A Máscara de Seth
15 Capítulo 15
Notas iniciais

De dentro do boxe, o músico e o Nut olhavam surpreendidos para a figura vestida em uma túnica negra longa até os pés, curvada apoiada ao batente da porta.
Afrodite rapidamente se levantou para executar a ordem lançando um olhar melancólico para Mu, depois cruzou o banheiro e ao passar por Shaka baixou a cabeça respeitosamente, seguindo pelo corredor.
O tempo todo o Setita mantinha os olhos cravados aos do Nut.
Não havia sido decisão fácil estar ali, disposto a lhe dizer exatamente o que sentia.
— Início do Flashback -
Momentos antes de estar ali, frente a frente com Mu, Shaka deixou apressado o banheiro para o qual Camus o havia levado.
Ainda todo molhado, correu transtornado, mesmo que trôpego e desorientado pelo veneno, pelos corredores escuros de sua morada até chegar á enorme biblioteca, deixando respingos de água e sangue negro por onde passara.
Agoniado, bateu a porta atrás de si quando se viu dentro do aposento.
Queria ficar sozinho. Precisava ficar sozinho.
Em meio a gemidos e sutis espasmos, olhou ao redor e seguiu cambaleante em meio à penumbra até o altar Setita onde guardava há milênios os papiros sagrados que continham as escrituras do culto à Seth.
Parou diante do altar.
Seus olhos dourados então buscaram em agonia a face esculpida em ouro da estátua do deus do Caos. Cabeça de marsupial, corpo de homem em sua plenitude.
Na mão direita trazia em punho um cetro, na esquerda uma cruz egípcia.
Em sua mente, as cenas que vivenciara no exato momento da troca sanguínea com Mu se repetiam, e nelas o Nut, não a estátua à sua frente, mas Mu, é quem empunhava o cetro e a cruz, enquanto caminhava imponente em meio à turba inflamada de soldados que compunham seu exército.
Shaka sentiu escorrer por seu rosto aflito uma lágrima fria, pesada, e enquanto via Mu instigar os homens a lutar em seu nome as palavras de Camus, ainda frescas em seus pensamentos confusos, ecoavam:
“Mu perdeu tudo... Família, reino, morada, milênios de pós-vida... O que pode lhe restar se até mesmo o companheiro a quem acabara de se entregar e se unir em um laço sanguíneo eterno o rejeitar? Non me espantaria se ele decidisse dar capo de sua própria existência.”
Estendeu o braço à frente e apanhou um manuscrito de couro entre os papiros sagrados depositado sobre o altar.
O couro envelhecido parecia lhe queimar as mãos como fogo, e foi num rompante de aflição e desconsolo que o segurou o mais firme que conseguiu e o rasgou com tamanha selvageria que reduziu o documento milenar a meros farelos, os quais se espalharam no chão em torno de seus pés.
Camus mais uma vez estava certo.
Como sempre o amigo era sua parte racional.
Mu, a seu modo, cumpria a profecia. E se porventura não quis se revelar antecipadamente essa era sua vontade, e quem era ele para contestar a vontade de Seth se não apenas seu sumo sacerdote!
— Perdoe-me... — fechou os olhos entregando-se novamente à melancolia que lhe dilacerava.
Deixou-se cair de joelhos diante do altar.
Esfregou os olhos que vertiam grossas lagrimas sanguinolentas, pois além de sua própria dor e confusão também sentia, através do laço sanguíneo, o sofrimento vindo de Mu, o medo, a desesperança, e podia até ouvi-lo desabafar com seu servo, como se estivessem próximos.
Sentiu-se mal por infligir semelhante dor a seu companheiro, a seu deus, mas como poderia amar de forma carnal um ser que considerava divino, e a quem deveria adorar com irrevogável contemplação?
Após ponderar por algum momento, levantou-se e enquanto enxugava as lagrimas com as palmas das mãos deixou a biblioteca e rumou para seu quarto, onde se vestiu rapidamente com uma longa túnica negra e dirigiu-se até o banheiro, encontrando lá sua única razão de existir por mais de dois mil anos.
— Fim do Flashback -
— A forma como lidei com... com sua revelação, Mu... Seth... Não foi adequada. — disse Shaka em baixo tom.
O Nut encarou-o nos olhos, com tristeza, então rapidamente meteu o rosto debaixo das finas cascatas d´água que desciam da potente ducha e com o auxílio das mãos lavou o sangue que tingia seu rosto.
Apesar de não poder esconder sua dor, não deixaria mais que Shaka o visse chorar. Tinha seu orgulho.
Levantou-se a duras penas e fechou a ducha, dando fim ao banho.
“Você ainda está muito ferido. Precisa repousar.” — disse diretamente à mente do sacerdote, enquanto apanhava um roupão para cobrir seu corpo — “Lhe darei um pouco mais de meu sangue. Não me agrada vê-lo tão frágil dessa maneira.”
— O meu corpo não me preocupa. Essa breve debilidade logo passará... — respondeu o sacerdote verbalmente, com voz embargada —... Já minha alma, meu coração... Ah, Mu... — caminhou lentamente até o Nut e o mirou nos olhos verdes —... Sinto-me tão errado, tão... profano.
Shaka amava demais aquele imortal.
E era justamente esse o seu tormento. Desejava Seth com paixão carnal e de tal forma que queria para si até seus pensamentos e desejos mais íntimos.
A vergonha e a culpa que sentia eram tamanhas que era difícil para ele até mesmo manter os olhos na figura do Nut, pois não o via como um deus, mas como o imortal dono de seu coração sem vida e de seus pensamentos.
— Eu jamais deveria tê-lo incitado, provocado da forma que o fiz... Se soubesse...
— Se soubesse não me amaria? — Mu questionou aflito e irritado — Não entende que nossos destinos estavam ligados desde o princípio? Mesmo eu me apresentando a você como um imortal, fadado à mesma maldição da imortalidade e fome insaciável, mesmo lhe revelando minhas fraquezas e medos mais íntimos, vai ignorar tudo o que compartilhamos e me ver apenas como um deus? Um ser superior a quem deve apenas adoração e obediência?
— Você não entende... — Shaka baixou a cabeça agoniado — Mu, eu o trago em meu coração, minha vontade, meus pensamentos, por mais de dois mil anos... Fui abraçado propositalmente para ser o seu porta-voz na Terra, o arauto de Seth, líder dos Seguidores... Eu... existi por mais de dois milênios apenas por você. Estudei, viajei o mundo o todo, de Leste a Oeste, Norte a Sul, para procura-lo e no fim... Quem me encontrou foi você.
O Nut podia sentir todo o conflito que se desenhava no interior do amado.
Por mais que não entendesse os sentimentos que mergulhavam o sacerdote naquele mar de angústias, já que era um deus e não o devoto de um, Mu apenas podia partilhar de sua confusão, e esforçar-se para tentar compreende-la.
— Eu fui um instrumento da sua vontade. — Shaka continuou, agora novamente buscando os olhos verdes do vampiro com os seus — Nada poderia me por mais realizado, mas... eu... eu não sei mais como prosseguir, eu... tenho deveres para com meu clã e eu... Por tudo que é mais sagrado, eu o amo, Mu! Eu o amo tanto, e de forma tão errada que sou incapaz de sentir o júbilo dessa descoberta. Eu estou com medo! Eu não sei como vai ser... agora que...
— Agora o que, Shaka? — percebendo o descontrole e desespero do amado, Mu cuidadosamente o abraçou, tomando cuidado para não feri-lo ainda mais — Não percebe que agora a única coisa que irá mudar é a forma como você e todo o clã Setita interpretam as profecias?
— Mu...
— Eu não sou a divindade que vocês imaginaram, mas eu sou o verdadeiro Seth! Um deus em meu tempo, uma lenda no seu. Nada realmente mudou, pois eu cumprirei as profecias de seu clã da mesma forma, como prometi perante o Conselho que faria. Eu protegerei os Seguidores, e eu... protegerei você. Não deve temer a nada. Eu estou aqui! Finalmente sua busca terminou, meu sumo sacerdote! Nunca mais estará sozinho.
Shaka rendeu-se aos poucos aquele abraço, buscando o conforto e a plenitude que somente junto a Mu conseguira encontrar.
Fechou os olhos encostando seu rosto na gélida face do Nut, porém ainda usando de todo seu controle emocional para não cair em prantos.
— Eu nada temo, pois sempre esteve comigo... Em meus pensamentos, em meu coração... Minha solidão... milenar... só não me fora mais insuportável porque você sempre esteve comigo, porém de outra forma, como meu deus, meu propósito, minha missão. O amor que sentia por você era totalmente diferente... Era disciplinado, puro, era... divino!... Agora... ele me trouxe o caos.
— Existe ordem no caos, meu amado. — Seth sussurrou ao ouvido do sacerdote — Não há coincidências nas obras do destino. Tudo já estava traçado. Mesmo a extinção de meu clã. Contudo, ainda quero descobrir o que me separou de minha família. Por que dormi por dois milênios a mais do que deveria? E também tentar compreender em que momento da passagem das eras a história de minha linhagem foi deturpada e as informações se confundiram. Talvez eu não consiga elucidar nenhum desses mistérios, mas uma coisa eu tenho como certa e irrevogável. — o Nut segurou firme no rosto do Setita com uma das mãos o fazendo olhar fixo em seus olhos — Você é meu, Shaka. Eu o quero! Me entreguei a você por minha vontade e não me arrependo. Mesmo agora, eu faria novamente. Saiba que se não me entreguei antes a você foi apenas por desconhecer a possibilidade, e principalmente por medo de perdê-lo! Para mim é ainda muito difícil separar o desejo sexual da fome. Também não me revelei antes simplesmente por não saber como faze-lo. Temia decepcioná-lo, uma vez que sua fé era tão grande e tão certa que me tocou profundamente.
— Ela ainda é, Mu. Ou... penso que seja, mas não da mesma forma. — respondeu quase num chiado — Eu estou tão confuso...
— Shaka...
— Tanto que eu lutei... nesses mais de dois mil anos, para me manter existindo nesse mundo quando minha vontade sempre foi deixar de existir... — os ferimentos em suas pernas por vezes o fazia fraquejar e dobrar os joelhos, mas nessas horas Mu o sustentava, aflito com sua condição, porém atento a cada palavra, sedento por entender o que se passava na cabeça do sacerdote —... Mas, além de minha missão para com os Seguidores, a única promessa que me manteve firme até hoje era a certeza de que iria de encontra-lo... — baixou novamente o olhar, entristecido —... Porém, eu acreditava que com o seu retorno iriamos juntos fortalecer nosso clã, você passaria a comandar os Seguidores e... e não que o amaria como um...
— Como um imortal ama outro, Shaka. Não pode se culpar pelo que não pode controlar. Nada mudou. Mesmo sendo Seth, para você, meu amado, eu serei sempre Mu, o Nut que lhe entregou o coração, o corpo e a alma. O seu companheiro.
— Eu o amo tanto, Mu... — voltou a encarar os olhos verdes, enquanto lentamente aproximava seus lábios dos lábios do Nut.
Ficou alguns segundos parado a milímetros de tocar a boca do amado, vacilante, confuso, então a voz confortante de Mu abraçou novamente seus pensamentos.
“Vamos reescrever a História juntos, Shaka. Criar nossas próprias lendas e mitos. Vamos mostrar aos Seguidores que seu deus regressou e que escolheu seu sumo sacerdote para partilhar a eternidade consigo. Eu sou Seth, estou aqui, e minha vontade é absoluta. Eu o quero, e como meu sumo sacerdote é seu dever me fazer feliz. Não há sob este céu que nos cobre alguém que possa se impor à minha vontade!”
Mu tomou a boca de Shaka num beijo urgente, porém zeloso, que fora correspondido com ternura e paixão pelo Setita.
“Permita-me cuidar de você, ama-lo e protege-lo. Tem a minha palavra de que tudo ficará bem, meu amado."
***
Camus já havia voltado à sala.
Julgou prudente não ir atrás de Shaka quando este deixou o banheiro às pressas sem nada dizer.
Se conhecia bem o amigo, suas palavras não haviam sido ditas em vão, pois caso Shaka não as considerasse verídicas certamente os dois ainda estariam discutindo.
Todavia, mesmo que tenha deixado mais leve o fardo que o Setita carregava, se antes temia apenas que Mu matasse Shaka num rompante de descontrole, agora também temia pela segurança dos dois, afinal era mais do que óbvio que os ataques a Shaka e os Seguidores de Seth estavam cada vez mais frequentes e violentos.
Esperando que o sacerdote retornasse para lhe dar mais alguma pista acerca do vampiro que o atacara, Camus sentou-se em uma das luxuosas poltronas de veludo vermelho no aguardo.
Enquanto esperava, sentiu ao longe o cheiro delicioso e instigante de Afrodite que regressava para seu quarto. De imediato a lembrança do beijo, do corpo quente e vivo do músico lhe saltou à mente o pondo perdido em devaneios confusos.
Não deveria, e não poderia, desejar o servo do amigo. Isso era uma falta grave.
Tenso, esfregou a testa com a ponta dos dedos, como se tentasse afastar qualquer pensamento que não fosse dentro do contexto pelo qual viajara quilômetros para a Inglaterra, e deu graças aos gênios da Física por logo Shaka e Mu adentrarem o recinto, pois assim poderia direcionar sua concentração a eles e tentar abater a lembrança de Afrodite.
— Eu tentei leva-lo para o quarto. Ele precisa repousar, mas insistiu em relatar a você o ataque do demônio canibal. — disse Mu, que trazia amparado pelos ombros o sacerdote Setita.
Camus levantou-se num sobressalto.
Era a nítida a dificuldade que o sacerdote enfrentava para caminhar, então apressou-se em apanhar algumas almofadas e ajeita-las no sofá de couro para que ele se sentasse com o máximo de conforto.
— Eu imaginei. São séculos de convivência. — disse o Cesarem esboçando um sorriso — Venha, sente ele aqui.
Juntos ajeitaram Shaka num amontoado de almofadas.
Enquanto Mu ajeitava-se ao lado do amado, Camus puxava uma poltrona para ficar mais próximo a eles. A posicionou em frente ao Setita para que ele não precisasse esforçar-se tanto ao falar.
— Eu estou... bem. Obrigado. — disse o sacerdote gentilmente — E eu também sabia que... você não sairia daqui antes de... saber de tudo.
— Sim, mas se non se sente bem para conversarmos agora, podemos deixar os relatos para amanhã. Non quero que se esforce em demasia.
— Já disse que estou bem... É somente o veneno que ainda drena minhas forças e impede as feridas de se fecharem... mas, logo estarei completamente recuperado. — respondeu Shaka, que apesar da voz fraca tinha uma Presença tão ou mais forte quanto a de um vampiro em pleno gozo de seus poderes.
— O veneno Assamita é algo ainda fora de nossa compreensão. De fato é seu grande trunfo contra todos os outros clãs, mas... Convenhamos que um Assamita nessa região é algo bem inusitado. Non acha? — disse o francês arqueando uma das sobrancelhas.
— Exato. — Shaka estreitou os olhos, encarando as íris avermelhadas do Cesarem — Eles não costumam subir o continente. Só saem do Oriente Médio... caso... caso tenham algum propósito ou... serviço sujo encomendado.
— Exatamente! — Camus estalou os dedos de uma das mãos — Quem quer que seja que está atrás de você, Shaka, seguramente já se deu conta de que non irá conseguir captura-lo ou abatê-lo sozinho.
— E se aliou a essa... corja. — completou o sacerdote num rosnado.
— Non. Assamitas non fazem alianças. Assamitas são mercenários.
Mu, que apenas ouvia, esboçou uma carranca de nojo enquanto olhava para o tapete persa que havia no centro da sala com os olhos arregalados como se revivesse, cena a cena, o ataque cruel e violento daquele vampiro soturno.
— Eu... nunca havia presenciado algo tão grotesco. — disse, por fim, o Nut, em seguida ergueu a cabeça e mirou os olhos de Camus — Em minha época não existiam esses... canibais. — disse com o mesmo semblante enojado e em seguida segurou na mão de Shaka fazendo uma carícia.
O cuidado com que Mu lidava com o sacerdote não passou despercebido aos olhos atentos de Camus, que ainda tentou disfarçar pigarreando e desviando o olhar para as próprias mãos, cruzadas sobre os joelhos.
Não podia compreender por que subitamente um gesto de carinho como aquele de repente lhe chamara tanto a atenção, e foi quando menos esperava que seus pensamentos novamente lhe traíram, buscando a lembrança do jovem músico que servia a Shaka.
“O cheiro!” — pensou sentindo o odor de Afrodite pairar pela residência, ainda que sutil — “Nem em todos os meus catálogos que classificam os feromônios mais raros existe um odor como o dele!... É único!”
Súbito, Shaka, que mantinha os olhos semicerrados e cravados nas mãos de Mu sobre as suas, ergueu o rosto num sobressalto encarando a face de Camus.
Parecia ter tomado um susto!
O francês, em contrapartida, não olhava para si. Ao em vez disso, parecia também mirar nas mãos do Nut, o que fez Shaka franzir as sobrancelhas, consternado.
Podia jurar que Camus havia falado consigo. Ouvira claramente sua voz, mas ali, olhando para ele, pensou ter delirado, já que o francês parecia permanecer calado.
Então novamente a voz de Camus fora ouvida.
“O que eu non daria para senti-lo apenas uma vez mais, Afrodite! Ah... os lábios mais doces que os meus já tocaram.”
— Como disse? — a voz grave do sacerdote, modificada por seu estado de espanto, interrompeu os pensamentos do Cesarem, que imediatamente ao ouvi-la ergueu os olhos encontrando os de Shaka cravados em si.
— Pardon? — perguntou Camus calmamente.
— O que foi que você disse? Você?... — remexeu-se entre as almofadas, transtornado e confuso.
— Eu non disse nada, Shaka!
— Sim você disse!
— Non. — insistia o francês.
“Hum... ele está me olhando com um semblante perturbado. Conheço essa cara, seu velhaco! Será que já sentiu o cheiro de Afrodite em mim? Possessivo como é, imagina se souber que dormi com o menino.” — mais um pensamento, e dessa vez Shaka calou-se, pois ouvia a voz de Camus, porém nenhuma palavra saia de sua boca.
Estava lendo seus pensamentos.
Um poder até então que não fazia parte de seus dons das trevas, e do qual ele não tinha nenhum controle.
— Você dormiu com meu servo? Como você ousou, seu patife? — rosnou de repente Shaka, levantando-se do sofá de supetão e pegando tanto Camus quanto Mu de surpresa, esse ainda mais, pois estava totalmente fora do contexto do que discutiam segundos antes.
— Shaka! — o Nut se levantou assustado.
Assim também fez Camus, que saltou da poltrona alarmado.
“Je ne peux pas croire! Comment peut-il savoir qui...” (Eu não posso acreditar! Como ele pode saber que...) — o Cesarem tentou abortar o próprio pensamento, já desconfiado do que acontecia.
Suas suspeitas se confirmaram quando Mu, ao observar os rostos exaltados de ambos, e dada a mudança repentina e drástica no rumo da conversa, segurou nos ombros de Shaka e tentou acalma-lo, o convencendo a voltar a se sentar.
O Nut já podia imaginar o que estava acontecendo ali.
— Shaka, olhe para mim! Olhe para mim! — pedia com cautela — Não pode se exaltar dessa maneira. Está muito debilitado. Sente-se, vamos! Volte a se sentar. Você também, Camus, por favor. Volte a se sentar.
— Hum... o veneno Assamita deve ter afetado os miolos dele também, non? — dissimulou o francês acatando a ordem do Nut, voltando a se sentar enquanto resmungava algumas palavras inaudíveis.
— Meus miolos estão intactos, senhor Camus dos Cesarem! Já os seus... Se ousou mesmo...
— Shaka! Já basta! — Mu o interrompeu, pousando a mão em seu rosto e o fazendo olhar em seus olhos verdes.
“Ouça, meu amado. Você deve estar lendo a mente e os pensamentos de Camus.” — disse o Nut, diretamente à mente do sacerdote que surpreso arregalou os olhos — “Esse é um dom concedido aos membros do meu clã, e que você deve ter assimilado quando bebeu o meu sangue.”
Shaka recostou as costas nas almofadas e por alguns segundos desviou os olhos, agora azuis novamente, do rosto de Mu para observar, atônito, a face apreensiva de Camus. Então a voz de Mu novamente o fez focar as íris verdes do amado.
“Não se assuste. Essa é só mais uma dádiva da qual terá que aprender a dominar. Eu te peço, portanto, que tenha calma e que não se exalte com seu amigo, pois os pensamentos de uma pessoa, imortal ou gado, lhes são seu mais secreto tesouro, e não devemos rouba-lo. Esse é um dom Nut que deve ser usado apenas em casos de extrema necessidade, justamente para evitar esse tipo de reação, como a que teve agora, uma vez que todos estamos sujeitos a pensamentos inapropriados, errôneos e até mesmo incoerentes. Não possuímos controle de nossa mente, e se Camus não se pronunciou, seja lá sobre o que for que ele tenha pensado que te deixou tão alterado, é porque seus pensamentos passaram por seu filtro moral e ele julgou inapropriado verbaliza-los. A leitura da mente de modo invasivo pode transformar bons amigos em inimigos, apenas pela faceta caótica do pensamento humano. Não se permita levar por esse caminho. Por favor acalme-se, meu companheiro. Eu lhe ensinarei a controlar o dom da telepatia assim que estiver melhor. Por enquanto, concentre-se e mantenha o foco no que estávamos discutindo.”
Mu acalmava Shaka emanando suas próprias boas emoções.
Ele mesmo não lia a mente de Camus, pois após milênios sabia muito bem que tipo de confusão seus talentos causavam em suas interações sociais.
Shaka por sua vez, voltava a olhar para o francês, confuso e irritado.
— Sacre Bleu, Shaka! Non se exalte dessa maneira. — o ruivo tentou apaziguar os ânimos exaltados.
O sacerdote se colocava resignado a tentar bloquear tudo aquilo que ouvia, mas não poupou o amigo de um aviso.
— Fique longe do meu servo, Camus. Tem permissão para se alimentar de seu sangue somente quando eu a conceder.
— E por que eu iria querer lhe tomar o músico, Shaka? Eu tenho meus próprios servos, seu Setita turrão. — sorriu de canto de boca, pois realmente Shaka era um vampiro dos mais invocados, e de fato ele desejava tomar Afrodite do sacerdote, porém jamais o faria, tampouco confessaria — Eu creio que você está demasiadamente cansado. Podemos deixar a conversa sobre o ataque Assamita, seu autor e o possível mandante para outra ocasião.
— Sim, eu acho mesmo mais prudente. — afirmou Mu, mas de pronto o sacerdote contestou a ambos.
— Não. Já disse que estou bem, e não serei mais pego de surpresa por... por eventuais devaneios aquém do contexto discutido aqui. — encarou Camus ao dizer tais palavras — Eu tenho pressa! Meu clã corre iminente perigo... Me lembro bem da fisionomia do caçador que me atacou, e Mu também o viu. Será que poderia fazer um retrato falado?
O Nut pensou por alguns segundos recordando-se da face do Assamita, então assentiu positivamente com a cabeça.
— Sim, um momento. — disse, então se levantou e caminhou até uma escrivaninha na extremidade oposta do cômodo de onde voltou portando um calhamaço de folhas em branco e uma mina de carvão.
— Isso será de muita serventia, Seth... Mu... é bem... — Camus pigarreou, deixando o Nut momentaneamente constrangido —... Eu possuo alguns contatos que poderão me dar informações precisas acerca do Assamita que os atacou e, através dele, de sua identidade, talvez descobrir quem foi o mandante! Decerto que esse não foi um ataque rotineiro.
Mu então acenou positivamente para o francês e fez uma caricia na mão de Shaka, que ouvia a tudo com atenção, agora menos disperso.
Shaka o tempo todo tentava controlar o dom das trevas que lhe permitia ler mentes, se pondo concentrado, observando Mu riscar no papel os contornos iniciais do rosto do assassino, mas era uma tarefa nada fácil para si, e vez ou outra os pensamentos de Camus lhe invadiam novamente a mente de forma involuntária.
“Pobre Shaka. Está tão alterado! Talvez eu possa fazer uma fórmula que acelere o processo de cicatrização... Ou não... Camus como você é descrente! Shaka tem um deus particular para curá-lo... Camus você non presta! Bem que estranhei quando Mu aceitou tão facilmente ser o companheiro desse Setita turrão. Foi a vontade de deus! Espertinho esse Seth!”
O pensamento fora interrompido de supetão, pois Camus havia caído da poltrona que do nada virara para trás fazendo o ruivo soltar um grito de espanto por ter sido pego de surpresa.
— Eeei! Merde!
— Mas o que? — Mu ergueu a cabeça de supetão, surpreendido por aquela cena que já imaginava ser obra do sacerdote fazendo uso de mais um de seus dons adquiridos na troca sanguínea consigo, o da telecinese.
— Oh, Camus... sinto muito! — disse Shaka encostando a cabeça nas almofadas enquanto ria satisfeito — Eu deveria tê-lo alertado acerca dessa poltrona velha. Ela está com defeito. De vez em quando acontece isso... Ela do nada vira do avesso.
— Hum... defeito bem peculiar, non? — rosnou o Cesarem se pondo de pé para endireitar o móvel.
— Decerto. Preciso manda-la ao tapeceiro!... Se eu estivesse gozando de minha melhor forma e não tão debilitado como estou o ajudaria a se levantar.
— Non se incomode, sumo sacerdote. — lançou um olhar frio ao amigo pondo-se novamente sentado.
Mu então olhou para Shaka notando um risinho preso no canto de seus lábios. Balançou a cabeça negativamente, ele mesmo não resistindo a rir da situação, então apressou-se a terminar o retrato antes que mais algum contratempo entre aqueles dois acontecesse.
— Pronto. Desculpem a demora... — disse entregando a folha rabiscada com o desenho para o Cesarem, que a apanhou de pronto.
— Ah, sim! Agradeço, Mu. Será de grande valia. — disse, e logo em seguida direcionou seu olhar para Shaka estreitando as pálpebras num gesto desafiador — O líder de meu clã, Degel, é um estudioso do clã de assassinos. Se esse vampiro era um caçador profissional, certamente ele o reconhecerá. Degel dissecou vários Assamitas e descobriu muito sobre sua fisiologia e suas memórias contidas nas amostras de sangue, claro, depois de inocularmos o veneno. Conseguimos descobrir muito sobre as marcas tribais de identificação também e... Ora, veja só! Vejo que você as desenhou no retrato.
— Sim. Ele as tinha na fronte e também no pescoço. — afirmou Mu.
— Hum, fascinante! — súbito, o francês ficou ainda mais sério — Pelas cicatrizes aqui, no rosto... e dada a cimitarra... pode ser um dos mercenários que trabalham pessoalmente para El Cid!
— El Cid? — Shaka proferiu em alto tom.
— Ele mesmo. Essas marcas tribais são de seu alto escalão de assassinos.
— El Cid, o Assamita que organizou os ataques aos Tremere e Toreadores séculos atrás, dizimando os mais influentes de seus membros?... Mas... El Cid não tinha sido condenado à morte por ter assassinado o antigo presidente do Conselho há muitos anos?
— Sim... Mas, ele “desapareceu” no dia de execução de sua pena. — balançou a cabeça negativamente — Agora El Cid é uma lenda. Nada é certo, mas Degel suspeita que ele seja o novo líder Assamita. Nunca ninguém encontrou seu paradeiro, e hoje há uma recompensa altíssima por quem entregar sua cabeça ao Conselho. Está vendo essas linhas em paralelo abaixo dos olhos? E os pontos na testa? — apontou para o papel e olhou para o Nut, que acompanhava atento o debate.
— Sim, lembro-me bem deles. — disse Mu.
— São as marcas que levam os assassinos treinados pessoalmente por El Cid. São como um grupo de elite. Contratados para matar ou capturar homens ou imortais de grande potencial e poder... Você, no caso, meu caro. — apontou para Shaka no sofá — Quem quer que tenha contratado esse assassino, obrigatoriamente o fez por intermédio de El Cid, e este enviou seu melhor caçador. Só não contavam que a presa da vez tivesse proteção divina!
— E terá sempre! — Mu retrucou em tom sério — Shaka é meu sumo sacerdote, meu companheiro, meu escolhido e líder de meu clã no Novo Mundo. Na tradição Nut, nós cuidamos dos nossos. Presamos pela família e protegemos tudo que nos é caro. Não se mantem um império por milênios sem dedicação e comprometimento com os seus. Eu posso não ter mais meu cargo como soberano, e meu título de poder pode ter sido confundido, mas ainda sou Seth, o vampiro mais poderoso dessa Era. Por isso, se vir que Shaka ou os Seguidores correm perigo iminente, não pensarei duas vezes em tornar minha a guerra deles.
— Estou ciente disso, Nut. — respondeu Camus — E se existem mesmo divindades que podem alterar o destino dos homens e dos imortais, torço para que elas ajam antes de isso acontecer.
— Camus... — continuou Mu —... Faça suas investigações, eu farei as minhas. Agora que meu amado já sabe a verdade sobre minha identidade, não preciso esperar mais. Investigarei o Conselho, descobrirei seu verdadeiro propósito e protegerei os meus.
— É bom ficar atento mesmo. Não há Assamitas na Europa, mas é certo que Shaka está sendo caçado, então acredito que possíveis encontros, desagradáveis como esse que tiveram, possam voltar a acontecer mesmo aqui. — disse Camus, enquanto ajeitava-se na poltrona, preocupado com o que via.
Mu parecia mudado.
Sua postura, mesmo enquanto rabiscava o papel, era forte, ereta, altiva e majestosa.
Temeu que o Nut pudesse desequilibrar a já tão frágil base da sociedade vampírica vigente.
— Não se preocupe, Cesarem. — o Nut falou sorrindo, pois sentia a inquietude vinda do ruivo — Apesar de minhas habilidades, ainda desconhecidas a vocês, lhe asseguro de que não possuo onisciência nem onipresença! Sei que não posso combater a todos, nem declarar guerra a ninguém. Além disso, desde minha época a união sempre fez a força. Não pretendo desafiar ninguém sozinho, por enquanto.
— Eu temo por vocês três, apenas isso. — o ato falho de Camus incluía Afrodite. Temia inclusive pela vida do músico. Tanto por ser o elo mais fraco caso uma guerra estourasse de repente, quanto por ter de viver ali, sob o mesmo teto de um vampiro amaldiçoado pelo Consumo Conspícuo — Non quero que nada de mal aconteça ao meu amigo e ao companheiro dele.
— Deveria ser menos... cético, Camus, meu amigo... — disse Shaka, voltando a se encostar nas almofadas — Nem diante de deus você crê em seu potencial e sabedoria? Que prova mais sua Ciência pode querer? Um dia... a fé será sua última esperança... Perceberá isso quando tiver na iminência de perder algo que lhe é caro, e que sua Ciência não será capaz de lhe dar de volta.
Camus olhou para o sacerdote com um sorriso no rosto, depois novamente para Mu com o mesmo sorriso.
— Eu non acredito em deuses, Seth! — falou encarando os olhos verdes que agora o miravam com atenção — O que vejo diante de mim é um vampiro ancestral, um super vampiro! Um ser incrível, poderosíssimo e admirável, mas nada além disso.
Nessa hora Shaka se remexeu no sofá soltando uma bufada de ar.
Talvez se tivesse forças daria um safanão naquele francês teimoso, mas tudo que fez foi revirar os olhos e cruzar os braços, para divertimento de Camus que sorriu ainda mais.
— Que fique claro, porém, que eu o respeito por isso, pelo seu poder, sua história e sua ancestralidade... O que non me isenta, no entanto, de temer por você também, Mu. Deve manter sua identidade em segredo por mais um tempo.
— Sim... Quanto a isso eu sou obrigado a concordar com esse herege, Mu. — pontuou Shaka — O vampiro que está atrás de mim certamente me quer para regredir suas gerações através do consumo do meu sangue... Portanto, se souber que há um vampiro muito mais poderoso que eu... um deus... ele fará de tudo para conseguir captura-lo.
Mu sorriu.
— Não é tão fácil assim me capturar. — o Nut sentia verdade nos sentimentos de Camus. Ele de fato estava muito preocupado com os dois. — Entendo sua preocupação. Nós ficaremos bem! Se nos permite, Camus, tivemos uma noite agitada... Shaka precisa repousar para que seus ferimentos cicatrizem.
— Ah, oui! Trés bien! Vocês precisam se recuperar o quanto antes! Ainda mais agora. É preciso que estejam sempre em melhor forma e em alerta. Quanto a ti, Mu. Aos olhos do Novo Mundo ainda é uma criança. Todo esse poder pode não lhe valer de nada contra a corrupção e malicia que existe entre nós, meu caro. Mas, sei que tem o melhor mestre de todos quando o assunto é malícia. — encarou o sacerdote uma vez mais — Mu é um espécime raríssimo em nosso Tempo, Shaka. Zele por ele. Desejo que non seja corrompido pela nossa existência degradada... Deus ou non, só o fato de estar aqui, nessa Era, muda muita coisa entre todos nós.
— Eu sei disso, meu amigo. Obrigado por tudo. — o sacerdote respondeu com sincera gratidão, apesar dos contratempos que houveram durante a conversa — Sabe que pode ficar aqui o tempo que quiser, Camus. É sempre bem vindo em minha casa, mas... a partir de agora, Afrodite só irá lhe alimentar quando eu o ordenar. Não quebre as regras, seu francês abusado. A biblioteca está aberta a você pelo tempo que desejar. Sei que vai devorar os meus livros o resto da noite... E espero que devore somente os livros!... Detestaria ter que abrir uma ação contra você no Conselho por querer me roubar o humano. Ele é meu, não se esqueça disso.
— Humpf... Que absurdo! Non sei de onde tirou esse despropósito! É o veneno Assamita te fazendo delirar. — Camus levantou da poltrona abotoando o casaco de couro que vestia. Uma maneira que encontrou de evitar olhar nos olhos do Setita, já que estava mentindo, mas negaria a verdade até a si mesmo.
Shaka riu do desajeito do Cesarem.
Teria que se acostumar a não se importar com tudo que iria ouvir daqui para frente.
Camus, antes de ser um cientista, alquimista, curioso e imortal, era apenas um homem, e nada mais natural ter sua intimidade consigo mesmo, seu pensamentos mais secretos. Além do mais, ele era de fato um bom amigo, o melhor, por se dizer.
Mu ajudou o sumo sacerdote a se levantar do sofá e passando o braço em torno de sua cintura o auxiliou a caminhar, a passos bem lentos, até o corredor, onde seguiram sem pressa para o porão.
Na sala, Camus ainda refletiu por longos minutos sobre tudo que havia acontecido naquela noite.
Muitas coisas passaram pela mente lógica do Cesarem, e depois de muito pensar o ruivo seguiu para a biblioteca onde passaria o resto da noite entre os livros.
***
No porão, enquanto Shaka aguardava sentado sobre um divã, Mu ajeitava os lençóis negros do enorme leito que dividiam ali já há alguns dias.
Perdido em seus pensamentos, o Setita observava o Nut, calado.
Era a primeira noite que dormiria ao lado de Mu sabendo que ele não era apenas um vampiro antigo, mas era o deus que tanto procurara por milênios.
Nada mudara e tudo mudara!
No entanto, estava cansado demais para pensar se o que estava fazendo era herético ou não.
Tudo que queria era sua cama e os braços de seu amado Nut.
Mu caminhou até ele e o pegando no colo o levou até a cama.
— Eu vou despi-lo. — pediu em tom delicado — Preciso ver como estão os ferimentos para poder curá-los.
Pela primeira vez Shaka sentia-se levemente envergonhado, mas não impediu Mu de lhe levantar a túnica gentilmente até retirá-la por completo, o deixando nu.
Como em um minucioso ritual, o Nut começou a tocar o corpo do sacerdote com toques leves e sutis, analisando cada pequeno arranhão, corte, laceração ou hematoma com muito cuidado e atenção.
Olhar para o corpo do seu amado marcado daquela forma tão violenta feria sua alma, e foi com extremo pesar que Mu mordeu os próprios lábios fazendo o sangue escuro brotar imediatamente e tingir sua boca, então começou a beijar cada ferida com devoção, uma a uma.
O sangue ancestral e poderoso de Seth combatia o terrível veneno Assamita, impedindo que ele se alastrasse totalmente pelo organismo de Shaka.
Aos poucos, Seth vencia a batalha contra aquela maldição, gota a gota.
No entanto, enquanto curava Shaka, Mu divagava nas emoções e sensações recém descobertas.
Beijava as coxas feridas, apalpando com suavidade a pele pálida e a carne tenra.
Tocou o abdome muito bem trabalhado primeiro com os lábios, depositando seu sangue na ferida maior do peito onde a cimitarra fora cravada, degustando a textura da pele gelada do sacerdote e se lembrando do êxtase de senti-lo dentro de si.
Mu tinha tanta vontade de se unir a Shaka novamente que chegava a sentir dores pelo corpo.
Aquele calor momentâneo, a perda do auto controle, o prazer sublime, o êxtase, a entrega, o sabor do sangue...
Não!
Não era um canibal como aquela criatura nojenta que quase tirou seu amado de si.
Não gostava de se alimentar de vampiros, mas Shaka...
Shaka era diferente!
Seu desejo carnal pelo sacerdote se misturava e se confundia com a fome implacável da Besta.
Nessas horas desejava devorá-lo! Mastigar sua carne, ou se fundir a ele ao ponto de serem apenas uma só criatura.
Mu ainda teria muito o que aprender. Fome e sexo pelo jeito eram sua maior maldição!
Nem percebeu como havia chegado aquele ponto, mas quando deu por si estava mergulhado nos lábios do sacerdote em um beijo erótico, provocador e cheio de luxúria, enquanto tocava o corpo do loiro de modo atrevido e muito intimo, sendo correspondido com o mesmo entusiasmo!
Shaka, mesmo bem debilitado, sentia o sangue do Nut entrar em seu corpo e revigorar o seu ânimo.
— Ahn... Mu... — gemeu na boca do amado —... Eu me perguntei tantas vezes como alguém como eu, sempre tão frio e ponderado... Uhn... de repente me vi amando alguém que acabei de conhecer...
— Eu me fiz a mesma pergunta muitas vezes, Shaka... — o Nut respondeu deitando-se do lado do Setita e acariciando seu rosto com as pontas dos dedos —... Era para você ser meu... Foi dedicado a mim e tudo aconteceu como tinha que acontecer. Acredite! Eu o desejo tanto!... Nunca me senti assim em milênios de existência. Estou viciado em seu gosto Shaka... Venha. Vamos repousar. — puxou o sacerdote para um abraço confortante — Durante o dia de hoje, enquanto o sol estava a pino, senti muitas dores, mesmo não tendo me queimado... O sol conseguia me afetar minimamente e eu desejei muito estar novamente nessa cama com você. Agora é minha vez de vigiar seu sono, meu sacerdote, como vigiou o meu. Descanse, pois quanto antes se recuperar, mais cedo o terei novamente para mim.
Mu falava olhando nos olhos de Shaka, então estendeu os braços e o encaixou a seu corpo de forma perfeita, enterrando o rosto entre os fios dourados de seus cabelos.
Shaka não demorou a entregar-se ao sono reparador. Embalado, recolhido e guardado pelos braços protetores de Seth.
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