A Máscara de Seth
18 Capítulo 18
Notas iniciais

O alarido da noite passada, somado a balburdia da cena tórrida e bestial que havia presenciado, deixaram o jovem servo de Shaka tão assustado que mesmo com os raios de sol lhe dando guarita e segurança Afrodite não se atreveu a deixar o terreno seguro de seu quarto, permanecendo recluso o dia todo, ora encolhido na cama, ora perambulando pela penumbra do cômodo lacrado, até que, vencido pela fome e pela sede, o belo músico de olhos de um azul melancólico se muniu de toda coragem que lhe cabia e correu até a cozinha decidido a apanhar rapidamente o que quer que encontrasse.
Faltava pouco para o sol se por, e se tivesse sorte conseguiria concluir sua meta antes dos mestres acordarem. Por isso mesmo desbravou os corredores imensos da mansão descalço, para não fazer barulho, e vestido num pijama negro.
Passo a passo, foi direto à cozinha onde não demorou mais que alguns poucos minutos para juntar algumas frutas, pães integrais, queijos e também uma garrafa com água fresca. O piso estava muito frio, visto que naquela época do ano na Inglaterra o clima era bem gélido, e já começava a sentir seus dedos dos pés gelados e doloridos.
Colocou tudo em uma bandeja de forma desmazelada e deixou a cozinha às pressas, mas enquanto cruzava a antessala que dava para o corredor onde ficava seu quarto, um ímpeto o fez olhar para a direção oposta.
Em meio à penumbra densa que engolia aquela ala da casa ficava a entrada para a biblioteca do sacerdote Setita, e por onde, através de uma pequena fresta aberta na porta, um brilho dourado reluzia.
Afrodite já estivera por diversas vezes ali, ouvindo as histórias do deus egípcio, Senhor de todo o Caos, que eram contadas por Shaka.
Como se uma força de atração o impelisse, o pianista mudou o passo e seguiu para a biblioteca. Empurrando a porta com a bandeja de provisões que recolhera na cozinha, adentrou lentamente o recinto sendo banhado pela luz dourada das velas acesas no altar de Seth.
A suntuosa estátua do deus egípcio ficava ao fundo, e como se possuísse um magnetismo fantástico capturou de imediato a atenção do visitante, que sem conseguir tirar os olhos dela aproximou-se parando à sua frente.
Colocando a bandeja sobra uma bancada que ficava ao lado, Afrodite se pôs a observar, vidrado, a cada detalhe entalhado no ouro e no bronze. Já tinha visto aquela imagem por diversas vezes, porém agora ela lhe parecia completamente nova.
— Seth... Mu! — o jovem sussurrou divisando os olhos da estátua, cuja cabeça pertencia a um animal, mistura de chacal com marsupial — Quem de fato será você?
Afrodite corria lentamente os olhos azuis pela figura animalesca procurando, talvez, alguma semelhança entre o que estava ali e o vampiro que agora morava na casa.
— Anjo ou... demônio? — questionou com um novo sussurro.
— Nem um, nem outro!
A voz serena e estrondosa veio da entrada da dependência e pegou o músico de surpresa, que em sobressalto deu às costas à estátua virando-se em direção à porta. Ao executar o movimento, atarantado Afrodite esbarrou no cetro que o ídolo trazia na mão, o qual foi ao chão produzindo um som estridente ao contato com a madeira rija e escura.
— M-Mestre Shaka! — disse o garoto apressando-se a apanhar o artefato do chão — Me perdoe eu... Eu fui apenas buscar algumas coisas para comer e... Eu sei que não deveria estar aqui, me perdoe, por favor.
Atrapalhado e trêmulo, o jovem tentava recolocar o cetro na mão da estátua, enquanto Shaka caminhava lentamente em sua direção o observando. Os longos cabelos dourados do sumo sacerdote bailavam em sincronia com o tecido negro do robe de seda que quase lhe cobria os calcanhares nus, enquanto os felinos Seth e Kali enroscavam-se por suas pernas, e quando se aproximou do músico esticou o braço e tomou de suas mãos trêmulas e frias o cetro, o colocando no devido lugar, na mão de Seth.
— Não peça perdão, Afrodite. — disse Shaka altivamente — Sua curiosidade é completamente compreensível.
O pianista, após uma breve pausa, desviou os olhos da figura nobre de Shaka e voltou a encarar os olhos da estátua.
— Seth ou... Mu... Ambos me fazem sentir paz, mas também medo. — disse Afrodite estreitando os olhos — Por que essa cabeça de cachorro? Não entendo. O senhor Mu não tem essa aparência, no entanto ele é Seth, não é?
— Sim, ele é. — Shaka respondeu lançando um olhar fixo e penetrante aos olhos da estátua.
— Então... a religião Setita é uma fraude?
Shaka desviou os olhos para o rosto frágil e belíssimo do servo, e se perguntou se também não pensava como Afrodite. Sua fé em Seth, apesar do ocorrido, apesar de ele ser ao mesmo tempo o deus e o companheiro que tanto esperara, parecia ser a mesma, mas as escrituras estavam erradas... ou não?
— Eu ainda não sei, Afrodite, mas acredito que não. — Shaka respondeu esticando a mão e abrindo o papiro que estava sobre o colo da estátua — Eu também me perguntei se tudo em que passei anos acreditando era uma farsa, mas hoje eu lhe digo, com toda a certeza, que não. Não era... Essa estátua representa a verdadeira essência de Seth, que um dia foi um homem como você, doce e gentil... Porém, quando se tornou um vampiro, seu lado selvagem veio à tona e o demônio agora mora no corpo do anjo... O Caos!
— Por isso o corpo de homem e a cabeça de animal. — exclamou Afrodite voltando a analisar o ídolo de ouro e bronze — O senhor Mu é o bem e o mal no mesmo ser.
— Exatamente. Uma junção perfeita dos dois. — disse Shaka.
Afrodite engoliu em seco e voltou a olhar para o sacerdote.
— Então... Não estamos seguros com ele aqui, não é mesmo? — o músico concluiu com um sussurro.
— Quem sabe? — o Setita respondeu enquanto caminhava até a escrivaninha — Depois de ontem, eu entendi que talvez eu seja o único nesse mundo que ainda possa exercer algum controle sobre Seth, mas mesmo assim não consigo impedi-lo de ter o que deseja. Por isso, eu não posso garantir sua segurança aqui, Afrodite.
O sueco encarou o sumo sacerdote com o rosto petrificado numa expressão terrível de pavor. Contudo, sabia que desde que fora trazido para aquela casa seu destino era a morte certa. Se não fosse morto por algum filho da noite, tendo o sangue sugado até sua vida se esvair, morreria devorado por Mu.
— Entendo. — disse o músico baixando a cabeça e deixando escapar um suspiro aflito.
— Por isso, eu quero que use isso. — disse Shaka surpreendendo o servo, que ergueu a cabeça curioso e ao olhar para o Mestre o viu lhe estender uma pequena caixa preta que tinha nas mãos — Venha aqui. Pegue.
Afrodite se aproximou receoso, tomou a caixa das mãos do sacerdote e ao abri-la arregalou os olhos e contorceu o rosto numa expressão de curiosidade.
— Um apito? — perguntou confuso depois de uma pausa.
— Sim, é um apito. — Shaka se aproximou novamente dele e tomou o pequeno artefato cilíndrico nas mãos, o qual estava preso a uma fina corrente de ouro — Mas, não é um simples apito.
— Parece um apito de cachorro. — concluiu o músico ainda confuso.
— Sim, mas ele é muito mais eficiente que um simples apito para cães. É usado para afastar algumas subespécies que perambulam nas sombras, algumas crianças da noite mais ingênuas, carniçais, lacaios... Deve funcionar contra Mu, ou ao menos atordoa-lo. Vire-se, vou colocar em você.
Afrodite obedeceu, então Shaka delicadamente juntou os longos cabelos claríssimos do pianista e jogou as madeixas para frente, deixando nua sua nuca e pescoço. Esticou as mãos e passou a correntinha com o apito como pingente por cima da cabeça do sueco para fechar o feixe.
— E por que eu usaria isso contra o senhor Mu? O senhor acha que... — o garoto se interrompeu baixando a cabeça para analisar o artefato que agora segurava entre os dedos finos.
— Tenha consciência de que nada nesse mundo vai impedir o Mu de alcança-lo se você correr. — disse Shaka encostando seu corpo às costas do jovem, sentindo o calor delicioso e pulsante que só os seres vivos tinham e que tanto lhe instigava os sentidos — E quando ele te alcançar, ele irá devorá-lo até não sobrar nem o tutano de seus ossos para provar que um dia você existiu na Terra. A frequência sonora desse artefato pode atordoa-lo e, talvez, você tenha alguns segundos para esperar por um milagre!... Eu farei o que puder para protegê-lo, Afrodite... Mas, não posso lhe dar minha palavra de que poderei impedir Mu de dilacerar você inteiro. — Shaka curvou o tronco para frente e lambeu o pescoço do músico, sentindo o calor e o pulsar da vida dentro dele lhe fazer um convite irrecusável.
Afrodite estava apavorado. As palavras do sacerdote, que ao mesmo tempo imprimiam preocupação com sua integridade, mas também lhe descreviam seu futuro funesto, lhe causaram verdadeiro pavor, e a reação de seu corpo não podia ser mais prazerosa ao Setita, que sem mais esperar assumiu sua forma bestial e rasgou a carne tenra do pescoço do músico para sugar seu sangue em completo deleite.
O coração do sueco batia acelerado, bombeando o sague com pressão ainda maior, que temperado pelos hormônios do medo davam a Shaka um banquete divino!
Ainda assustado, diferente das outras vezes em que sentia prazer com o beijo, Afrodite agarrou nos pulsos de Shaka apertando as unhas contra a carne fria do Mestre. Sentia dor, e seu corpo todo tremia, mas felizmente o Setita logo se deu por saciado, virou o sueco de frente para si e lhe serviu de seu próprio sangue através de um corte pequeno que fizera com a própria garra em seu pulso.
Afrodite bebeu algumas gotas preciosas, e era como se tivesse se servido de um banquete digno da realeza.
Toda fome e sede que sentia foram saciadas de imediato, mas como sempre o poder de Shaka era tão grande que o deixava em êxtase, e após beber do Mestre seu corpo era tomado por uma debilidade que demorava algum tempo a passar.
Por isso, o sacerdote o levou no colo de volta ao quarto, o colocou na cama e depois trouxe a bandeja com comida que o servo havia deixado na biblioteca.
Fechou a porta e em seu intimo desejou com fé que o presente que dera a ele funcionasse, pois sabia que se Mu perdesse o controle e matasse o músico, o amado amarguraria uma tristeza sem fim.
***
Enquanto isso, nos fundos da casa uma carnificina acontecia.
Quem também se deliciava em um banquete era Mu, que se deleitava com as carcaças de quatorze humanos adultos relativamente saudáveis. Para não levantar suspeitas, todos eram refugiados e imigrantes ilegais vindos de zonas de guerra, e os quais foram capturados pelos lacaios de Shaka.
O Nut tentava conter seu ímpeto procurando não desperdiçar o alimento com desmembramentos desnecessários, mas essa era uma tarefa árdua para uma criatura amaldiçoada pelo Consumo Conspícuo em grau tão elevado quanto o de Mu. O sabor das vísceras frescas, os músculos ainda sofrendo espasmos dentro de sua boca, somada a gana que sentia em chafurdar o sangue, destruir, mastigar, arrancar e engolir membros inteiros era maior.
Seguindo o mesmo ritual desde que chegara ali, naquela casa, após poucos minutos Mu abandonava os restos das carcaças no fundo da propriedade, sob as árvores, e seguia completamente ensanguentado para um dos tantos banheiros. Logo os carniçais de Shaka se incumbiam de queimar os restos mortais dos corpos ou enterra-los.
Já limpo e vestido apenas com uma toalha preta enrolada na cintura, Mu seguiu até a sala principal da mansão onde encontrou o sumo sacerdote sentado em uma das poltronas enquanto lia um livro.
— O gado estava muito saboroso, obrigado. Vai me auxiliar muito na recuperação do teleporte. — disse o Nut enquanto retirava a toalha da cintura para enxugar os cabelos.
Shaka ergueu os olhos contemplando a criatura à sua frente, então fechou o livro, descruzou as pernas e se levantou da poltrona. Erguendo o braço tocou no rosto alvo e pueril de Mu com as pontas dos dedos.
— Eu os escolhi a dedo para você. Sabia que iria gostar. — disse o sacerdote com um sorriso singelo.
— Eu sei. Você me conhece há milênios. — Mu respondeu tomando a mão de Shaka na sua e dando um beijo nos dedos unidos — Eu parto hoje, mas amanhã mesmo, assim que me alimentar, eu retornarei. Não me conforta a ideia de partir para tão longe e lhe deixar aqui sozinho. Porém, leva-lo comigo seria tão ou mais arriscado. Pretendo apenas ler as runas e hieróglifos e voltar assim que decifrar a todos. Sinto que naquela caverna no Irã é que está a chave do mistério que ronda meu passado. Por que, afinal, apenas eu sobrevivi?
— Não é tão longe assim. Viemos de lá, fracos, em dois dias. Você agora está no auge de seu poder e eu também. Não tem o que se preocupar. — disse Shaka olhando nos olhos verdes do Nut.
— Sim, você está mais poderoso do que jamais esteve, meu amado, mas ainda assim não é invencível. — Mu disse puxando o Setita para um abraço — Nenhum de nós é. Prova disso é a extinção completa do meu clã. — afastou-se e então segurou o rosto cianótico de Shaka com ambas as mãos, encarando seus olhos azuis com vigor — Quero que chame alguns dos Seguidores para reforçar a segurança dessa propriedade. Por favor, faça isso. Eu lhe dou minha palavra que volto assim que decifrar os escritos.
O corpo nu e recém-alimentado do Nut estava vivo, quente, e Shaka precisou usar de todo seu autocontrole para não sucumbir à tentação de toma-lo.
— Não se preocupe. — disse o Setita pousando ambas as mãos sobre as do amado companheiro — Eu ficarei bem. Sei do perigo que corro e não sou nenhum inconsequente. Já convoquei alguns dos Seguidores. Chegarão amanhã quando o sol se por. Eu vou ficar bem. Descubra o que houve com seus criadores, como tudo se perdeu ou se deturpou ao longo dos anos e volte para mim, Mu.
Segurando nas mãos de Mu, desceu seus braços e aproximando ainda mais seus corpos tomou-lhe os lábios num beijo cálido e apaixonado.
Foi com pesar que Seth apartou o beijo após longos minutos para estudar cada traço do rosto amado do sumo sacerdote antes de toma-lo pela mão e juntos caminharem até o quarto do Setita. Era a primeira vez que ficaria longe dele após o elo de sangue que fizeram, e estar afastado de Shaka era como perder uma parte vital de si mesmo.
No quarto, Mu vestiu um saiote egípcio de linho, prendeu os cabelos e deixou que Shaka o cobrisse com a tradicional capa preta com capuz, tão usada pelos imortais do Novo Mundo.
O sumo sacerdote então abraçou o Nut com força, e após trocarem um rápido beijo, Mu despertou a Besta dentro de si assumindo sua forma demoníaca para logo em seguir se desmaterializar diante dos olhos azuis de Shaka e aparecer milhares de quilômetros dali, em Ordu, na costa do Mar Negro, na Turquia.
Estava perto de seu objetivo, porém o teleporte a longas distâncias exigia muito de seus dons das trevas e seu poder se exauria rapidamente. Precisava se alimentar novamente para chegar até o Irã, onde estava seu mausoléu, por isso não perdeu tempo, e rastreando o odor humano pelas redondezas logo chegou a um vilarejo próximo ao cais, construído justamente para residência das pessoas que trabalhavam no porto.
Sorrateiro, preciso e letal como só as feras selvagens são, invadiu uma das casas dizimando toda a família. Poucos gritos foram ouvidos, pois Mu devorava um a um com fome voraz e impressionante rapidez, mas esses foram o suficiente para despertar as casas vizinhas.
Logo, pessoas chegavam na correria portando lanternas e faroletes diversos, assustados, mas tudo que encontraram na casa de onde vieram os gritos foram as carcaças destroçadas deixadas por Mu, que já havia se teleportado novamente e agora estava diante da entrada da caverna que por milênios fora sua tumba.
O Nut ficou parado ali, em silêncio, olhando o pequeno trinco entre as rochas que levava ao interior do covil. Sabia que sua existência teria outro sentido depois que lesse as escrituras, e isso poderia lhe ser tão bom quanto ruim, mas seguiu em frente, resignado.
Atravessou o trinco, desceu por uma longa e íngreme passagem úmida e escura e finalmente chegou ao átrio. A escuridão era densa e sufocante, mas jamais fora empecilho para os olhos de um demônio.
Assim, após analisar com minúcia cada hieróglifo que estava impresso nas rochas, os quais continham somente sua história, já tão conhecida por si, Mu entrou na câmara onde estava o sarcófago coberto por teias de aranha.
Ansioso, caminhou até ele, espanou as teias com ambas as mãos e vasculhou com cuidado dentro e fora. Estranhou o fato daquele sarcófago não ser o mesmo no qual se lembrava, nitidamente, de ter se deitado. Ainda podia ver os rostos de Osíris e Bastet se despedindo ao fechar a tampa.
Por que o sarcófago havia sido trocado? E quando aconteceu essa troca?
Nenhuma inscrição. Não havia nada naquele sepulcro que lhe elucidasse o mistério de seu sono prolongado, tampouco da extinção completa de seu clã.
Mu então caminhou em volta da tumba analisando, agora, as ossadas que jaziam ao redor dentro de túnicas de linho carcomidas pelo tempo. Os adornos e joias que envolviam os ossos escurecidos possuíam as insígnias dos altos sacerdotes egípcios que serviam diretamente à sua família, e os mesmos incumbidos de velarem o sono dos deuses.
— Por quê? — murmurou desorientado enquanto segurava um dos crânios nas mãos — Por que apenas eu?
Foi quando, ao correr os olhos novamente pelas ossadas, notou que uma delas tinha os braços abertos e uma das mãos apontava para o fundo da cripta. Mu abandonou o crânio que segurava no chão onde o encontrara e seguiu na mesma direção indicada, ficando frente à frente com uma imensa parede rochosa.
— Encontrei! — sussurrou, e na mesma hora seus olhos incandescentes faiscaram.
As escrituras estavam impressas na rocha, numa mistura de sânscrito com egípcio antigo, mas era codificada com um dialeto que apenas sua família e os altos sacerdotes usavam. Uma língua própria, criada para que apenas quem conhecia os deuses pudesse ler.
Mu correu rapidamente os olhos por aquele testamento, emocionado e ansioso, encontrando, ao pé dos desenhos e traços grafados na rocha uma assinatura.
— Zaphinat! — murmurou passando a ponta do dedo indicador por cima dos riscos que formavam o nome do sacerdote cuja ossada era uma daquelas que pertenciam aos homens velavam o sono de Seth. Provavelmente a que apontava para a parede rochosa.
Foi com ansiedade, emoção e temeridade que Mu começou a ler o testamento de Zaphinat. E assim ele dizia:
“Não tivemos nenhuma chance! O ataque foi tão inesperado quanto terrível. O povo nômade da outra margem do Nilo aliou-se à nação inimiga, e a eles criaturas desconhecidas por nosso povo. Essas Feras conheciam o segredo dos Mestres... Juntos, esperaram pacientemente através dos anos o momento certo de atacarem: o sono.
Foi rápido. Quando nos demos conta, os sarcófagos de Osíris e Hórus já haviam sido profanados e os Mestres, que haviam acabado de adormecer, eliminados sem nem ao menos ter a chance de se defenderem.
O ataque foi covarde e simultâneo.
Enquanto invadiam as tumbas nas câmaras do sono, o palácio real era atacado e completamente destruído.
Ainda me recordo em agonia das chamas consumindo os corpos dos Mestres enquanto, em desespero, tentávamos salvar Bastet, a qual com muito esforço conseguimos despertar do sono, mas devido ao processo de mumificação ainda estava fraca e seu poder comprometido.
Vendo que não poderia lutar contra as Bestas e o grande contingente do gado inflamado pelo ódio, Bastet nos incumbiu de salvar a Seth.
Seth era o único que seria capaz de evitar aquela chacina. O único com poder suficiente para dizimar o inimigo. Mas Seth acabara de entrar no sono profundo, e seria inútil tentar trazê-lo de volta, pois exigiria grandes quantidades de sangue, muito mais do que era necessário para o outros Mestres, e mesmo se déssemos nossas vidas, não teríamos tempo para um despertar completo e seguro. Não antes dos inimigos alcançarem seu sarcófago e nos matarem no processo.
Seth teria sido morto juntamente com a família se Bastet, em um último ato de amor e coragem, não tivesse se atirado contra o inimigo e bloqueando o caminho para nos dar tempo de salvar o Caos.
Corri, em ânsia e desespero, pelos túneis subterrâneos até os salões secretos, onde os sacerdotes terminavam de envolver o corpo de Seth nos linhos dos ritos de mumificação.
Por sua enérgica e selvagem personalidade, a mãe Aset permitiu que Seth fosse o último a dormir, e essa escolha da família foi sua salvação.
Enquanto na superfície a guerra colocava um fim à dinastia de Rá e Aset, nas câmaras subterrâneas nós trocávamos os sarcófagos para despistar os invasores, e nas passagens estreitas os sacerdotes de Seth e eu preparávamos uma comitiva para tirar do Egito o corpo do Mestre.
Não olhamos para trás.
Corremos contra o tempo. Em caravana, viajávamos ao cair da noite e nos abrigávamos em cavernas ao raiar do dia, em uma fuga desesperada para salvar o corpo de Seth.
Muitas foram as vezes que a Lua cumpriu seu ciclo até que, finalmente, encontrássemos um covil perfeito. Essa caverna é pequena e úmida. A maresia afugenta os curiosos e sua profundidade garantiria segurança ao nosso Senhor.
Meses depois, um dos nossos foi mandado de volta e se infiltrou entre os novos Mestres que tomaram o Egito. Quando ele regressou, nos trouxe a informação de que Aset conseguiu fugir do massacre e que, antes de cair, ferida e sem esperanças, usou suas últimas forças para transformar em imortal o sacerdote que a protegia, e a ele incumbiu a missão de encontrar o Mestre Seth e despertá-lo.
Não foi fácil nossa instalação. Seth precisava de segurança, por isso fechamos a entrada da caverna e selamos nosso destino aqui dentro, junto dele, mas antes enviamos novamente ao Egito nosso porta-voz. Ele irá encontrar o sacerdote imortal criado pela senhora Aset e dará a ele nossa localização.
Tudo que temos a fazer é esperar e ter fé.
Zaphinat, sumo sacerdote de Seth.”
Os escritos acabavam ali.
Mu demorara mais do que imaginava até conseguir decifrar todos os códigos, pois muitas das palavras grafadas na rocha tinham sofrido ação do tempo e tinham sido parcialmente apagadas, mas a mensagem estava ali. Tão clara quanto nefasta.
De olhos fechados e rosto contorcido, o Nut encostou a fronte na rocha enquanto deliberava consigo mesmo, e em agonia, acerca do que acabara de ler.
Agora tudo parecia fazer sentido. Era óbvio que algo dera errado, que o sacerdote incumbindo de encontrar o vampiro criado por Aset não cumpriu a missão. Todos morreram o esperando e Mu dormira por mais de quatro mil anos.
Esse vampiro provavelmente foi o fundador do clã dos Seguidores de Seth, talvez até o criador de Shaka, já que sua missão de encontrar o deus e despertá-lo estava agora nas mãos do amado.
Súbito, uma melancolia profunda e febril tomou Mu por completo, que não conteve o choro.
Aos soluços, e enquanto cravava as garras na rocha maciça, tomado por ódio e tristeza, Mu repassava em sua mente, como num filme nefasto, as cenas do que teria acontecido no passado.
Conseguia ver nitidamente Bastet, ainda envolta em linho, tentando conter as Feras e inimigos invasores, enquanto Hórus e Osíris queimavam ao fundo em seus sarcófagos. Via o palácio que ajudou a construir sendo consumido pelas chamas da guerra, enquanto seu pai, Rá, lutava para dar tempo de sua mãe, Aset, transformar o sacerdote a quem incumbira de salvar seu amado filho.
Um ataque covarde. Sem chance de defesa. Motivado certamente por sede de poder, e o qual poderia ter evitado se estive acordado.
Em meio a um choro convulso, Mu montava as peças daquele quebra-cabeças. Ainda havia muitas perguntas sem respostas. Talvez tivesse que ir ao Egito investigar as passagens e câmaras subterrâneas por onde os sacerdotes fugiram do massacre o levando consigo, pois só assim, talvez, conseguisse entender como sua história, e de sua família, foi deturpada ao longo das Eras.
Contudo, agora já era capaz de entender como se tornara líder de todo um clã do Novo Mundo e uma figura divina aos olhos dos Seguidores.
Exaurido, tanto físico quanto emocionalmente, Mu deixou-se cair ali mesmo, ainda convulso pelo choro angustiante, imerso nas lembranças dos tempos dourados em que vivera ao lado da família e depois do tempo nefasto perdido enquanto dormia nas trevas naquela caverna.
Não deixaria a triste história de sua existência se repetir, e foi em luto que adormeceu com a promessa fortalecida em seu coração inerte de que jamais deixaria que os Seguidores de Seth tivessem o mesmo destino infausto de sua família.
***
No interior daquela caverna fazia um silêncio de morte.
Nada, nem morcegos, nem criaturas rastejantes, víbora ou réptil, eram capazes de sobreviver a tão densa escuridão.
O sol já havia deitado no horizonte há alguns minutos, contudo não foi o doce aroma da noite que despertou Mu de seu turbulento e sofrido descanso.
O Nut abriu os olhos de supetão logo após sofrer um espasmo.
Atordoado e agitado, levantou-se do chão enquanto esfregava o rosto com ambas as mãos num gesto aflito, então todo seu corpo era tomado subitamente por uma sensação ruim, misto de dor, adrenalina, ódio e angustia.
— Shaka! — arregalou os olhos incandescentes, e na mesma hora seu rosto assumiu uma expressão terrível, de horror e pânico.
Seu elo sanguíneo com o sumo sacerdote de Seth lhe fazia sentir o que mais temia.
Shaka estava correndo perigo!
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