Notas iniciais
Olá queridos leitores. A imagem do Cap foi retirada da internet e depois fizemos uma montagem em cima. Não sabemos o autor da ilustração original.

Foram dois os motivos que chamaram a atenção de Mu quando este adentrou a sala da mansão trazendo Shaka em seus braços.

O fato de Camus estar ali, bem à sua frente, o encarando sem o mínimo sinal de vacilo e o Cesarem tê-lo chamado por seu título, Seth!

Mu estreitou seus olhos encarando o francês de volta sem intimidar-se, então suas íris emanaram uma faísca rubra, e deixando que toda a poderosa Presença de sua ancestralidade fluísse pelo ambiente, caminhou em direção a Camus sem titubear.

— Creio que o subestimei, alquimista. — a cada passo que avançava fazia sua Presença mais forte — Vejo que teus estudos lhe proporcionaram muito mais respostas do que apenas aquelas que buscavas. E foram elas que te trouxeram aqui hoje, estou certo? — o tom de voz era calmo, porém autoritário.

— Oui. Está. — Camus respondeu no mesmo tom, sem dar sequer um passo para trás. Estava disposto a defender seu amigo sacerdote ou ao menos entender o que se passara, e mesmo frente à poderosa Presença de Seth não fraquejou — Eu vim para alertar Shaka de que você o estava enganando... E que Seth é uma fraude!... Mas, vi que cheguei tarde demais.

Os olhos negros fixaram os de Camus por alguns segundos, até que Mu enfim cerrou suas pálpebras e baixou a cabeça. Quando as abriu novamente olhou para o rosto marcado de Shaka. O veneno Assamita ainda agia em seu corpo fazendo o sacerdote sofrer alguns espasmos e contorcer a bela face em agonia.

— Uma fraude... Talvez sim... Talvez seja isso que sou hoje, no mundo novo, mas não para ele. — ergueu o olhar e voltou a encarar Camus, dessa vez com determinação e soberania — Não para o meu clã!... Deveria ter mais respeito pela fé, alquimista, pois um dia pode precisar dela!

— O que você fez a ele, Seth? — inquiriu o francês rangendo os dentes.

— O que eu fiz? Eu ouvi suas preces. Não é isso que se espera de um deus? Que ele ouça as preces de seus devotos? Eu ouvi o chamado de Shaka e o salvei da segunda e derradeira morte. — disse com rispidez, então voltou a olhar para o rosto do sacerdote e foi arrebatado pela tristeza que ele sentia.

Logo sua feição mudou, pois apesar da acusação e desconfiança de Camus a tristeza que vinha de Shaka, a qual podia ser partilhada consigo pelo elo, agora fortíssimo, desarmava todas suas defesas.

Estava arrasado, e sentindo que não mais podia cuidar do amado sacerdote, com todo cuidado que lhe cabia o entregou aos braços do Cesarem, que de pronto o recebeu com todo zelo e estima.

— Não são todos os seres que estão preparados para terem suas preces atendidas. — referia-se a Shaka, que tanto pedira para que Seth viesse até si — Muitas vezes os deuses são bem diferentes do que imagina a mente do homem. Muitas vezes se mostram também de maneiras inesperadas... Eu... Sinto muito. Por favor, cuide dele.

Mu não podia mais suportar a tristeza e rejeição de Shaka, e após entrega-lo a Camus lhe deu as costas e deixou o cômodo apressado.

Assustadíssimo, Camus se deixou cair de joelhos no chão apoiando o corpo de Shaka em suas coxas, enquanto o sustentava com um dos braços sob as costas e com a mão livre tateava as feridas por debaixo de toda a imundice que cobria sua pele fria.

— Por Nicolas Flamel, Shaka! — exclamou aturdido — O que diabos aconteceu com você? Você está azul! E... E non é tinta! — passou a unha sobre a testa do amigo espantando-se com o tom de sua pele naquela região — Acorde! Pode me ouvir? Fale comigo!

O sacerdote mexeu levemente as pálpebras, sentindo os toques sutis que Camus lhe dava no rosto na tentativa e faze-lo recobrar a consciência.

Essa, por sinal, estava ainda entorpecida, tanto pelo veneno que nublava seus sentidos quando pela dor e aflição da recente descoberta, mas ao ouvir a voz amiga de Camus aos poucos Shaka conseguiu concentrar-se e guiar-se por ela até abrir levemente os olhos e olhar para o rosto do francês que o encarava aflito.

— Graças a Von Hohenheim! — exclamou aliviado o ruivo ao olhar para as íris douradas do Setita — Essas feridas... Esse sangue negro... O que diabos aconteceu? Non me diga que...

— A... Assamita... — o tom de voz fraco denunciava o quanto estava debilitado, mas graças ao sangue de Mu não corria mais risco de morte.

— Assamita? — Camus repetiu estarrecido, então removeu algumas das folhas sobre o ferimento no peito do sacerdote e constatou que era uma chaga causada por lâmina envenenada, dada sua aparência hedionda — Claro!... Só as malditas lâminas deles são capazes de tamanho estrago!

— Camus... — chamou a atenção do ruivo em sobressalto, num fiapo de voz apenas — Mu... Mu é...

— Seth. — completou o Cesarem — Eu sei. É por isso que estou aqui... Pensei em lhe alertar antes que... Enfim... Vejo que cheguei tarde.

O Cesarem então se levantou trazendo o sacerdote consigo no colo, o qual deixava escapar alguns gemidos de dor enquanto era carregado para um dos inúmeros banheiros da mansão.

Assim que entrou, Camus delicadamente sentou Shaka em uma poltrona que ficava ao lado de uma bancada de mármore extensa enquanto corria até a banheira.

— Temos que tirar essa porcaria toda de cima de você. Conheço a formula de um elixir que combate o veneno Assamita, só vou precisar de algumas matérias primas... — lançou um olhar para o sacerdote enquanto abria as torneiras para encher a banheira, o vendo na mesma posição em que o deixara — Pode mandar um dos seus carniçais providenciar.

Com cuidado, o ruivo retirou o casaco que vestia, arregaçou as mangas da camisa e foi até Shaka, novamente o pegando no colo para leva-lo até a banheira já quase cheia até a metade.

Ajeitou o amigo para que se sentisse o mais confortável possível, então ajoelhou-se do lado e com o auxílio de uma mangueira começou a livra-lo de toda aquela imundice que cobria seu corpo.

— Como... você... — perguntou ainda mantendo a cabeça baixa.

— Como encontrei seu deus primeiro que você? — sorriu, tentando descontrair o Setita que ergueu os olhos e olhou para ele com um semblante nada amistoso — Estudei toda fisiologia de Mu através das amostras de sangue e tecido que ele me permitiu coletar quando estive aqui da primeira vez. Sabe que non acredito em deuses, mas acredito na Ciência, e ela me disse que Mu é muito mais que apenas um sobrevivente do clã Nut.

— Como eu pude... ser tão cego? — o sacerdote baixou novamente a cabeça, fixando o olhar perdido na água que rapidamente tingia-se de marrom.

— Non se culpe tanto, você esperava encontrar um deus e Mu é apenas um super vampiro.

Imediatamente Shaka ergueu a cabeça e encarou o francês com fúria.

— Como ousa dizer isso, Camus? Eu... eu tive acesso às memórias dele, eu o vi... Eu o vi liderando exércitos, dizimando civilizações inteiras... Eu vi os homens clamando seu nome...

— Ora, eu também estou lhe dizendo o que vi. — ergueu a mangueira e agora despejava água na cabeça de Shaka, a fim de lhe lavar a sujeira dos cabelos —... Eu vi nas lâminas do meu microscópio uma cadeia de DNA inexistente na nossa tabela genética vigente. Os resultados das análises de seus tecidos também apresentam elementos químicos que non constam na tabela periódica, o que faz dele uma criatura única entre todos nós. Um super vampiro, talvez? Com todo esse poder non me surpreendo que fosse cultuado como um deus no passado. Foi por isso que corri para cá. Queria alerta-lo... Esse Nut o estava enganando! Pelo modo como o encontrou, a familiaridade com a cultura egípcia e todas as outras evidências, Mu se encaixava perfeitamente nas lendas de Seth.

— Ele... não estava me enganando... Eu é que me enganei... Camus. — disse Shaka cabisbaixo.

— Por que diz isso? Você non tinha como saber. — retrucou o ruivo, agora com muito cuidado passando a mão sobre o ferimento no peito do loiro — Desde que encontrou esse Nut você só pensa nele! Não está em sua perfeita razão e qualquer um nota isso. O que anda acontecendo por aqui, Shaka? Seu servo, Afrodite, foi ele quem me recebeu e estava muito ferido. Eu o conheço há séculos, Shaka. Sei muito bem que jamais deixaria um servo seu naquele estado lamentável.

Shaka de súbito ergueu o braço e agarrou o punho de Camus com certa força, o fazendo se calar imediatamente.

Os olhos dourados do sacerdote encontraram os avelãs do Cesarem, e surpreendentemente Camus os viu pela primeira vez vertendo grossas lágrimas rubras.

— Mu nunca me enganou... Simplesmente porque fui eu quem conduziu nós dois até o caos que estamos agora. — soltou o punho do ruivo e voltou a olhar para a água — Quando assumi a liderança dos Seguidores de Seth foi depositado em mim... a confiança sob o dever de encontra-lo, despertá-lo... e devolver aos Seguidores o deus a quem eles passaram milênios aguardando... Só não havia papiro ou pergaminho que dissesse que Seth seria uma criatura doce... de aparência frágil e medo de dormir sozinho... Em nenhuma das tantas escrituras sagradas que me foram confiadas dizia que Seth choraria a morte da família que o amava... Meu sentimento por Mu... pelo frágil e melancólico imortal que passou quatro mil anos dormindo sozinho em uma caverna no meio do nada e que tinha medo de... carros, luzes... avião... não me deixou enxergar o deus... O meu deus de devoção... Eu... eu o corrompi, Camus... Eu o instiguei e o provoquei até que ele não suportasse mais... E quando ele finalmente cedeu eu o tomei para mim de forma egoísta.

— Você, você, você o que? — Camus arregalou os olhos em sobressalto — Non me diga que você e Mu, vocês... já...

— Sim. — levou uma das mãos ao rosto enxugando uma lágrima escarlate — Nós fizemos a troca, Camus... Nós trocamos de sangue.

— Vocês... Transaram?

— Sim.

— Sacre bleu! — levou a mão ao queixo, fazendo um silêncio atônito, até que não pode mais conter sua curiosidade nata — Mas, como isso foi possível? Mu tem Consumo Conspícuo! Era para você estar morto!

— Eu sempre soube que ele conseguiria... que eu conseguiria quebrar a maldição do Consumo Conspícuo... Sempre soube... Eu... tinha... fé. — olhava para água suja na qual seu corpo estava imerso, ele mesmo mergulhado em uma profunda tristeza — Seth me provou que eu não estava enganado... — sorriu da ironia contida em suas palavras — Nosso elo agora é eterno, mas... Seth... Seth não pertence a mim... Eu não posso querer que ele seja meu companheiro... quando... Quando há um clã inteiro clamando por ele... Eu falhei com o meu clã, Camus... Falhei com os Seguidores e falhei com Mu... porque... eu o desejo tanto... mas, só de pensar nisso me sinto tão mal... Mu é sagrado. A família dele o conservou puro por milênios e eu o tornei profano...

Camus prestava atenção nas palavras do amigo, completamente estarrecido.

Jamais uma vitima do Consumo Conspícuo sobrevivera após um ataque e ele estava ali, bem à sua frente, ainda que muito ferido, porém não foram ferimentos causados por Mu e sim por um Assamita que provavelmente o abordara em um momento de distração e confusão. E como se não bastasse a ruina em que se encontrava seu corpo, Camus era capaz de sentir o pesar na alma do sacerdote.

— Shaka... Olhe para mim. — o tom de voz brando fez o pedido, enquanto uma de suas mãos procurava a do amigo para segura-la entre as suas — Em nome da nossa amizade eu vou lhe dizer exatamente o que penso depois de ponderar tudo isso que me disse. Eu nunca escondi de você minha posição quanto à Mu. Ele é um vampiro...

— Um deus... Ele é um deus, Camus.

— Oui, um deus, que seja, mas ele é um deus tão poderoso quanto descontrolado, e temo por você, meu amigo... Sabe que eu lido com hipóteses, teorias e pressupostos, e foi analisando tudo isso que cheguei a uma conclusão. Sou um homem da física, da química e da magia, mas respeito sua crença. Justamente por termos visões diferentes de mundo é que vou lhe dizer essas palavras duras. Você continua cego em respeito a Mu.

— Como é? — inquiriu em surpresa.

— Parece que seus sentimentos nublaram sua mente de tal forma que o tornaram incapaz de raciocinar, meu amigo. Eu preferia non ter de dizer isso. Preferia te convencer a afastar-se desse Nut o quanto antes, e preferia acreditar que minha Ciência ainda é mais exata que sua fé, mas... Non. Non é isso que vejo aqui essa noite.

— Não... estou entendo, Camus.

— Shaka, qual sua função como sumo sacerdote dos Seguidores de Seth? Preservar a crença e encontrar Seth, n'estce pas?

—... Sim.

— Oui, sim! E que porra foi que você fez senão exatamente isso? Você encontrou Seth. E o que vem depois nas escrituras sagradas? Que Seth, o todo poderoso deus de seu clã retornaria justamente num momento de extrema necessidade e caos para proteger e fortalecer os seus súditos. Já olhou para suas mãos? — ergueu a mão de Shaka até a altura de seus olhos e o fez olhar para as pontas dos dedos azuladas e garras pontiagudas — Você está azul! Seus olhos estão negros como os de Mu e sua íris dourada. Eu... eu sinto o grande poder que emana de você e creio que tenha regredido muitas gerações depois de ter feito a troca sanguínea total com Mu. Certamente está mais poderoso que qualquer vampiro existente na Terra, tirando seu divino Seth...

O Setita olhou para o Cesarem e só então se deu conta do quão relevante era o que ele dizia.

Na verdade, Shaka estava tão ferido e seu corpo doía tanto que sequer se ateve a esse detalhe novamente desde que Mu o salvara da selvageria Assamita.

— Eu regredi... para a nona geração.

— Fascinante! — o ruivo arqueou as sobrancelhas num gesto de espanto e admiração — Percebe como as profecias estão se cumprindo, não é mesmo? O seu Seth, o mesmo que enfrentou o Conselho, também jurou perante todos os membros proteger o seu clã. E coincidências à parte, mon ami, ele fez tal juramento justamente quando os Espectros das Sombras os estão perseguindo e exterminando. Shaka, será preciso um ateu cientista lhe jogar na cara o que está diante dos seus novos olhos negros?... Sem o seu envolvimento com Mu as profecias Setitas nunca se cumpririam. Está tudo perfeitamente certo! Pro inferno que os papiros non lhe alertaram de que Seth seria um vampiro de meigas feições, doces olhos e apetite voraz. Nem que o deus do Egito antigo se perderia tanto de amores por seu sumo sacerdote a ponto de vencer a maldição do Consumo Conspícuo apenas para poder consumar seu amor... Essas tábuas, papiros e o restante todo foram escritos pelo gado e modificadas há milênios. Aposto que se o próprio Seth fosse escrevê-las o faria totalmente diferente. Então, sumo sacerdote dos Seguidores de Seth, e meu melhor amigo, lave esse rosto vermelho e vá se entender com seu deus. Não deixe suas dúvidas e conflitos pessoais o cegarem dessa maneira. Mu está sofrendo, Shaka. Eu non posso ler mentes como vocês dois o fazem, mas eu vi o olhar dele quando me entregou você ferido em meus braços. Seth queria cuidar de você, te banhar, te vestir, te curar... Mas, ele escolheu respeitar o seu conflito.

***

Enquanto isso, do outro lado do corredor, na parte setentrional da mansão, um vulto de longos cabelos loiros tão claros quanto os raios do luar, vestindo uma túnica egípcia branca, caminhava entre a escuridão a passos lentos e suaves.

Descalço para não fazer barulho, Afrodite seguia pelo corredor principal tateando as paredes com as pontas dos dedos para se orientar, já que não enxergava tão bem no escuro quanto os moradores principais da casa.

Vez ou outra olhava para trás como se temesse que alguém o estivesse seguindo.

Não queria que Shaka o visse fora de seu quarto, visto que deveria ter sua permissão para sair, principalmente depois da chegada de Mu na mansão.

Momentos antes, enquanto se vestia, o jovem músico ouviu a voz de Camus e, ainda que muito baixa, a voz de Mu.

Sentiu um misto de alívio e medo. Alívio pelo mestre doce e gentil ter voltado, e medo pelo mesmo motivo.

Afrodite sentia-se culpado pela briga dos mestres.

Correu até a porta e abriu uma pequena fresta para espiar. Poucos minutos depois viu quando Camus passou apressado pelo corredor carregando Shaka em seu colo, o qual estava coberto de sangue e sujeira.

Esperou alguns minutos e então deixou o quarto, seguindo pela direção oposta a qual Camus tomara.

Procurava por Mu.

Não fora difícil encontra-lo. Bastou-lhe seguir as pegadas sanguinolentas e o rastro de lama ressequida deixado no chão.

Logo viu a porta de um dos banheiros mais afastados entreaberta e ouviu o som da ducha ligada.

Enquanto ponderava do lado de fora, pensando se deveria mesmo incomodar Mu com sua presença, de súbito ouviu a voz do Nut sussurrar direto em sua mente, lhe causando um sobressalto que fez seu coração acelerar ainda mais.

— “Entre de uma vez. Seu coração está tão acelerado que o ouviria a quilômetros de distância, Afrodite."

No mesmo instante a porta se abria como por mágica revelando a figura assustada do jovem servo aos olhos negros do vampiro.

Ainda que inseguro e vacilante, Afrodite adentrou o cômodo a passos curtos sentido o forte odor de sangue golpear suas narinas à medida que avançava.

Apesar da penumbra que englobava todo o ambiente o jovem pode ver Mu sentado dentro do boxe. As pernas esticadas recebiam toda a cascata de água que descia da ducha, enquanto com as costas aderidas ao azulejo frio e a cabeça baixa ele olhava para as próprias mãos sobre o colo.

Ao deixar a sala e Shaka aos cuidados de Camus, Mu procurou um dos banheiros afastados para se limpar.

O laço sanguíneo completo que agora partilhava com o sacerdote o torturava mais que a chaga envenenada ainda aberta em seu corpo, uma vez que sentia toda a tristeza e conflito que acometiam o sacerdote.

Mu sentia-se miserável.

Em sua mente as memórias de Shaka, sua dedicação ao clã Setita e devoção a seu deus, o faziam amargurar um remorso desmedido, afinal sempre fora uma criatura amável e doce desde seu abraço.

Sua mãe, Aset, sempre lhe dissera que seu coração, mesmo após parar de bater, nunca perdera a pureza. Mesmo sendo um filho da noite e promovendo carnificinas devido a sua maldição Mu jamais se corromperia.

Por causa de seu coração bravo e gentil foi que entregara-se tão facilmente ao amor pelo sacerdote Setita, pois para Mu era perfeitamente natural amar Shaka, era simples, leve.

Sentir a rejeição do amado, todavia, o estava matando lentamente.

Ali, sozinho, amaldiçoou sua condição. Nunca havia desejado tanto e invejado tanto qualquer outro filho da noite ou humano. Queria ser qualquer um, menos quem era. Seth, uma criatura amaldiçoada fadada à destruição e solidão.

Desviou os olhos de suas mãos já parcialmente limpas, como todo seu corpo, e então olhou para o par de pés esguios de pele muito branca que pararam ao lado do boxe.

— Eu tenho mais de seis mil anos, sabia, Afrodite? — disse o Nut voltando a olhar para as próprias mãos que agora eram tingidas por pequenas gotas escarlates das lágrimas que desciam por seu rosto — Governei o Egito Antigo por dois mil anos junto de minha família. Vivi toda minha existência amaldiçoada rodeado de ouro, pedras preciosas, súditos fieis e muita riqueza. Como faraó fui respeitado e adorado por muitos... E no mundo novo eu sou um deus.

— Um... um deus? — o músico exclamou, arregalando os olhos surpreso e estupefato.

O Nut então ergueu a cabeça e encarou Afrodite com seus olhos verdes banhados em lagrimas rubras, mantendo-se pensativo por alguns instantes.

Deveria sentir raiva daquele humano, mas era incapaz. Correu os olhos por sua figura languida de beleza única e sentiu inveja, além do ciúmes que ainda lhe corroía.

Se pudesse ser como Afrodite...

Se fosse apenas gado Shaka não o rejeitaria.

— Tudo que desejei eu tive, Afrodite... Absolutamente tudo! Nada me era negado. E o que me negavam eu mesmo tomava para mim... Assim conquistei exércitos, territórios, ergui nações inteiras... Então eu dormi e quando acordei o novo mundo me tirou tudo. Minha própria história havia sido toda distorcida... Mas, quando tudo eram trevas ele estava lá... Ele foi a minha luz na escuridão... Shaka...

Afrodite dobrou os joelhos os apoiando no piso gelado para ficar mais próximo de Mu, enquanto calado ouvia o que ele dizia com uma concentração sublime, porém com muito pesar.

— Eu o amei, Afrodite... Desde o dia que o vi pela primeira vez... Amei seu mestre de uma maneira que nem sabia ser possível, mas... — Mu fechou os olhos sentindo a tristeza lhe pressionar o peito inerte.

— Senhor Mu, eu... Eu queria pedir perdão por... — ensaiou o pedido de perdão que fora buscar quando entrou naquele banheiro, ainda mais diante daquela confissão, mas ao notar a angustia vinda do outro vacilou.

Achou suas histórias parecidas, afinal outrora também tivera uma vida feliz, plena de amigos e no seio de uma família que o amava muito. Era um músico muito jovem ainda, mas já renomado em toda Suécia.

Shaka pelo visto tinha o dom maldito de trazer infortúnio aqueles a quem se aproximava, e foi considerando isso que Afrodite apenas deixou que Mu continuasse a desabafar consigo tudo que precisava.

—... Mas, ele não me quer mais. Não agora que me tornei um fardo pesado demais para ele. Meu passado glorioso agora se tornou minha ruina... — novamente o Nut ergueu os olhos e encarou o músico com vigor — Eu... Eu odiei vê-lo tocando você. Vê-lo copulando com você.

Afrodite baixou a cabeça envergonhado, fixando o olhar no piso manchado de sangue.

—... Era apenas a mim quem ele deveria tocar... — disse rangendo os dentes, num misto de raiva e tristeza — Mas, eu tinha medo.

— Medo? — o servo encorajou-se a olhar para o vampiro.

— Sim. Medo. Medo de feri-lo, mata-lo! — exasperou-se — Céus como fui idiota! Shaka me disse tantas vezes que eu não o mataria, que tinha fé... em mim. — nessa hora Mu deixou escapar uma risada sonora, misto de ironia e nervosismo — Veja só, ele tinha fé em mim! E ele estava certo!

O jovem servo franziu as sobrancelhas confuso, percebendo o nervosismo crescente que tomava o Nut.

— Quando conseguimos no unir finalmente eu achei que havia, mesmo que por alguns momentos apenas, encontrado a felicidade. E que apesar da minha maldição estávamos finalmente selando nosso pacto e passaríamos a eternidade juntos. Ledo engano o meu. Shaka considera nossa união profana, e seu amor por mim herege... E... O que faço agora? Como esquecer seus toques? Seus beijos? Seu sabor?... Como arrancar de dentro de mim esse sentimento que já faz parte de todo meu ser? Ah, Afrodite... Como eu o invejo!

— N-Não diga isso, senhor Mu. O senhor é um vampiro tão poderoso, tão... bondoso, belo e gentil, como pode invejar um ninguém como eu? E por que diz que mestre Shaka julga vossa união profana?

— Você não sabe de nada, criança...

— O que sei é que o que vejo. — Afrodite muniu-se de toda a coragem que lhe cabia naquele momento para dizer o que realmente pensava e talvez apaziguar o coração sofrido do Nut — Eu não possuo nenhum poder. Não posso curar o corpo como o senhor, tampouco a alma, e nem ler pensamentos, mas eu sou músico e posso ler o corpo, o olhar, os gestos de uma pessoa, e acredite, eles são como notas musicais.

O servo conseguiu a atenção que queria do Nut, que agora o encarava concentrado.

— O corpo tem sua linguagem própria, senhor Mu, assim como a música. Mestre Shaka o olha, o toca e lhe sorri como um apaixonado maestro conduz sua amada orquestra, e um maestro apaixonado jamais abandona sua filarmônica. Eu sou apenas alimento para o corpo, mas o senhor é para ele alimento para a alma e o coração. Não sei o que está acontecendo, mas o senhor disse a pouco que no novo mundo é um deus? Seria por isso o seu amor pelo mestre profano?... Por acaso... Não me diga que... Senhor, Mu, o senhor é o mesmo deus do mestre Shaka? O mesmo a quem ele tanto procurou por milênios? O senhor é Seth?

Ainda divagando acerca do que o jovem acabara de dizer, Mu respondeu entristecido:

— Sim.

Afrodite arregalou os olhos azuis e engoliu em seco.

— Pelo algoz ouvido de Beethoven! Não pode ser!

Nos cinco anos em que vivera ali com Shaka não teve um só dia em que o sacerdote não tivesse lhe falado de Seth, o deus do Egito e soberano absoluto de seu clã.

Afrodite aprendeu a gostar das histórias que Shaka lhe narrava acerca dos bravos feitos do deus egípcio cuja cabeça era de marsupial e o corpo forte como de um soldado moldado para a guerra.

Depois de tantos anos as ouvindo até já se considerava um devoto de Seth, ainda que principiante, já que não acreditava em deuses, mas jamais imaginaria que Mu, uma criatura tão terna fosse aquele ser monstruoso representado pelas tantas estátuas que existiam na mansão de Shaka.

— Mas... Não era para o senhor ter uma cabeça de animal?

Mu soltou um suspiro cansado.

— Não sei de onde tiraram isso... É tanta coisa errada, tantas histórias distorcidas... A única coisa que se torna legítima é a rejeição de Shaka e não posso lidar com ela, Afrodite, não posso! — novas lagrimas tingiram seu rosto — Eu a sinto tão forte quanto uma sombra nefasta sobre meus ombros. Dói demais. Não quero que Shaka me olhe como uma estátua de bronze e ouro, um ser inanimado, um ídolo, mas sim como seu companheiro. Eu não quero ter de amar todo um clã e ignorar o amor que sinto por ele.

— Senhor Mu, não diga essas coisas. Creio que tudo irá se resolver quando...

— Quando? Me diz, quando? Não deixarei de ser Seth, e ele não deixará de ser o sumo sacerdote do clã que me tem como seu salvador, assim como não deixará de classificar nossa união como profana... Shaka me foi dedicado desde seu abraço. Eu dormi por tantos anos naquela caverna no meio do nada porque era ele quem teria de me despertar. Shaka não me despertou apenas para o novo mundo, mas para o amor, aquele que completa a alma, e para o desejo! Ele sobreviveu à minha maldição. O destino uniu nossas almas e nem o tempo foi capaz de impedir nosso encontro. Então por que? Por que ele não entende e simplesmente não aceita? Por meu pai, Rá, minha mãe, Aset, e todos meus ancestrais, por que Shaka me rejeita?

— Eu não o rejeito.

A voz grave e dita em tom muito baixo veio da entrada do cômodo.

Imediatamente tanto Afrodite quanto Mu voltaram suas atenções para a porta e viram a figura altiva de Shaka parada, apoiada no batente de madeira. Vestia um roupão negro de seda, estava livre da imundice que cobria seu corpo, mas não das dores fortíssimas que os diversos ferimentos ainda lhe causavam o fazendo contorcer o rosto.

— Shaka! — Seth murmurou ao ver o sacerdote ali, surpreso e aflito.

— Nem que me fosse ordenado pelo próprio criador eu seria capaz de tal feito. Nem que me tornasse um carniçal sem vontade própria e esperança alguma. Nem que eu mesmo me obrigasse para cumprir o juramente que dediquei aos Seguidores... Jamais conseguiria rejeitá-lo. — o sacerdote confessou sem pestanejar — Afrodite, saia, por favor. Vá para seu quarto.

Deu a ordem ao servo com os olhos ainda fixos aos do Nut.

Notas finais
Ainda Bem que Camus estava ali pra dar um sacode do juízo do Shaka né não? Mu está arrasado, adorei escrever com a Ju a conversa dele com Dite *-* Essa conversa entre Seth e Shaka vai finalmente decidir as coisas entre eles e como será a relação dos dois daqui par frente. ps: A pele azul do Shaka foi uma consequência do desejo do Mu, ele achava Shaka lindo com a tinta azul, quando fizeram a troca sanguínea de forma inconsciente Mu induziu a essa mudança. não se esqueçam, se tiverem alguma duvida comente que a gente explica.