Notas iniciais
Oieee o cap de hoje teve uma participação MAIS DO QUE ESPECIAL. Ivi Canedo foi quem escreveu a " primeira parte" do cap com dois personagens interessantes a qual não vou dar spoiler aqui valeu piranhaaaaaaaaaaaa, lembro que nos salvou na época pq estávamos meio perdidas XD

Ainda era madrugada quando em uma das vielas de Fez, no Marrocos, dentro de uma fábrica de tecidos abandonada, dois imortais conversavam aos sussurros. Não que os ânimos estivessem apaziguados entre ambos, mas porque a discrição se fazia necessária, já que se tratava de um acerto de contas.

— Garantiu-me que seu serviçal seria discreto e sua eficiência garantida! — rosnava trincando os dentes o ex-general alemão Radamanthys — Biltre! A incompetência do seu caçador respingou tão longe que há essa hora todo o Conselho já deve estar a par do ocorrido.

— Falhas ocorrem. — respondeu calmamente o líder do clã de mercenários canibais, El Cid, uma criatura tão hedionda e ominosa quando sua reputação — Todo plano é passível de falhas, especialmente quando informações importantes para seu sucesso são OMITIDAS!

A última palavra fora dita em tom de voz mais grave, enquanto os olhos negros selvagens e faiscantes encaravam o alemão ameaçadoramente.

A Presença forte de El Cid não era algo a ser ignorado, principalmente por um vampiro como Radamanthys que possuía respeito e autoridade, apesar do número de suas gerações possuir ainda dois dígitos, o que o classificava como um vampiro de poder mediano. Não era atoa que estava em uma busca desenfreada por poder.

Diante da presença do Assamita, sentia seu espírito oprimido e sua coragem vacilante. Porém, não esmoreceu.

— As informações que te passei eram suficientes para que o serviço fosse concluído sem falhas. — disse o ex-general nazista franzindo o nariz devido ao odor pútrido que vinha tanto do curtume que havia ao lado da fábrica, quanto do que exalava do corpo pestilento do Assamita.

El Cid enfureceu-se ao ouvir a conclusão do Espectro, e dando um passo à frente, batendo com força a sola da bota marrom no chão embolorado de madeira escura, aproximou-se do loiro já tirando sua cimitarra do cinturão que a mantinha presa ao corpo.

— Você deve saber, melhor do que eu inclusive, que informações precisas são a garantia de sucesso de uma missão, Espectro. O fracasso dessa missão não cairá sobre costas do meu rebento Shura, mas sobre a sua! — rosnou em tom elevado, franzindo os lábios finos para exibir orgulhoso os dentes pontiagudos de tom amarelado — Eu deveria cravar essa lâmina agora mesmo nesse seu peito condenado e lhe beber até a última miserável gota de salmoura que corre em suas veias, mas meu clã tem sua honra, assim como sua odiosa Sociedade tem a sua. E é por ela que eu mesmo irei atrás do maldito sacerdote Setita.

Surpreso, Radamanthys arregalou os olhos açafroados e num impulso enérgico franziu o cenho, o enfrentando.

— Você o que? — inquiriu, perplexo e aflito.

— Eu irei abater Shaka pessoalmente, e também aquele outro imortal misterioso que o acompanha. Ninguém, nem ele, nem você, cuspirão na hora do meu clã e dos meus caçadores. Shura será vingado, a menos que...

Fez uma pausa, pois esperto como era, El Cid jogava, já que sabia o quanto o Espectro da Sombra desejava por as mãos no líder dos Seguidores de Seth.

— Vamos, diga seu preço. — sibilou o alemão, fora de si.

— O dobro do combinado anteriormente e... quero parte do tributo em sangue. — deu seu veredito final.

— *Verfluchter! — gritou, toda a carne de seu corpo tremia em ira — Como ousa, sua escória? Não vou pagar o dobro, e muito menos ceder uma gota sequer do sangue do sacerdote à sua raça imunda! Você tem a OBRIGAÇÃO, veja bem, a OBRIGAÇÃO de terminar o serviço para o qual o contratei pelo preço já acordado e sem macular a minha presa!

A discussão ganhava caminhos perigosos e o ex-general começava a perder o controle de si mesmo.

Em contrapartida, o Assamita apenas o olhava com desprezo. O semblante impassível denunciava sua resignação.

— Muito bem, então essa conferência pode se dar por encerrada. — disse El Cid afastando-se e voltando a guardar a cimitarra no cinturão — Entre você, um vampiro novo de trigésima quarta geração e eu, quem acha que tem maior chance de abater Shaka?

Diante do silêncio do Espectro, El Cid deixou escapar um riso debochado.

— Imaginei. — disse ainda entre risos — Você é astuto e ambicioso, Radamanthys, mas não é um caçador, nem tão poderoso quanto o sacerdote Setita. Eu vou capturar Shaka, e vou comer-lhe até os ossos! Depois vou comer aquela raridade que ele esconde de todos com tanto apresso, e vou fazer com que a culpa recaia em suas costas! — deu uma cusparada no chão embolorado, quase sobre os sapatos muito bem engraxados do ex-general.

— Seu... desgraçado!

— Quem com os porcos se mistura, farelo come, seu nazista de merda! Ou me paga o dobro e divide o poder do sangue do Setita com meu clã, ou o Conselho irá caçar você até os confins da Terra, e não haverá ouro que te proteja!

Antes mesmo que Radamanthys pudesse dizer qualquer coisa que fosse, El Cid desaparecia diante de seus olhos estupefatos, então o alemão não vendo alternativa, bradou em alto e bom tom.

— ESPERE!... Temos um acordo!

Dando dois passos à frente, correu em desespero os olhos por todo o recinto à procura da figura hedionda que simplesmente parecia ter se desmaterializado, e quando checava um vulto por detrás de alguns cilindros de tecido, eis que sentiu sua Presença funesta atrás de si.

Virou-se num sobressalto, dando de cara com o Assamita à centímetros de seu corpo, o qual lhe sorria irônico.

— Eu ouvi dizer que temos um acordo? — disse o caçador.

Radamanthys franziu as grossas sobrancelhas. Detestava ser contrariado ou desafiado, mas como bom estrategista tinha que admitir que precisava daquele vampiro para concluir seus planos, depois daria um jeito nele, já que não pretendia, de forma alguma, dividir o poder de Shaka com quem quer que fosse.

— Exato. Temos um acordo. — confirmou encarando os olhos negros — Só preciso de mais tempo para conseguir levantar o montante que pede.

— Todo o tempo que precisar. Quem tem pressa aqui é você... não eu! — disse, por fim pondo-se a embrenhar-se entre os cilindros de tecido até desaparecer na escuridão.

A mente de Radamanthys agora trabalhava com pressa. Não sabia mais de onde minar renda, já que suas fontes estavam se esgotando.

Só restava recorrer a Hades, o líder do clã dos Espectros das Sombras.

***

Duas noites haviam se passado desde o ataque Assamita sofrido por Shaka e Mu.

O sumo sacerdote já se encontrava praticamente recuperado das chagas peçonhentas causadas pelo feroz caçador. A ligeireza de seu restabelecimento se dera graças à dedicação e amor de Mu, que todas as noites cedia uma quantia abundante de seu sangue ao amado para agilizar a cura.

Para isso o Nut precisou caçar intensivamente por duas noites seguidas, deixando um rastro de morte por toda a zona periférica londrina, mas que, devido ao zelo de Shaka, era prontamente acobertado pelos membros de seu clã, os quais sob suas ordens iam limpar os restos das chacinas sem fazer perguntas, assim o Conselho não seria notificado, e nem o frágil equilibro que a Máscara garantia à Sociedade vampírica ameaçado.

Nessas duas noites, entre caçar e curar seu sumo sacerdote e companheiro, Mu se dedicou ao estudo da atual Sociedade. Aprendeu o que pode sobre os diversos clãs do Novo Mundo, seus dons das trevas, suas gerações, filiações e também convenções.

Foi com assombro, e uma pitada de irreverência, que soube que no Novo Mundo atribuíam a si o parentesco com um tal de Malkav, o progenitor do clã dos Malkavianos, e o qual seria seu irmão juntamente com Saulot.

Riu divertido, pois tivera dois irmãos sim, mas eles eram Shion e Yuzuriha, ou simplesmente Osíris e Bastet.

Soube também que há clãs amaldiçoados como os Nosferatus, condenados a viver à margem da Sociedade devido suas escolhas e crenças, e também os Assamitas. Esse último ele teve a infelicidade de conhecer pessoalmente.

Nenhuma história, porém, lhe fora mais revoltante e indigesta que a do próprio clã que escolhera como família no Novo Mundo, os Seguidores de Seth, pois nela toda sua própria história fora completamente distorcida.

Em prol de quem? Com que propósito?

Tinha a sensação de que jamais iria descobrir.

Mesmo diante de todo seu empenho e inteligência incomum, era informação demais a ser assimilada em tão pouco tempo. Sabia que ainda tinha um longo caminho pela frente, mas já conseguia compreender melhor como se comportavam os imortais da nova Era.

Na terceira noite pós o ataque os estudos de Mu tiveram que ser deixados de lado, pois Shaka, já se sentindo forte o bastante, convocou uma reunião em sua mansão com os quatro sacerdotes principais de seu clã e alguns dos membros mais influentes.

Nela iria relatar o ataque que sofrera, e também o nome do agressor, Shura.

Camus havia lhe telefonado horas antes dando a alcunha do caçador, o qual confirmara-se que pertencia ao alto escalão treinado pessoalmente pelo foragido El Cid.

Shaka deveria alertar aos demais Seguidores de Seth, pois nenhum Setita estava seguro agora que os Assamitas os estavam caçando também, além dos Espectros.

Toda essa informação, e muitos outros detalhes, seriam debatidos, mas de longe era isso que estava deixando o sumo sacerdote ansioso para a chegada dos convocados, já que ele sabia que deveria apresentar Mu, ou melhor, Seth, a seu clã.

No quarto de Shaka, enquanto o companheiro terminava de vestir os adornos ritualísticos, Mu brincava com os dois belos felinos do sacerdote que rodeavam suas pernas fazendo gracejos.

Sentado na beirada da grande cama que ficava ao centro do aposento, o Nut olhava embevecido para o vampiro que agora, todo adornado em ouro, apanhava de cima da penteadeira o pote de bronze onde guardava a tinta azul que usava para manchar a fronte e dedos das mãos.

“Agora não mais precisará tingir sua pele com essa tinta.” — disse Mu, diretamente à mente de Shaka, e quando o sacerdote virou-se de frente para si lhe presenteou com um sorriso doce e afeiçoado.

“Tem razão.” — respondeu o loiro lhe sorrindo de volta, então olhou para o objeto em suas mãos verificando que até as pontas de seus dedos tinham ganhado o tom azulado depois da troca sanguínea — “Ainda não me habituei totalmente a essa regressão de gerações. Sinto-me muito mais forte, mas... em contrapartida, se quiser me misturar ao gado terei de aprender a controlar esse poder todo para me parecer com ele, ou precisarei usar pintura, porém da cor da pele deles.” — devolveu o pote de bronze ao lugar.

“Não vai precisar de pintura. Logo vai conseguir controlar. É apenas uma questão de tempo.” — disse o Nut, então se levantou da cama e caminhando até a penteadeira apanhou outro pote, agora de prata, onde havia tinta vermelha. Mergulhou o dedo indicador na tinta e o levou à fronte do Setita, imprimindo uma pequena marca entre as sobrancelhas — “Gosto assim. Está lindo! Simplesmente adoro vê-lo com suas vestes sacerdotais, sabia?”

Shaka esboçou um sorriso.

Para ele ainda era um pouco estranho o que estava vivendo com Seth, mas antes de enxergar o deus do Caos ali, ele apenas via Mu, o Nut solitário, melancólico, de uma beleza perturbadora, e que ele mesmo trouxera ao mundo talvez não por acaso.

— Me alegra que seja do seu agrado, Mu. Apesar de que... — baixou o olhar para vislumbrar as próprias mãos adornadas em anéis e braceletes cheios de simbologia —... São vestes cerimoniais que os papiros diziam ser as usadas pelos sacerdotes de Seth, mas... como os papiros estão errados...

Percebendo sua melancolia, Mu se aproximou e sussurrou a seu ouvido:

— Nisso os papiros não se enganaram. São exatamente do agrado de Seth, sumo sacerdote. — acariciou o rosto pálido de extremidades ligeiramente azuladas e lhe deu um beijo carinhoso nos lábios finos — Comigo aqui, na sua frente, olhando para você, o que importa o que dizem os papiros? Hum?

Mu mordiscou o lóbulo da orelha de Shaka, em seguida traçou um caminho de beijos pelo pescoço frio até o peito coberto por um largo e ostensivo colar egípcio de ouro.

“Hum... Acho que não gosto tanto assim dessas vestes cheias de adornos. Elas não me deixam sentir sua pele.” — disse sorrindo, agora encarando os olhos azuis lascivos do outro — “Se não fosse essa reunião, minha vontade era de despi-lo de todo esse ouro e deitá-lo nessa cama completamente nu.”

Colando seu corpo ao do Nut num rompante voluptuoso de desejo, Shaka respondeu à provocação tomando os lábios do amado num beijo intenso e caloroso, mas que fora impiedosamente interrompido segundos depois por dois toques breves na porta.

— O que é? — bradou a contra gosto o Setita, enquanto segurava com força na cintura do Nut a fim de manter o contato entre seus corpos.

— Meu senhor, os sacerdotes e os membros do clã já chegaram. Estão na sala o aguardando.

A voz suave de Afrodite por trás da madeira espessa soava tensa.

O músico nunca gostara daquelas reuniões, pois raras eram as vezes em que não era obrigado a passar a noite acordado tocando piano para entreter os filhos da noite e alimentando sua fome voraz.

Sem tirar os olhos de Mu, e ainda acariciando seus lábios com a ponta dos dedos, Shaka respondeu em tom firme:

— Diga-lhes que já estou a caminho, Afrodite. Sente-se ao piano e toque uma bela canção de boas vindas.

— Sim, meu senhor.

A voz soou baixa e abafada pela porta, e depois de um breve silêncio o sacerdote encostou seus lábios aos de Mu novamente, agora os saboreando num beijo suave.

— Sempre estive preparado para o dia em que anunciaria a volta de nosso deus a eles... — disse o Setita, ligeiramente nervoso —... Agora que esse dia chegou simplesmente não sei como fazê-lo.

Mu sorriu para ele, então roubou um último beijo antes de se afastar e seguir para a porta de saída.

— Coragem, meu sumo sacerdote, e ousadia. Sem elas nada se conquista, nada se transforma. Você vai saber como fazer. Eu vou tomar meu banho.

Shaka teve uma ínfima centelha de tempo para estudar o rosto do Nut antes de ele deixar o quarto. Mu sorria, e seu semblante nunca lhe parecera tão travesso quando agora.

Não entendeu aquela reação. Esperava mais dele, esperava que fosse consigo à sala e de algum modo o encorajasse, mas pelo visto teria que enfrentar tudo sozinho.

Como nunca fora de fugir de suas responsabilidades, tampouco acovardar-se diante de uma adversidade, Shaka deixou o quarto e seguiu pelo corredor até a sala onde quinze imortais, entre machos e fêmeas, o aguardavam.

Assim que adentrou o recinto, os membros, como num gesto ensaiado, levantaram-se de seus acentos e retiraram os capuzes que cobriam suas cabeças, permanecendo com as grossas capas negras.

No piano, Afrodite tocava uma melodia harmoniosa o bastante para não incomodar a conversação, a qual se iniciou com os cumprimentos rotineiros.

Shaka primeiro saudou Asmita, o representante do clã Seguidores de Seth junto ao Conselho. Em seguida a Shijima, um vampiro também muito antigo, de cabelos castanhos acobreados, e que há séculos havia sido o rival de Shaka pelo posto de sumo sacerdote das Serpentes, mas que perdera por ser alguns séculos mais novo e menos experiente. Depois a Fudou, um vampiro com uma aparência um tanto quanto exótica devido seus olhos heterocromáticos de tons muito claros que contrastavam com a pele muito morena. Ele era indiano, portanto o sacerdote que comandava todas as filiais daquele país.

Por fim, Shaka cumprimentou o prodígio de todo o clã, Shun, um vampiro com aspecto assustadoramente jovem. Era oriental, possuía grandes e expressivos olhos azulados e cabelo castanho na altura dos ombros. Contava com não mais de trezentos e cinquenta anos de idade, porém sua geração, diferente dos demais ali, era uma das mais baixas, assemelhando-se a de Asmita, seu criador.

Dessa forma, Shun era um vampiro muito jovem, de aparência frágil e angelical, mas que possuía vinte e uma gerações de poder, e isso fazia dele um dos sacerdotes mais poderosos do clã, não fosse seu poder e devoção à Seth certamente não estaria ali, já que era o único naquela sala a ter menos de um milênio de vida.

Enquanto Shaka saudava, com um aceno somente, agora os outros membros convocados, todos ali já haviam notado que sua Presença estava ainda mais opressora, além de assustadoramente mais poderosa que o habitual.

— Sentem-se, por favor. — disse ele por fim, indicando as cadeiras posicionadas em semicírculo no centro do aposento, porém nem todos os convocados acataram ao convite cordial.

— Sumo sacerdote Shaka. — proferiu Asmita estreitando os olhos ao encarar o rosto cianótico do anfitrião, intrigado com o ganho súbito de poder que sentia exalar de sua Presença — Sabe muito bem que não é prudente, tampouco seguro nos tempos que enfrentamos hoje, reunir os sacerdotes mais poderosos do clã em solo não protegido. A que se deve essa convocação extraordinária? Espero que seja breve.

— Caro Asmita, foi pensando justamente na vossa segurança que os trouxe aqui. Essa reunião jamais poderia ser marcada em um Templo qualquer. — Shaka replicou, devolvendo o mesmo olhar obtuso ao imortal que o encarava.

Os demais membros, agora em silêncio, olhavam para os dois apreensivos. O clima de tensão era nítido, pois, assim como Asmita, todos ali percebiam que Shaka havia ganhado um poder descomunal, contudo ninguém tinha a audácia de lhe perguntar como.

Ele era o sumo sacerdote e não poderia ser questionado de forma alguma. Era o representante de Seth na Terra, o escolhido para ser o porta voz do grande deus do Caos, e suas palavras e decisões eram leis absolutas.

No entanto, Shun, que ainda era novo no seio daquele clã, portanto trazia consigo toda a audácia pueril que não morrera com o abraço, questionou Shaka sem nenhuma sombra de vacilo:

— Sumo sacerdote, creio que não nos chamou aqui para nos relatar como se deu o aumento de seu poder, que é perfeitamente notável, assim como sua regressão nas gerações, mas como membros do clã, penso que nos deve uma explicação. Afinal, todos sabemos o que é preciso para tal façanha! — disse o garoto de cabelos castanhos se referindo claramente ao tal Nut que o sacerdote há dias apresentara ao Conselho.

O líder dos Seguidores de Seth ficou alguns segundos a encarar o jovem vampiro de modo ameaçador. Sutilmente, e sem nenhuma pressa, caminhou até ele parando à sua frente, sendo observado em silêncio pelos demais.

— Sacerdote Shun... — disse em tom grave —... Primeiramente, eu não lhe devo explicação alguma. — estreitou os olhos que agora faiscavam um brilho áureo, e então encarou os rostos dos outros membros — Estão aqui porque devo relatar que não apenas os Espectros das Sombras são nossos inimigos declarados, mas também o decadente e vil clã dos Assamitas.

— O que está dizendo? — exclamou Asmita em assombro.

— O que acabou de ouvir.

— Impossível! — agora era Shijima quem externava sua surpresa — Assamitas? Aqui na Europa? Isso é uma total afronta às leis do Conselho.

— Meu caro Shijima, isso prova que o Conselho é uma instituição há muito falida. — pontuou Shaka ao mirar as íris rubras do vampiro ruivo — Eu sofri um ataque Assamita há três noites, e só sobrevivi graças à vontade de Seth! — não pode evitar um sorriso diante da ironia contida em suas palavras — Esse ataque, porém, sanou todas as dúvidas que eu poderia ainda cultivar. Fui perseguido por Shura, treinado pessoalmente por El Cid. Para o líder Assamita envia-lo significa que algo grande está ocorrendo. Não somente o nosso clã, mas seus membros mais poderosos são os principais alvos dessa perseguição. Somos os primeiros apenas. Por isso os chamei aqui, pois todos vocês correm perigo, e se forem pegos, e nossos segredos passados ao nosso inimigo, esse poderá ser o fim dos Seguidores de Seth.

O espanto e assombro foi geral.

Os Setitas agora balbuciavam entre si, confabulando e discutindo o que acabaram de ouvir, enquanto no piano Afrodite continuava a tocar, mas com a atenção focada do tumulto que parecia se formar no centro da sala.

— Mas, isso é um absurdo! O Conselho precisa ser notificado de mais esse ataque! — Fudou exacerbava-se.

— O Conselho está aqui, meu caro Fudou. — disse Shaka ao encarar os olhos de Asmita, sem perder a serenidade — Bem diante dos nossos olhos. E não acredito que ele nos valerá de algo.

— Como ousa? — rosnou o vampiro que detinha uma das cadeiras junto ao Conselho.

— Eu já fiz uma denúncia ao Conselho, Asmita, e tudo que fizeram foi questionar minhas palavras. Não posso esperar que averiguem provas, ou busquem por evidencias, tenho que agir. É meu dever proteger o meu clã e assim o farei. O Assamita que me atacou era um mercenário, o que prova que alguém está disposto a pagar um alto preço pelo nosso sangue e nossas gerações mais poderosas. — rebateu Shaka.

— Como é a sua agora, não é mesmo? — disse Shun, novamente de forma audaciosa — Mas, felizmente agora temos um sumo sacerdote muito mais poderoso que nós, para nos proteger, além de um Nut ancestral. Diga, sumo sacerdote, foi ele, o Nut, quem lhe fortaleceu, não foi?

Shaka nem teve tempo de responder a mais aquela petulância do jovem vampiro, pois antes mesmo que pudesse formular uma resposta, Mu em pessoa a deu.

— E quem mais teria tanto poder, além de mim, para regredir as gerações do meu sumo sacerdote em tantos números, jovem filho da noite?

A atenção de todos agora era voltada para a figura parada na entrada do cômodo, cuja imponência só não era maior que a avassaladora Presença de seu espírito ancestral.

Pares de olhos estupefatos, perplexos, agora vislumbravam o vampiro vestido num típico traje faraônico, que não chamaria tanto a atenção se não fosse por alguns pequenos detalhes.

Junto da saia plissada de linho fino na cor branca, na cintura o Nut trazia um cinto largo de couro incrustrado de pedras preciosas, e sobre a fivela figurava a insígnia de Seth talhada em ouro.

No colar dourado que cobria quase todo seu peitoral, cornalinas e ametistas em forma de escaravelhos e falcões estavam engastados, e nos braços, pulsos e tornozelos brilham outras joias de inestimado valor, mas cuja simbologia remetia às peças usadas pelos deuses ancestrais.

Nos dedos das mãos muitos anéis, mas um em especial era usado no dedo indicador. Em forma de escaravelho, servia de selo oficial em todos os atos do Estado do Antigo Egito.

Nos pés usava sandálias de couro ornadas de turquesas e de rubis, e na mão direita carrega o was, um cetro de origem bem antiga, símbolo de domínio mais na esfera divina do que na terrena.

Seria apenas uma veste típica como tantas que muitos dos membros do alto escalão do clã Setita usavam, se muitas das peças não fossem as mesmas que adornavam a própria estatua do deus Seth que Shaka tinha no altar de sua biblioteca, em especial o elmo em formato de cabeça de marsupial, um barrete de metal negro talhado em ouro que cobria parcialmente seu rosto, deixando a mostra a boca e olhos verdes contornados em kajal negro que apareciam por trás das orbes. As orelhas compridas se estendiam para cima, e o focinho longilíneo se pronunciava um pouco abaixo do nariz.

Mu havia estudado afinco nos últimos dias e descoberto a origem da confusão nos papiros no que dizia respeito à sua aparência.

Quando atuava como faraó, usava um determinado tipo de vestimenta, mas quando seu papel de Seth era requerido, tanto o imperador quanto sua família usavam uma espécie de acessório acima da cabeça que remetia à aparência de um animal, dai a crença de que os deuses egípcios possuíam corpo humano e cabeça de fera.

Apesar de semelhante figura ser suficiente para causar o impacto que causara naquela sala, não foram, em primeira instância, os adornos que cobriam o corpo de Mu que fizeram com que os Seguidores de Seth se calassem e até mesmo o piano de Afrodite se silenciasse, mas sua inigualável e avassaladora Presença!

Ninguém naquela sala havia sentido antes, nem em milênios de existência, um poder como aquele, nem uma Presença tão imponente e opressora.

Calados, eles observavam Mu dos pés à cabeça, enquanto Shaka fazia o mesmo, porém sem o espanto que tomava a alma de seus convidados e sim maravilhado com o que seus olhos viam.

Não pode, contudo, evitar certo desconforto em novamente estar olhando para seu deus com olhos cobiçosos, já que o desejo carnal que sentia por ele beirava à loucura.

“Você...” — disse à mente de Mu por telepatia, mas o outro foi mais rápido em lhe responder.

“Achou mesmo que o deixaria enfrentar as Serpentes sozinho? Está perdendo sua fé em mim, sumo sacerdote?” — o Nut sorriu, então avançou alguns passo adentrando a sala — “Eu vim conhecer o meu clã. No meu tempo, nós assistíamos às conferencias de longe e só depois das deliberações do gado é que tomávamos as decisões finais, como Faraós regentes. Aqui não será diferente. Estou aqui para assisti-lo tão somente. E claro... Apresentar-me à minha nova família. Já está mais que na hora.”

Colocando-se ao centro do semicírculo, Mu apoiou o cetro no chão e olhou para seus rostos, que passado o susto inicial agora já sustentavam um semblante raivoso, de zanga e revolta.

— Mas o que significa isso? Que desplante é esse? — disse Shun se voltando para Mu — Quem é você que insulta o nome do nosso deus maior, Seth o Invencível, trajando suas vestes?

Mu olhou para Shaka e deixou escapar outro sorriso.

O sumo sacerdote não se espantara com aquela heresia, pois se nem mesmo ele, que detinha uma sabedoria milenar, reconhecera Seth quando o vira pela primeira vez, não poderia esperar que os vampiros que ali estavam o reconhecessem.

Súbito, Asmita puxou o garoto pelo braço na tentativa de conter sua valentia inocente, mas nessa hora Shaka já havia percebido que todo esforço que fizera para tornar aquela revelação o menos chocante possível fora por água abaixo.

— Ele é o Nut que Shaka apresentou ao Conselho. — afirmou o vampiro loiro encarando Mu nos olhos — Você... você vivificou o sumo sacerdote. Sendo companheiro dele eu já imaginava que o faria, mas... — Asmita então desviou o olhar e agora encarava o rosto de Shaka —... O fato de ser um Nut, um dos primordiais, e seu poder além de nossa compreensão, não lhe concede direito de usar as vestes de Seth, o Cruel. Shaka! O que pretende com isso? Você agora passou dos limites! Não pode fazer desse Nut o nosso deus!

— Cale-se, Asmita. — Shaka também sustentava sua superioridade diante deles agora. Pensara em mil maneiras de dizer aos membros do clã que havia encontrado o deus deles, o seu deus, porém em todas elas teria de lidar com o fato de já ter apresentado Mu como seu companheiro antes mesmo de lhe apresentar como Seth — Ouçam bem todos. Eu... finalmente findei a minha busca.

— HERESIA! — Asmita bradou, e logo depois fora tranquilizado por Shijima que lhe segurou pelo braço pedindo calma.

— Por obséquio, sumo sacerdote, explique melhor essa sua afirmação. Por que diz que findou sua busca? — pediu Fudou.

— Porque Shaka encontrou a mim. — Mu tomou a palavra, e em seguida dirigiu-se até o sumo sacerdote parando a seu lado, sem tocá-lo.

Sem mais nada dizer, Mu enfim liberou todo seu poder aumentando sua Presença propositalmente, e quando seus olhos enegreceram, suas presas salientaram das gengivas encarnadas e centenas de veios finíssimos saltaram de sua pele cianótica, todo o espaço físico da mansão mergulhou em trevas.

Sua figura tornou-se ainda mais hedionda por detrás daquela máscara de fera, e uma aura caustica e infausta tocou os corações mortos e espíritos condenados de seus Seguidores, os fazendo provar a angustiante sensação da morte vinda do Caos.

— Eu sou Mu, do clã dos Nut. — sustentou sua imponência agora adotando o tom de voz grave e gutural oriundo de sua forma bestial — Nomeado na Antiguidade e conhecido no Novo Mundo por Seth, o Imperador do Caos.

O olhar inquisidor e poderoso então pairou sobre o jovem que o havia enfrentado, e imediatamente Shun sentiu seu corpo todo sofrer uma paralisia extremamente dolorosa. Logo depois, uma força opressora o obrigou a ficar de joelhos, com testa colada ao carpete que revestia o chão e ambas as mãos espalmadas ao lado da cabeça.

Diante da plateia em choque, a voz de trovão de Mu novamente era ouvida.

— Sacerdote Shun. Me perguntou quem eu sou? Pois eu lhe direi. Eu sou seu deus, vampiro. Sou aquele a quem dedicou trezentos e cinquenta anos de sua ínfima existência, mas também de sua devoção, amor e fé inabalável. Sou aquele a quem entregou sua pós-vida e a quem louva todas as noites quando roga por seu irmão condenado.

O Nut usava seus poderes para ler a mente do jovem vampiro, e numa breve varredura descobriu que Shun amargava a morte do irmão que não fora capaz de salvar de um incêndio.

Para completo espanto do prodígio Setita, que jamais contara a ninguém sua triste história.

Já convencido de que ninguém mais ali duvidaria de que era mesmo Seth, Mu libertou o garoto de seu domínio, mas ele permaneceu prostrado, trêmulo, na posição em que fora colocado, enquanto era observado pelos outros membros igualmente em choque.

— Sei que estão confusos e que em vossas cabeças pairam dúvidas sem fim, e creio que a primeira delas seja por que seu sumo sacerdote não lhes contou antes sobre minha... volta. — disse o vampiro rodeado por seu novo clã — Bem... ele simplesmente não o fez porque não sabia.

Nessa hora, Shaka olhou para cada rosto ali, dentro daquela sala.

Em seu intimo dava graças à Seth por ele ter tomado a frente e se revelado daquela forma tão efusiva. Também não era de hoje que tinha ganas em dar uma lição naquele garoto petulante, mas como Shun fora abraçado por Asmita simplesmente ignorava a criatura.

— Eu decidi quando me revelar. — continuou o Nut — Escondi dele e de todos vocês meu verdadeiro poder e identidade, pois na guerra devemos sempre estudar o campo inimigo antes de nos atirarmos nele, e o Novo Mundo era o meu campo inimigo. O sumo sacerdote Shaka me despertou de meu longo sono como dizia a profecia. Eu então me empenhei em conhecer sua atual sociedade, e também o clã, meu clã no Novo Mundo, os Seguidores, e, por fim, escolhi Shaka para meu companheiro.

Seth desfez a Presença que mantinha em agonia os corações e espíritos dos membros voltando a sua forma normal.

Sua demonstração de poder fora tão efusiva que duvida nenhuma fora deixada para trás. Mesmo sendo um Nut, um vampiro primordial e poderoso, seu poder ia muito além de sua ancestralidade, e cada um ali o tinha experimentado até o tutano dos ossos, inclusive Afrodite, que devido sua condição humana ficou atordoado, e agora se encontrava numa espécie de transe, como se estivesse mesmo na sagrada presença divina.

O poder do Nut mexia com o gado de tal forma que agora era possível entender porque eram cultuados como deuses.

Com os olhos azuis vidrados em Mu, Afrodite permanecia estático. Seu belo rosto refletia a contemplação em que se encontrava sua alma, presa em uma experiência espiritual profunda.

— Shaka e eu temos um elo sanguíneo perpétuo. — disse o Nut caminhando para a poltrona que ficava próximo ao piano — Eu o fortaleci. Era para isso que me queriam de volta, não é?

Assim que se sentou tudo a sua volta parecia ter sido congelado pelo tempo.

Os sacerdotes e membros do clã permaneciam imóveis, em circulo, como uma bela composição artística de algum mestre escultor. Olhavam para si ainda sem reação, enquanto Shaka do outro extremo da sala o encarava taciturno, pensando nas perguntas que lhe seriam feitas com aquela revelação, até que súbito uma reação em cadeia quebrou o silêncio sepulcral.

Asmita foi o primeiro.

Num rompante correu até onde Mu havia se sentado e atirou-se de joelhos ao chão, tocando seus pés com mãos frementes.

— Oh, Seth! Lord Seth! Perdoe minha alma condenada. Não posso crer que estás aqui! Que regressastes! — beijou os pés do Nut, que em desconforto encolheu os joelhos — LOUVADO SEJA O NOSSO DEUS QUE REGRESSOU! — bradou erguendo o tronco e estendendo ambas as mãos ao ar.

Imediatamente os outros sacerdotes e membros honoráveis vieram às pressas se juntar ao representante do Conselho, dobrando os joelhos e reverenciando o deus que tanto esperaram a volta, para o total alívio de Shaka que esperava uma retaliação que não veio, pois não saberia como explicar para todos o fato de ter escolhido justamente o deus de seu clã para seu companheiro.

Já para Mu, apesar do sobressalto das Serpentes, aquela cena não era algo novo. Estava acostumado com multidões o louvando, a única diferença era que agora não era o gado que o adorava, mas outros filhos da noite.

A ele soava até cômico aqueles imortais prostrados a seus pés de maneira tão inflamada e devota, já que sempre fora um vampiro de ego e hábitos muito simples.

— Lord Seth, perdoe minha blasfêmia! — implorava Shun com a testa colada no carpete — Sou jovem e tolo.

— Senhor de tudo que existe, Seth, o Cruel! — Shijima bradava com voz embargada — O clã dos Seguidores se regozija em tê-lo novamente entre nós, meu senhor e meu deus!

— Que noite gloriosa! — exclamou Fudou — Hoje é uma noite para nunca mais ser esquecida! Nosso glorioso deus está novamente entre nós, e nosso clã está salvo! Graças a ti, Seth! Nossa fé o trouxe de volta!

Ao ouvir aquilo, Shaka deixou escapar um riso que logo apressou-se a conter. De onde estava, ao fundo da sala, olhou para Mu arqueando uma das sobrancelhas e revirando os olhos num gesto claro de fastio, então caminhou até eles e abrindo caminho entre a turba prostrada parou diante de Mu sentado à poltrona.

Lentamente dobrou os joelhos, só que diferente dos outros não baixou a cabeça, mantendo seus olhos azuis fixos aos olhos verdes do Nut.

—“A fé deles o trouxe de volta? Ou teria sido a sorte que tive em estar no lugar exato, na hora exata?” — disse Shaka através de telepatia.

— “Está atribuindo meu despertar ao acaso e não mais à sua fé, sumo sacerdote?” — perguntou Mu com um sorriso.

“De jeito nenhum, mas... Não posso negar que algo tenha mudado. Não me faça perguntas, Mu. Aqui quem deveria ter as respostas é você, não acha?... Você os está ouvindo, não está? Está vendo com o que vai ter de lidar. Boa sorte.” — disse, por fim dando uma piscadinha para o Nut antes de baixar a cabeça em reverência.

"Sim, estou vendo! Mas foi você, a sua fé e não a deles, que me trouxe de volta e me fez querer caminhar mais uma vez entre os filhos da noite."

Mu sorriu, e sem nenhuma cerimonia levantou-se de súbito pegando a todos de surpresa. Curvou o tronco para frente e esticando o braço segurou no queixo de Shaka o fazendo erguer a cabeça e olhar para si.

— Levante-se, sumo sacerdote Shaka. — ordenou com propriedade, então esperou que o loiro se colocasse de pé para ficar ao lado dele — Também me alegro em estar de volta e ser tão bem recebido. Por favor, ergam suas cabeças, creio que temos algo muito importante a discutir ainda essa noite.

Imediatamente, mas ainda confusos e em estado de graça, os quinze Setitas se levantaram e fitaram a imagem gloriosa do deus e seu sumo sacerdote, lado a lado.

— Não temos tempo a perder. — continuou o Nut — Shaka comentou comigo que iria pedir a vocês um relatório de atividades estranhas ou suspeitas, já que os ataques agora serão monitorados e repelidos por nós mesmos. Não creio que possamos confiar no Conselho. — mantinha a postura firme e altiva, mesmo sabendo que ao mencionar o Conselho estaria afrontando Asmita, seu representante — Por favor, prossiga com as medidas que deverão ser tomadas, Shaka. Eu vou ajudar Afrodite, ou esse transe em que ele está, afetará sua mente permanentemente.

Muitos ficaram surpresos com aquela extraordinária, pelo menos a seus olhos, demonstração de zelo e preocupação de Seth para com um simples servo, de quem ele se aproximou tocando a fronte com o polegar.

Afrodite balançou a cabeça ainda um pouco atordoado, sentindo um bem estar que não sabia explicar de onde vinha, mas que era como se sua alma tivesse recebido o toque divino.

Mu então pediu para que ele voltasse a tocar o piano e logo voltou a se juntar aos Setitas no centro do aposento.

Assim a reunião prosseguiu noite adentro, mesmo que as pautas a serem discutidas ficassem agora em segundo plano, já que o regresso de Seth era somente o que povoava a mente dos vampiros que ali estavam em perguntas como: “O que seria daqui para frente?”, “Seth iria destruir os outros clãs?”, “Os Seguidores seriam um único clã dominante?”, “Finalmente estavam salvos da ameaça que os perseguia?”, “E Shaka? O que lhe outorgava o direito de se unir a Seth como um mortal? Aquilo chegava a ser herético!”

Porém, não havia ninguém ali que se atrevesse a contestar a vontade do deus do Caos, e ele foi muito claro quando disse que escolhera Shaka para ser seu companheiro no Novo Mundo.

Alguns, talvez os mais críticos e exaltados como Shun, estivessem motivados inclusive pelo ciúme e a inveja.

Após muita conversa e relatos de ataques, Shaka estabeleceu que nenhum sacerdote ou membro de elite poderia andar sozinho, sem que tivesse uma escolta.

Para isso, invocaria seus carniçais mais poderosos, híbridos de Bestas e humanos que vagueavam na noite e que a partir de agora fariam a guarda dos membros mais poderosos do clã.

Shaka, orientado por Mu, também pediu a Asmita que sendo membro do Conselho orientasse aos demais representantes que ficassem atentos e que por precaução organizassem uma frente defensiva em cada clã.

Mu temia que não somente os membros mais poderosos e antigos dos Seguidores de Seth fossem alvo, mas também que vampiros poderosos e de baixa geração, como a fêmea cigana que vira oculta na sombra do Presidente do Conselho, e cujo clã era poderosíssimo devido sua ancestralidade, pudessem fortalecer o inimigo caso fossem consumidos.

Tudo decidido, Mu novamente tomou a frente e dera uma notícia que deixou a todos surpresos e exaltados. Incumbiu-se de fortalecer todo o clã dos Seguidores com seu sangue poderoso, um a um, sacerdote ou mero vampiro recém-criado.

A noticia profética fez a todos regozijarem em estado de graça, e estando tudo decidido, Shaka, como era de praxe, deu a reunião por encerrada cedendo seu servo para um pequeno banquete aos convidados.

Nessa hora, o Nut silenciosamente deixou a sala, visto que era arriscado demais para ele permanecer ali quando o sangue de Afrodite saísse pelas feridas que seriam abertas em seu corpo e inundasse o ambiente com seu aroma instigante.

Assim, enquanto o jovem músico passava de colo em colo servindo aos convidados de Shaka, que permanecera na sala, Mu retornava às pressas ao quarto do porão tentando conter a todo custo a Besta que já urrava ensandecida em seu interior.

Na sala, as Serpentes questionavam o sumo sacerdote do por que Seth não banquetear com eles.

Obviamente Shaka não revelou que Mu tinha Consumo Conspícuo, e atribuiu sua ausência tão somente à sua preferência em se alimentar sozinho, a qual, por ele ser quem era, não deveria ser contestada.

Ao fim do banquete, Shaka despediu-se dos membros de seu clã, e quando todos deixaram a casa tomou Afrodite nos braços, já que o garoto estava fraco demais para seguir para seu quarto caminhando, e o carregou até o leito.

Deitou-o com cuidado sobre os lençóis de seda, retirou-lhe as joias e adornos, e com suavidade o acordou lhe fazendo uma caricia na franja.

O músico tremelicou as pálpebras e abriu os olhos, exausto. Mal conseguia se mexer devido à debilidade que se seguiu após a perda de tão generosa quantia de sangue, mas quando sentiu o cheiro do sangue do sacerdote adentrar doce em suas narinas, Afrodite sentiu seu coração acelerar.

Ofegante, abriu a boca e recebeu o pulso que já lhe era oferecido pelo Setita, sorvendo, ávido, o sangue a goladas.

Quando julgou que era suficiente, Shaka recolheu o punho e lambeu a ferida aberta por suas próprias presas, então acariciou a fronte do garoto o induzindo a um sono profundo.

— Isso, bom menino... Durma bem.

Deixou o quarto seguindo para o porão. Estava ansioso por encontrar Mu e perguntar que ideia fora aquela de aparecer na sala vestido com os adornos da sua estátua, mas quando adentrou a dependência notou que a penumbra era muito mais intensa que o de costume, tanto que tinha dificuldade em enxergar mesmo com o privilegio de sua visão adaptável à falta de luz.

Além da escuridão incomum, também a Presença do Nut estava diferente, forte, arbitrária, dominante.

Ele estava ali, mas não podia vê-lo.

Quando Shaka pensou em chamar por Mu sentiu o cheiro forte de sangue fresco invadir suas narinas.

De imediato fora arrebatado por aquele odor tão instigante, mal sabendo que era observado pelo outro, que do canto mais escuro do quarto o vigiava tal qual uma fera observa sua presa.

Há dias que Mu queria se unir ao sacerdote mais uma vez. Só não o fizera devido ao seu estado debilitado, mas agora nada o impediria.

*Amaldiçoado, em alemão.

Notas finais
Vou deixar aqui mais uma vez um obrigada pra Ivi por fazer o Rada e o El Cid *-* quanto ao cap, e ai? oque acharam? parou uma parte interessante né não? resolvemso dividir porque ficaria muito longo e precisamos betar outras fics, ia atrasar tudo. um beijooooo