Quando ele saiu, minha mãe veio de trás da porta e disse:

– Eu escutei tudo. Ai que fofura esse garoto.

– Eu sei. – Falei saltitando com a minha mãe e ela dizendo: “Filha, que doçura, ele vai vir-lhe buscar, como nos filmes”. E eu completava: “Eu sei, eu sei”. “Estou nervosa, não sei como agirei.”

...

Fui até o meu quarto e sentei em minha cama, fechei meus olhos e senti o aroma das pétalas das flores. Eu nunca tinha ganhado um buquê de flores atoa, sem comemorações nem nada. Quando abri meus olhos pude ver um cartãozinho azul-marinho que na frente dizia: “19h00min.”. Com uma caneta de brilho verde que eu mal podia enxergar ele escreveu as seguintes palavras: “Agradeço a Deus por ter posto uma Brooke em meu caminho, pena que nos esbarramos.”.

Já eram 17h58min e eu já estava pronta. Resolvi dar mais uma olhada nas flores e no cartãozinho que ele me fez; olhei atrás dele e vi que tinha o número do seu telefone, o que era extremamente eficaz porque eu queria lhe mandar um torpedo para vir antes, que eu já estava pronta.

Logo depois ele já me respondeu.

Tudo bem. Faz duas horas que eu já estou pronto, estava olhando os detalhes das moscas e tudo mais.

Ai, meu Deus. Eu também faço isso.

Fico pensando: será que elas também fazem isso. Mas é inútil.

Não acho que seja inútil, não da pra saber se elas se observam ou não. A ciência é o máximo, mas isso ela não faz.

Isso?

Saber se as moscas te observam e tal.

Dessa vez ele me respondeu depois de dez minutos:

Desculpe-me, eu estava decidindo de que jeito deixar meus cabelos...

Demorei cinco minutos propositalmente para ele não achar que eu estava muito preocupada em respondê-lo. Arrependi-me logo depois.

– Você está onde? – Liguei para ele. Quando me atendeu demorou alguns segundos, deu para perceber que ele estava sorrindo por causa dos barulhinhos que ele fazia. – Aidan?

– Oi, Brooke.

– Você está onde?

– Estou na frente de casa esperando o tempo passar.

– Se quiser, pode vir. – Ele desligou.

Em poucos minutos, ele tocou a campainha.

Capítulo quatro

Nós decidimos ir a pé porque os transportes públicos estavam em greve, o que piorava a situação ainda em meio a estas chuvas de neve que estavam acontecendo e todas essas tempestades.

Eu não estava pensando em levar uma bolsa nem nada na mão, mas por conta de ter que ir a pé minha mãe obrigou-me a levar guarda-chuvas caso chova ou algo assim.

A estrada estava, digamos “nevastada”, e era difícil andar na calçada, ou sei lá onde estávamos andando por causa dos trinta centímetros de neve abaixo de nós. Eu sei que é grotesco falar que a neve estava gelada, mas a neve estava gelada de uma maneira que é indescritível. O que me deixava aconchegada era Aidan ao meu lado, seus suspiros de frio e o vaporzinho que saía de sua boca. De vez em quando eu percebia que Aidan me olhava e sorria, mas eu estava com tanto frio que só estava interessada em olhar nos meus pés afundando na neve e acabava esquecendo-me de sua companhia. Era hilário porque Aidan estava com postura, comportado e normal, já eu estava com os braços abertos andando com um pé atrás do outro dificultando o que já estava dificultado, sorrindo e às vezes olhava para ele e lembrava que eu estava parecendo uma criança vendo a neve pela primeira vez. Foi inevitável e eu parei de fazer o que estava fazendo para andar como ele e não fazê-lo passar mais vergonha.

Eu estava com vontade de dar gargalhadas de mim mesma porque eu acabara de estragar a coisa toda, de fazê-lo sentir-se um completo idiota em estar saindo com uma criança.

Confesso que a cada passo que dava eu pensava na hipótese dele me largar lá e ir embora, mas sabia que Aidan não era assim e que de maneira alguma ele faria isso comigo.

– Você deve estar se sentindo um completo bobão. – Parei de andar e olhei para ele. –

– Do que você está exatamente falando? – Ele levantou uma sobrancelha e fez uma expressão de indignação.

– De estar saindo comigo. – Eu falei mexendo na neve com o pé coberto por uma bota e sete meias.

– Ah Brooke! – Ele sorriu como na primeira vez que sorriu para mim na tarde da pá.

– Não, é sério...

– Você não sabe como eu estou inteiramente feliz por estar saindo com uma agradável e linda garota como você. – Fitou-me.

Só pelo fato de ele ter me chamado de linda e agradável, a minha Brooke interior já estava pulando de alegria e cantando músicas mexicanas com um sombrero e um violão tocando-o sem rumo para a melodia.

Podia avistar o cinema a cem metros da gente. Meus dedos estavam, literalmente, congelados. A fim de querer sentir o calor humano de Aidan cheguei mais para perto dele e bati com o meu cotovelo propositalmente para ele perceber que eu estava querendo que ele me abraçasse. Mas ele não fez nada, talvez ele estivesse com receio de me abraçar e de que eu pensasse que ele era um garoto mal intencionado e pervertido. Eu aceitei que fosse aquela hipótese.