quem foi que conseguiu te engravidar? Existe algo chamado pílula, conhece?

Certo, aqui está o cretino.

— Peeta, eu não transei com mais ninguém depois da festa do seu primo.

— Ela engravidou de você, seu estúpido — Clove diz, já sem paciência.

Ele parece entender o que estávamos tentando lhe dizer.

— O que? Não! Impossível.

— Nós dois estivemos juntos àquela noite, Peeta. Eu não me lembro de termos usado camisinha, provavelmente estávamos tão altos por culpa da bebida que não lembramos de usar uma.

— Meu Deus, Katniss! O que foi que você fez?

Ele se vira e sai do banheiro. Poderia até ter me sentido ultrajada por isso, mas já estamos a tanto tempo no banheiro que, aparentemente, respiro melhor quando saio de dentro dele.

— O que foi que eu fiz? Foi você que não colocou a droga de uma camisinha.

— Estamos no século vinte um! A responsabilidade não é só do homem.

— Você me atacou! Como é que eu iria lembrar de um pacotinho com látex se você estava fungando no meu cangote a cada cinco segundos?

Eu acabei de confessar que ele me atinge mais do que tudo, mas não me importo. Ele nunca se lembrará disso, está tão cheio de raiva que não vai parar para analisar o que estou dizendo.

— Essa criança não pode ser minha.

— É o que? — paraliso.

Ele se vira para mim e ri, jogando o teste para longe.

— Katniss, eu não posso engravidar você. Pelo amor de Deus, já se olhou no espelho? Já olhou o saldo da sua conta esse mês? Seria uma vergonha para a família Mellark ter o primeiro neto vindo de uma garota como você.

Certo, ele podia ter me batido até eu desmaiar e ainda assim teria machucado menos que isso.

— Não fale assim com ela! — Clove se intromete.

— Eu gostaria muito que esse bebê não tivesse vindo de uma pessoa mesquinha como você. Tenho pena da criança, sinto culpa por ter deixado que ela tenha um pai que nem você — respondo-lhe. Meus olhos lacrimejando. — Ela vai sentir vergonha de você e não da renda salarial que a minha família tem.

— Eu espero que o verdadeiro pai dessa coisa, te dê dinheiro para um aborto.

Não resisto e dou-lhe um tapa na cara. Bem entre sua bochecha e seu olho azul, espero que tenha doído bastante.

— Eu espero que sua namorada seja tão nojenta quanto você, porque nenhuma mulher jamais vai conseguir te aturar e aguentar as coisas que são capazes de sair da sua boca, seu monstro — sussurro.

— Acho melhor você ir embora, Peeta — Clove sugere, já o empurrando para fora da minha casa, mas não para fora da minha vida infelizmente.

Subo os poucos degraus até o segundo andar e jogo-me na cama. Deixo que as lágrimas desçam por minhas bochechas, deixo que elas expressem todos os palavrões e os xingamentos que eu queria dizer para Peeta, porém não consegui.

— Porque justamente ele entrou na minha vida, Clove? É tão injusto — choramingo com ela ao meu lado.

— Ele não vai aceitar isso assim de repente, Katniss. É o jeito dele.

— Não o defenda!

— E não estou fazendo isso — ela suspira. — Só que eu e sua mãe já havíamos te aviso que não podia deixar ele chegar perto de você e mesmo assim deixou que ele o fizesse. Não tem mais volta, Katniss.

— Eu realmente não entendo, Clove.

— Só que é muito simples.

Bufo desconcertada. Minha cabeça sobre o acolchoado travesseiro da cama e o olhar na baixinha do meu lado que não para de encarar as lágrimas que saíram de mim.

— Ele tem namorada — relembro.

— E ainda assim ficou com você na festa e te engravidou. Isso é só uma prova de que não podemos esperar nada de bom vindo dele.

— Clove…

— Eu te avisei. Você não podia ter caído no charme daqueles olhos claros dele, não há futuro com Peeta Mellark.

— Eu achei que ele ao menos fosse querer conversar comigo, querer me conhecer melhor mesmo que só como amiga ou… como a mãe do filho dele — suspiro.

— Katniss, amiga — respiro fundo. —, você é uma garota incrível, muito bondosa e generosa, mas caras como ele não querem saber de nada disso. Não importa o quão inteligente você é, eles nunca vão te olhar por esse ponto, só querem saber se você vai ser capaz de proporcionar uma boa transa no final da noite.

Encaro-a horrorizada. Me sinto suja, desleixada e usada.

E algo ainda pior: rejeitada.

O que é que eu vou fazer da minha vida agora?

Notas finais
Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=Z8eXaXoUJRQ Link do grupo no facebook: https://www.facebook.com/groups/ProjetosCarolDantas Agora quero saber a opinião de vocês. Prontos? VAI!