A New Hope
4 The tragedy repeats itself. Where is Lara?
— Lara? – O loiro fez uma pausa, de imediato estranhou a forma como a mulher estava, porém julgou ser culpa do cansaço. – Podemos revisar o plano de captura?
— Ãh? É claro comandante. – A morena podia jurar que sentia seu corpo queimando. Sentia-se tão febril que até a mais leve brisa lhe causava um imenso calafrio. Involuntariamente ela encostou a mão em sua coxa na perna direita e pode constar que o ferimento que sofreu, por culpa dos estilhaços que voaram sobre ela, havia voltado a sangrar. Ela pensava em pedir ao seu superior para adiar a conversa e ir verificar a situação de seu corte, mas ao invés disso optou por pressionar a mão sobre a ferida, tentando conter o sangue que tomava o torniquete improvisado.
Erwin não havia notado no início a gravidade da situação a sua frente, embora estivesse passando para a novata os detalhes da operação que fariam no dia seguinte o comandante estava impressionado com as características físicas da mulher. Ela era forte e inteligente, havia conseguido matar um bom número de titãs em seu primeiro dia e, além disso, salvou a vida de sete membros da Tropa de Exploração. Mesmo com tamanha bravura e força, seus traços físicos eram delicados. O loiro podia jurar que os lábios dela foram desenhados por um pintor e que seus olhos castanhos ao serem iluminados pelo lampião entre os dois mudaram facilmente para um tom mais claro, um mel suave e doce. Estava encantado, talvez até mesmo hipnotizado e diferente de Levi ele não sabia esconder.
O comandante só conseguiu perceber que a mulher a sua frente estava desfalecendo quando a mesma começou a fechar seus olhos e a tombar a cabeça para frente. Em um movimento rápido, o homem apoiou a palma da mão sobre o rosto dela e imediatamente pode sentir a pele quente. Antes que pudesse se levantar e segurar a garota, Levi foi mais rápido do que o comandante e tomou Lara em seus braços.
— Alguém chame a quatro olhos. AGORA! — Levi se exaltou. Pela primeira vez em muito tempo sua expressão correspondia ao que sentia. – O que houve com ela, Erwin?
— Eu não sei. Ela simplesmente desmaiou. – O loiro pronunciou receoso com a situação da mulher.
A tenente Zoe apareceu logo e já estava munida da caixa de medicamentos para socorrer a garota. Levi a deitou sobre a cama velha da casa abandonada, ao deitá-la notou que o pano que envolvia parte da coxa direita dela estava ensanguentado. Assim que Hanji retirou o trapo e fez um pequeno rasgo na calça da morena ela pode constatar o que já imaginava.
— Isso está infeccionado. – Ela suspirou, colocando a mão sobre a testa dela. – E a febre parece estar aumentando. – Hanji se levantou apressada, levando a mão esquerda sobre a testa. – Moblit, faça um emplastro para colocar nesse corte e eu farei um chá para diminuir a febre dela. Levi sei que você tem um complexo por limpeza mas preciso que você suje suas mãos pressionando a ferida enquanto faço o chá.
— Faça logo o que tem que ser feito. – Respondeu ríspido.
A febre de fato parecia ter piorado em questão de segundos gerando nela alguns espasmos e pequenos gemidos abafados de dor passaram a ser ouvidos. Com a mão que estava livre, o capitão deslizou seus dedos pelo rosto da garota, retirando os fios teimosos que estavam sobre a face dela enquanto mantinha sua mão esquerda sobre o corte, estancando o sangue. “Quando que isso aconteceu? Ela não parecia ter sido ferida. ” Levi se questionava em pensamento, não tirando seus olhos sobre ela. Estava atento a qualquer movimento ou som que ela produzisse, queria fazer o que fosse possível para salvar a vida dela. O comportamento do capitão estava diferente do costumeiro. Normalmente ele estaria com sua cara enigmática onde ninguém jamais suspeitaria de seus pensamentos.
Aquele era um Levi receoso, temeroso pela vida da “pirralha”.
Uma versão de Levi que havia desaparecido desde a morte de Farlan e Isabel parecia estar voltando.
— Hey, Levi preciso que se afaste. Pode deixar que Moblit e eu cuidaremos bem dela. – A tenente se aproximou depressa, sustentando a cabeça de Lara com uma mão enquanto a outra despejava o líquido morno sobre os lábios pálidos para que ela ingerisse o chá. O parceiro de Hanji não tardou em aplicar o emplastro sobre o corte na coxa da mulher, enfaixando após com um pedaço de pano limpo.
Como no dia seguinte a cientista precisaria estar a todo vapor para a continuação da expedição, o homem se ofereceu para vigiar a novata, já que sua severa crise de insônia o impedia de dormir mais do que três horas, e de hora em hora, Levi verificava se a febre da garota apresentava melhora. Com o passar da madrugada, a pele dela voltou a ter cor e seu corpo começou a transpirar indicando que a febre estava diminuindo.
— Levi, como ela está? – O comandante adentrou o quarto, sentando na cama ao lado da mulher.
— Melhor. – O homem baixinho observava o modo como o loiro a olhava. Se não o conhecesse bem diria que era apenas preocupação, contudo sabia que havia algo a mais naquele olhar.
— O esquadrão do Mike vai levá-la até Trost. – Ele suspirou, levantando em seguida. – Ela terá mais chances de melhorar estando com um médico do que aqui.
O capitão nada disse, ficou somente assistindo Mike e Henning colocaram a morena em uma maca improvisada e levá-la até a carroça de suprimentos. Como ainda faltavam algumas horas para a alvorada e já que estavam próximo do Distrito Trost, Erwin ordenou que a levassem de volta. Era certo que ela teria mais chances de sobreviver se voltasse para a cidade, ficar ali seria um problema para todos, inclusive para ela. Seria como carregar um peso morto.
Minutos depois, Mike e seu esquadrão partiram em direção à Trost.
(...)
Flashback
Vários destroços pareciam voar sobre o céu negro. Quem iria ficar parado ali vendo aquela devastação? Até mesmo os militares corriam com a multidão, eles nada poderiam fazer para salvar aquelas pessoas. A garota olhava tudo aquilo horrorizada. Sua cabeça sangrava, havia cortado a testa ao dar uma topada pelo caminho enquanto corria. Alguém parecia ter gritado seu nome, mas ela não se moveu. Continuava a olhar incrédula.
“Eu quero minha mãe.”
“Quero meu pai”
Ela era pequena demais para passar por todo aquele inferno, a cidade ao seu redor estava destruída, as casas não existiam mais e um cemitério de corpos se mostrava ao assentar da poeira. A criança estava coberta de fuligem, o vestidinho azul que trajava havia sido coberto de cinzas e sangue. A alguns metros à sua frente a monstruosidade que destroçou seus pais a observava no meio da rua.
A criança só sabia chorar, ela prometeu que sobreviveria mas não tinha coragem de continuar correndo, sabia que poderia morrer a qualquer instante. Antes que tal criatura a alcançasse, um rapaz a pegou no colo, jogando a menina em seu ombro enquanto corria desesperadamente junto aos poucos que ainda estavam naquela região. Porém uma explosão jogou os dois para dentro de uma casa parcialmente destruída e o mesmo som penetrante que ela ouviu quando seus pais morreram fora entoado.
Off
Desta vez, Lara acordou angustiada, sentia seu peito arder como se tivesse inalado fogo em sua forma mais destrutiva. Ravi, que estava babando na cadeira ao lado, se sobressaltou com a mulher e tentou contê-la para impedi-la de abrir o ferimento. – Se acalma, era só um sonho. Era só um sonho. – Ele repetia para a morena, estava ciente do sonho que ela costumava a ter e o quão real ele parecia ser. Ela ainda aparentava estar atônita, em sua mente se questionava do porquê de estar com Ravi e não com o resto da tropa, com Levi. Tinha a respiração pesada e apertava os lençóis da cama.
— O que... que aconteceu? – A respiração dela estava pesada, tinha a sensação de estar se afogando ou sendo sufocada. – Ravi, diz alguma coisa...
— Descanse, você foi ferida durante a expedição e o Comandante Erwin ordenou que um dos esquadrões da Tropa te trouxesse de volta. – Lara não parecia ouvir o que o rapaz havia lhe contado, ainda se sentia angustiada. Pouco a pouco ela foi conseguindo controlar a respiração e Ravi a deitou novamente sobre o leito. – Precisamos conversar. – Agora o moreno tinha um olhar sombrio, seus olhos castanhos exalavam inquietação.
Antes que pudessem dialogar uma da enfermeira entrou no pequeno quarto. Segurava em suas mãos uma singela bandeja com um rolo de atadura. Ela não demorou muito até enfaixar a área lesionada na coxa de Lara. Quando os dois foram deixados sozinhos, o capitão de um dos esquadrões da Guarda Estacionária foi até a porta para se certificar de que não havia ninguém por perto e depois fechou as cortinas das duas pequenas janelas existentes no pequeno quarto. Ele a frente da cama, olhando fixamente para Lara. – Você chamou muita atenção na expedição. Mike disse que você se arriscou salvando a vida de algumas pessoas... – O homem fez uma rápida pausa, um pequeno ruído foi ouvido do lado de fora e ele achou por bem esperar até que fosse seguro novamente. — Você não pode se expor, pelo menos não ainda.
— Não se preocupe. – O olhar a jovem mulher dirigiu seus olhos para o teto. Ela suspirou pensativa, colocando as pequenas mãos sobre seu rosto. – Eu sei bem o que estou fazendo.
Ele só assentiu com a cabeça e voltou para as janelas, ambos estavam tensos. Muita coisa estava em jogo e eles precisavam se proteger. – Estou voltando para a muralha, alguns garotos do 104º esquadrão de recrutas estarão trabalhando nos canhões hoje. — Ela deu um pequeno sorriso ao ouvi-lo. Levantando-se da cama e sentando. – Se cuide, ok? Eu voltarei mais tarde pra te levar de volta pra base da Tropa de Exploração.
Aquela manhã seguiu tranquila. Embora ela não pudesse fazer muito esforço, a mulher passou algumas horas ajudando o doutor que estava responsável pelo pequeno hospital com tarefas simples. Ainda que o médico tentasse colocar a morena em repouso, ela voltava, vencendo o velho doutor pelo cansaço e teimosia. Grande parte do trabalho era ajudando e dando assistência a todos que entravam buscando auxílio médico. Ela teve tempo de conversar com cada um que entrava ali, de conhecer suas histórias. Apesar de estar buscando um meio de se distrair, vez ou outra ela pensava em seus companheiros que estavam do lado de fora da muralha. Será que estavam bem? A incerteza mexia com ela, causando-lhe uma pontada de ansiedade, queria que todos voltassem logo e rezava para que as baixas pudessem ser evitadas.
Tudo estava sereno demais, ninguém mais pensava que a tragédia de cinco anos atrás ocorreria novamente. Todos desejavam estar errados. Um forte clarão seguido por um tremor chamou a atenção de todos. Na frente da muralha, próximo ao portão que ligava Trost ao território da Muralha Maria, o Titã Colossal se mostrava mais uma vez. Lara estava dentro da enfermaria quando ouviu tal estrondo e antes que pudesse fazer alguma coisa voltou até o quarto onde estavam suas coisas e se equipou com seu DMT.
Não demorou para que os primeiros titãs conseguissem entrar no distrito e quando isso aconteceu o caos decaiu sobre as pessoas outra vez. Todos corriam para as barcas e para o enorme portão que os levaria para a Muralha Rose, contudo por conta do pânico a evacuação acontecia em desordem. Os soldados da Guarda Estacionária pareciam não saber o que fazer, estavam tão pavorosos quanto o resto da população. A mulher olhava incrédula para a grande abertura na muralha, aquilo estava acontecendo de novo e a Tropa de Exploração não estava lá para ajudar. Os pacientes, assim como todos na rua, entraram em pânico. A maioria ali não tinha como fugir, estavam debilitados, provavelmente morreriam assim os titãs alcançassem aquela área e mesmo sabendo disso, Lara não os abandonaria.
Quando Ravi soube do ocorrido, por estar um tanto quanto afastado do distrito, apressou-se para chegar até o portão de Trost. Muitas pessoas passavam por lá em total desespero, quase derrubando os guardas que tentavam controlar a situação. Em seu interior rezava para que Lara já tivesse passado por aquele grande portal ou que ao menos estivesse chegando a ele. Mas para seu desespero, depois que uma imensa carroça fora retirada da entrada, os últimos sobreviventes daquele distrito passaram.
— Onde você está, Lara? – Ele sussurrava enquanto olhava para a cidade a sua frente já deserta, apenas os membros da Guarda Estacionaria e os recrutas do 104º Esquadrão ocupavam o lugar agora. – Hey, você... — Ele corre até uma das guardas que cuidava do portão. – Por favor, me diga que a Lara já passou por aqui.
— Senhor, eu sinto muito. – A mulher suspira antes de olhar nos olhos de Ravi. – Eu soube que a enfermaria em que ela estava foi destruída. Ela não conseguiu chegou até o portão.
(...)
— Capitão... – Petra soluçou. – O sangramento não quer parar. – Ela tentava, sem sucesso, pressionar a ferida do soldado abatido mas para ele não existia mais salvação.
Como um pequeno ruído, o homem tentava se comunicar com os dois a sua frente. Ao erguer a mão ensanguentada ele fez seu último esforço para falar. – E-eu fui útil... para a humanidade? Ou... vou morrer... sem ter feito nada? – Sangue respingava por sua boca enquanto tentava falar, quase o engasgando fazendo com que Petra elevasse sua cabeça para assim ajuda-lo.
O capitão, mesmo com todo o seu "excesso com limpeza", segurou na mão do soldado ferido o encarando em seus minutos finais. – Você agiu bem e continuará agindo. Porque sua vontade agora será a minha força. – A ruiva olhava para Levi com lagrimas nos olhos, para ela, ver a morte de seus companheiros era sempre um terrível choque. – Eu lhe prometo. Vou exterminar todos os titãs.
— Capitão... Ele se foi. Mas tenho certeza de que ouviu o que o senhor disse. Veja, agora ele descansa em paz.
Ambos permaneceram ajoelhados ao lado do loiro, prestando o devido luto ao companheiro que agora estava morto. Alguns metros à frente, Erwin vinha depressa em seu corcel junto a alguns outros soldados. — Levi! Junte seu esquadrão, estamos batendo em retirada.
— Ainda não alcançamos o objetivo principal. Está me dizendo que meus homens morreram por nada? Dê-me um excelente motivo para isso.
— Os titãs estão rumando para o norte. Igual a cinco anos atrás! Algo aconteceu na cidade é provável que a muralha tenha sido destruída outra vez.
Levi não parecia ter ouvido mais as palavras do comandante, seu pensamento imediatamente voltou-se para Lara. Sabia que ela estava em Trost para se recuperar o grave ferimento que sofreu no meio da missão que tinham e que agora ela estava em perigo mais uma vez. Rapidamente montou em seu cavalo e se juntou com a Tropa de Exploração no caminho de volta para a cidade, a sensação terrível que sentia em seu peito o fazia tremer por dentro. Ele não se preocupava tanto com a vida e bem-estar de outra pessoa desde que seus melhores amigos haviam sido despedaçados por um titã, é claro que ele zelava pela vida de seus companheiros de arma, mas com a morena era diferente. Desde que a encarou nos olhos pela primeira vez sentiu-se ligado a ela, era algo estranho e misterioso demais para ele tentar entender naquele momento.
— Esteja viva, pirralha. Nós estamos chegando.
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