Enfim chegamos ao cinema, à fila estava completamente vazia e os atendentes estavam nos ignorando com cara de sono e sem vontade nenhuma de estar ali. Uma das atendentes estava dormindo, só para verem o grau da situação. Como sabia o que era querer dormir no inverno não quis acordá-la, então fomos em direção ao Fred, o nome que, pelo menos dizia no crachá. Tirei de dentro da minha bolsa uma nota de vinte dólares e Aidan não a pegou em nenhum momento.

– Amigão, vê-me dois ingressos para... – Ele parou de falar com o Fred e virou-se para mim, sorrindo. – Brooke, você está afim de ver o que?

– Ah... Bem... O que está nos cartazes Sr. Fred?

O moço bocejou e falou tão baixo que eu tive de repetir a pergunta e ele me fitou com os olhos pesados e disse, disse não, gritou:

– Olha moça, nós temos disponíveis hoje – ele apontou para os cartazes atrás dele e olhou novamente para nós. – Uma Jornada Quase Que Inesquecível e Pípi, Minha Rata de Estimação.

Eu não pude evitar em soltar uma risadinha e Aidan também. O Fred Homossexual nos olhou. Aidan falou sussurrando para mim que achava melhor que nós víssemos a segunda opção, e eu concordei.

Quando Aidan disse o que nós havíamos decido Fred não passou um segundo sem rir e falar o nome do filme inúmeras vezes baixinho em um tom sarcástico. Entregou para nós os ingressos e disse:

– Bom filme, – Ele riu e nos olhou. – crianças.

Aidan e eu fomos comprar pipocas e o Fred Homossexual continuou zombando de nós, o que me fazia rir.

Por fim compramos pipocas e Coca-Cola, escolhemos as poltronas de trás porque era melhor e mais distante da tela o que facilitava a visão.

Não havia ninguém naquele setor do cinema, e nós também não estávamos interessados em ver aquele filme, então ficamos correndo pelas colunas das poltronas do cinema jogando pipocas e até mesmo o refrigerante um no outro.

Eu me cansei e sentei em uma das poltronas de lá, Aidan sentou ao meu lado e ficamos fazendo competição de respiração ofegante.

– Devo dizer que eu não levo jeito pra essa coisa? – Falou-me fazendo gestos.

– Não, Aidan, você realmente não leva jeito pra essa coisa! – Eu falei sorrindo.

Quando foi a minha vez de fazer a respiração, infelizmente, aconteceu de sair um som cômico e ele caiu na gargalhada. Foi a primeira vez que ouvi o som da sua risada, e era contagiante, era hilária.

– Ah cara, você também não leva jeito pra essa coisa, – Ele jogou uma pipoca no ar e pegou-a novamente com a boca. – somos uma dupla infalível.

Quando nos acalmamos, ele chegou mais para perto de mim e pegou uma das minhas mãos que estava mais próximo dele. Estávamos ainda nos olhando quando Aidan começou a acariciar meu rosto com sua mão, e eu fechava meus olhos por causa do prazer que aquele carinho me causava.

Achei que minha mãe não fosse me ligar porque sabia onde eu estava e além do mais, não estava nevando nem nada, mas ela ligou.

– Alô, mãe?! – Eu fiz com que saísse daquela situação e conseguisse levantar para lhe atender.

– Filha, aconteceu uma coisa. – Ela falou normal, não achei que pudesse ter acontecido alguma coisa grave.

– O que aconteceu?

– Su... Sua avó faleceu. – Ela suspirou calmamente tentando me passar aquela tranquilidade.

Eu não falei nada, apenas tirei o celular do ouvido e olhei para Aidan que estava comendo pipocas e olhando para a tela do cinema.

Sentei na primeira poltrona na fileira que estávamos, encostei minha cabeça na da frente, comecei a chorar tentando ser discreta, mas eu sabia que meu choro era impossível se não se notar. Logo pude ver Aidan se levantando rapidamente e se agachando ao meu lado para me perguntar o que estava acontecendo.

– O que houve?

Eu simplesmente não o respondi, minha raiva e dor eram maiores do que qualquer outra coisa. Do nada acabei lembrando-me de que minha mãe estava a me esperar do outro lado da linha telefônica.

– Ah mãe. – Estava soluçando e com voz de choro. – O papai já sabe?

– Sabe sim, e ele disse que precisa muito de você. – Ela fez uma breve pausa. – Acho melhor você vir, meu anjo.

Fitei Aidan e percebi sua preocupação estampada no rosto. Então, para não deixar-lhe passar mais aflição acabei lhe falando sobre minha avó.

– Eu pensava que receber a notícia de uma morte próxima seria fácil para mim. Pensei que eu iria suportar e iria ajudar as pessoas ao meu redor, passar por forte, Aidan. Mas quem mais precisa de ajuda agora sou eu. – Encostei minha cabeça em seu ombro e senti que podia chorar, então, não vi outra razão para segurar aquela angústia.

Cheguei a casa correndo e fui em direção ao meu pai. Durante minha vida toda eu não tinha visto papai chorar, muito menos soluçar e chorar. Ele estava sentado na mesa, com as mãos na cabeça e sussurrava para um ser do além “Por quê?” inúmeras vezes. Era mortificante vê-lo assim, aquela cena só me fazia querer chorar junto a ele e não ter reação quanto à morte da vovó muito menos ao que eu iria dizê-lo.

– Ah pai, – Sentei ao seu lado, posicionei a cadeira para mais perto dele e coloquei minha mão na sua cabeça – nós não queríamos isso, mas ela está em um lugar melhor agora.

– Você está aí, meu amor. – Ele abraçou-me bem forte e beijou-me várias vezes na testa, beijos molhados.

– Claro pai. Eu não poderia deixar você aqui, assim... Nessas condições!

Seu choro aumentou, e meu desespero foi junto.

– Pai... Por favor... – Acariciei seu rosto como Aidan fizera comigo. – Quando está suficientemente escuro, você precisa tentar encontrar as estrelas.

Ele me olhou, um olhar sofrido, angustiado, doloso.

– A angústia de ter perdido, não supera a alegria de ter um dia possuído. Segundo a Bíblia, um dia, talvez não tão cedo, você a encontrará, e toda essa saudade que já lhe bate será afastada para sempre.

– Eu estou orgulhoso de você. – Ele beijou minha testa e fez sinal para que eu continuasse a falar, sendo que eu já havia acabado, mas continuei mesmo assim.

– Mas talvez o tempo apague a saudade e leve o apego embora. Tirei a conclusão de que anjos foram feitos para voar e não para andar nesse chão imundo. Ela está voando agora. – Ele me abraçou tão forte como antes.

– A dor é inevitável, minha filha.

Nós ficamos conversando por longas duas horas, logicamente, sobre minha avó. Histórias que nem mesmo eu sabia, e que foi formidável ficar sabendo.

– Papai, já são 1h44min, nós temos que ir dormir... Você sabe... Amanhã o dia vai estar coberto de emoções, lágrimas, lembranças... – Falei acariciando seus cabelos e olhando para ele, sorrindo. – Vamos?

Ele levantou pela primeira vez em horas, suspirou tão fundo que cheguei a imaginar se eu conseguiria suspirar assim. A expressão facial dele era tão sofrida. Reparei seus olhos, novamente, enchendo de lágrimas.

– Filha, – Ele andou até mim e me abraçou. – eu realmente não conseguirei dormir essa noite. Vá para seu quarto, durma e amanhã eu lhe acordarei para ir comigo a funerária, sabe?! Eu não irei aguentar ir sozinho, e sua mãe não poderá ir conosco.

– Ah pai, tudo bem. Eu vou respeitar essa sua vontade. – Beijei sua testa e subi para meu quarto, devagar.

Minha cama estava bagunçada, meu quarto estava bagunçado. Um furacão passou por aqui?! Comecei a ajuntar as roupas do chão, roupas que eu nem usava.