Uma mulher gritou para realmente ouvirmos:

– Já vai!

Olhei para minha mãe, deu para perceber que ela já havia entendido minha preocupação, mas ela não sabia que eu conhecia aquele cara, e que o motivo da minha preocupação era justamente ele. Passei as mãos no meu vestido para ajustar qualquer imperfeição.

Uma mulher loira, magra abriu a porta. Suas clavículas eram bem visíveis, eu acho bonito e, principalmente, nela. Seus olhos eram azuis e bem acesos. Ela estava com um avental e logo foi tirando quando nos viu.

Disse para entrarmos, meu pai cumprimentou-a e foi logo em direção a um homem que estava sentado ao sofá com um copo de uísque na mão. Ele tinha uma aparência incrivelmente engraçada. A barriga do homem tinha um formato de melancia, e para ser ainda mais hilário, ele era calvo.

O homem levantou para abraçar meu pai, se eu estivesse vendo aquilo em um filme diria que estava no modo “câmera lenta”. Em minha opinião, abraços entre homens são bastante engraçados, da para ouvir os tapas que eles dão nas costas uns dos outros por metros de distância. Foi nesse instante que descobri o nome do homem quando eles deram o abraço e meu pai disse com um ar bem empolgante:

–PETER! Quanto tempo amigo!

Não sabia de onde meu pai conhecia esse tal de Peter.

A mulher agradável gritou, novamente, olhando em direção à escada.

– Aidan, filho! Alguns convidados chegaram!

Já teria dado para perceber que ela gostava de gritar. Mas quem será Aidan?! Deve ser um daqueles meninos que correm pela casa rindo e te rodeando até você gritar e chutar a cara deles (Nunca fiz isso, mas é uma hipótese).

Quando o “menino” foi descendo, percebi minhas pupilas dilatando e minha boca abrindo involuntariamente. Era tudo que eu não precisava. O menino já tinha um nome, Aidan. Um cara que eu havia conhecido desagradavelmente hoje à tarde.

Ele olhou para mim e sorriu. Pensei:

“Ah não! Não sorria para mim. É crueldade.”

Retribuí sorrindo sem mostrar os dentes.

Virei-me e fui até minha mãe. Ela estava indignada com a riqueza da casa. Mamãe sussurrou em meu ouvido:

– Esse corrimão paga a nosso Van.

Eu ri. Sussurrei no ouvido dela também:

– Teríamos que trabalharmos, nós três, a vida toda para ter a metade do que eles têm.

Nós duas olhamos uma para a outra e rimos discretamente.

Mamãe passou as mãos dentre os meus cabelos e depois deslizando até as pontas, foi andando em direção a agradável mulher na qual não sabia o nome.

Comecei a olhar ao meu redor. Não sabia que a casa era tão extensa assim. Por fora ela até seria comparável a minha, mas por dentro...

Acho que vi passar uns cinco empregados pela casa, o homem no sofá parecia não gostar deles estarem passeando de um lado para o outro. Eu segui uma mulher com alguns panos e toalhas nas mãos dobradas perfeitamente. Olhei para trás pra ver se não havia ninguém me vendo. Continuei a seguir a mulher que entrou em um cômodo da casa, acho que era a lavanderia. Do tamanho que a lavanderia tinha parecia mais uma pública do que uma particular. Céus, aquela casa era mesmo enorme. Pensei que se a lavanderia era daquele tamanho, o quarto do Peter e da mulher gritante era muito, muito maior.

Percebi que o Aidan estava procurando alguém, acho que era eu. Tentei me esconder para ele não me encontrar, mas ele me viu. Enquanto ele vinha em minha direção, tentava passar a ideia de que não teria o visto vindo, olhando a pintura da parede. Tive que fazer aquela expressão “oi, não tinha te visto” e depois jogar a cabeça para trás e sorrir, era inevitável.

Ele disse olhando para parede juntamente a mim:

– Também não gosto desse ar forçado. Geralmente, quando meus pais convidam alguém para jantar conosco, os convidados ficam olhando só para a casa e na estranha riqueza dela.

Só pensei na parte em que ele falou: “... estranha riqueza...”.

– Nããão. Está tudo certo. Só estou apreciando essa magnífica cor de tinta.

Era como se estivéssemos olhando para o nada. Eu sabia que ele já havia sacado que eu não estava nem aí para bendita cor da parede, só estava tentando passar que eu não estava em um lugar da casa que, a propósito, não era pra eu ir.

Ele puxou-me pelo punho, confesso que não esperava aquilo. As mãos dele eram macias, parecia que plumas estavam puxando-me para um lugar. Ele não foi agressivo por mais que pareça ter sido. Fui acompanhando seus passos rápidos (não especialmente correndo, mas quase isso). Percebi minha mãe lá de baixo fazendo um olhar como quem queria dizer que estava de olho, ironicamente.

O corredor do segundo andar era imenso. Parecia que eu estava vendo o horizonte do mar. Certo, não era pra tanto. Mas era o corredor maior que eu já havia visto.

Quando nós dois chegamos ao fim do corredor eu já estava exausta com toda aquela agitação. Deparei-me com uma apertada escada que dava para o topo da casa/mansão, e ele, finalmente, soltou o meu braço porque não iríamos conseguir passar juntos naquela escadinha.

Depois de passar pela escada, percebi que aquele era o quarto de Aidan. Era bem esportivo; havia bolas de futebol americano, de basquete, por toda parte. Tinha também pôsteres atléticos e de bandas de rock.