A Máscara de Seth
20 Capítulo 20
Notas iniciais

— POR EL CID! MATEM SHAKA!
O brado rouco que cortou o silêncio da noite saiu da garganta tumefata de Shiryu.
Inflamados por ódio e instigados pela vingança, os três Assamitas avançavam numa velocidade impressionante. Armas em punho, dentes expostos, olhos fixos no alvo.
Quando faltava pouco mais de vinte passos para que suas lâminas banhadas em peçonha atravessassem a carne exaurida do sumo sacerdote, ao mesmo tempo Izo, Oko e Shiryu liberaram outro de seus dons das trevas, escondendo-se dos olhos atentos de Shaka por intermédio da Ofuscação, a capacidade de iludir a mente dos observadores os fazendo crer que estão invisíveis.
Aterrorizado, Shaka ergueu a cabeça procurando quebrar o golpe, mas tudo que viu acima de si foi o firmamento.
Podia ouvir o som dos passos ligeiros a castigar o gramado, o zunido do metal afiado cortando o vento prestes a atingir-lhe em algum ponto do corpo já tão ferido, mas não podia vê-los. À sua frente somente os astros em sua eterna solidão...
Então uma força súbita o empurrou para o lado e ele caiu apoiando ambas as mãos no chão.
Em euforia Shaka olhou para a direção oposta da qual fora lançado e seus olhos faiscaram ao ver Mu saltando no ar contra o inimigo invisível.
— SETH! — gritou em frenesi o sumo sacerdote.
Com o coração em brasa e em fúria assombrosa, Seth cortou o vazio diante dos olhos de Shaka com a mesma ligeireza de uma bala que busca o alvo, e tal qual uma bala seu golpe fora implacável e certeiro.
A névoa da Ofuscação Assamita não fazia efeito contra o Nut, pois seu sangue ancestral era mais poderoso, e frente a ele os dons daqueles caçadores pareciam truques infantis.
Guiado por seus instintos e sentidos mais primitivos, Seth saltou sobre Shiryu o surpreendendo ao lhe atacar diretamente a garganta com uma mordida tão feroz que separou cabeça de corpo.
Imediatamente, Izo e Oko abortaram o ataque a Shaka diante da Presença assustadora emanada pelo inimigo recém-chegado e, assustados, porém impelidos por suas essências bélicas e selvagens, avançaram contra Mu, que soltando o corpo fétido e decapitado de Shiryu, tendo o sangue venenoso ainda fresco a lhe escorrer por entre os dentes afiados, maxilares, queixo e pescoço, se colocou ereto em postura de ataque.
Um brilho intenso e selvagem, da cor do magma que vive nas entranhas da Terra, queimou dentro dos olhos do Nut, e na mesma hora a Ofuscação dos outros dois assassinos foi quebrada para que Shaka também os pudesse ver.
Caçador agora era a caça, e foi com o ânimo vacilante frente à hedionda figura que agora rosnava e sibilava exibindo os dentes que Izo ergueu ao ar a cimitarra afiada. Seus olhos fixos aos de Seth traçavam o ângulo preciso da incisão das lâminas no peito do Nut, porém, assim como a vida não é precisa, os movimentos de Seth jamais poderiam ser previstos por nenhuma criatura, viva ou morta, a caminhar sobre a terra.
Assim, a cimitarra de Izo golpeou o vazio quando o Nut se teleportou para suas costas e com uma pancada certeira lhe transpassou a carne usando a própria mão.
O guincho rouco do Assamita ao ter a coluna esmagada pela pegada forte do Nut chamou a atenção de Oko, que sem poder enxergar guiou-se pelo bramido do companheiro saltando em direção ao som e ao odor de ambos.
O grito de guerra que impulsiona a vontade daqueles que não têm mais nada a perder, rompeu mais uma vez a noite quando Oko desembainhou a gineta da cintura e a girando no ar se lançou contra o Nut.
O que se seguiu foi tão rápido quanto um relâmpago que desenha sulcos iluminados no céu.
Seth, que tinha uma das mãos transpassada no corpo de Izo, com a outra o segurou pela nuca para sustenta-lo no lugar e num puxão tão forte quanto violento arrancou a coluna vertebral do Assamita de dentro do corpo, dilacerando músculos, pele, nervos e articulações.
Com a mão que sustentava o corpo agora macilento e flácido de Izo, Seth o decapitou cravando as garras na nuca até dilacerar toda a carne pustulenta.
Enquanto jogava os restos descarnados do Assamita sobre a grama coberta por orvalho e toda a sorte de pestilências, o Nut abaixou-se, desviando da gineta de Oko, e então abriu a bocarra hedionda exibindo os dentes sujos de sangue negro, os quais brilharam na escuridão da noite antes de se fecharam numa mordida fatal.
Oko soltou um grito de dor e pavor, e ao longe Shaka via Seth derrubar o Assamita no chão enquanto lhe abocanhava a garganta.
Seth não comia o assassino, mas sua fúria selvagem era tamanha que apenas separar sua cabeça do corpo não lhe era suficiente. Assim, enquanto desmembrava o Assamita, partindo ossos, rasgando carne, rompendo tecidos com mordidas e puxões violentos, cuspindo os pedaços apodrecidos daquele corpo amaldiçoado, Shaka o observava ao longe.
A carne Assamita tinha um gosto tão horrível que mesmo tomado pela fome Mu não conseguia ingeri-la, uma vez que lhe causava náusea.
Desde que sentira o perigo rondar o sumo sacerdote quando ainda estava na caverna que lhe serviu de sepultura por milênios, no Irã, Mu iniciara uma corrida contra o tempo para chegar à tempo à Inglaterra e salvar seu amado companheiro.
Não havia se alimentado o suficiente para teleportar-se a longas distancias, por isso teve de improvisar alimentando-se de qualquer ser vivo que encontrasse pelo caminho.
Quando chegou à Londres estava tão faminto que a Besta o dominava, mas nem assim fora capaz de consumir aquele demônio canibal para saciar sua fome.
Naquela altura sua consciência já estava totalmente tomada pela Besta, e tudo que ela desejava, com vontade lancinante e primitiva, era sangue humano!
De repente, Shaka teve consciência de que tinha ganhado aquela batalha porque Seth ouvira seu chamado mais uma vez, porém um toque delicado em sua mão fez seu coração sem vida gelar dentro do peito.
— Mestre... — sussurrou Afrodite ofegando, que ao engatinhar para fora da touceira de flores onde se escondia tocou na mão de Shaka procurando algum alento, mas quando ergueu a cabeça e divisou há alguns metros de onde estavam Mu chafurdando na carcaça de um dos vampiros que os atacaram o músico empalideceu, perdendo a voz e as esperanças.
Os olhos azuis marejados do pianista se cravaram na criatura medonha que mergulhava mãos, cabelos e rosto num emaranhado de vísceras fétidas espalhadas pelo gramado. Enquanto o fazia, grunhia, roncava, rosnava... O som das garras e dentes partindo ossos chegava aos ouvidos do músico como uma sinfonia funesta que precede a morte.
Tal horror e estupefação sobrevieram de modo tão arrebatador que Afrodite ficou parado, hipnotizado por aquela visão dantesca, pálido e exausto, porém jamais incógnito aos olhos e sentidos aguçados do arauto da morte.
Súbito e ligeiro como um piscar de olhos, Seth ergueu a cabeça abandonando os restos de Oko.
Com o rosto imundo contorcido em uma carranca animalesca, projetou o queixo para frente, estreitou os olhos e girou a cabeça primeiro para um lado, depois para o outro. Suas narinas então se contraíram num rápido movimento repetido.
Ele estava farejando!
Girou todo o corpo para o lado deslizando os joelhos pelo gramado, já que estava agachado, então pelo canto do olho viu Shaka ao longe, e com ele Afrodite.
O odor do sangue vivo então golpeou os sentidos do Nut pondo a Besta em frenesi, e na mesma hora Shaka saltou do chão puxando o pianista consigo.
Por alguns segundos o sumo sacerdote simplesmente pensou em deixar Seth devorar seu servo, uma vez que a fome avassaladora de Mu também o afetava por conta do elo. Não precisaria de Afrodite, ele era descartável como todos os outros que lhe alimentaram pelos milênios, e poderia encontrar centenas de outros servos como ele mundo afora.
Porém, Shaka já conhecia o coração e a alma do Nut o suficiente para saber que se permitisse Seth devorar o músico, Mu, o vampiro sensível subjugado pela Besta, iria sofrer e condenar-se em culpa. Quando compartilharam memórias, Shaka já o havia visto sofrer dessa maneira no passado e sabia o quão terrível e doloroso era para o companheiro matar aqueles a quem amava em seus momentos de descontrole, e agora que tinham um elo sanguíneo tão poderoso seria inevitável para si ser sofrer junto dele.
Foi pensando nisso que Shaka despertou o servo do terror que o paralisava lhe dando um chacoalhão, depois o empurrou em direção à mansão.
— Corra! — gritou o sumo sacerdote lhe dando mais um empurrão — Corra Afrodite! Corra para a mansão! Corra! O apito... Use o apito! Use o apito!
Aterrorizado, o pianista passou a correr, trôpego e desorientado, concentrando o medo e a esperança fraquejante no único intento de sobreviver, enquanto de perto da touceira onde antes estava escondido Shaka dava um salto na escuridão ao mesmo tempo em que Seth executava a mesma manobra partindo em disparada atrás do músico.
— NÃO! — gritou o Setita ao lançar-se sobre o Nut e agarra-lo pelo tronco corpulento, arremessando a ambos contra o gramado.
Enquanto Shaka tentava conter o que não se podia ser contido, Afrodite corria o mais rápido que conseguia enquanto procurava o apito preso à corrente em seu pescoço, mas estava tão aterrorizado que não era capaz de encontra-lo tampouco apanha-lo.
Suas mãos tremiam em demasia, as pernas falhavam o fazendo perder o equilíbrio por diversas vezes, a boca arfante puxando o ar em desespero, mas esse parecia não querer entrar em seus pulmões paralisados devido ao terror, já que sua mente lhe dizia que não tinha para onde correr.
Não havia como fugir de Seth.
Era como tentar fugir da morte e nenhum ser vivo jamais alcançou tal façanha.
Mesmo assim, Afrodite não desistia, e enquanto corria de volta à casa, no jardim Shaka e Seth travavam uma luta feroz corpo a corpo.
O sumo sacerdote sibilava segurando o Nut pelos braços, enquanto este rosnava como uma fera tentando se libertar, e quando conseguiu com certa facilidade saltou novamente em direção à Afrodite, mas outra vez Shaka o interceptara o agarrando pelas costas.
— MU! PARE! PARE! NÃO FAÇA ISSO! — Shaka gritou.
O Nut então girou seu corpo, e usando as garras poderosas avançou contra o Setita o golpeando principalmente no rosto. Pelo elo de sangue Mu também sentia a dor dos ferimentos que infringia a Shaka. Não queria ferir o companheiro, mas a fome insana e voraz da Besta, somada ao frenesi que o odor do sangue de Afrodite lhe causava, o tornava incapaz de raciocinar.
Fazendo um esforço colossal Mu ainda conseguia ter consciência de que não queria matar o companheiro, por isso cravou as garras em seu pescoço arrancando um bom punhado de carne.
No mesmo instante Shaka cambaleou para frente e caiu de joelhos no chão, enquanto o sangue rapidamente jorrava pela ferida aberta tingindo de vermelho o gramado.
— Mu... não...
O sumo sacerdote sussurrou antes de cair inerte no chão sobre uma poça de sangue.
O Nut recuou dois passos, atordoado e confuso com o que fizera, e enquanto olhava para o companheiro se esvaindo à sua frente sentia as próprias forças minarem de seus membros junto com uma dor profunda que irradiava do peito para todo o corpo devido ao elo sanguíneo, mas logo seus olhos faiscaram num desejo insaciável por sangue vivo, e sem mais nada nem ninguém para lhe impedir, Seth se teleportou, materializando-se nas costas de Afrodite com a bocarra aberta preparada para lhe morder a nuca.
No entanto, quando seus dentes afiados já tocavam os fios loiros o pianista enfim conseguiu tocar o apito.
O som era inaudível para ouvidos humanos, porém a frequência atingiu em cheio os ouvidos do Nut, que titubeou e caiu de joelhos no chão levando as mãos aos ouvidos, em agonia, visto que a dor provocada pelo som emitido naquela frequência lhe era insuportável.
Naquele momento os ouvidos apuradíssimos do Nut eram sua fraqueza.
Já galgando os primeiros degraus das escadas que davam acesso à entrada da mansão, Afrodite agora soprava o apito sem pausa enquanto corria tropeçando nos próprios pés tamanho seu desespero.
Atrás dele vinha Seth, que mesmo desorientado devido ao desequilíbrio provocado pela vibração do som do apito não desistira de caçar sua presa.
Em ritmo mais lento, porém ainda mais selvagem já que agora além de fome sentia muita dor, o Nut rosnava e urrava acompanhando com os olhos o músico correr para dentro da casa soprando o maldito apito.
Naquela fuga desesperada, Afrodite caiu quando tropeçou nos destroços que cobriam o chão ao adentrar a sala. Imediatamente olhou para trás aterrorizado e viu Seth galgando os degraus lentamente enquanto chacoalhava a cabeça para recuperar o equilíbrio. Ele salivava e rosnava.
Seu pensamento então voltou-se para Shaka, que naquela realidade era seu salvador e seu algoz, mas ali não havia nenhum consolo, apenas terror e morte. Suas íris azuis celestes, marejadas por um pranto pleno de desespero e horror, refletiam a faísca escarlate que reluzia no oceano de trevas que eram os olhos do Nut.
Com o medo a lhe devorar lentamente a coragem e o raciocínio, Afrodite tateou com as mãos trêmulas o artefato pendente em seu peito e novamente tocou o apito, mas naquela altura seu terror era tamanho que já não conseguia mais expelir o ar pela boca.
Tentava em desespero firmar o apito entre os lábios arroxeados tintos de vermelho do sangue que lhe escorria pelo nariz, enquanto via a figura soturna embebida em sangue fétido e selvageria primitiva se aproximar lentamente.
Seth roncava e silvava, instigado pelo o medo que infringia ao pianista, o qual tornava Afrodite ainda mais apetitoso a seus sentidos.
Aos olhos do músico, naquela altura a figura de Seth era a própria personificação da morte, e sua imagem em nada lembrava o doce vampiro que sempre lhe tratara com candura, curando suas feridas ou apreciando sua música.
A música!
Afrodite então teve uma epifania.
Em meio ao caos da morte certa, naquela hora de provação o jovem servo de Shaka se lembrou da primeira noite em que Mu estivera na mansão.
Ele tocava uma canção ao piano e o Nut ficara tão encantado pela música que chorou em seu colo.
Num último e desesperado ato de esperança e coragem, Afrodite desviou o olhar da face hedionda da Besta que se aproximava e procurou o seu piano em meio à sala destruída, o encontrando um pouco avariado no lugar de costume, sob a claraboia de vidro.
Forçando as pernas machucadas num novo arranque, lançou o corpo para frente e saltou do chão já correndo em direção ao instrumento iluminado pela luz do luar que transpassava o vidro da cúpula.
Ao ver a presa fugindo Seth partiu imediatamente atrás, saltando por sobre os destroços do que antes eram suntuosos móveis de madeira elegante e peças de arte. Franzia o nariz e rosnava ameaçadoramente.
Ao ouvir o ronco medonho do vampiro centímetros atrás de si, Afrodite pulou por cima da tampa do piano deslizando até a banqueta, onde caiu sentado, e fazendo um esforço colossal tanto para organizar o pensamento em sua mente quanto para tentar conter minimamente a tremedeira que lhe tomava o corpo por inteiro, começou a dedilhar as teclas do piano em aflição, já vendo o Nut avançar sobre si sibilando, rosnando e babando pelos cantos da boca, certo de seu derradeiro fim.
Então Afrodite fechou os olhos, apertando as pálpebras com força, enquanto iniciava os primeiros acordes de Claire de Lune, a canção que tocou para Mu quando ele chegou para morar com eles naquela casa.
Ainda que executada em um tempo bem mais rápido do que pedia a melodia, Seth, que já erguia-se sobre as costas do garoto para abocanha-lo, milagrosamente parou!
A bocarra aberta e as garras distendidas se congelaram no ar.
Ao piano, Afrodite chorava de soluçar, convulso e desesperado, mas seus dedos dedilhavam agonizantes as teclas do piano sem errar uma nota sequer.
Mantendo os olhos fechados o garoto guiava-se pelos anos de prática, tanto do instrumento quanto da canção que tocava, esperando não estar tocando o réquiem de sua própria morte, enquanto medos terríveis sobrevinham em sua mente perturbada, um após o outro.
Seth por sua vez, fora golpeado em cheio pelo som do piano.
Seus olhos negros e flamejantes de súbito desviaram o foco do pescoço do servo para acompanhar os dedos finos, sujos de terra e sangue, que trêmulos acariciavam as teclas.
Naquele momento outro conflito se desenrolava, agora no interior da criatura primitiva.
A canção maravilhosa de Afrodite entrava pelos ouvidos de Seth provocando um rebuliço de sentimentos e sensações dentro de si, pois ela despertara Mu fazendo com que Bem e Mal residissem ao mesmo tempo em um só ser.
No entanto, se o doce Mu deleitava-se com a canção produzida pelo humano, o vampiro ancestral amaldiçoado pelo Consumo Conspícuo regalava-se com a sinfonia de vida que corria nas veias do pianista.
A Besta arfava voraz, faminta!
Por causa do medo o coração de Afrodite batia frenético bombeando o fluxo sanguíneo numa velocidade alucinante, e quanto mais apavorado ele ficava, mais seu odor instigava a Besta, que colocando a língua para fora lambeu a lateral do rosto do músico para seu total desespero.
Afrodite apertou ainda mais os olhos. Ofegava, entre soluços e contrações involuntárias devido ao choro convulso. Além do medo também sentia dores. Sua boca estava tão seca pelo pânico que o ar que entrava por ela castigava-lhe a garganta.
No escuro, entre uma nota e outra da canção, o jovem ouvia o ronco animalesco do demônio ao pé de seu ouvido. Sentia o cheiro fétido de morte exalar dele, e agora também sentia o peso das mãos frias a lhe pousar sobre os ombros.
Afrodite não parou de tocar.
Seth rasgou as vestes que cobriam o torso do jovem arrancando-lhe um grito fraco em meio ao choro, depois deslizando as mãos pelos ombros nus frementes a Besta deleitava-se com a pele quente, imaginando que por debaixo dela a carne viva deveria ser saborosa!
Afrodite era um banquete suculento aos olhos de Seth, que agora corria a língua molhada de saliva sanguinolenta por toda a extensão dos ombros, pescoço e nuca do pianista.
— Tão... suculento! — murmurou o demônio com voz gutural, o qual provava aquele humano como que o preparando, somente contendo-se devido a canção que lhe despertava uma fagulha de consciência.
— Por... por favor... Senhor Mu... Por... favor... — suplicou Afrodite entre um acorde e outro, já que sua vida estava presa àquelas notas, sendo a música a única garantia de que sua cabeça ainda estivesse sobre o pescoço.
Seth então cravou as garras nos ombros do músico, que gritou em desespero, mas nem assim parou de tocar.
Nessa altura Afrodite já se perguntava por que lutava tanto pela vida.
Nem mesmo ele entendia aquela ânsia por viver uma vida que nem era mais sua, já que ele pertencia a Shaka.
Foi quando sentiu Seth correr as mãos para suas costas rasgando a pele e fazendo o sangue saltar para fora que Afrodite decidiu entregar os pontos e parar de lutar, mas exatamente nessa hora um milagre aconteceu.
Seth agarrou Afrodite pelos cabelos o jogando no chão, e sem soltar as madeixas loiras puxou sua cabeça para trás expondo a garganta onde já preparava a mordida, mas nessa hora um brado forte e imponente irrompeu pelo recinto fazendo tremer tudo à sua volta.
— SETH!
Era Shaka.
Seth então girou a cabeça para a direção de onde viera o clamor e surpreendeu-se ao ver o sumo sacerdote acompanhado de mais três humanos, um homem e duas mulheres, visivelmente em transe dominados por seu poder.
Momentos antes, com muito custo Shaka rastejou pelo jardim usando seu dom das trevas para invocar pequenas feras como esquilos, corujas e outras aves noturnas. Bebeu o sangue delas até conseguir se teleportar para as imediações de sua propriedade e emboscar um homem que cruzava a estrada numa motocicleta.
Depois foi fácil para o Setita caçar mais três humanos rapidamente e os levar para Mu, torcendo para que desse tempo de fazê-lo antes do companheiro devorar Afrodite.
O Setita estava ainda muito ferido da batalha contra El Cid, mas alimentado seu corpo já conseguia se regenerar mais rapidamente.
Shaka agora encarava os olhos de Seth sem vacilar.
O homem já havia sido mordido e o sumo sacerdote deixou a ferida aberta em seu pescoço para que o odor do sangue pudesse atrair o Nut, e quando viu que conseguira capturar sua atenção, Shaka quebrou a magia que mantinha os humanos em transe.
Assim que recobraram a consciência, aterrorizados os três humanos entraram em pânico, gritando e correndo desorientados em meio aos escombros.
Shaka sabia que para a Besta a caça e o prazer de emboscar a presa lhe era o maior deleite, e que não largaria Afrodite para comer três humanos moribundos.
— Vamos, Seth! O que está esperando? — provocou o sumo sacerdote apontando para o homem que fugia pela porta em direção ao jardim — O seu jantar está fugindo!
Uma das mulheres, assustadíssima, caiu de joelhos no chão aos berros, e Afrodite viu então uma oportunidade para tentar escapar.
Ainda com os cabelos seguros pela mão forte do Nut, o sueco procurou em desespero o apito preso à corrente em seu pescoço e soprou com toda a força que lhe restava. Imediatamente Seth lhe soltou levando ambas as mãos aos ouvidos novamente, e nessa hora Afrodite correu para Shaka em completo desespero.
Tudo aconteceu muito rápido em seguida.
Assim que passou a tontura provocada pelo som do apito, Mu saltou sobre a mulher que gritava no meio da sala, dilacerando sua garganta logo ao primeiro contato, enquanto Shaka corria de encontro a Afrodite e o pegava no colo.
O músico havia ficado estático ao ver o modo como Mu comia a mulher.
Era grotesco, medonho, e chegou a quase vomitar quando o viu desmembra-la.
Enquanto Mu já partia em disparada para abater a outra mulher, o Setita mergulhava nos corredores escuros e destruídos da mansão levando o servo para um dos muitos banheiros que haviam ali.
Chegaram lá ao mesmo tempo em que Seth caçava, pelos arredores do jardim, em frenesi o homem que o sacerdote lhe trouxera.
— Depressa, tire a roupa! — disse Shaka ao colocar o pianista no chão, que paralisado pelo horror de há pouco sequer se moveu — VOCÊ ME OUVIU? TIRE A ROUPA!
Com um tapa forte no rosto do garoto o sumo sacerdote o despertou daquele estado de catatonia, e enquanto Afrodite se despia em aflição, Shaka correu até o boxe e abriu a ducha, voltando ao servo em seguida para agarra-lo pelo braço e o arrastar até a água.
— Tem que lavar esse sangue, tirar o cheiro de você, ou nem mesmo eu poderei te livrar da fome dele. — disse Shaka enfiando o músico dentro do boxe, depois pegou um frasco de shampoo e despejou o conteúdo às pressas sobre seus cabelos, ombros, costas e onde mais houvesse sangue.
— Aaah! Está doendo! Está doendo! — o músico contraiu os ombros ao contato do shampoo, devido aos arranhões que Mu lhe infringira, mas Shaka ignorava seus queixumes e esfregava afoito sua pele, só pensando em livra-lo do sangue.
— Cala a boca e esfrega se não quiser morrer. — disse o sumo sacerdote.
Afrodite chorava muito, não apenas pela dor, mas pelo horror que vivera e presenciara. Em sua mente a cena de Mu devorando a mulher daquela forma tão animalesca e medonha se repetia, então agarrou o sabão e em aflição começou a se esfregar também.
— Era... era para ser eu ali... Era para ser eu... — dizia o músico aos soluços — Ele comeu ela inteira!... Ele... Não bebeu Mestre Shaka... Ele... Era para ele ser bom! Era para ele ser bom!
— Já mandei você calar a boca! Anda, lava esse rosto! — Shaka empurrou a cabeça dele para debaixo da água ao mesmo tempo em que puxou seu punho para cima lambendo a ferida que deixara aberta para cicatriza-la.
Nesse momento a porta do banheiro fora aberta com um chute, sendo estraçalhada.
— Aaaaaaaaaaaah!
Afrodite gritou aterrorizado ao ver Seth ali, completamente banhado em sangue e vísceras humanas. Instintivamente segurou no braço de Shaka como quem pede proteção, mas na mesma hora Seth correu para dentro do cômodo e agarrou o sumo sacerdote pelos cabelos o trazendo para junto de si.
Frente a frente o Setita e o Nut se encararam.
Shaka nada disse. Apenas divisava a face contorcida do companheiro analisando cautelosamente seu estado de consciência.
Seth tinha seus olhos negros cravados nos de Shaka.
Estavam tão próximos que seus narizes de tocavam.
O Nut então abriu a boca e sibilou furiosamente diante da face muda do sumo sacerdote.
Era um aviso, onde deixava claro que Shaka jamais deveria se atrever a lhe roubar uma presa outra vez.
Ameaça feita, recado dado, Seth virou seu rosto para o lado, agora encarando Afrodite que estava acocorado dentro do boxe, debaixo da cascata de água corrente. Seu olhar gelou a alma do pianista, até que simplesmente o Nut se virou, soltou os cabelos do sumo sacerdote e dando as costas aos dois deixou o banheiro.
Mu estava no controle novamente.
A Besta havia se saciado com os três humanos que Shaka lhe trouxera. Tinha os devorado por completo, mal deixando restos para trás, não lhes poupando nem o tutano dos ossos.
Mu agora caminhava lentamente até outro dos banheiros para livrar-se de toda aquela imundice. Lutava para voltar à sua forma normal, pois fora dela Afrodite ainda lhe era tentador demais.
No banheiro onde Shaka estava com o servo, este precisou de ajuda para terminar o banho.
O músico estava em choque, e mal conseguia andar após deixar o banheiro, por isso o Setita o pegou novamente no colo e o levou para um dos quartos de hospedes, o que estava menos destruído.
Quando saiu do quarto, fechando a porta atrás de si e sentindo que Mu ainda estava se banhando, Shaka foi analisar as dimensões daquela emboscada.
Com cuidado, e tomado por um ódio sem precedentes, avançava galgando passos lentos entre os destroços pelos corredores e cômodos, constatando que praticamente tudo havia sido de certo modo avariado. Nem os quadros haviam sido poupados da fúria Assamita e estavam estilhaçados no chão ou resgados presos à parede.
Na cozinha encontrou o corpo fétido de Gembu com a cabeça decapitada, e no quarto de Afrodite e corredores paralelos os corpos ressequidos e descarnados dos Setitas que vieram reforçar a guarda da sede.
Ao ver a porta da biblioteca destruída Shaka caminhou até lá e conteve um grito ao adentrar o local, então lançou-se de joelhos ao chão quando viu seus dois felinos de estimação estirados sobre o tapete persa, transpassados por dardos envenenados.
— Não! Kali! — disse o sumo sacerdote curvando-se sobre o corpo agonizante do animal, que era um pouco maior do que um gato domestico comum, o puxando para seu colo — Por isso vocês não apareceram... Por isso não atenderam ao meu chamado!... Malditos sejam! Eu vou caça-los até os confins do mundo!
Transtornado, Shaka arrancou o dardo envenenado que transpassava Kali e depois também o de Seth, caído ao lado em agonia, e nessa hora uma mão trazendo conforto e consolo lhe pousou sobre o ombro.
— Somente retirar o dardo não vai impedir que o veneno os consuma. — disse Mu, que vestido num roupão negro de seda ajoelhou-se ao lado de Shaka puxando o outro felino para seu colo.
O sumo sacerdote olhou para o Nut que puxava a manga do roupão expondo o pulso, no qual abriu uma ferida com uma mordida para depois deixar gotejar algumas gotas de seu sangue poderoso sobre a ferida do felino.
Mu fez o mesmo procedimento com Kali, depositando seu sangue na ferida envenenada, depois lambeu seu próprio pulso e se levantou.
— Deixe-os descansar ai mesmo. Em algumas horas estarão bem... Venha. — disse estendendo a mão para Shaka — Falta pouco para o amanhecer. Vá se lavar. Eu o encontro no porão.
O Setita pegou na mão do Nut levantando-se, mas quando ficaram frente a frente Mu encarou o rosto do companheiro com semblante severo.
— Shaka, Afrodite não pode ficar aqui. — disse resoluto — Precisa manda-lo embora... por favor.
Mu não era um vampiro de implorar, mas aquela suplica saiu do fundo de sua alma.
Dito isso, o Nut deu as costas ao sumo sacerdote e deixou a biblioteca.
Shaka sabia que ele tinha razão, mas de forma alguma aceitaria desfazer-se do músico.
***
No quarto de hospedes para onde Afrodite tinha sido levado, o pianista vivia um pesadelo revendo as cenas terríveis que vivera e presenciara pouco antes.
O fedor que pairava sobre a casa ainda era forte e sufocante, e o medo ainda era assustadoramente real.
Ingenuamente tinha arrastado a penteadeira de madeira até a porta fazendo uma barricada, numa falsa ilusão de proteção, depois enrolara-se no lençol que cobria a cama, já que estava nu, e abraçado aos joelhos enquanto chorava e tremia, encolheu-se no chão no fundo do aposento, segurando com força o apito que Shaka lhe dera.
Em choque, o garoto ouvia o som dos ossos da mulher que Mu devorara se partindo e ele era tão alto e real em sua mente que ele fechava os olhos, apertando as pálpebras na tentativa de deixar de ouvi-lo, mas no escuro a imagem de Mu lhe arranhando os ombros e lambendo seu pescoço lhe vinha à mente e Afrodite soluçava em pavor abrindo novamente os olhos para fugir daquela lembrança.
Como seria agora? Como poderia continuar vivendo ali depois daquilo?
Em seu delírio via a si mesmo esquartejado, mutilado, sendo devorado vivo no lugar da mulher, quando de repente tudo, som, cheiro e devaneios desaparecem por completo ao perceber que não estava sozinho no quarto.
Num impulso de assombro e terror Afrodite soltou um grito rouco ao ver Mu ali, diante de si, então em desespero intencionou levar o apito à boca, mas no meio do percurso fora impedido por uma súbita paralisia que o fez ficar com a mão e o artefato congelados no ar.
Os olhos azuis muito claros do pianista divisavam aflitos a figura à sua frente, que agora em nada lembrava o demônio que tentara devora-lo pouco antes, mas que não deixava de ser a personificação de seu pior pesadelo.
Mu por sua vez, olhava para o humano compadecido de seu pavor.
Não era a primeira vez, aliás, que via o medo estampado nos olhos de alguém que lhe era querido.
Quantas foram as vezes em que havia matado seus servos mais leais.
Quantas foram as vezes em que via seus próprios entes queridos e amigos se afastarem de si aterrorizados.
Contudo, o olhar que o jovem músico lhe lançava era ainda mais duro, já que ele havia experimentado sua selvageria e sobrevivido!
Mu sentia-se extremamente envergonhado.
Odiava profundamente seu descontrole, uma vez que este era uma vergonha para qualquer vampiro. Já lhe era extremamente penoso aceitar que Shaka o via descontrolado, agora Afrodite também o tinha visto.
De forma muito lenta para não assustar ainda mais o servo, Mu ajoelhou diante dele usando seu poder para tirar-lhe o apito das mãos, o fazendo levitar até as suas.
— Eu vou me aproximar de você, não grite. Eu não vou feri-lo. — disse o Nut num sussurro manso — Não queria que tivesse visto aquilo... Eu sei que as imagens do que fiz não saem da sua mente. Acredite em mim quando digo que o que ocorreu na sala é extremamente embaraçoso e constrangedor para mim. — disse sem olhar para o sueco, com os olhos verdes presos ao apito agora em suas mãos.
Porém, nem toda a brandura do Nut era capaz de confortar o coração aflito do jovem, tampouco apagar de sua mente as imagens que vira.
Afrodite tentava engolir o choro, mas tudo que conseguia fazer era sofrer pequenos espasmos involuntários na tentativa, até que o instinto humano que em tudo procura uma logica falou mais alto e antes mesmo que raciocinasse questionou o outro com voz embargada.
— Por quê?... Por que fez aquilo daquele... daquele jeito? — franziu as sobrancelhas ao ouvir novamente em sua mente o som dos ossos da mulher sendo partidos pela mandíbula de Mu — Eu... Eu sei que vou morrer, eu sei, mas não quero morrer daquele jeito, senhor Mu, não daquele jeito! Por favor, não quero que seja daquele jeito! — dizia de olhos fechados chacoalhando a cabeça negativamente e se entregando ao choro sem mais se conter.
Para Afrodite que era músico, acostumado com a beleza das notas e composições, familiarizado com uma beleza que poucos sabiam apreciar, era angustiante pensar que morreria de forma tão medonha.
Mu sentia toda a angustia que vinha dele. Havia ido ali com a intenção de desculpar-se, mas só conseguira deixar o pobre garoto ainda mais aterrorizado, por isso não viu outra alternativa a não ser usar seu poder para acalma-lo, elevando sua Presença e dominando as vontades do jovem.
Não queria que Afrodite se tornasse um zumbi, por isso apenas o fez parar de chorar induzindo sua mente.
— Você não vai morrer daquele jeito, eu lhe prometo. — disse o Nut com voz branda, em seguida tocou gentilmente o braço do pianista e o puxou para um abraço onde o acalentou emanando seu poder para controlar suas emoções — Eu não faço aquilo por que quero, Afrodite. Sou um amaldiçoado e uma vergonha... Não é atoa que escondo isso de todos. Queria muito ser como os outros, poder controlar a Besta que habita em mim, mas quando fui transformado minha maldição foi maior.
O Nut falava com pesar na voz, enquanto balançava o próprio corpo buscando desesperadamente confortar o jovem o embalando em seus braços como sua mãe fazia consigo quando queria conforta-lo.
— Não imagina o horror que eu já semeei nesse mundo... Mas, acredite em mim... Eu não gosto, e eu não quero, fazer aquilo com você. — afastou-se apenas para segurar o rosto do sueco com ambas as mãos para olhá-lo nos olhos marejados — Não quero que aquilo aconteça com você... É por isso que precisa ir embora desta casa.
Afrodite piscou algumas vezes.
— Ir... embora? — murmurou baixinho, surpreendendo-se ao ver os olhos de Mu úmidos por lágrimas de sangue.
— Sim, você precisa ir embora daqui. Eu gosto muito de você, Afrodite. Sua música é linda e seu coração e sua alma são mais belos ainda... Você jamais deveria ter sido trazido para esse lugar amaldiçoado. Eu sou um monstro... Agora talvez entenda porque fui representado sob a forma de um homem com cabeça de Fera, e porque Seth é um deus tão temido no Mundo Novo... Falarei com Shaka. Exigirei dele que o mande para algum lugar seguro... Infelizmente não posso fazer com que volte a ter uma vida normal, mas eu lhe prometo que será bem tratado e... e que esteja longe o suficiente de mim.
— Mas... para onde devo ir?
— Eu ainda não sei. — disse Mu, depois pegou na mão do pianista e lhe devolveu o apito, colocando o artefato em sua palma para em seguida fechá-la a segurando com força.
A manipulação do Nut aos poucos acalmava o sueco que se deixava embalar varrendo para longe o som perturbador dos ossos se partindo. Afrodite segurava o apito com força, mas não sabia o que dizer.
Era bem verdade que o pianista não se sentia feliz ali, mas aquele era seu mundo há cinco anos e Shaka era seu único elo naquela existência. Mesmo rígido e violento, o sumo sacerdote exercia sobre o músico um fascínio intenso, fruto dos anos de manipulação, e só de pensar em se separar de Shaka o coração do garoto agonizava dentro do peito.
— Não... Não... Eu não quero ir embora. — disse melancólico, em seguida olhou suplicante para o Nut.
Pensando em não estender mais aquela dolorosa despedida, Mu induziu Afrodite ao sono.
O corpo do pianista tombou para frente deixando cair ao chão o apito, sendo amparado pelo vampiro que o tomou nos braços e o conduziu até a cama.
No leito, Mu descobriu o corpo frágil sobre o colchão sentindo o coração apertado ao ver os arranhões nas costas e ombros do garoto, então mordeu novamente o próprio pulso e gotejou o sangue nas feridas. Terminado, o cobriu com o lençol e ficou velando seu sono por alguns minutos.
Afastou a franja longa que ocultava parte do belo rosto do jovem e lhe depositou um beijo sobre a fronte, marcando sua despedida daquele humano por quem tinha sentido uma rara afeição.
Aquela seria a última noite de Afrodite na mansão de Shaka.
***
No horizonte o alvorecer se anunciava tingindo as brumas da noite de um leve dourado desbotado. As janelas estavam quebradas e pela primeira vez em séculos as dependências internas daquela morada aos poucos se iluminaram com os primeiros raios do sol.
Logo os carniçais de Shaka chegariam para queimar os corpos dos abatidos em combate e começar a limpar aquela bagunça toda.
Todavia, no porão da imponente sede dos Seguidores de Seth, a escuridão reinava absoluta.
Ao entrar no recinto iluminado minimamente por algumas poucas velas, Mu fechou a porta atrás de si e caminhou até Shaka, que sentado na beirada da grande cama de lenções negros, já livre de toda a sujeira que cobria seu corpo minutos antes, o esperava.
Em silêncio, o Nut cruzou o ambiente e sentou-se ao lado do Setita deitando a cabeça em seu ombro.
— Como você está? Está muito ferido? — perguntou Mu em voz baixa.
— Estou bem... Meu corpo está combatendo o veneno como deveria... — Shaka respondeu pegando na mão do companheiro. De fato seu corpo se regenerava rapidamente, porém sua alma nutria um ódio sem precedentes —... E você? Com tudo isso nem pude te perguntar como foi no Irã...
Sem dizer nada, e visivelmente abatido, Mu fechou os olhos e concentrou-se, então todas as memórias de sua visita à caverna no Irã passaram a ser compartilhadas com Shaka através do elo sanguíneo que dividiam.
Ao mesmo tempo em que o Nut dividia suas lembranças com o Setita ele também conversava com o amado por telepatia.
“Foram todos exterminados... Os Seguidores de Seth são tudo o que sobrou da minha família.”
Shaka via em sua mente as inscrições talhadas no mausoléu improvisado e também o testamento de Zaphinat escrito na rocha, enquanto as palavras de Mu ganhavam forma.
Saber a verdade sobre a extinção do clã de Seth era como tomar uma apunhalada pelas costas, já que passara milênios acreditando em uma história falsa, de traição entre irmãos que na verdade eram unidos e se sacrificaram para salva-lo.
De fato a religião era algo criado pelos homens e nunca pelos deuses.
Surpreendido e abalado, mais pela constatação de uma hipótese há dias levantada por si quando relia, em sua biblioteca, alguns de seus livros sobre História da Humanidade, do que pela revelação da verdade trazida por Mu, Shaka levantou-se da cama e deu uns poucos passos à frente. Em seguida, ficou um tempo imóvel, no centro do aposento, olhando para o vazio.
Mu o observava calado, porém sentia todo o agito que se dava na mente do Setita. Sabia que para Shaka aqueles escritos na caverna eram tão reveladores para a história dos Seguidores de Seth e para o sumo sacerdote quanto foram para si.
De repente Shaka virou-se de frente para Mu, então seus olhos se encontraram em meio à penumbra que engolia o aposento, reluzindo um brilho dourado ainda que fraco como os raios do crepúsculo cinzento que cai sobre os polos da Terra.
Com um semblante melancólico e afadigado no rosto cianótico que ainda exibia marcas da batalha da noite passada, Shaka encarou o rosto de Mu e após uma breve pausa disse com voz fraca e empedernida:
— Isso explica toda a confusão acerca dos registros históricos não baterem com os Escritos dos papiros antigos... Eles estavam errados. — fez outra pausa breve — Ambos estavam errados... Eu imaginei, logo que... Que havia um erro cronológico que...
Atribulado Mu também se levantou da cama e caminhou até o companheiro, parando a poucos centímetros de tocá-lo.
— Por meu pai Rá, me diga logo, Shaka!
O sumo sacerdote ergueu a mão e acariciou o rosto do Nut num gesto terno, porém ambos dividiam uma aflição incontida que lhes oprimia o peito.
— Sua história, e a de sua família, foi alterada pelos povos que chacinaram seu clã. Uma prática muito comum em tomadas de território, pois apagando ou distorcendo a história de uma civilização dominante se tornava mais fácil impor outra lei, outro governo e outra cultura... A começar pelos deuses adorados por um determinado povo. — Shaka baixou a cabeça e pegou na mão de Mu, depois voltou a encara-lo nos olhos — Desde que despertei você e soube que era um Nut, depois que era... Seth... passei a reler antigos pergaminhos, livros e papiros. Tive pouco tempo para analisar e pensar no que quer que fosse, mas... jamais tive paz em saber que por milênios os Escritos Sagrados estavam errados... Não era possível que nós estivéssemos tão cegos.
— Não estavam. — disse Mu entrelaçando seus dedos aos de Shaka.
— Sim e não. — respondeu o sumo sacerdote — Eu sou arqueólogo e corri o mundo em busca da verdade sendo guiado apenas pelos papiros, que eram os únicos documentos que possuíamos... Nosso verdadeiro tesouro, aliás, e a chave de todo esse mistério... Esses papiros são tão frágeis e Sagrados que não estão nem em minha posse. O curioso é que nunca encontrei neles uma informação de fato relevante que me levasse ao seu paradeiro... Passei milênios tentando decifrar alguma pista, ou enigma que pudesse conter algo a mais, mas tudo que consegui descobrir foi um erro de cronologia.
— Um... erro de cronologia? — Mu franziu a testa.
— Sim... Uma falha de 700 anos para ser mais exato, a qual mantida em segredo nos papiros mais Sagrados do nosso clã. — disse Shaka — Contudo, tanto nas Escrituras Sagradas Setitas quanto nos registros históricos, essa falha aparentemente não possuía grande relevância, já que elas são um processo comum dentro da arqueologia, mas que agora... diante do testamento desse sumo sacerdote, Zaphinat, ganha outro sentido e se torna a luz que dissipa as trevas da dúvida!... Esse erro de datação mantido em segredo pelos nossos ancestrais se refere às primeiras dinastias egípcias que governaram o Antigo Egito!... Por que meu antecessor, e os que vieram antes dele, me deixaram o papiro que continha esse erro de datação como o Santo Graal de nossa religião?
O elo sanguíneo que os vampiros partilhavam ali também funcionava como uma ponte por onde trocavam vivências, fazendo as informações que ambos carregavam consigo fluir.
“Porque ele era a resposta, a chave, para os escritos em meu mausoléu no Irã. O erro histórico que você descobriu foi proposital, e somente meus Seguidores sabiam dele.” — disse o Nut diretamente à mente do sumo sacerdote.
“Exato. Mas, com a extinção dos primeiros membros de nosso clã a verdade foi sepultada juntamente com os antigos sacerdotes que se entregaram ao sono da morte e se sepultaram naquela caverna junto com você, Mu... Nesse papiro estava escrito que Akenaton, o governante louco do Egito, e adorador do deus Aton, o Sol, não governou de 1.352 a.C até 1.336 a.C, mas sim que ele atacou o Egito 700 anos antes, por volta de 2.000 a.C. Essa lacuna bate exatamente com a data em que seu clã foi exterminado. E mais, o papiro aponta que a dinastia de Akenaton reinou por 700 anos, e que durante todo esse tempo a adoração aos deuses foi proibida. A imposição cultural da dinastia de Akenaton pregava a pena de morte a todos que insistissem adorar os deuses antigos, e aqueles que não aceitaram foram caçados e exterminados. Aquela foi uma Era negra ao Egito. Todos os templos sagrados da antiguidade foram destruídos, também as inscrições, estatuas, pinturas, e toda cultura egípcia que pudesse fazer menção aos antigos governantes foram... alteradas.” — disse Shaka.
Mu arregalou os olhos diante das revelações que sobrevinham a ambos, apertando a mão de Shaka contra a sua em aflição.
“Por 700 anos apenas Aton pode ser adorado como verdadeiro deus...” — Shaka continuou usando telepatia — “Mas, finalmente em 1.336 a.C, os Seguidores de Seth, que cresceram lentamente em número às margens da sociedade, ocultos em cavernas ou ruinas subterrâneas do antigo continente africano, conseguiram erguer um contingente numeroso de membros, e aliados ao gado revoltado devido à tirania de Akenaton, deram um novo golpe e destituíram o tirano do poder.”
Shaka fez uma pausa e baixando os olhos para as mãos de Mu, que seguravam a sua, sorriu.
“É ai que está a chave de todo o engano, Mu.” — disse o Setita visivelmente emocionado, então ergueu o rosto e novamente encarou as íris verdes do companheiro. O seu olhar firme e implacável sustentava o do Nut.
— Quando uma dinastia cai os usurpadores destroem sua história. — disse Shaka — Akenaton destruiu ou modificou tudo que foi postulado por sua família, feitos, conquistas, leis... 700 anos são mais do que o suficiente para se acabar com todo um credo ou... modificar seus dogmas. — agora Shaka seguravam ambas as mãos de Mu nas suas, apertando-as com força desmedida — Mas, Akenaton não conseguiu apagar totalmente sua existência desse planeta... A fé... A fé na dinastia de Rá e seus filhos ainda permaneceu forte na mente e nos corações dos homens através do sacerdote que sua mãe transformou... Esse vampiro que Aset escolhera e confiara seu filho outrora foi um homem, o gado, portanto ele tinha uma visão diferente da família real, e foi essa perspectiva que ele transmitiu aos primeiros Seguidores... Alguns papiros registram que o primeiro sumo sacerdote Setita a caminhar sobre a Terra morreu de forma prematura em uma emboscada à luz do Sol. Tudo me leva a crer que ele era o escolhido de Aset, e que morreu sem ter conseguido transmitir todos os registros aos que viriam depois dele... Os registros que hoje são a pedra fundamental da nossa crença.
— Shaka, então... — Mu murmurou com os lábios trêmulos.
— Então agora eu finalmente entendi, Mu. — disse o sumo sacerdote com firmeza — Fomos nós, os Seguidores, os que vieram antes de mim, quem mudamos a datação da dinastia de Akenaton... Nossos ancestrais encontraram uma forma de se vingar pela chacina da sua família e proibição do culto aos deuses apagando da História 700 anos de reinado de Akenaton, e o transformando em um governante louco cujo reinado durou apenas poucas décadas... Mas, era tarde demais. Toda a história da dinastia Rá já havia sido deturpada para persuadir o gado... Séculos depois da queda de Akenaton a crença nos deuses antigos foi restaurada, porém nada permaneceu como era antes. O reinado de Rá, Aset, Osíris, Bastet e de Seth foi narrado oralmente e difundido pelo gado, mas pouco havia sobrevivido da história original após 700 anos de lacuna.
— Por Rá! — Mu sussurrou — Por isso tudo que me contou quando cheguei aqui estava diferente!
— Sim, mas a chave para a revelação da verdade foi dada a mim... Quem mudou a datação nos primeiros papiros sabia que faltava uma peça para a solução do enigma das Eras, e essa peça era você! — o sumo sacerdote esboçou um tímido sorriso — Por séculos a missão dos sacerdotes de Seth foi esconder os papiros que continham esse erro, mas a mim foi dada outra missão além da ocultação dos papiros, a de procurar Seth e despertá-lo!... Só você, Mu, poderia revelar a verdade a nós, Seguidores... Mesmo com esses papiros em meu poder eu não tinha como decifrar o enigma do erro cronológico, uma vez que não sabia o que aquela informação significava... Até agora!
Mu divisava o rosto emocionado do sumo sacerdote quase que paralisado. Shaka, que sempre fora uma criatura endurecida pelos milênios, deixava lágrimas escapar de seus olhos e essas não passavam despercebidas pelo coração sensível do Nut, que sentiu seus olhos marejarem.
— Eu não podia estar tão enganado, Mu. — disse o Setita levando uma das mãos aos cabelos lavanda do companheiro onde fez uma caricia delicada, depois usou os dedos longos para lhe colher uma lagrima que lhe saltava dos olhos — Minha fé nunca fora em vão. Nós, Seguidores, não fomos criados por Seth, mas para Seth. Sua mãe nos criou, Mu. E ela o fez para que vingássemos sua família e para que quando despertasse não estivesse só. Nós somos o elo deixado por Aset a você, a sua família no Novo Mundo... Nós somos sangue do seu sangue, somos o seu clã, seu legado, seus adoradores e guardiões da verdadeira história da dinastia dos deuses do Egito. Estamos aqui por você, Seth. O amor de sua família sobreviveu às Eras e o alcança hoje através das minhas palavras e da herança sanguínea em minhas veias... Eu sou seu servo, e você é meu Senhor e meu deus.
Com um novo senso de responsabilidade, Shaka lentamente dobrou os joelhos e prostrou-se diante do Nut ainda segurando firme em suas mãos, as quais levou até seu rosto e beijou ternamente os dedos. Após uma pausa ergueu o rosto e olhou para a face serena de Mu.
Finalmente o sumo sacerdote tinha encontrado a paz para amar aquele vampiro, a qual havia perdido no momento em que descobriu que Mu era o deus de sua devoção.
— A razão de minha existência sempre foi você, Seth. — disse encarando os olhos verdes do companheiro — Agora eu sei que minha fé nunca foi em vão e que meu amor por você é sagrado como ela. Perdoe-me por ter duvidado de ti, meu adorado Senhor. Estava certo quando disse que fomos prometidos um ao outro e que retornou para salvar nosso clã. Eu o amo tanto, Mu, e agora estou em paz para viver esse amor em toda sua plenitude.
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Fics Trio Ternura
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