A Máscara de Seth
19 Capítulo 19
Notas iniciais

Dias antes...
Logo após sair do emaranhado comercial de Fez e se acomodar em seu suntuoso quarto de hotel, gerenciado por membros de seu clã, no centro de Marrocos, Radamanthys deixou-se cair sobre os lençóis escuros da cama macia e espaçosa.
Apressado e extremamente irritado, pegou o celular de dentro do bolso do sobretudo negro que usava e ligou para sua fiel carniçal, Pandora.
“Pois não, senhor Radamanthys.”, disse uma voz feminina sem nenhum entusiasmo do outro lado da linha.
— Pandora, quero que cheque as minhas contas bancárias imediatamente. Consulte todas. Retornarei a ligação em vinte minutos. — ordenou o alemão.
Dado o teor da ordem e a gravidade da voz do Mestre, a jovem de longos cabelos negros e rosto inexpressivo apressou-se a cumpri-la desligando o telefone e imediatamente voltando sua atenção para a tela do laptop, aberto à sua frente, no qual iniciou o levantamento.
Pandora era a responsável absoluta pelo controle das finanças do Espectro, além de seu braço direito em quase todas suas ações.
Vinte minutos após a primeira ligação, o alemão retornava a chamada, mas poucos segundos de conversa bastaram para seu rosto austero transfigurar-se em uma carranca terrível de raiva.
— Isso não é possível! — rosnou com um ranger de dentes — Somente isso? Você tem certeza?... Não é nem a metade do que aquele cão imundo me cobrou! — as últimas palavras saíram quase num grito carregado de ódio, mas que fora contido rapidamente enquanto o loiro fechava os olhos procurando se acalmar — Pandora, ligue para o Banco nacional de Zurik e marque uma reunião para amanhã com Níobe, o gerente da minha conta, às vinte e três horas na minha residência. Diga-lhe que meu motorista irá apanhá-lo.
Desligou o celular sem mais nada dizer.
Jogando o aparelho sobre os lençóis e já se levantando enquanto esfregava o rosto, Radamanthys caminhou lentamente até a grande janela que havia no centro do aposento e despedindo-se do manto da noite fechou as cortinas, enquanto divisava as escuras nuvens no horizonte lentamente se tingirem de coral pelos primeiros vestígios do alvorecer.
O Espectro então cruzou o quarto em silêncio, introspectivo.
Parou de frente a uma grande estante de livros e de trás de um antigo cartapácio, o qual empurrou um pouco para o lado, puxou uma pequena alavanca que lhe abriu uma passagem lateral.
Após selar a passagem depois de atravessar por um caminho íngreme, chegou até uma câmara isolada completamente por maciças paredes de concreto. Nela havia somente um candelabro com algumas velas acesas e um leito exíguo com lençóis negros.
Ali se entregou ao sono voraz que abatia os filhos da noite a cada nascer da aurora.
***
Radamanthys retornou à Alemanha ao cair da noite em um de seus aviões particulares, e no horário marcado, precisamente às vinte e três horas, o servo que geria suas finanças o aguardava no escritório de sua residência na Bavária.
Nióbe era um dos servos que trabalhavam para o Espectro. Um homem magro, alto, caucasiano e de ralos cabelos claros que se espalhavam pelas laterais da cabeça calva, onde já brotava minúsculas gotículas de suor devido ao nervosismo causado pela convocação extraordinária.
Quando Radamanthys entrou na sala, acompanhado de sua sempre fiel serva Pandora, o homem levantou-se da cadeira em que estava sentado e o cumprimentou com uma sutil reverência.
— Boa noite, senhor Radamanthys. — disse com voz trêmula, visivelmente tenso.
— Boa noite. — o alemão respondeu sem nenhum entusiasmo, depois caminhou até a escrivaninha e puxando a cadeira que a servia sentou-se, sendo acompanhado pelo gerente que voltou a se sentar.
Pandora ficou de pé ao lado do vampiro, enquanto calada encarava com seus olhos de um tom purpura bravio a face pálida do visitante.
— Como foi de viagem? — perguntou Níobe numa tentativa frustrada de informalidade, mas o olhar que Radamanthys lhe direcionava era o suficiente para deixar claro que aquele seria um encontro breve.
— Vamos direto ao ponto. — disse o Espectro em tom vigoroso, depois retirou do bolso do casaco um envelope pequeno e o entregou ao homem — Eu preciso que levante essa quantia até às 19:00 horas de amanhã e transfira para a conta que está anexada ao valor no envelope que lhe entreguei. É de um banco turco.
Níobe apanhou o envelope e ao abri-lo e retirar de dentro uma papeleta em tom azul arregalou os olhos em profundo espanto.
— Mas, isso é... — disse com exaltação, sendo interrompido por Radamanthys em sua veemente oratória.
— Isso é uma ordem, Níobe. — postulou o Espectro.
— Mas, esse valor é infindo, é... — gaguejou ao encarar os olhos ambares do vampiro que o encarava ameaçadoramente — Digo, eu não sei se consigo levantar tamanha quantia em tão pouco tempo, por causa... por causa dos tramites monetários e...
Níobe suava frio. Tentava desesperadamente expor os pormenores que o impediriam de realizar aquela transação absurda, mas já tendo consciência de que cometera um erro grave ao titubear diante de uma ordem do nefasto vampiro à sua frente, que ao elevar sua Presença de Espírito deixava clara sua postura dominante.
— Eu acho que não me fiz ser compreendido! — disse Radamanthys, e na mesma hora, como um demônio nefasto que nasce das entranhas da Terra, uma sombra densa e arbitrária soergueu-se de suas costas ganhando proporções maiores até engolir totalmente o recinto — Pandora faça uma ligação para a casa do senhor Níobe por gentileza.
— Não! — o homem, aterrorizado, intencionou levantar-se da cadeira num claro gesto instintivo, mas fora impedido por sua própria sombra que ao erguer-se enlaçou seus punhos com negros tentáculos fantasmagóricos o obrigando a permanecer sentado — NÃO! MESTRE!... Por favor! Pelo amor de Deus, não!
O terror de Níobe era tamanho que era possível ouvir seu coração bater aflito dentro do peito.
— Não fale de seu deus dentro da minha morada. — Radamanthys estreitou os olhos, que agora possuíam uma faísca dourada ao encarar a face aterrorizada do humano — O único deus que reina entre nós, Níobe, é o dinheiro!
O Espectro então desviou o olhar e divisou o semblante inexpressivo de Pandora, que segurava o celular na mão já com o viva voz ativado.
Do outro lado da linha, uma voz animada de criança atendia a chamada.
— Papai?... É você papai?
— Por favor... Mestre eu...
Níobe não conseguiu terminar a frase. Entregou-se a um choro desesperado antes, até que a voz de sua esposa ecoou na sala através do viva voz do celular.
— Alô? Querido?... Alô? Onde você está?... Tem... tem dois homens aqui esperando por você... Níobe... quem são essas pessoas?
A voz da mulher estava visivelmente tensa, e isso bastou para o gerente engolir o choro, arregalar os olhos e com a face pálida e coberta de suor encarar os olhos de Radamanthys, que fez um sinal para que Pandora desligasse o aparelho.
— Não as machuque, Mestre, por favor... Eu... eu vou levantar a quantia, eu vou! — falava em total desespero — Amanhã... amanhã no horário estipulado eu estarei com o dinheiro, mas por Deus, por nosso Senhor Todo-Poderoso, não machuque minha família!
— Perfeito! Não esperava menos de você. — disse o Espectro acentuando as ultimas palavras depois de curvar os lábios num sutil sorriso de vitória.
***
Na noite seguinte, na Turquia...
Faltava pouco mais de quatro horas para o amanhecer quando um homem alto, trajando uma típica vestimenta usada pelos soldados persas de eras remotas, composta por uma calça larga amarrada por grossas tiras de couro nas canelas, túnica e turbante, todos em tons escuros, esgueirava-se entre os estreitos corredores subterrâneos das ruinas da lendária fortaleza de Alamut, situada na Cordilheira Elbruz, ao sul do Mar Cáspio.
Após cruzar metros e mais metros daquele labirinto de rochas escavadas solapadas por muitas camadas de terra árida, chegou a uma porta grande de bronze onde se fez anunciar dando três toques com a aldraba.
Ao ser autorizado empurrou o pesado metal e adentrou o grande salão onde El Cid, o líder do clã Assamita, se mantinha recluso há alguns dias, concentrando-se para uma batalha que sabia que exigiria tudo de si.
O local parecia com um forja rústica e ancestral. Havia uma fornalha, muitas correntes, ganchos, ferramentas de ferro e metais diversos, algumas peças para moldar o aço e inúmeras, incontáveis quantias de armas brancas, entre espadas, adagas, floretes, punhais, ginetas e machados. Havia também mais ao fundo uma estante gigantesca com toda sorte de frascos de vidro e cristais, e também um pequeno laboratório químico.
Ali El Cid inoculava as letais toxinas com as quais banhava as lâminas inclementes de suas espadas.
— Com licença, senhor. — disse o vampiro mensageiro ao bater uma bota contra a outra espalhando no chão uma boa quantidade de resíduos de terra e areia desértica, prestando uma continência — O Espectro das Sombras enviado por Radamanthys acaba de chegar. Trouxe consigo o pagamento. Conferi e o valor está correto.
Um sorriso discreto e malicioso se formou no rosto pestilento do Assamita líder, que não ergueu os olhos negros para divisar a face do subordinado, os mantendo firmes e vidrados na lâmina de sua cimitarra, a qual afiava com paixão e precisão de um ourives.
— Ótimo! — disse com sua voz áspera a gutural — Preste atenção: Quero que convoque Shiryu, Oko, Izo e Genbu. Eles já estão na sede do clã de sobreaviso apenas aguardando o meu chamado. Mande se armarem que partiremos para Inglaterra assim que o sol se por. — olhou para o vampiro à sua frente e sem desmanchar o sorriso dos lábios repletos de feridas pustulentas botou a língua para fora e nela deslizou a lâmina de sua cimitarra, a tingindo de negro com seu sangue peçonhento — Hum... Mal posso esperar para comer aquele sumo sacerdote de nariz empinado inteirinho, e a preciosidade que ele esconde também! Ah, Radamanthys! Inacreditável sua ingenuidade! Mesmo eu cuspindo na sua cara ariana de merda ainda me paga um valor tão alto!
As gargalhadas do Assamita ecoavam pelas galerias subterrâneas de Alamut como um hino de guerra que precede a batalha.
***
Na noite seguinte à partida de Mu para o Irã, El Cid e seus quatro guerreiros mais habilidosos esgueiravam-se pela mata dos arredores da propriedade sede dos Seguidores de Seth em Londres, a mansão do sumo sacerdote Shaka.
Trajando vestimentas negras da cabeça aos pés e armados até os dentes, literalmente, usavam lama e folhagens para sublimar seu odor e se camuflarem entre as criaturas da noite.
Nas primeiras horas após a noite descer seu véu sobre o horizonte, os caçadores puseram-se a observar a movimentação no entorno da casa, sempre mantendo uma distância segura para não serem surpreendidos.
Com seus rostos bestiais encobertos por lenços árabes que deixavam à mostra apenas os olhos fantasmagóricos, os quais cintilavam na escuridão feito dois faróis num oceano de trevas, usavam seus sentidos aguçados para rastrear os odores que vinham de dentro da propriedade e constatar se a presa que buscavam estava mesmo ali.
Um sorriso infesto desenhou-se nos lábios pestilentos do líder Assamita ao capturar o odor de Shaka, mas também de mais quatro Setitas que com ele estavam na residência.
Eram os membros do clã das Serpentes que o sumo sacerdote convocara para reforçar a guarda enquanto Mu estivesse fora, mas nem de longe o fato de haver mais imortais no cenário da captura intimidava os bravos assassinos, que ao trocarem olhares em meio à escuridão apenas deixavam claro seu contentamento.
A emboscada seria ainda mais deliciosa!
A mente do líder dos mercenários já ansiava por desvendar os segredos milenares contido nas lembranças do sangue daquelas víboras traiçoeiras!
Contudo, a relíquia que o sumo sacerdote tanto escondia entre quatro paredes parecia não estar ali, já que El Cid apenas farejou Seguidores de Seth, e segundo Radamanthys lhe dissera, o tal vampiro muito poderoso pertencia a um clã ancestral, o que só aguçava o furor do líder Assamita.
Não haveria problema.
Entraria na mansão, sorveria o sangue dos Seguidores e, depois de se fartar do sangue precioso de Shaka, o manteria vivo apenas para presenciá-lo consumir a tal relíquia bem diante de seus olhos, já que uma hora ele teria que voltar, e o estaria esperando.
Com a precisão e paciência que só as Bestas de sangue frio possuem, os cinco Assamitas aguardaram até que todos os presentes na residência se acomodassem em sua ingênua e frágil segurança doméstica, e então um piado de coruja ecoou pela noite, ditando o início do ataque dos assassinos.
De forma assustadoramente eficiente os cinco vampiros mercenários brotaram da terra como vermes medonhos e vorazes, e em uma movimentação sincronizada avançaram para os perímetros da mansão.
Em um piscar de olhos, Oko e Shiryu já escalavam as paredes e se posicionavam no telhado, um em cada setor, enquanto Genbu e Izo surgiam pelos fundos já abatendo os carniçais que vagueavam por ali.
El Cid cruzava o jardim sem a menor preocupação já desembainhando uma das duas cimitarras que trazia presa à cintura, enquanto subia pela escadaria frontal.
Parou em frente à porta de entrada, e levando a mão que estava livre até seu rosto, descobriu a boca horrenda encoberta pelo lenço quadriculado em preto e branco e emitiu o segundo e derradeiro sinal.
Um novo piado de coruja ecoou pela noite, mas agora veio acompanhado do som de vidro se quebrando.
Dotados de um sincronismo que somente o clã Assamita possui, oriundo do treinamento ferrenho e de uma disciplina bélica devota, ao mesmo tempo os quatro caçadores quebraram as janelas do segundo piso e porta dos fundos do primeiro, adentrando a casa imediatamente e já ativando seu dom das trevas mais poderoso, o Quietus.
Imersos num silêncio de morte, dois dos Seguidores de Seth que faziam a guarda no corredor que levava aos quartos e ao porão só perceberam o ataque ao ter os rostos pálidos acariciados pela gélida brisa noturna do outono inglês, porém qualquer reação já se fazia inútil.
Shiryu, que havia estilhaçado uma das janelas, num rolamento ligeiro seguido de uma cambalhota, saltou sobre um dos vigias e com um único golpe preciso lhe cravou a gineta afiada no peito, acertando em cheio o coração com a lâmina banhada no sangue venenoso do clã canibal.
O Setita soltou um urro antes de cair paralisado no chão, mas sua voz não foi ouvida, nem por ele nem por ninguém dentro da casa.
Com os olhos arregalados e o olhar aterrorizado preso à face de seu predador, o Seguidor de Seth viu o Assamita arrancar o lenço quadriculado que cobria parte de seu rosto selvagem para revelar a bocarra enorme de dentes apodrecidos.
A mordida na garganta foi tão certeira quanto feroz.
Com apetite voraz, Shiryu sorvia o sangue da presa e com ele todos os seus segredos e gerações. Poucos minutos depois, o que sobrou foi apenas uma carcaça murcha, envenenada e enrijecida, a qual fora empurrada para o lado quando o Assamita se levantou recolhendo sua lâmina.
Ao olhar para o lado, Shiryu viu Oko se livrar da outra carcaça, a do segundo sentinela, quase no mesmo instante.
Ambos trocaram um olhar ligeiro e logo farejaram algo inesperado, o odor de um humano!
O sangue do gado não era nem um pouco instigante para os caçadores silenciosos, mas a ordem de El Cid era para não deixar ninguém vivo para trás. Por isso, enquanto Oko se dirigia para o piso inferior seguindo o rastro do odor de Afrodite, Shiryu apressava-se em vasculhar os outros cômodos.
Enquanto isso, na penumbra repousante da parte inferior da mansão, que compreendia os corredores de acesso à sala e cozinha, Genbu e Izo se dividiram.
Genbu seguiu para a cozinha acompanhando o rastro de um dos Seguidores que estava mais pronunciado ali, mas ao adentrar o amplo cômodo foi surpreendido por um enxame de vespas que parecia ter sido invocado direto dos pórticos do Inferno.
O alveário avançou sobre o intruso, que surpreendido fechou os olhos tencionando protege-los das ferroadas, porém esse foi seu grande erro.
Mesmo sob o efeito do Quietus do Assamita, o Seguidor de Seth que controlava aquele colmeal de vespas mudas puxou duas adagas egípcias de seu coldre preso ao tórax e num movimento tão rápido quanto um raio que corta o céu negro as cravou no tórax do canibal.
Genbu sentiu o peso do golpe certeiro, e com as vespas vorazes a lhe penetrar por boca, ouvidos, narinas e olhos, caiu de costas no chão, em agonia.
O Quietus de Genbu fora finalmente quebrado, e o guarda costas de Shaka, não tendo tempo a perder, bradou em alto e bom tom, com voz gutural e ânimo inflamado, avisando aos demais sobre o ataque:
— ASSAMITA!
No corredor mais à frente, Oko seguia o odor de Afrodite.
Não demorou muito para encontrar o quarto do músico, e ao se ver frente à grande porta maciça de madeira entalhada a colocou no chão com um chute poderoso.
Dentro do aposento, o jovem pianista, em sua doce ilusão ingênua, escondia-se debaixo do leito.
O brado de segundos antes o levara a procurar aquele esconderijo, já que o único som produzido na morada de Shaka que significava paz era aquele chorado por seu piano. Todo e qualquer outro sonido era sempre sinônimo de perigo.
O medo que tomava todo o ser daquele pobre garoto cativo podia ser sentido pelas narinas aguçadas do caçador, o qual franziu o nariz ao enojar-se com o frescor do sangue vivo, enquanto, pé ante pé, caminhava lentamente até a cama.
O demônio deu uma gargalhada ao constatar o quão ingênuo era o gado por achar que podiam se esconder de alguma forma dos imortais, mas essa não foi ouvida por Afrodite, que estava mergulhado no silêncio nefasto do Quiétus.
O som das garras do assassino rasgando o colchão, juntamente com o som da madeira nobre que sustentava o leito se partindo não foram ouvidos pelo pianista que, completamente aterrorizado, viu quando o invasor arremessou a cama contra a parede dos fundos, a reduzindo em meros estilhados de madeira, tecido e espuma.
Afrodite gritou, de terror, de susto.
Tentou apoiar as mãos no chão para se levantar e correr, mas se nem ao menos seus gritos era capaz de ouvir, imerso em um mar de silêncio ficava praticamente impossível se orientar o mínimo que fosse para ficar de pé, quem dirá correr.
Um fedor hediondo invadiu suas narinas, vindo do sangue amaldiçoado que corria nas veias do Assamita. Sentiu seu estômago revirar na mesma hora em que seus cabelos foram puxados com tanta violência para trás que pensou terem sido arrancados do couro cabeludo.
Foi então que viu o rosto do vampiro que o atacava.
Uma imobilidade sufocante tomou o músico por completo ao divisar o rosto grotesco do demônio. Era diferente de todos os imortais que já tinha visto e servido. A pele possuía um tom esverdeado, musgo. Inúmeras bolhas que pareciam feridas cicatrizadas, outras não, acumulavam-se em torno dos olhos e boca. Essa, por sinal, era medonha! Os dentes perfilavam-se uns sobre os outros, todos pontiagudos e de aparência apodrecida, enquanto uma língua enegrecida corria ávida pelos lábios rachados.
A respiração do músico era tão acelerada que ele sentia cada vez mais o ar lhe faltar, então, quando viu o demônio abrir a bocarra e preparar o bote para rasgar sua garganta, Afrodite fechou os olhos aceitando seu destino.
No entanto, qual foi sua surpresa ao ser lançado novamente ao chão!
Dessa vez o músico caiu de costas, e ao abrir os olhos em sobressalto pode ver o Assamita lutando com uma enorme serpente negra que se enrolava em torno de seu corpo.
O Seguidor de Seth usava um dos dons milenares de seu clã, metamorfoseando-se em uma enorme e letal víbora. Ambos então iniciaram uma luta ferrenha, dando a Afrodite a oportunidade que precisava para fugir dali.
Mesmo atordoado pelo Quietus, que devido à batalha no quarto enfraquecia-se deliberadamente, Afrodite conseguiu se esgueirar pelo chão até deixar o aposento.
Fora da zona de silêncio o músico pôde finalmente correr.
Não sabia ao certo para onde, já que em sua condição humana qualquer rota de fuga era mera ilusão de liberdade.
Em desespero, Afrodite seguiu para a sala obedecendo a um ímpeto que o levava a crer que do lado de fora da casa poderia encontrar um lugar seguro para se esconder, mas ao aproximar-se da porta esta se abriu sozinha num tranco violento, revelando a figura horrenda de El Cid, que com a face grotesca contorcida por uma fúria medonha soltou um urro feroz que precedeu o ataque.
Erguendo um dos braços, o líder Assamita desferiu uma pancada, usando o cabo de sua cimitarra, contra o rosto do pianista, que nem teve tempo de ver o que lhe atingira e já caia ao chão atordoado.
— Toc toc! — disse El Cid curvando um dos cantos do lábio asqueroso num sorriso presunçoso — Não vai me convidar a entrar?
Uma gargalhada brotou na garganta do caçador que em deleite olhava para o músico remexendo-se dolorosamente no chão com o nariz sangrando.
O convite, porém, viria sim, não da boca de Afrodite, mas da sola da bota de Shaka, que materializou-se nas costas de El Cid já em sua forma vampírica, os olhos negros como o céu tempestuoso, a fronte e têmporas tintas de um índigo profundo e a boca letal aberta em fúria.
— Cabe ao dono da casa esse convite! — disse o sumo sacerdote no mesmo instante em que ergueu a perna e com um chute nas costas de El Cid o arremessou para dentro da sala com força descomunal — Queira entrar, seu canibal imundo!
O Assamita caiu por sobre uma grande estante de madeira ao fundo da sala a partindo em dois e espalhando vários objetos que foram ao chão com o golpe.
Surpreso e assustado, Afrodite ergueu a cabeça e olhou para a porta. Ao ver Shaka parado ali, o qual encarava El Cid que já se recuperava saltando do chão para armar um contra ataque, o garoto rapidamente engatinhou até seu piano sufocando um soluço.
Trêmulo e aterrorizado, colocou-se debaixo do instrumento majestoso enlaçando as pernas com os braços, enquanto via, paralisado pelo medo, o líder Assamita e o líder dos Seguidores de Seth encarando um ao outro em posição de ataque.
Shaka não podia crer no que seus olhos vampíricos lhe mostravam.
El Cid, o líder do clã Assamita em pessoa ali, diante de si.
Em meio ao pandemônio que se formava enquanto seus Seguidores e servos enfrentavam os invasores canibais, o sumo sacerdote apenas conseguia encarar os olhos negros do mercenário, que deveria, certamente, ter cobrado uns bons milhões para estar pessoalmente ali.
— El Cid!... — rosnou o Setita dando um passo à frente. De seus olhos negros uma faísca escarlate reluziu.
— Shaka! — sussurrou pausadamente o mercenário. Depois esboçou um sorriso passando a língua pustulenta pelas presas afiadas enquanto ajeitava a cimitarra na mão forte.
— Me admira que tenha vindo pessoalmente fazer o serviço sujo do qual o seu discípulo não deu conta... — disse o sumo sacerdote estreitando os olhos enquanto avançava mais um passo —... O valor dessa sua “visita” deve ter sido considerável. Quem pagaria tanto? Hum? Hades? Foi ele não foi? É o líder deles quem está por trás disso, não é?
— Para que você quer saber? Para quem deixará de existir hoje, revelações não têm a menor importância! — disse El Cid com um sorriso zombeteiro e ameaçador na bocarra animalesca — Mal posso esperar para sentir o seu gosto, sumo sacerdote!
Arfando como um animal, El Cid partiu com toda velocidade para cima de Shaka, que também já vinha de encontro saltando com garras distendidas e boca aberta.
O choque de ambos, daquelas duas Presenças de poder esmagador, produziu um deslocamento de energia que lançou móveis pelos ares, quebrou madeira e torceu o metal, e naquele cenário caótico de destruição, os dois vampiros digladiavam-se em fúria assassina.
Surpreendido, porém de modo algum assustado ou temeroso, El Cid se dera conta de que subestimara o poder do líder dos Seguidores de Seth, mas sem vacilar por um segundo sequer seu ânimo para aquela luta, num salto muito ligeiro partiu para cima do sumo sacerdote empunhando agora ambas as cimitarras que trazia afiadíssimas nas mãos.
Estava tão certo de que iria cravar as lâminas peçonhentas no coração de Shaka que uma súbita sensação de triunfo lhe tomou todo o ser, porém esta fora tão breve quanto o sopro que sai dos lábios frios e apaga a chama da vela que queima na noite.
El Cid arregalou os olhos estupefatos sem entender o que havia acontecido, pois suas lâminas amaldiçoadas cortaram apenas o vazio no lugar onde a milésimos de segundos antes estava seu alvo. Então Shaka surgiu em suas costas como uma serpente sorrateira, e lhe tomando as ginetas que trazia também presas à cintura, num ataque bruto e veloz as cravou na parte posterior das coxas do Assamita até que cada lâmina se cravasse no fêmur respectivo de cada perna.
— AHHHHHH... Mas o que... — vociferou o caçador — Isso foi... teleporte! — murmurou para si mesmo, pois pelo que se lembrava os Seguidores de Seth não possuíam esse dom.
Soltou outro urro selvagem, e de imediato seu instinto de sobrevivência lhe fez usar uma das dádivas malditas de seu clã para transformar o sangue negro que jorrava das feridas abertas em suas pernas em líquido virulento que ao mínimo contato com o inimigo provocava um torpor angustiante.
El Cid então jogou as cimitarras ao chão e contorcendo-se todo em um movimento extremamente veloz agarrou na empunhadura de ambas as ginetas para arrancá-las de si, ouvindo o som dos ossos trincarem ao se ver livres da lâmina.
Nem esperou o próximo ataque de Shaka, que já se armava elevando sua Presença e preparando um novo golpe usando as garras, então tomado por um torpor odioso e vingativo, El Cid empunhou as ginetas banhadas na Peste Sanguínea e investiu contra o Setita, que novamente se teleportou, mas dessa vez seu deslocamento de ar fora estudado pelo Assamita que forma hábil e letal arremessou as lâminas no vazio.
As ginetas dançaram pelo ar até cravarem-se nos ombros de Shaka, que surgia do teleporte no ângulo exato em que El Cid traçara.
O sumo sacerdote curvou-se para frente com o impacto do golpe, sibilando de forma gutural, em fúria e agonia, pois a dor que o sangue contaminado pela peste Assamita provocava era lancinante e enlouquecedora.
Tentando manter o raciocínio, teve poucos segundos para se livrar das ginetas as arrancando dos ombros até ser novamente atacado por El Cid, que agora o golpeava com a lâmina envenenada de suas cimitarras.
Esquivando-se como e quanto podia, Shaka sabia que El Cid muito provavelmente não o mataria, apenas o deixaria em um estado deplorável para entrega-lo de bandeja ao verdadeiro inimigo.
O verdadeiro inimigo...
O sumo sacerdote sabia que os Espectros das Sombras estavam envolvidos naquela caçada a seu clã, mas não conseguia ver uma ligação em Hades, o líder do clã, com projetos de execução em massa, derrocada, golpe e principalmente aliança com a raça suja Assamita. Aquele ataque era o limite!
Hades era membro do Conselho, um homem misterioso e cruel, porém jamais passível de iniciar um levante contra a Ordem, afinal levara séculos para ser aceito pelo Conselho e ter seu clã representado, logo não haveria lógica em dar um golpe.
E se não era Hades, quem mais seria?
Pensando nisso o sumo sacerdote tentava a todo custo ler os pensamentos de El Cid para descobrir quem contratara seus serviços sujos, quem estava por trás dos ataques sofridos por seu clã, mas quando sentiu que estava prestes a romper a barreira mental imposta pelo caçador, El Cid usou seu dom do sangue uma vez mais liberando o temido silêncio absoluto, o Quietus.
Imerso naquela calada fantasmagórica e cáustica, Shaka só pode sentir quando seu corpo foi puxado violentamente para trás.
Era Izo, o Assamita de longos cabelos negros e rosto marcado por grossas cicatrizes que após abater outro dos sentinelas que faziam a guarda da mansão agora vinha ao auxílio de seu líder.
Num ataque extremamente violento e certeiro, Izo agarrou Shaka pelos cabelos e com um ronco animalesco atravessou seu coração com a lâmina da cimitarra envenenada que trazia em punho.
O golpe fora tão rápido que o sumo sacerdote, desorientado pelo Quietus, não teve tempo de se teleportar.
Shaka arregalou os olhos e emitiu um chiado rouco.
Ao sentir a lâmina envenenada atravessar seu coração, sua garganta ficou áspera e inflamada, e uma paralisia imediata o fez cair de joelhos no chão, crendo que aquela batalha já tinha um vencedor.
Seu corpo parecia ter agora o peso das Eras.
Seus ossos assemelhavam-se a canos de aço enferrujado.
À sua frente via o rosto bestial de El Cid, e na boca hedionda do caçador um riso debochado de vitória se desenhando.
Preso no silêncio e inerte pela paralisia, Shaka correu os olhos pelo cômodo e com a visão já meio desfocada viu Shiryu, Oko, que havia ganho a batalha contra o Setita metamorfoseado em víbora, e Izo juntarem-se ao líder Assamita.
O silêncio parecia fazer o mundo caminhar em câmera lenta, em sono profundo.
Shaka então olhou uma última vez para os rostos regozijastes em triunfo de seus algozes e fechou os olhos.
Debaixo do piano, Afrodite, aterrorizado, não acreditava no que via.
O Mestre havia sido derrotado.
Trêmulo e quase convulso de agonia, via os quatro Assamitas guardarem as cimitarras nos coldres de couro presos aos corpos enquanto riam e conversavam algo em uma língua desconhecida. O fedor deles empesteava a sala destruída e a seus pés, ajoelhado, com o corpo penso para trás, a cabeça inerte e os olhos fechados, Shaka apenas esperava sua derradeira sentença.
Foi quando El Cid, tomando a dianteira daquele banquete Assamita valioso que se pronunciava, galgou uns poucos passos e curvou-se, já com a bocarra aberta para cravar as presas afiadas na garganta do sumo sacerdote, que o jogo virou.
Shaka abriu os olhos, usando uma última cartada, traiçoeira e sorrateira como a essência de seu clã; os Olhos de Serpente, e junto dele A Majestade do Sangue!
Dentre todos os dons vampíricos concedidos às crianças da noite, o Serpentis, um conjunto de dádivas agraciadas apenas ao clã dos Seguidores de Seth, era um dos mais temidos, dado seu poder de manipulação.
Os olhos de Shaka, antes negros como piche, agora reluziam um brilho dourado intenso, com íris grandes, negras e profundas.
Ao ser golpeado por aquele olhar hipnótico, El Cid congelou-se no ar interrompendo a mordida, parando com a boca aberta e salivante a centímetros no rosto do sumo sacerdote.
Ao lado, Izo, Shiryu e Oko sofriam do mesmo arrebatamento ao terem suas vontades completamente manipuladas pelas hipnóticas íris douradas do líder das Serpentes.
Era bem verdade que para usar um dom tão poderoso de manipulação, Shaka precisava de muito sangue vivo, uma vez que o poder dos vampiros reside no líquido vital escarlate que corre nas veias dos homens.
Porém, naquela hora era tudo ou nada.
Mesmo tendo se alimentado pouco naquela noite, o poder recém adquirido de Mu fora sua tábua de salvação, pois foi graças a ele que o sumo sacerdote conseguiu liberar a magia traiçoeira segredo de seu clã.
Aumentando seu aspecto sobrenatural a um nível que poucos imortais conseguiam atingir, através dos Olhos de Serpente e da Majestade do Sangue, Shaka podia fazer com que qualquer criatura na Terra o adorasse como a um rei, um deus, ou até o próprio desejo intimo de cada um.
A Majestade de Sangue era um dom que fazia com que os Seguidores de Seth fossem os imortais mais influentes da Terra, pois com ela eles conseguiam manipular mentes e alcançar seus objetivos corruptos. Os afetados por ela enxergavam o Setita como um deus, e assim seguiriam todas as suas ordens.
Foi assim que Shaka girou minimamente a cabeça para o lado e olhou para Oko, o aprisionando pela eternidade nas celas de suas vontades.
“Retire a lâmina.” — ordenou Shaka ao Assamita direto em sua mente.
Ao ver Oko caminhar mecanicamente até o Setita no chão, El Cid desesperou-se.
— NÃO! — gritou em terror, mesmo que sua voz não fosse ouvida, já conhecendo bem aquele poder traiçoeiro — NÃO! NÃO OLHEM PARA ELE! NÃO OLHEM PARA ELE!
O líder dos mercenários canibais, em completa angustia e exasperação, retirou o lenço quadriculado com o qual cobria a cabeça e vendou os próprios olhos.
El Cid lutava com toda sua força de vontade para manter-se lucido, fora da manipulação.
Sem ter como se fazer ouvir, El Cid desfez o Quietus e orientado pelos outros sentidos, saltou sobre Oko, o impedindo de tirar a cimitarra cravada no peito de Shaka.
— NÃO! FECHEM OS OLHOS! NÃO OLHEM PARA ELE! — gritava delirante.
Shaka então encarou os olhos de Izo e Shiryu, que divisavam os seus hipnotizados.
— Matem El Cid! — ordenou o Setita agora com voz chiada, já que o veneno Assamita corria corrosivo em suas veias.
A ordem fora de pronto atendida, e enquanto El Cid rolava com Oko pelo chão sobre os destroços da batalha, Shiryu e Izo saltavam feito duas feras predadoras contra o seu próprio líder.
— NÃOOOOO!
O grito de horror e aflição do caçador líder daquele clã de canibais ecoou pela sala rangendo os ossos, fazendo tremer a carne!
Enquanto os três guerreiros se digladiavam selvagemente, Oko, completamente em transe, rastejava pelo carpete imundo em sangue, peste e destruição para cumprir a ordem que Shaka lhe dera, e chegando por trás do sumo sacerdote segurou firme o cabo da cimitarra de Izo e a retirou com um puxão.
Shaka cambaleou e caiu de costas. Contorceu o rosto em torpor sentindo a dor do veneno que lhe escorria pela ferida no peito, ombros e também pela boca na forma de um prurido esverdeado misturado com sangue fétido escuro.
Contudo, em momento algum fechou os olhos, ou deixou vacilar a Majestade do Sangue.
— Arhg... Seth... — grunhiu o Setita rogando a seu deus, depois apoiou as mãos no chão para se levantar.
Oko permanecia ali. Parado a seu lado tal qual um navio à deriva sem comando e sem um farol que lhe guiasse à costa.
— Mate... El Cid... — um novo grunhido, agora mais baixo, porém audível o suficiente para Oko ouvir e acatar ao mando de pronto, saltando sobre os companheiros que lutavam no centro do aposento.
Shaka tinha poucos segundos para decidir aquela luta.
Mesmo manipulados, os guerreiros Assamitas lutavam com toda sua perícia e selvageria, porém não eram pareis para seu Mestre, que se defendia com primor dos golpes e ataques instigado por um ódio que só fazia crescer.
— EU VOU MATÁ-LO, SHAKA! EU VOU ARRANCAR A SUA MALDITA CABEÇA E FAZER UM TROFÉU SEU MALDITO!
Enquanto El Cid lutava com os pupilos e maldizia Shaka, o sumo sacerdote rastejava com dificuldade pelo recinto em direção ao piano de Afrodite.
Sentia seu corpo sucumbir ao veneno e ferimentos rapidamente, mas se possibilitasse que ele se regenerasse teria que interromper a Majestade de Sangue e a manipulação.
Lutando para sobreviver, Shaka chegou até onde o jovem músico estava, debaixo do piano, e agarrou um de seus pés, fazendo o sueco debater-se em terror.
— Aaah não! Me larga! — gritou instintivamente o garoto sacudindo as penas.
Aquela carnificina toda, a violência dos golpes, a ferocidade dos gritos, era tudo aterrorizante demais aos olhos mortais do músico.
— Shii... quieto! — disse Shaka olhando para ele.
— Não! Eu não quero morrer! — suplicava o servo.
— Preciso de... ajuda... Afrodite... preciso mantê-los sob minha influência... — a voz do sumo sacerdote saia fraca, enquanto ele puxava o pianista pelas pernas até trazê-lo para perto de seu rosto —... Se eu não conseguir manter... a manipulação... nós vamos morrer.
Shaka então agarrou no punho do servo e com um puxão mais forte levou o pulso do garoto até a boca onde cravou em desespero os dentes pontiagudos, sugando uma quantidade de sangue suficiente para seu corpo começar a se regenerar e manter a magia da Majestade de Sangue ativa, pelo menos até El Cid estar morto.
O que não parecia demorar muito, já que a luta entre os Assamitas era feroz, primitiva e violenta.
O experiente El Cid não estava imune à manipulação de Shaka, estava atordoado, porém lutava ferrenhamente contra ela, ao contrario de seus soldados que foram completamente arrebatados por ela.
Caído de joelhos no chão após repelir um ataque triplo em sincronia, enquanto seus guerreiros se recuperavam El Cid apertava as têmporas com ambas as mãos ensanguentadas.
— Mal... Maldito seja... Shaka... MALDITO SEJA! — rosnava feito um animal.
Ao perceber a aproximação dos três caçadores de seu clã, El Cid agiu por instinto de sobrevivência, porém com um ódio que jamais sentira igual, e movimentando-se tão rápido que nem seus companheiros puderam notar arremessou duas adagas contra o rosto de Oko, que teve ambos os olhos perfurados e foi ao chão em agonia.
Ganhando poucos segundos de vantagem, El Cid pode defender-se do ataque de Izo, o qual já vinha em sua direção com as ginetas em punho, e também do golpe de Shiryu que tentava acertá-lo por trás.
Munido de sua cimitarra, o líder dos canibais golpeou Izo no braço com força descomunal, decepando o membro com uma única manobra, depois rolou para a lateral e golpeou os tendões de Shiryu, que caiu de peito no chão.
Seus homens estavam momentaneamente contidos, até seus corpos se regenerarem minimamente para retornarem ao combate, mas agora El Cid podia concentrar-se em seu alvo principal.
Aproveitando-se da batalha que se desenrolava na sala, Shaka correu para o jardim trazendo Afrodite consigo pelo braço. O Setita precisava de mais sangue para manter ativo um poder que exigia tanto de si, por isso levava o músico consigo.
Sabia que El Cid derrotaria fácil os pupilos, mas para manter sob seu domínio um vampiro tão poderoso quanto o líder Assamita, Shaka precisava aumentar sua Presença. Para isso precisava de sangue, e não podia correr o risco de El Cid matar Afrodite.
Contudo, quando se aproximavam do centro do jardim o mundo novamente caiu em silêncio de morte.
Shaka parou onde estava, segurando o pianista pelo braço.
“Afrodite, corra! Esconda-se no arbusto. Não fique na visão dele.” — disse diretamente à mente do sueco.
O jovem olhou para o Mestre, assustadíssimo.
O silêncio fantasmagórico do Quietus era algo assombroso para os vampiros quem dirá para os humanos!
Shaka então pegou o servo pelos ombros e o lançou na direção do arbusto.
Atordoado, Afrodite tentava rastejar para se embrenhar entre as folhas, mas a ausência do som dificultava muito sua orientação.
Ao virar-se de costas, o sumo sacerdote então viu o líder dos assassinos descendo as escadas da entrada da casa. Estava banhado em sangue negro pestilento, ferido e com o rosto horroroso contorcido em ódio.
El Cid sabia que Shaka precisava do servo para manter seu poder ativo, e que não podia consumi-lo de uma vez ou entraria em frenesi e ficaria vulnerável, então foi justamente em Afrodite que mirou e lançou um punhal de prata que trazia preso à canela, mas o sumo sacerdote Setita foi mais rápido e lançando-se na direção da arma bloqueou o ataque usando o próprio corpo.
A lâmina silenciosa cravou-se na coxa de Shaka, que apressou-se a livrar-se dela.
El Cid agora irrompia a noite muda correndo em direção ao sumo sacerdote, que parado parecia apenas esperar pelo golpe da cimitarra já empunhada nas mãos erguidas do caçador.
Mas quando o Assamita saltou sobre a presa com fome voraz e ódio lancinante, Shaka usou toda a energia do sangue fresco que consumira de Afrodite para ativar mais um de seus dons das trevas, e quando El Cid achou que iria atingi-lo, o Setita teleportou-se para as costas do mercenário e agarrou sua cabeça, cravando os dedos com força descomunal na fronte do canibal.
Como se fossem dez ferros em brasa, os dedos flamejantes de Shaka queimaram a pele de El Cid com a Marca da Danação. Uma marca amaldiçoada que estigmatiza tanto o corpo quanto a alma do inimigo. Uma marca tão horrenda que causa repulsa imediata em quem a vê.
O Quietus fora quebrado, e agora os gritos selvagens de torpor do Assamita e os sibilos carregados em fúria do sumo sacerdote Setita podiam ser ouvidos ecoando pela noite.
Eram tão grotescos que faziam a alma de Afrodite gelar e seu corpo todo arrepiar-se.
Shaka então se soltou de El Cid, mas sem desviar por um segundo sua atenção do caçador, que agonizante caiu novamente de joelhos no chão.
Não à toa aquele vampiro era o mercenário cuja reputação cruzava fronteiras do mundo todo.
Não havia um só serviço em que El Cid falhara.
Até aquela noite.
Com aquele último esforço, Shaka esgotou todo seu poder.
As magias dos Olhos de Serpente e também da Majestade do Sangue foram desfeitas, mas o líder do clã Assamita já estava derrotado e aquela batalha finalmente tinha um vencedor.
— Se ficar vivo, essa marca será sua vergonha para todo o sempre. Se morrer em definitivo, essa marca ainda será a sua vergonha para todo o sempre. — disse Shaka quase num sussurro.
Com a lentidão de um pesadelo, o sumo sacerdote andava cambaleante em círculos em torno do bravo líder dos canibais prostrado no chão.
— Quem mandou você aqui? — perguntou o Setita.
El Cid não respondeu.
Não apenas seu corpo agonizava, mas também sua alma.
Com a cabeça baixa e os olhos descobertos arregalados e vidrados, o caçador fitava o solo úmido pelo orvalho da noite.
— RESPONDE MANDITO! — num aceso de fúria, Shaka agarrou os cabelos negros ralos do moribundo puxando sua cabeça para trás, então viu os olhos vidrados do guerreiro divisarem o vazio.
— Nós somos... os filhos de... Haquim... — a boca pustulenta banhada em sangue fétido sussurrou de forma quase inaudível, os lábios mal se mexeram —... E Haquim... é... o nosso... deus.
El Cid encarava a abóboda celeste e seus astros brilhantes reluzindo no manto soturno da noite quando Shaka, tomado em cólera, apoiou o pé nas costas do canibal e levando ambas as mãos até seus maxilares cravou ali suas garras pontiagudas.
Puxou a cabeça do Assamita com força impressionante até separa-la do corpo para em seguida joga-la metros de distância.
— DESGRAÇADO! — bradou ensandecido o Setita, depois chutou o corpo inerte que caiu de costas sobre a grama — Que as Serpentes Nehebkau, Am-akhu, Khéti e Apófis o carreguem ao além vida. E que sua alma amaldiçoada por minha marca se consuma no Duat dizendo meu nome!
— É A SUA ALMA QUE IRÁ ARDER NO INFERNO, SHAKA DOS SEGUIDORS DE SETH!
A sentença vociferada na calada da noite tinha tom gutural, ânimo inflamado e veio da entrada da casa.
Shaka, surpreendido e esgotado, ergueu a cabeça pensa e viu Shiryu, Izo e Oko, perfilados um ao lado do outro com suas armas letais em punho.
Estavam muito feridos, porém a violência ingênita de seu sangue, a ancestralidade de sua essência selvagem e, principalmente, a disciplina de sua crença que fazia deles soldados de uma única causa, os impelia a sacrificar suas vidas no cumprimento da missão.
Mais que ódio e disciplina, porém, agora ambos eram impelidos pela vingança.
Shiryu tomou a frente galgando passos vacilantes devido os tendões partidos que ainda se regeneravam. Nas mãos traziam empunhadas duas ginetas envenenadas.
Izo saltou à frente, avançando numa velocidade descomunal contra o sumo sacerdote Setita já preparando o golpe quando girou sua cimitarra no ar.
Oko, por estar cego, guiava-se apenas pela audição e pelo olfato, e farejando o odor do sangue de Shaka correu até ele na mesma direção que os companheiros.
Um novo embate era certo.
Assim como certo era também que daquele combate só sairia mesmo um único vencedor.
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